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Tempo para olharmos para um relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, diz que a taxa de mortalidade por Covid-19 é 12 vezes maior em doentes crônicos do que em pacientes sem qualquer patologia. O relatório é baseado em mais de 1 milhão de casos de Covid-19 confirmados em laboratório e relatados à agência norte-americana entre os dias 22 de janeiro e o final de maio. Conosco e para falar sobre este estudo, temos o professor David Carvalho, da Sociedade Portuguesa de Diabetes. Boa tarde, David Carvalho, muito obrigado pela sua disponibilidade. Como é que reage a estes dados, que aparentemente parecem assustadores para quem sofre da doença?
De fato, estes dados vêm confirmar, obviamente, com número maior de doentes, o conhecimento anterior que nós já tínhamos: que os doentes portadores de diabetes, os doentes portadores de hipertensão e doença cardiovascular e também doenças respiratórias, tinham maior frequência de infecção pelo vírus SARS-CoV-2 e acabavam por ter maior mortalidade. Desde o primeiro momento que isso aconteceu, foi reportado por toda a comunicação social. Estes dados vêm confirmar esses dados e vêm chamar a atenção para a importância de os doentes crônicos terem maiores cuidados, nomeadamente na prevenção, terem cuidados na sua proteção. Acho que isso é das noções mais importantes. Nós, felizmente, estamos numa fase de decréscimo da situação, mas não devemos deixar de descurar as medidas de proteção. E de fato os doentes crônicos, até porque também as doenças crônicas são mais frequentes nas pessoas mais idosas, e nós sabemos que as pessoas mais idosas também têm maior mortalidade. Entre as pessoas com 80 anos e as pessoas com 20, 30 anos, a diferença pode ser quatro a cinco vezes a mortalidade. Porque os mais novos, a mortalidade andará à volta dos 2% e às vezes neste grupo dos 80 chega a ser de 18% a 20% a mortalidade. Portanto, tem a ver com as pessoas também já terem outras doenças e tendo outras doenças, complica-se em consequência da infecção, toda a situação se complica.
David Carvalho, olhando para Portugal, temos alguns números que vão ao encontro desta conclusão feita pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos?
Na generalidade, também os dados em Portugal apontam para números relativamente semelhantes, que a mortalidade é muito superior, de fato, nas pessoas mais idosas. Nos doentes diabéticos, de fato, também acontece que as pessoas, primeiro, se estiverem bem compensadas, não têm maior risco de apanharem a infecção por Covid-19. No entanto, se estiverem descompensadas, terem o açúcar alto, isso perturba as defesas do organismo e fazem com que não só tenham mais frequência da infecção, mas como também tenham mais complicações. E as complicações, portanto, terem pneumonia, terem alterações da secreção da insulina, terem alterações cardíacas, terem alterações atingindo diversos órgãos e por isso esta dificuldade. E o mesmo é verdade para todas as outras patologias respiratórias, doentes que já com patologia, tanto que tiveram um enfarte ou que tiveram um AVC, que também se complica. Portanto, os nossos números em Portugal são relativamente semelhantes. Maior frequência nos mais idosos e maior frequência nos doentes que têm outras patologias associadas. Daí a importância e a prevenção, e a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, de que sou o presidente, inclusive criou, juntamente com a Sociedade de Diabetes e com a Sociedade de Medicina Interna, uma linha de informação para os doentes, que esteve a funcionar desde o princípio de abril até agora, o fim de maio. Decidimos acabar agora nos primeiros dias de junho com a linha, porque o movimento diminuiu francamente e procurávamos responder precisamente às dúvidas que suscitavam aos doentes que vinham, muitas vezes devido ao confinamento, a ficarem em casa, faziam menos exercício, comiam um pouco mais e o açúcar descompensava. Era necessário monitorizar, evitar que a diabetes descompensasse e procurar prevenir a infecção que eles pudessem ter.
Era precisamente sobre isso que também queria perguntar. David Carvalho, tendo em conta que a diabetes é uma doença que pode envolver tantos problemas e que implica tantas necessidades para o doente, que relatos é que têm chegado por parte destes doentes? Se têm tido mais ou menos dificuldades durante este período de pandemia e principalmente durante aquela altura do estado de emergência em que as pessoas não podiam sair de casa, se recebeu mais relatos e maiores dificuldades no combate à doença nesta altura.
Sim, de fato, nós tivemos mais de 500 chamadas e nos primeiros dias de abril, realmente o número de chamadas era extremamente elevado. Posso dizer que no domingo de Páscoa, nós tivemos mais de 70 chamadas nesse dia. Foi de fato uma situação em que as pessoas, coincidindo com ter menos contato com o médico de família, também porque os próprios médicos foram redirecionados para prestar apoio diretamente às pessoas que tinham infecção Covid, e os outros doentes também ficaram um pouco preocupados, porque muitos dos doentes ou a maioria dos doentes que nos Nos telefonaram, não eram doentes com infecção, eram doentes perturbados ou preocupados com a sua situação e precisavam de aconselhamento, desde questões de renovação do receituário. Felizmente, houve uma medida que permitiu renovar automaticamente o receituário, mas também problemas relacionados, por exemplo, quando as pessoas tinham dúvidas realmente o que fazer face à descompensação da sua diabetes e nós procurávamos auxiliar, porque às vezes tinham dificuldade em falar com o seu médico, ajustar quer a terapêutica oral, quer a terapêutica insulina, como fazer as pesquisas, tinha muito a ver com isso. Recentemente, também tivemos pedidos, por exemplo, de situações relativamente, agora que começa a haver algumas deslocações, que cuidados é que precisavam ter, autorizações para transporte de insulina durante o controle alfandegário, porque transportavam agulhas, seringas e isso podia ser mal interpretado. E portanto, nalguns dos casos nós conseguimos inclusive proporcionar algumas dessas declarações para facilitar a deslocação, quer no início da pandemia, quer agora nesta fase final em que as coisas já começaram a normalizar. Eu acho que realmente acabou por ser uma situação bastante útil. Por outro lado, as pessoas também às vezes viviam muito isoladamente e precisavam de ouvir uma voz amiga, que lhes desse algum conforto e penso que também acabamos por desempenhar. Nós tínhamos permanentemente seis médicos das sociedades de endocrinologia e também da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e da Sociedade de Diabetologia, portanto, as três sociedades. Foi também o momento em que haviam três sociedades diferentes de pessoas que tratam diabetes, se juntaram para proporcionar este serviço aos doentes e penso que, na generalidade, eu diria que os nossos objetivos com que tínhamos criado a linha foram plenamente atingidos e sentimos, portanto, que fomos úteis e que as pessoas puderam contar com este apoio.
Um apoio importante. Obrigado, professor David Carvalho, da Sociedade Portuguesa de Diabetes, aqui com o relato da situação em Portugal da doença, da diabetes. Isto num dia em que chega este relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, diz que a taxa de mortalidade por Covid-19 é 12 vezes maior em doentes crônicos do que em pacientes sem qualquer patologia.