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A gastronomia é uma marca importantíssima da cultura portuguesa, mas nem sempre é fácil encontrar um bom bacalhau, um bitoque, um bom pastel de nata e, por vezes, até um café expresso é difícil de encontrar no estrangeiro. Nos Estados Unidos da América, David Rodrigues tenta resolver todos estes problemas. É filho de imigrantes, nasceu e foi criado em New Jersey. Entretanto, David mudou-se para a Flórida e a ausência de muitos produtos portugueses fez aumentar a saudade dos sabores de Portugal. Ao longo de anos, foi recolhendo formas de adquirir produtos típicos e sempre que conseguia encontrar portugalidade, cozinhava e mostrava o resultado final nas redes sociais. Durante o confinamento, na pandemia, começou a gravar vídeos para a internet, mas sem grande sucesso. Até que uma bifana mudou-lhe a vida.

What's up, pork chops? Bom dia. Today I'm bringing you guys a bifana on pão rústico. And I know we're usually using a popsicle or carcaça, but you gotta switch it up every once in a while. Get some thinly sliced pork loins, use those built-in Portuguese construction worker skills and hammer them even thinner.

Tornou-se viral e aí decidiu criar o projeto How To Cook Stuff. Hoje conta com mais de 315 mil seguidores em todas as plataformas e David assumiu mesmo o papel de embaixador da cozinha portuguesa. Ensina a nova geração de luso-americanos e o público norte-americano a cozinhar pratos típicos num estilo prático, paciente e em inglês. Ao Observador, David conta que Portugal está na moda na América. Garante que hoje já consegue ter um frigorífico puramente português na Flórida, mesmo que para isso até tenha de fazer o próprio queijo fresco em casa. Numa entrevista em Houston, David fala da seleção nacional e confessa que não podia perder a oportunidade histórica de ver os heróis a jogarem em solo americano. É uma conversa sobre futebol, culinária e a vida de um luso-americano que nasceu na América, mas que nunca largou Portugal.

Eu ensino as pessoas a fazer comida portuguesa no estilo americano, em inglês, e para a geração de luso-americanos segurarem a cultura e perceberem as receitas num estilo que é mais confortável para eles.

David, conta-nos como é que tudo isto começou. Ainda antes deste projeto, como é que começa esta ligação aos Estados Unidos? Foste tu que emigraste, filho de imigrantes, como é que começa esta ligação?

Sou filho de imigrantes, os meus pais emigraram cá com a minha irmã. Ela nasceu em Lisboa, os meus pais também em Lisboa, eu nasci cá. E fui criado em New Jersey, que é uma área que tem muitos imigrantes portugueses. E quando eu me mudei para a Flórida, fiquei com falta de comida portuguesa lá, porque não havia essa cultura lá e tive que aprender a fazer os nossos pratos e foi isso que começou a crescer. E quando tivemos a pandemia, estive em casa, comecei a fazer vídeos e criei esta coisa que é o How To Cook Stuff, eu sou um tipo de embaixador da comida portuguesa para os americanos ou luso-americanos.

E nesta altura, vamos a números. Estamos com quantos seguidores nas diferentes plataformas?

Em total, estou a 315, 320 mil. O mais grande é o Instagram, 130 mil. E segue a crescer e eu espero que vai crescer mais e mais. É um bocadinho difícil às vezes de acreditar, mas eu sempre digo em inglês: "I'm riding the wave".

Mas para além das redes sociais, das tuas páginas, já começas a ter também interesse dos norte-americanos, participações em programas de televisão. Como é que isso acontece e o que achas dessa experiência? Como é que é viver isso também? O que os americanos procuram quando tentam falar contigo sobre esta tua atividade de cozinhar e ensinar pratos portugueses?

Eu acho que Portugal está na moda e toda a gente quer saber de Portugal, quer saber da nossa cultura, a nossa comida. Tudo o que é Portugal é fixe agora aqui nos Estados Unidos e eu acho que entrei num tempo muito bom, porque as pessoas querem aprender e eu estou aqui para ajudar.

Mas por que achas que é moda agora Portugal?

Eu acho que era o nosso segredo antes e ninguém sabia. E agora que depois da pandemia, muita gente está a viajar mais e encontraram Portugal, um diz ao outro, e Portugal está na moda.

Mas é o turismo? São os americanos que emigram para Portugal para passar a reforma? O que te parece?

Eu acho que é os dois. O turismo está a explodir e muitos americanos vão para lá para reformar. Quando eu digo Portugal, eu sempre ouço: "Eu ouvi que isso é um país bom para reformar". Mas eu acho que está na moda em todos os aspectos, seja turismo ou viver lá, ou emigrar lá, ou reformar lá. Everybody wants a piece of Portugal right now.

Ainda assim, é comum encontrarmos nas redes sociais vídeos em que se pergunta a norte-americanos onde é que ficam alguns países no mapa. Se perguntarem aos norte-americanos onde fica Portugal, achas que já sabem dizer?

É interessante, porque quando eu cheguei à Flórida há três anos, eu lembro uma pessoa perguntou-me de onde é que é a tua família, eu disse Portugal, e eles responderam: "Ai, onde é que é isso em América do Sul?" Eu olhei para eles e eles não sabiam onde é que isso é, mas agora Por causa do Ronaldo e diferentes coisas, toda a gente sabe onde é Portugal. Tu andas na rua, fora da Copa do Mundo ou mundial, e vês miúdos com a camisa de Portugal que não são portugueses. Asiáticos ou indianos, seja o que for, vês camisas de Portugal. Quando eu era pequeno, sendo criado cá, eu nunca imaginava que Portugal ia ser uma coisa que toda a gente queria representar, mas hoje em dia vê-se muito.

Achas que as redes sociais contribuem para isso?

Sim, claro. Eu acho que é muito fácil de aprender de culturas ou de países. Eu sempre digo que Portugal é como um fairytale e quando pessoas veem vídeos de Portugal, é mágico.

Percebi, filho de imigrantes. Costumas ir a Portugal? Qual é a ligação? Quantas vezes vais a Portugal?

Eu vou para Portugal a cada dois anos. Vou agora em setembro. A minha família é de Lisboa, estou sempre em Lisboa, Cascais, essa área. No mínimo, a cada dois anos estou lá. E sempre fui, desde pequeno.

Então vamos falar destes projetos. Como é que começou esta paixão pela cozinha? Quando é que começaste a cozinhar? E estando nos Estados Unidos, quando é que começaste a cozinhar comida portuguesa?

Sim. Quando eu era pequeno, eu fazia de conta que eu tinha um programa de cozinhar. Há um chef que se chama Emeril Lagasse, não sei se conhece, ele é americano, mas também é português, ou tem raízes portuguesas. Eu sempre via o programa dele e fazia de conta que eu era ele. E quando chegou essa ideia de fazer vídeos, a princípio, não era comida portuguesa. Eu lançava vídeos, depois várias coisas, e um dia eu meti uma bifana e explodiu, foi viral.

Uma bifana, portanto o primeiro vídeo viral foi de uma bifana?

Sim, claro. Uma bifana foi o primeiro vídeo que foi grande. E eu comecei a pensar, eu acho que eu tenho aqui uma oportunidade para apresentar comida portuguesa, porque não há ninguém a fazer em inglês, estilo americano. E eu acho que precisávamos disso. Porque comida portuguesa é uma coisa que muita gente pensa que é muito difícil ou que leva muito trabalho, e leva, mas explicado com calma, com paciência, em inglês, as pessoas querem tentar, querem aprender e não havia isso. E eu pensei nesse tempo que era: "I'm the guy to do this".

Portanto, o primeiro prato viral foi uma bifana. E depois, o que é que se seguiu? O que é que levanta mais interesse? É o bacalhau? É o cozido? Pratos com enchidos? Quais é que são os pratos que se tornaram mais virais desde que começaste este trabalho nas redes sociais?

É sempre os mais tradicionais. Estou a pensar dos meus mais grandes agora, é chouriço assado no porquinho, é sempre uma coisa que os americanos não conhecem e quando veem, é um espetáculo. Os pastéis de nata, bacalhau, sempre. Bitoque, os americanos também gostam de ver o bitoque, porque para eles é interessante ver um ovo num bife. Mas sim, esses pratos mais tradicionais, as pessoas gostam porque eu explico num estilo que eles vão querer tentar fazer em casa. Não é ver um vídeo e deixar lá, eles vão ver o vídeo e vão tentar fazer em casa.

Sabemos que as redes sociais, muitas vezes, vemos os vídeos de culinária e pensamos: "Vamos fazer isto um dia", e muitas vezes acabamos por nunca fazer. Mas é possível efetivamente fazer um prato português nos Estados Unidos? Como é que se arranjam os ingredientes?

É difícil. Mas hoje em dia há muitas lojas na internet que mandam para a tua casa. Se precisas de chouriço ou bacalhau, ou queijo, manteiga, tudo que for português.

Lojas nos Estados Unidos?

Sim.

Portanto, lojas que importam de Portugal para cá e depois fazem distribuição nos Estados Unidos.

Exatamente. Pagamos um bocadinho mais, porque claro, está a vir de Portugal, mas o que for preciso, que é português, encontra-se cá. Uma sapateira, até encontra-se cá. Isso é uma coisa que foi difícil há uns anos, mas agora tudo que é português nós conseguimos.

E vem de onde? De que regiões? Portanto, uma sapateira portuguesa vem de onde? Ela vem embalada? Vem com isso identificado? Onde é que são apanhadas?

Eu sei que as sardinhas sempre vêm de Peniche.

Sardinhas também há, frescas?

Sim.

Congelada?

Congelada. Mas eu sempre vejo que vêm de Peniche. A sapateira, eu não me lembro de onde vem, mas vem de Portugal. Mas sim, nós temos supermercados ou lojas que têm essas coisas. Eu sou viciado com Água de Castelo. Eu tenho sempre caixas de Água de Castelo em casa. Tu entras na minha casa, abres o frigorífico e é um frigorífico português. É chouriços e queijos, manteiga portuguesa, é marmelada, é tudo que tu esperavas ver numa cozinha portuguesa, nós temos cá e a minha cozinha é fácil. Há anos não era, mas hoje em dia já é mais fácil.

Mas ainda assim, qual é que foi o mais difícil de arranjar ou qual é que ainda é mais difícil de arranjar?

Queijo fresco. Não encontro em Flórida. Em New Jersey há muito, mas em Flórida não encontro queijo fresco.

Que substituto é que se encontra?

Faço em casa, tenho que fazer em casa. Eu tenho um vídeo que eu mostro às pessoas a fazerem.

Vamos falar aqui um bocadinho da seleção nacional, expectativas para este mundial e sentimento de ter a seleção aqui no país a estagiar, a jogar e a estar perante esta comunidade portuguesa, alguns a viver aqui há muitos anos, alguns como o David, filho de pais portugueses.

Este é o momento Uma vez na vida. Eu tenho mais ou menos a idade do Ronaldo. Eu fui criado a ver o Ronaldo na televisão e pensar que pode ser o último mundial dele. Eu tive que estar cá, não podia estar em casa. Eu tive que ir a um jogo ou dois, ou o que for. Mas é um momento que nós não vamos esquecer, porque isto é história para nós, até luso-americanos, porque uma pessoa como eu ou os portugueses que estão cá, nós não estamos a ver a seleção dos Estados Unidos na televisão. Nós fomos criados a ver a seleção portuguesa, isto é a nossa vida. Eles estarem cá tão perto, todos viajamos cá porque é um momento que não podias perder. You can't miss this.

Confiança para a competição?

Sim, mas também estamos a ver muitos empates esta semana. Mas nós temos uma equipa boa, então tenho confiança, sim.

Queria perceber também se fosse convidado para fazer uma refeição para a seleção, que prato é que fazia?

Eu sei que a preferida do Ronaldo é o bacalhau à Brás, então tinha que claro fazer isso. Mas o meu prato preferido para comer e para fazer é sapateira recheada. Então tinha que ser umas sapateiras recheadas para a equipa e é levezinho. Para mim, quando eu como uma sapateira, isso prova Portugal para mim, a Lisboa, e é uma coisa que eu adoro fazer.

Se Portugal for campeão do mundo, qual é o banquete para festejar?

Cozido à portuguesa.

Cozido é fácil de fazer nos Estados Unidos?

Depende onde vives, mas eu encontro os enchidos todos em Flórida, então para mim sim.

Maravilha, David. Muito obrigado.

Obrigado.