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Temos também ao telefone a Ana Miguel dos Santos, é advogada e está em directo de Vilnius como especialista convidada a assistir a esta cimeira da NATO. Ana Miguel dos Santos, bom dia e obrigada mais uma vez por se juntar à Rádio Observador nesse ponto privilegiado do mundo neste momento. Com esta questão em particular, se esta cimeira terminar sem uma declaração mais firme e mais inequívoca da futura adesão da Ucrânia à NATO, pode ser uma decepção?

Antes de mais, muito bom dia. Outra vez, novamente, obrigada a todos. Efetivamente, eu não tenho estado a acompanhar o programa, tenho estado aqui a acompanhar efetivamente outras reuniões. Acabou agora mesmo uma conferência de imprensa entre o presidente Zelenskyy e Jens Stoltenberg. Mas realmente há uma grande desilusão.

Há uma grande desilusão. Porquê? Perfeito. Porque Zelenskyy chega a essa cimeira com objetivos muito claros. Percebeu essa desilusão depois da conferência de imprensa?

Percebe-se, e não é só por parte de Zelenskyy. Aliás, ele ontem já tinha ameaçado que não viria participar nesta cimeira caso as suas intenções da manifestação da entrada da Ucrânia na NATO não fosse uma realidade. Mas efetivamente acabou por marcar presença, porque é o que todos têm dito, ainda agora também estivemos com o chefe de gabinete e com todos os elementos, e vários elementos da sociedade civil ucraniana, e nem só, que têm estado aqui a acompanhar esta cimeira. O sentimento de ilusão é enorme. Vi imensas lágrimas, porque até inclusivamente hoje tivemos reunião com Jake Sullivan, o assessor da segurança nacional de Joe Biden, e o constrangimento era enorme, e a sensação que perpassa, inclusivamente, tive a oportunidade eu própria de dizer isto, começa a crescer a ideia de que os Estados Unidos estão a querer alimentar a guerra e não a querer resolver. Aqui nos corredores já começa a perpassar essa ideia, porque aquilo que se estava a pedir era uma liderança forte, uma manifestação de vontade muito forte, sobretudo dos países bálticos, relativamente a Putin, porque todos estão convencidos, bem sabemos que estamos no meio da guerra e que toda a entrada da Aliança Atlântica representaria, no fundo, uma declaração de guerra com a NATO, apesar de Putin estar a repetir isso amiúde, porque ele acaba por se referir sempre não à invasão da Ucrânia, mas que isto é uma guerra contra, efetivamente, a NATO. Já fala no grupo, digamos assim, mas também as opiniões iam no sentido de que Putin só entende a linguagem do poder e da força e efetivamente o que está a passar é uma ideia de fraqueza, de que Biden, os Estados Unidos, em vez de procurarem uma solução diplomática e mais de mostrar a adesão, ou melhor, não é apenas diplomática, é muito mais do que diplomática, mas levar uma manifestação de força, apresentando um calendário mais preciso relativamente à entrada da Ucrânia na NATO, acabou por não acontecer e estão a ser enviadas armas de fragmentação, ou seja, um armamento muito duro, e acaba por passar esta ideia. Interessante ouvir também Ben Wallace e outros países a dizer que já não está em causa, hoje Ben Wallace dizia de manhã, que já não é uma questão do "if", se a Ucrânia vai entrar, é já mais uma questão de "when", quando. Ou seja, já tentou-se, diria eu, utilizando aqui a linguagem, as palavras, a força das palavras, para tentar acalentar as intenções ucranianas e alimentar aqui um pouco da moral ucraniana, porque é muito difícil estarmos a dizer que somos solidários com a Ucrânia e que vamos apoiar e, no fundo, estamos a apoiar para enviar para a morte. Porque é, infelizmente, o destino daqueles combatentes que têm estado na linha da frente desta guerra profundamente injusta. E portanto, o sentimento não é muito positivo.

Está a haver fissuras na união dos países aliados.

Sim. Ontem foi muito marcante. Aliás, eu tive a oportunidade de estar mesmo naquela manifestação que existiu ali em frente ao Museu do KGB, em que Zelenskyy participou com o erguer de uma bandeira vinda de Bakhmut. Um maratonista fez esse percurso e é muito interessante ver esse sentimento, inclusivamente pela Suécia. Poderia ser uma cimeira aqui de alguma celebração, mas efetivamente o assunto Ucrânia não deixa sequer celebrarmos a entrada da Suécia, e efetivamente acaba por estar aqui um ambiente muito tenso. Os ucranianos, no entanto, são muito resilientes e o discurso hoje já era: "Nós não desistiremos". Vão continuar a lutar para garantir que na próxima cimeira em Washington, seja efetivamente a consagração da entrada da Ucrânia como o 33º membro da Aliança Atlântica. E é este o espírito que já está a passar hoje. Mas é muito interessante, eu queria também destacar isto. Ontem o Jake Sullivan evitou o contacto direto e pessoal. Há aqui também algum constrangimento por parte dos americanos em justificar aquilo que é quase injustificável, porque andámos a alimentar esperanças e é preciso mais do que darmos só realmente armamento para continuarmos e alimentar a guerra e não a querer resolvê-la utilizando os mecanismos de que dispomos, e que um deles naturalmente é a NATO.