Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Investigadores da Faculdade de Medicina do Porto estão a estudar a implementação de uma ferramenta baseada em medicina personalizada, rápida e de baixo custo para prever a evolução da infecção por Covid-19 nos pacientes. Junta-se a esta emissão João Tiago Guimarães, da Faculdade de Medicina do Porto. Muito bom dia.

Muito bom dia!

Como é que funciona esta ferramenta de medicina personalizada, rápida e de baixo custo? O que vocês pretendem concretamente fazer e como?

Isto é a aplicação de uma solução que já foi validada noutras situações e para outras doenças, e que é uma solução designada como de utilização de imagem, que é uma opção chamada de fotônica, na medida em que vai detectar estruturas ultramicroscópicas, nanoestruturas, nas amostras de plasma ou de sangue. Ou seja, tem uma amostra líquida.

Da pessoa analisada, não é?

Do doente. E portanto, essas amostras vão ter padrões que são distintos conforme o tipo de estruturas que estão presentes nessas amostras. E depois, esta informação vai ser associada com a evolução do doente, com padrões clínicos, com outra informação laboratorial e a inteligência artificial vai depois construir módulos de associação, formas de associação entre aquilo que é visto, aquilo que é medido, aquilo que é detectado na amostra do doente e a informação que nós coligimos a propósito da evolução da doença, a propósito do tipo de resultado final que se obtém para cada doente.

E esta ferramenta já está disponível ou vai estar disponível dentro de pouco tempo?

Nós candidatamos a uma bolsa da FCT neste concurso que houve agora no princípio do mês de abril. O próprio concurso obriga a que isto tenha alguma brevidade. Nós temos que apresentar resultados num prazo de três meses. Como estamos a utilizar uma ferramenta que já existe, a inovação é essa, é tentar aplicar uma ferramenta que existe para outros fins à situação da Covid-19. A capacidade de saber se vamos ter resultados promissores, resultados que permitam, a prazo, termos alguma ideia sobre aquilo que se pode passar nos diferentes doentes, podermos antecipar, podermos prognosticar, evidentemente que ainda não temos essa informação, ainda não temos coligido essa informação para conseguirmos. Temos que adiantar um impacto, ou um efeito real, concreto, sobre aquilo que nós pretendemos. Nós não pretendemos entrar no diagnóstico. Porque quanto ao diagnóstico, nós temos razoáveis ferramentas, estamos bastante dotados de ferramentas diferentes, mas em relação à evolução e à capacidade de prever a evolução dos diferentes doentes, antecipando, percebendo aquilo que se vai passando, nós estamos bastante menos dotados e usamos as ferramentas que usamos normalmente noutras situações.

Portanto, se bem percebi, o que vão fazer aos doentes é retirar amostras do seu corpo, no caso, sangue e plasma, e tentar detectar um padrão da evolução da doença. É isso, corretamente?

Exatamente.

Pegando na sua última ideia, qual é a estimativa da sua unidade de investigação? Qual é a sua estimativa de um prazo que seja razoável para apresentar conclusões à sociedade?

Nós esperamos, no fim do verão, agosto, setembro, ter resultados que possam ser apresentados e definitivamente permitirem chegar a uma conclusão. Nós temos um prazo relativamente curto para testar esta ideia e perceber se este modelo funciona e nos dá essa informação que nós antecipamos que possa acontecer e, portanto, meados de agosto, meados de setembro, nesse período, nós devemos ter os resultados preliminares que permitam perceber se isto, de facto, vale a pena, se isto, de facto, é uma abertura para um tipo de informação distinta daquele que tradicionalmente recolhemos e que nos permite ajudar na decisão clínica, ou se não adianta, não explica.

Mas a vossa expectativa é que esta ferramenta possa ajudar. Vamos imaginar agora uma segunda vaga de Covid-19. Esta ferramenta poderá ajudar nessa altura, fazer uma antevisão do que pode vir a acontecer?

Exatamente. E mais, se nós conseguirmos de facto associar padrões a modelos de evolução da doença, e como sabe, uma das coisas que agora se fala bastante são os tempos demorados para chegar a curas São os doentes que têm testes negativos e depois voltam a positivar e não se sabe muito bem se isso são reinfeções, se são meramente expressões da doença que vai oscilando na forma como o vírus aparece ou se são restos do RNA do vírus que vão ficando nas células e, portanto, o vírus até já não está lá, mas ainda temos restos de células com RNA do vírus. Nós temos aqui ainda muita área de incerteza, sobretudo em relação à forma como vai evoluir. E mesmo em relação àquela questão que se fala tanto da imunidade. Nós não sabemos ainda. Sabemos que as pessoas desenvolvem imunoglobulinas, mas não sabemos se essas imunoglobulinas são capazes, são competentes, são suficientes para impedir a pessoa de voltar a ter outra infecção, para impedir a pessoa de ser um portador e, portanto, apesar de ser assintomático e não desenvolver infecção, poder estar a transportar o vírus e a passar a outros. Nós temos aqui ainda muita área de desconhecimento em relação à evolução da doença. Tudo o que nos permita juntar informação, criar padrões que antecipem o desenvolvimento da doença, que antecipem ações, é sempre potencialmente de grande valor.

A vossa amostra, ou seja, os pacientes com quem vocês estão a trabalhar, estão aí nos hospitais do Porto, é isso?

Sim, eu sou médico no Serviço de Patologia Clínica do Hospital de São João e sou docente na Faculdade de Medicina e o nosso centro, a nossa esfera de atuação centra-se sobretudo no Hospital São João. Nós, neste momento, ainda estamos no processo de aprovação pela comissão de ética do hospital. Ainda não estamos a recrutar doentes para este teste, para este ensaio, mas será no Centro Hospitalar de São João, com os doentes do Centro Hospitalar de São João, que nós iremos centrar a nossa ação.

Quanto tempo irá demorar até começarem a recolher esses dados e ultrapassarem essa fase burocrática?

Eu espero que sejam questão de dias, porque o processo já está a transitar na comissão de ética. Será uma questão de mais uns dias para termos essas autorizações todas e começarmos, de facto, a fazer aquilo que nos propomos no projeto.

E em termos destes doentes, serão doentes que se voluntariam para participar no projeto? Será esse o vosso pedido?

Uma das coisas boas deste projeto é que nós não vamos ter que colher nada ao doente de novo, nós não vamos ter que fazer nenhuma intervenção sobre nenhum dos doentes. O que vamos fazer é utilizar a amostra restante daquilo que nas análises normais, nas análises correntes, os doentes fazem regularmente. Nós não vamos fazer nenhuma colheita para este fim, não vamos ter aqui nenhum tipo de acrescento, se assim quisermos dizer, àquilo que é o normal decorrer do processo assistencial dos doentes. E mais ainda, esta informação vai sendo anonimizada. Nesta fase, nós não vamos estar a seguir nenhum doente em si, nós vamos olhar para amostras que têm determinadas características e associá-las com determinado tipo de resultado. Se assim quisermos, podemos dizer que não vai haver nenhum benefício direto para aqueles doentes cujas amostras nós formos, nesta fase, estudar.

O benefício será depois para o Serviço Nacional de Saúde.

Exatamente. Não seria nesta fase correto, não seria ético nós estarmos com promessas ou perspectivas que não têm capacidade de fundamentação para prometer, para perspectivar algo de benéfico para os doentes.

A partir do momento em que este projeto se concretize na realidade, ou seja, em que vocês consigam mesmo perceber que tem fundamento e que tem uma praticidade em termos de Covid-19, depois como é que será colocado do Serviço Nacional de Saúde, neste caso?

Sim, isso depois tem as suas tramitações, ou seja, comprovado, demonstrado e o percurso normal é publicado, essa informação, esses dados publicados, ou seja, triados pelos pares no ponto de vista da ciência e validados pela publicação em revistas científicas idôneas. Passado esse processo e confirmado que há aqui algum valor, depois há todo um processo de pedido de autorizações para que o teste seja considerado. Numa primeira fase, há autorizações mais sumárias, que permitem que o teste seja introduzido na utilização numa lógica de investigação, numa lógica ainda de não validação tão completa como depois vai sendo exigido à medida que o tempo for passando.

Estando no período em que estamos, esses trâmites poderão ser mais ágeis, mais rápidos, ou têm que manter?

E têm sido. Nós temos tido, por exemplo, no ponto de vista da parte dos medicamentos, ensaios farmacológicos que estão a decorrer com autorizações menos exigentes, atendendo à situação. Com menos exigência não quer dizer que não se esteja a monitorizar na mesma, que não se esteja atento na mesma a tudo. No fundo, são autorizações Transitórias, temporárias, que permitem não demorar os meses habituais da tramitação de um processo, encurtar esses tempos e permitem que haja uma utilização mais imediata, um benefício mais imediato para os doentes. Isso passa-se com os testes de diagnóstico. No início, grande parte dos testes para o diagnóstico, os testes moleculares, começaram a ser utilizados com reagentes que não estavam ainda com todas as validações que normalmente nós exigimos. Entretanto, com o decorrer do processo, essas validações, essas certificações foram aparecendo, seja europeias, seja norte-americanas, seja, no caso em Portugal, através do Infarmed. Tudo isso tem decorrido muito bem e tem sido de uma celeridade que tem que ser dita e louvada.

Muito obrigado a João Tiago Guimarães, médico da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, também professor universitário, ele que está, nesta altura, com a equipa, a estudar a implementação de uma ferramenta baseada em medicina personalizada para prever a evolução da infecção por Covid-19 nos pacientes com esta doença, a Covid-19.