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Junta-se a nós neste jornal José Manuel Anes, especialista em criminalidade organizada e também o fundador do Observatório de Segurança. Antes de mais, obrigado por esta disponibilidade. Sei que nesta altura está de férias.

Exato.

Olhando para esta detenção, o que significa esta detenção? Há indício de que existem células do Daesh em Portugal?

É provável que existam elementos do Daesh por toda a Europa. Quando muita gente deitou foguetes com a queda do califado no Iraque, sobretudo do Estado Islâmico, Daesh, a verdade é que ele acabou como califado, através do bombardeamento de 52 países. Uma coisa extraordinária. Acabou. Mas a verdade é que ele já tinha e desenvolveu províncias noutras áreas, chamadas vilayas. Em África, Médio Oriente, Ásia Central, Extremo Oriente e também os membros isoladamente foram para outras partes, entre as quais a Europa. É evidente que isto é um risco e é de salientar esta operação da Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ e com a colaboração do SEF. Esta dimensão da investigação criminal do SEF é uma coisa que não pode ser perdida nas novas fases que vai atravessar, mas isto é muito importante. Para já, a primeira lição é que nós devemos continuar a ser solidários e de braços abertos com os migrantes e sobretudo os refugiados. Ora bem, mas ao mesmo tempo, a maior vigilância das polícias e dos serviços de informações. Porque é uma ultra minoria, mas um ou outro pode aparecer por aí, e aparece, certeza. Há um indivíduo que tinha estado em Portugal e depois foi condenado a 30 anos em França. Este é um dos exemplos. Há um caso também de há uns anos, em Itália, em que os migrantes desembarcam e eles próprios denunciam o indivíduo que tinha estado implicado no atentado terrorista no Museu do Bardo em Tunes, na Tunísia. É uma enorme minoria, mas nós temos que ser muito vigilantes, porque bastam um ou dois indivíduos a fazerem um atentado aqui na Europa.

José Manuel Anes, estamos a aproximar-nos do 11 de setembro, que este ano faz um número redondo, 20 anos. Há, por isso, agora uma maior preocupação por parte das autoridades sobre o risco de novos atentados?

É evidente que estes grupos terroristas gostam muito de celebrar datas simbólicas e o 11 de setembro foi, de facto, o maior feito terrorista da Al-Qaeda. Portanto, devemos estar atentos, sem dúvida nenhuma. Neste caso, o Estado Islâmico e a Al-Qaeda são rivais, são quase inimigos mesmo. É o caso, por exemplo, do que se passa agora no Afeganistão, em que o Estado Islâmico quer destabilizar completamente o novo governo da Al-Qaeda. Há uma rivalidade fortíssima, não só ali, como por exemplo, em África e noutras paragens. De qualquer maneira, é muito importante estarmos atentos. Claro que as nossas polícias contra-terroristas e os serviços de informações estão atentos e, portanto, devemos ter confiança. Mas o risco é grande, não digo em Portugal, mas na Europa. Na Europa é, de facto, um risco grande, sem dúvida.

Perguntava-lhe também, indo ao encontro dessa ideia do Afeganistão, há um aumento maior de algumas das células que têm estado que adormecidas, tornarem agora mais ativas com isto que está a acontecer no Afeganistão?

Sim, para já no Afeganistão, a Al-Qaeda que estava moribunda, creio que está a ressuscitar. Mas é evidente, a vanguarda dos atentados cabe ao Estado Islâmico ou Daesh. Em relação aos elementos que estão aí dispersos, sobretudo no caso europeu, a verdade é que eles podem sentir-se entusiasmados ou receber mesmo instruções para realizar um ou outro atentado. Mas isso é um trabalho que as populações têm que estar confiantes na competência dos nossos serviços de informações e das nossas polícias contra-terroristas. Portanto, acho que, e particularmente em Portugal, a situação é melhor. Probabilidade de atentados: zero. Não há. Mas em Portugal, face a outros países da Europa, estamos numa posição muito melhor.

Muito obrigado a José Manuel Anes, especialista em criminalidade organizada e também fundador do Observatório de Segurança, aqui a dar-nos conta e também a ajudar-nos aqui a entender um pouco sobre o que poderá significar esta detenção de dois suspeitos detidos ontem em Lisboa pela Polícia Judiciária, alegadamente ligados à organização terrorista Daesh.