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Os centros de dia podem reabrir a partir do dia 5 de abril. É uma das novidades do plano de desconfinamento do governo. Este decreto, este esclarecimento, foi publicado ontem à noite em Diário da República. O Ricardo Pocinho é presidente da Associação Nacional de Gerontologia Social. Pergunto-lhe: os centros de dia estão preparados para reabrir nesta data?

Olá, muito bom dia. Por certo que estão preparados. Os centros de saúde, os centros de dia, têm-se vindo a preparar há cerca de um ano, porque têm estado encerrados e muito motivados para a sua abertura, com o ajuste necessário para que isso aconteça. Mas, por outro lado, mais do que os centros de dia estarem preparados para a sua abertura, lembrar sempre que os centros de dia são apenas estruturas físicas que recebem pessoas. É importante que preparemos as pessoas para esta reabertura. E daí termos alertado, há cerca de duas semanas, a importância também de vacinar estes utentes e de incluir estes utentes no plano de vacinação logo na primeira fase.

Eu ia perguntar mesmo isso. Esse pedido foi feito em meio de fevereiro, se não estou em erro.

Foi feito no dia 14 de fevereiro, ao senhor Presidente da República.

Exato. Como é que está esse processo? Os profissionais dos centros de dia já começaram a ser vacinados contra a Covid-19?

Não lhe posso precisar que tenham começado a ser vacinados. Tenho por certo que no início da passada semana foi diligenciado no sentido de pedir a estas estruturas a lista de funcionários a incluir. É preciso ter por conta que os utentes destas estruturas e deste tipo de resposta estão a ser vacinados de acordo com o plano da comunidade. Portanto, não estão a ser distinguidos como utentes desta resposta, estão antes a ser vacinados por terem mais de 80 anos ou terem alguma das patologias que está inscrita no plano de vacinação. E, portanto, é preciso assegurar, por um lado, que ninguém fica para trás e que a abertura dos centros de dia ocorra. A ANJES nunca defendeu a abertura dos centros de dia sem que houvesse condições para o fazer. E a condição para o fazer, que já havia de estar acautelada, é estes utentes terem sido incluídos na mesma fase que foram os habitantes das estruturas residenciais para pessoas idosas. Agora que tenhamos capacidade de perceber que devem abrir a 5 de abril aqueles que tiverem utentes e funcionários vacinados.

Muito bem.

Foi isso que sempre defendemos.

E qual o universo de pessoas a vacinar, tanto de profissionais dos centros de dia como dos utentes? Há números exatos?

Eu, pelo menos, não os tenho. Não tenho números exatos. Aliás, o país vive com essa dificuldade de ter números claros e exatos. À ANJES não caberia trabalho por uma vontade que podia ser nossa, mas não nos cabe trabalho de contabilizar nas outras estruturas que representam o setor, até nas confederações, porque são duas. É muito difícil termos aqui uma noção clara de quantos são, mas serão sempre na ordem dos milhares. Portanto, é a população alargada.

Portanto, garante que estão reunidas as condições de segurança e todas as condições para a reabertura destes espaços. Pergunto-lhe: qual a importância, precisamente, da reabertura dos centros de dia, numa altura em que também o país começa a reabrir?

É importante e é preciso ter por conta, de uma vez por todas, que Portugal é um país envelhecido. E um país envelhecido tem que ter respostas políticas para o envelhecimento, que não tem. É preciso pensar que estruturas residenciais para pessoas idosas, os centros de dia, os serviços de apoio domiciliário, prestam ao contrário do que muitos julgam, um serviço diferente e que não se pode, muitas das vezes, pensar que toca apenas na higienização e na alimentação. Cuidar de idosos é muito mais que isso e os nossos trabalhadores das organizações sociais têm feito isso de forma exemplar. A abertura dos centros de dia vai permitir o regresso do estímulo cognitivo, o progresso da atividade de animação, da socialização que tanto tem faltado, tenho por certo, e há estudos já a enunciar isso e outros haverão, que aumentou a sintomatologia de percepção ansiogênica, o sentimento de solidão destas pessoas que estão há um ano em casa e que foram privadas daquilo que era o seu meio normal diário. Mas, por outro lado, também aquilo que é o preceito da mobilidade e da funcionalidade, também nestas estruturas é praticado. Os centros de dia são uma resposta extraordinariamente importante e que, de resto, deve ser enunciada como a mais importante resposta em Portugal. Nós devíamos cada vez mais promover os centros de dia, antecipar a ida das pessoas para os centros de dia e, de alguma forma, retardar a sua entrada nas estruturas residenciais para pessoas idosas, sobretudo no estado em que hoje entram, com pouca mobilidade, com pouca autonomia, exatamente, ou muitas das vezes, pelo facto de estarem até mais tarde do que deviam na sua casa.

Foi esse o principal impacto do fecho dos centros de dia, a diminuição da mobilidade, da autonomia dos utentes, das próprias capacidades cognitivas, como me acaba de descrever?

Eu diria que tudo começa no sentimento de solidão e depois no sentimento da não compreensão. Nós temos que perceber que os idosos que hoje nós temos em Portugal são os adultos que nos permitiram hoje ter a liberdade que temos. São as pessoas que nos anos 70 tiveram um processo de emigração e tiveram que sair do país para condições de vida melhor. São os utentes, hoje sem as respostas, que, não percebendo porquê, foram enviados para as colônias ultramarinas lutar. E, portanto, já passaram por tanta coisa que não entendem por que é que têm que passar por mais esta, porque também não lhes é explicado muito bem por que têm que ficar fora do plano de vacinação, por que é que têm que estar em casa. No fundo, não entendem, inclusivamente, a razoabilidade entre estar a proteger a vida e, de outra forma, a torná-la tão infeliz. Naturalmente, o encerramento dos centros de dia era necessário e defendemo-lo, mas a reabertura, ainda bem que agora enunciado ontem à noite, está prevista para dia 5. Mas do ponto de vista daquilo que são as responsabilidades dos profissionais e dos dirigentes destas instituições, tudo está preparado. Falta agora que, efetivamente, neste hiato de tempo, possa ser administrado ao maior número possível de pessoas a primeira toma da vacina para quem ainda não foi vacinado, funcionários e utentes, e logo a segunda, assim que seja possível, com o intervalo mínimo e não com o intervalo máximo, que tem vindo a dilatar nos últimos tempos para hoje cerca de 30 dias de intervalo entre tomas. E, portanto, que seja aqui tida em conta a importância da reabertura também destas estruturas, porque neste período de desconfinamento e com até as pessoas a voltarem a trabalho presencial, poderá haver aqui algumas dificuldades de conciliação de vidas familiares, quando aqueles que hoje tomam conta dos seus familiares têm que regressar ao trabalho e têm que os deixar em casa.