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O vice-almirante Gouveia e Melo disse que a terceira dose da vacina contra a Covid-19 será para 100 mil pessoas, a partir daí, e que deve ser administrada nos centros de saúde. Nuno Jacinto é presidente da Associação de Médicos de Medicina Geral e Familiar. Começo por perguntar-lhe se essa passagem dos centros de vacinação vai ser uma operação simples ou se coloca em causa o acompanhamento dos doentes não Covid.
Os centros de saúde estão em grande sobrecarga desde o início desta pandemia e a vacinação foi mais uma tarefa que nos colocou em grande esforço. Neste momento, nós, a nível dos centros de saúde e com os profissionais do centro de saúde, já vacinamos milhões de pessoas nos centros de vacinação. Se efetivamente já não existirem centros de vacinação e for transferida esta tarefa para as unidades de saúde, estamos a falar de 100 mil pessoas, é um número muito menor, mais distribuído, e sendo algo que obviamente vai colocar sempre alguma pressão nos centros de saúde, será uma tarefa um pouco mais fácil de executar e que exige também menos recursos do que a atual dos centros de vacinação. No entanto, importa perceber como é que tal vai ser feito, quando é que vai ser feito, se efetivamente nessa altura já não temos pessoal nos centros de vacinação massiva, e portanto, já temos todos os nossos médicos e enfermeiros nos centros de saúde, ou se efetivamente é mais uma dispersão de recursos que nos obriga ainda a colocar mais em causa a atividade assistencial. Portanto, aguardamos para perceber quando é que tal acontecerá, como é que acontecerá e se vai ser feito ou não em simultâneo com os atuais centros de vacinação.
E considera precipitada esta decisão de fechar os centros de vacinação massiva e transitar a vacinação para os centros de saúde nesta altura?
Essa não é bem uma decisão que caiba aos médicos de família. O que nós sempre dissemos é que a vacinação pandémica, esta vacinação contra a Covid-19, nunca deveria ter ficado praticamente exclusivo a cargo dos centros de saúde, dos médicos e dos enfermeiros de família. Infelizmente, foi o que se verificou ao longo de todos estes meses. Foram os profissionais dos cuidados de saúde primários que estiveram a vacinar todos estes milhões de portugueses e que nos permitiram chegar aos números que temos hoje em dia. A grande questão aqui não é saber se é precipitado ou não, é perceber então se efetivamente já temos a população praticamente toda vacinada e quando. E se quando isso acontecer, se efetivamente vai haver lugar a uma terceira dose de vacina, em que circunstâncias, para quem, e todas essas indicações têm que estar perfeitamente claras. A vacinação nos centros de saúde sempre aconteceu. Aconteceu a vacinação da gripe, acontece a vacinação das crianças nos primeiros anos de vida, acontece a vacinação de adultos quando tal tem indicação. Nunca tivemos foi este ritmo de vacinação, nunca tivemos necessidade de inocular tantas pessoas e efetivamente isto foi uma tarefa hercúlea que os centros de saúde tiveram que desempenhar praticamente sozinhos. Portanto, agora é mais alguma coisa que temos que fazer, é mais uma tarefa que temos e que teremos a nosso cargo. Importa perceber em que condições é que estará a ser realizada, sempre com a certeza de que tudo o que seja colocado nos centros de saúde deve ser discutido com quem está no terreno, com os profissionais que estão a trabalhar, para que possa ser articulado da melhor forma e possa assim comprometer o menos possível a atividade assistencial, incluindo aos doentes não Covid.
E admite que essa transição, se deixar muita carga para os centros de saúde, pode vir então a colocar em causa esse acompanhamento dos doentes não Covid?
A questão é que já neste momento a carga já está do lado dos centros de saúde. Portanto, aqui nem sequer estamos a falar de um acrescento de trabalho, estamos a falar de uma continuação de trabalho, de uma continuação de trabalho muito grande, de uma sobrecarga enorme que tem existido. E, portanto, esse colocar em causa a atividade assistencial existe já há muitos meses. Os profissionais dos centros de saúde, sobretudo aqui, neste caso, os médicos e os enfermeiros, não podem estar em dois sítios ao mesmo tempo. E, portanto, temos que ser claros. Se estão a vacinar utentes contra a Covid-19, não estão a fazer outras tarefas, não estão a acompanhar crianças, grávidas, a fazer rastreios, a ver diabéticos, a ver hipertensos. E, portanto, o que interessa aqui é perceber que esta tarefa foi colocada em cima dos profissionais do centro de saúde. Eles, como sempre, responderam de uma forma absolutamente fabulosa e conseguiram cumprir mais este objetivo que lhes foi colocado, mas temos que ser muito francos. Não conseguimos dar resposta a tudo ao mesmo tempo e, portanto, continuando com esta tarefa a nosso cargo, seja a terceira dose, seja ainda a continuação da vacinação nos centros de vacinação, obviamente que não conseguimos fazer todas as outras atividades em simultâneo e é impossível retomar a atividade assistencial nos moldes que todos pretenderíamos, quer profissionais, quer utentes.
E para retomar essa atividade a 100%, qual é que era a sugestão que daria para continuar a vacinar as pessoas?
O que nós dissemos sempre foi que deveriam haver equipes específicas para esta vacinação, quer com médicos, quer com enfermeiros. Devia haver a colaboração nesta tarefa de profissionais de outras instituições. Falamos sempre dos profissionais dos hospitais, dos profissionais de instituições privadas. Continuamos sem perceber porque é que ao longo de meses, estes milhões de pessoas e estas milhões de doses que foram inoculadas tiveram que ser sempre feitas pelos profissionais dos centros de saúde e não houve a colaboração, na maioria dos casos, pontualmente poderá ter havido alguma exceção, de outros profissionais. Termos toda esta tarefa a cargo dos profissionais dos centros de saúde foi algo que nós sempre dissemos que iria ter um impacto brutal na nossa atividade assistencial, porque nós trabalhamos em equipe e, portanto, termos vários enfermeiros de cada unidade nos centros de vacinação e não nas suas unidades. Termos médicos alocados a esta tarefa, termos muitas vezes administrativos também nos centros de vacinação, obviamente que tem impacto naquilo que são as consultas, naquilo que é o dia a dia de um centro de saúde, de uma unidade de saúde familiar ou de uma unidade de cuidados de saúde personalizados. E por isso, esta realidade já vem de há muitos meses. Não é algo que esteja a acontecer de novo, é algo para o qual nós temos vindo a alertar e sempre dissemos que tinham que ser criadas equipes específicas, não só para esta vacinação, mas para todas as outras tarefas relacionadas com a pandemia. Estamos nisto há mais de um ano Efetivamente, os profissionais dos cuidados de saúde primários continuam de tarefa em tarefa, sempre a responder à pandemia, mas com muita dificuldade em responder ao resto, porque não nos deixam fazê-lo e continuam a colocar em cima de nós tarefas que poderiam ser desempenhadas por outros, nalguns casos.
Antes de terminar, queria perguntar-lhe qual é a situação, qual é o ponto em que estamos em relação à atividade não-covid. Há pouco disse que estávamos sobrecarregados. Qual é o ponto de situação que faz neste momento?
Os centros de saúde nunca pararam a sua atividade não-covid e tentaram sempre, dentro do possível, dentro daquilo que eram as suas limitações em cada momento, responder aos utentes que os procuravam. Obviamente que não no ritmo a que faziam antes, porque isso não era de todo exequível. A questão aqui é muito simples: quando há mais casos e mais utentes para seguir, são os centros de saúde que seguem a esmagadora maioria dos casos de covid-19 ou suspeitos. Todos os casos que não precisam de atendimento ou de internamento hospitalar, somos nós que seguimos. E, portanto, sempre que há mais casos, é mais tempo despendido a seguir esses utentes e esses doentes com covid-19. Quando temos mais casos, temos mais doentes nas áreas dedicadas a doentes respiratórios para serem observados. Temos esta questão da vacinação e, portanto, observa-se uma retoma da atividade assistencial parcial. Nós vamos tentando, no tempo que nos sobra, todas essas atividades, ver os nossos doentes, ver os nossos grupos de risco, ver os nossos grupos vulneráveis. Mas o que todos sentimos é que estamos cada vez mais cansados, é cada vez mais difícil dar resposta a tudo isto, também por esta exaustão, mas também porque são muitas tarefas em simultâneo, que se torna muito complicado trabalhar em equipas onde há vários profissionais que não estão presentes naquele momento nas unidades. E apesar de estarmos a tentar retomar o mais possível essa atividade e de estarmos a fazer e de termos encontrado outras formas de contacto com os utentes, o que sabemos é que precisamos de mais condições e precisamos que finalmente consigamos tratar todos os doentes e tratar todos os doentes inclui quer os doentes covid, como é óbvio, mas também os doentes não-covid. E isso ainda não aconteceu. Esperamos que em breve possamos voltar a ter a capacidade de trabalhar para todos estes utentes que nos procuram e que merecem os nossos cuidados.