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Antes de olharmos para a questão desportiva, Dias Ferreira, gostava de ouvir também sobre estes acontecimentos de ontem à noite, que de alguma forma acabam por tirar destaque à importância que foi a conquista do título por parte do Sporting.
A coisa muito desagradável é que realmente um filho meu, já homem, mas foi vítima da carga da polícia e tem no seu corpo as marcas das bastonadas e das balas.
Como é que isso aconteceu?
Segundo o que ele relata, e a mim me pareceu, até porque foi numa fase já em que a cabine já estava a subir através da Fontes Pereira de Melo de regresso, e ele estava filmando calmamente, como filmou os acontecimentos, e de repente começaram a bastonada, aliás, como se viu algumas vezes, de uma forma absolutamente desnecessária. Eu ouvi há bocadinho a dizer da reação da polícia. Eu acho que em certas circunstâncias foi uma forma desusada e houve cenas, que eu me lembrei de tempos em que a polícia era outra, mas as vítimas eram as mesmas. Também andei, muito antes do 25 de Abril, assisti a cargas policiais muito semelhantes àquelas de ontem. Acho que houve um perfeito exagero na maneira como se reagiu, porque inclusivamente acho que houve ali situações que são um disparate, porque há muito tempo que já se ouviu dizer, e julgo que isso é uma explicação esvogar, é que pôr as pessoas atrás das grades só lhes aumenta a agressividade, de maneira absolutamente disparatada como ontem se pôs.
Mas não sente que houve também uma falta de preparação das autoridades, quer sanitárias, quer de polícias, sobre aquilo que poderia acontecer?
As sanitárias só viam uma possibilidade, que era proibir tudo.
E não devia ter sido isso a ser feito?
Não sei se devia ser ou não devia ser. Não sou eu que estabeleço as regras e portanto, o que as pessoas deviam perceber é o que é que o acontecimento poderia fazer. Nós não nos podemos esquecer, além do mais, que ainda há pouco tempo as pessoas estão, para além de manifestarem a sua alegria, a sua satisfação, as próprias pessoas estão todas desejosas da rua, de ir para a rua, de explodir as suas emoções. E portanto, eu acho que nestas coisas do zoom, ou se planeia como devem ser as coisas para evitar as brutalidades que ontem se ouviram, ou então proíbe-se pura e simplesmente, não havia mais nada a fazer. Porque realmente, se calhar era menos perigoso ter aberto o estádio e deixar as pessoas lá estar. Agora acho que isto foi feito de uma maneira também absolutamente desajustada. E depois aquelas cargas policiais, pelo amor de Deus, entre pessoas desarmadas. Quer dizer, põem as pessoas atrás das grades e não perceberam que já todos os estádios do mundo acabaram com grades, porque isso obviamente que ainda aumenta a agressividade das pessoas. Todo o indivíduo que está por trás de uma grade se torna agressivo. Isso já acabou nos estádios, já não há estádios com essas situações.
Portanto, estratégia errada, Dias Ferreira.
Completamente.
Já vamos continuar a conversar. Dias Ferreira, olhemos então para a equipa do Sporting. O que é que aconteceu este ano que não aconteceu nos últimos 18?
Não é bem assim o que não aconteceu nos últimos 18, porque o Sporting já teve uma altura em que fez aquilo que devia ser feito, que era, por exemplo, manter uma certa estabilidade, como foram os quatro anos de Paulo Bento, que foram quatro segundos lugares, e não como nos outros restantes anos em que se perde e depois no ano seguinte, inclusivamente o treinador que foi campeão, vai-se embora quando não tem resultados e, portanto, não há trabalho nenhum que tenha continuidade. Desta vez, eu acho que aquilo que aconteceu foi que o Sporting finalmente assentou num projeto, assumiu esse projeto, levou esse projeto a direito e sem grandes vacilações e portanto o resultado ficou à vista. O Sporting escolheu bem, a partir dessa altura, o treinador. O treinador resolveu assentar a formação da sua equipa numa mistura bem feita de jogadores experientes com jogadores jovens e alguns deles formados no clube. E o resultado foi este: teve sucesso. E aquilo que o Sporting tem que perceber de uma vez por todas é que realmente o projeto exige estabilidade, exige continuidade e, portanto, não cometer os erros que se cometeram noutras ocasiões. É isso.
Dr. Dias Ferreira, está sanado o problema do Sporting com os adeptos e com as claque?
Sanado?
O que eu perguntava é se esse pode ser um problema que se pode manter na próxima época, com o público nos estádios.
Não sei, vamos ver o que é que acontece. Eu penso que o próprio público é capaz de ter assumido que o castigo de não ver jogar a equipa durante mais de uma época, o que isso significa. E, portanto E que sabem fazer uma análise daquilo que sucedeu e das razões. Mas eu acho que as massas adeptas também são um bocado assim. Também não é nenhum fenômeno novo que está a acontecer. Há uns que o controlam melhor, outros que o controlam pior. Mas eu penso que as pessoas tomaram esta lição. E acho que o Sporting está de parabéns, porque realmente, depois de certos acontecimentos, conseguiu dar a volta e quase inexplicavelmente, três anos depois de um acontecimento que se gostaria de ter evitado, mas que não foi possível, ressurge com uma força nova. Acho que conseguiu dar a volta e mostrar que realmente é um clube, uma massa adepta absolutamente incomparável.
E já se devem traçar objetivos para a próxima época, Dias Ferreira. Repetir o título é obrigação do Sporting?
Não, obrigação não é. Há três equipas que o podem ganhar e há que verificar que os outros também têm os mesmos objetivos e vão procurar evitar que o Sporting repita. Mas pode acontecer, efetivamente, que o Sporting repita. Se os outros não vão ficar, resta saber se os outros vão tomar as soluções adequadas para responder a esta atitude do Sporting, que o Sporting levou ao longo deste ano. Nós próprios não sabemos o que é que vai acontecer. Temos agora um Europeu pela frente. Alguns jogadores vão ter também esse Europeu e eu julgo que o treinador que o Sporting tem atualmente é uma pessoa extraordinária e que ontem, no pico da vitória, já estava preocupado, não com o próximo jogo.
Mas com os leões brancos.
Não estava com os leões brancos, mas estava já preocupado com a próxima época. E a chamar a atenção. Eu acho que isso é assim mesmo, não é vulgar essa atitude, e acho que é dessa atitude, fundamentalmente, que ele conseguiu transmitir aos jogadores e até conseguiu, de alguma forma, transmitir aos adeptos. E que o seu trabalho vá sendo em consonância com isso.
Doutor Dias Ferreira, mas reconhece que o Sporting, na próxima época, tem que ter outra equipa. Esta época, quando o Rúben Amorim andou a falar jogo a jogo, é porque sabia a equipa que tinha, não era uma equipa para todas as competições. Os adeptos, provavelmente, na próxima época, não querem ver o Sporting fora da Liga dos Campeões tão cedo, nem da Taça de Portugal muito cedo. Reconhece que o Sporting, pelo fato de ter ficado mais cedo fora das competições, teve essa vantagem de não ter jogado todos ao domingo, à quarta, ao domingo, à quarta, como os outros clubes, mas os adeptos não querem isso, como é óbvio.
O Sporting também agora nesta parte final, jogou ao domingo e à quarta como os outros e, no entanto, conseguiu destacar-se deles. Eu acho que os outros clubes não estão a analisar muito bem e estão a arranjar as coisas um bocado de imediato para explicar, do seu ponto de vista, aquilo que consideram verdadeiro fracasso. No fundo, eles caíram na mesma coisa que o Sporting tinha caído há vários anos, que é gastar muito dinheiro, mas não é tirar com dinheiro para determinadas coisas que se resolvem os assuntos. Eu espero é que o Sporting não pense da mesma forma que você agora referiu, que precisa de outra equipa. Outra equipa parece que precisa dos mesmos jogadores de agora, mas outros. Eu não acho isso a solução. Acho que a solução é aceitar que o Sporting deu um passo grande que ninguém esperava e que também não dê agora um passo disparatado e comece outra vez a comprar jogadores a granel e sem ver a sua qualidade.