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Estou a entrar em contacto a propósito do facto de fazer parte de um grupo de comerciantes que estão a pensar encerrar portas por causa da Festa do Avante. Tem medo que a realização desta festa possa contribuir para piorar a situação da epidemia nessa zona?

A questão é muito simples: nós não estamos a pensar em fechar, nós vamos mesmo fechar. Eu no dia 13 de agosto coloquei nas redes sociais um desabafo, partindo do princípio que em Portugal há dois mundos. Um primeiro mundo que é Portugal, o Portugal das restrições, a área metropolitana de Lisboa em particular, desde 23 de junho, a partir das 20h não pode haver grupos superiores a 10 pessoas, onde não se podem servir qualquer tipo de bebidas, nomeadamente alcoólicas, a pessoas que não estão a jantar. Quando o primeiro-ministro António Costa disse que não transferia os cafés para os restaurantes, não se pode sentar a beber um café, a comer um gelado, a beber uma garrafa de água. E depois há o mundo Avante. E no mundo Avante não há restrições às 20h. As pessoas podem beber bebidas alcoólicas dentro do espaço durante todo o dia. No mundo Avante não há restrições relativamente ao número de pessoas que podem fazer parte de um grupo, independentemente de serem ou não da mesma família, como nós estamos aqui na área metropolitana restrita em estado de contingência desde o dia 23 de junho. No mundo Avante tudo é permitido e no mundo real, que é aquele em que nós vivemos, tudo é proibido. Há meses que bares, discotecas, eventos, casamentos, batizados, funerais, aniversários, festas de crianças, tudo está proibido. Há pessoas que há meses não conseguem comer porque não têm dinheiro para o fazer, porque não trabalham e ninguém os está a apoiar. E é nesse mundo que eu vivo, no mundo português, com todas as restrições, no mundo em que eu tenho que ser diariamente fiscal de saúde, agente municipal, agente da polícia, o mundo que não me deixa sentar 12 pessoas numa mesa, só podem ser 10. O mundo em que eu tenho que negar cafés sentados na esplanada a partir das 8 horas da noite, o mundo em que os outros passam mal e o mundo do Avante. E a minha primeira reflexão foi esta: dois mundos diferentes num Portugal que se quer democrático e com igualdade.

É uma decisão que é tomada tendo em conta esta diferença de regras ou também porque estão preocupados com uma possibilidade de haver um contágio também devido à concentração de pessoas que vai acontecer?

No seguimento deste raciocínio que eu lhe estava a explanar, há outra questão fundamental que é a saúde pública. O concelho do Seixal tem 180 mil habitantes, grosso modo. E em três dias, só nas freguesias de Amora, na área onde nós estamos situados, e nas áreas adjacentes à Quinta da Atalaia, vão passar 100 mil pessoas. É mais de metade da população toda do concelho do Seixal concentrada num único dia. Olha a probabilidade estatística de qualquer um de nós, que somos só família, ou qualquer um dos clientes habituais, ficar contaminado. E essa probabilidade estatística é exponencial, tendo em conta que vêm pessoas de todo o país e, neste momento, o número de casos são surtos com pessoas assintomáticas. Portanto, as pessoas não têm escrito na testa que estão com Covid, nem sabem que estão com Covid, nem sequer estão doentes, mas a realidade é que podem transportar o vírus. E quando, na primeira reflexão e nesta segunda de saúde pública, pensámos que se já fechámos durante o confinamento dois meses e tal, que diferença faz fechar três dias? Eu prefiro fechar três dias agora, assumindo o risco financeiro e assumindo esta posição, do que fechar três semanas, caso alguém apareça afetado ou fique gravemente doente, o que pode vir a acontecer. E portanto, nesta perspectiva de saúde pública, é obviamente impensável que possamos abrir. Isto foi uma iniciativa minha, particular, ingénua e inofensiva, mas que teve, logo no dia em que apostei, dia 13 de agosto, e o apelo que fiz, "façam como eu", muita gente interessada. E neste momento a lista engrossou e toda a bandeira é: prefiro fechar três dias do que fechar três semanas.

Estamos a falar de quantos estabelecimentos agora que já estão comprometidos?

Neste momento ultrapassa as quatro dezenas já.

Não apenas restauração, estamos a falar de várias áreas.

Sim, desde minimercados, papelarias, esteticistas, cabeleireiros, stands de automóveis, engrafarias, hamburgarias, tudo o que possa imaginar que está nas áreas circundantes e adjacentes ao local por onde vai passar um grupo de 100 mil pessoas em três dias. Porque é um grupo de 100 mil pessoas em três dias. Todos esses decidiram de facto encerrar. Porque nesta zona a realidade é que vivemos o Avante, todos nós vivemos o Avante, mas convém dizer que nós gostamos do Avante. Nós gostamos das pessoas que vêm do Avante, temos o maior apreço pelo Avante e por toda a gente que visita o Seixal, Amora e Almada. Temos todo o apreço, mas nesta altura de pandemia, nesta altura restritiva, não podemos colocar-nos a nós em risco e colocar em risco As pessoas que nos visitam diariamente.

Falando dessa ligação com o Avant, estamos a falar de comerciantes que estão habituados a receber milhares de pessoas todos os anos também nesta data. Fechando três dias, antevê um grande prejuízo para o restaurante onde trabalha, tendo em conta que imagino que são dias de grande procura para os espaços que estão adjacentes à Quinta da Atalaia?

Exatamente, todos os espaços, quer na entrada da Quinta da Atalaia, quer na zona onde eu me encontro, que é na outra entrada, são zonas muito procuradas. Eu posso-lhe dizer, por exemplo, que todos os anos coloco no exterior da esplanada um bar improvisado com comidas rápidas, com águas, com sumos, com gelados, com imperial. E este ano, obviamente, não o vou fazer, porque não faz o mínimo sentido que isso aconteça. Eu estou ciente e nós estamos todos cientes, aqueles que já estão na lista de 40 e tal comerciantes, todos microempresários. Nós aqui não podemos falar de grandes empresas, nem de médias empresas, nem de pequenas empresas. Estamos a falar de comércio familiar, o conceito de comércio familiar, em que são as famílias que trabalham sete dias por semana para manter os seus próprios postos de trabalho e que não pedem subsídios a ninguém, que se aguentam, que não vão buscar lay-offs, que não vão buscar dinheiros ao Estado. Aguentam-se. E nós sabemos que vamos ter prejuízo. Mas qual é o maior prejuízo? É um prejuízo de três dias, é um prejuízo de três semanas ou é um prejuízo de todos nós ficarmos doentes? E é nesse prato da balança que nós temos de equacionar e tentar, de alguma forma, minimizar o risco, mitigar. Palavras que estão em voga na boca de António Costa, na boca de Graça Freitas. Também nós temos que mitigar, minimizar o risco. Temos que perspetivar a nossa vida para além do Avant. É muito mais importante a nossa vida a partir do dia 7 de setembro do que a nossa vida profissional nos dias 4, 5 e 6 de setembro. Portanto, a partir de segunda-feira, a nossa vida vai continuar, o Avant terminou e espero que todos nós estejamos de novo nos nossos postos de trabalho habituais, com a mesma saúde com que saímos na quinta-feira à noite para fecharmos o fim de semana da Festa do Avant.

Fazer-lhe só uma última questão. Obviamente, estamos a falar de um evento que foi autorizado pela própria Direção-Geral de Saúde. A primeira decisão que teve foi logo de fechar ou ainda pensou em poder falar com os delegados de saúde para tentar perceber se havia alguma forma de continuar a atividade, mas com algum tipo de medidas extraordinárias ou tentar planear algum plano para poder estar aberto durante este período em segurança, ou a decisão foi mesmo de fechar logo, foi a primeira decisão que teve, sabendo da realização desta festa?

No dia 13 de agosto foi anunciado o cancelamento da festa L'Humanité, em França, a irmã gémea do Festival do Avant. E nesse mesmo dia foi questionado se a festa do Avant em Portugal avançaria ou não avançaria. Todas as indicações dadas no dia 13 de agosto foram de que a festa do Avant avançaria. E nessa medida, de imediato, ponderámos e decidimos fechar. Sem colocar em questão todas as outras vertentes. Eventualmente, podíamos ter falado com o delegado de saúde, mas tudo isso não vai modificar o caso. E a questão central, que é: há 100 mil novas pessoas que vão passar na Amora, na freguesia da Amora, no Conselho do Seixal, em três dias, que é mais de metade do que a população inteira do Conselho do Seixal. E a partir desse momento, tendo em conta as próprias notícias que têm vindo a público, de que a maioria dos casos são assintomáticos, não faz qualquer tipo de sentido colocar todos nós em risco e colocar em risco as pessoas que estão aqui conosco. E toda a área envolvente ao Avant é uma área onde não há lugar para estacionar, onde há gente sentada nas portas, onde há pessoas em grupos, e muito bem, nós gostamos desse movimento. A verdade é que estamos num ano diferente, numa época diferente, com regras diferentes e, como tal, temos que nos autoproteger. E, neste caso, vamos criar um distanciamento social total. Não vamos criar distanciamentos sociais como temos na nossa casa, de dois metros entre mesas, na esplanada, em todo lado. Não vamos criar restrições a grupos superiores a 10 pessoas. Não. Vamos criar um distanciamento total de todo este mundo, todo este país dentro do país, que é a Festa do Avant, fechando sexta, sábado e domingo.