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A Ministra da Saúde anunciou que a vacinação dos órgãos de soberania vai avançar já na próxima semana. A Ordem dos Enfermeiros considera inaceitável que os políticos sejam vacinados primeiro que os profissionais de saúde. Senhora Bastonária, por quê? E que críticas a Ordem dos Enfermeiros deixa ao governo por esta questão?

Nós amanhã tencionamos escrever ao senhor Presidente da República, precisamente porque eu não sei qual é o conceito do governo de órgãos de soberania. Nós sabemos qual é, ele já está definido, mas vimos uma notícia de que os autarcas, por exemplo, também estariam incluídos nessa vacinação prioritária. Nós não temos, neste momento, todos os profissionais de saúde do SNS, do privado e do social vacinados, que era a primeira fase de vacinação, muito menos os utentes de lares e de outras estruturas de cuidados continuados. Não compreendemos esta opção numa altura em que os internamentos hoje, por exemplo, foram mais de 300, em que não temos mais enfermeiros, em que não foram implementadas estratégias nenhumas daquelas que a Ordem sugeriu desde março para não chegarmos a esta situação e em que a nossa melhor hipótese de preservar aquilo que são os nossos poucos enfermeiros é, efetivamente, a vacinação. Tememos que esta estratégia seja para desculpar os chico-espertos, autarcas e provedores de Santas Casas, que furaram o plano de vacinação e, quanto a nós, não têm condições nenhumas para representar porque demonstram não ter caráter. Tentar furar uma fila de vacinação numa altura tão difícil em que o país está é demonstrar não ter caráter. Noutros países onde isso aconteceu, os responsáveis tiveram que se demitir. Em Portugal, nós gostaríamos de assistir ao mesmo.

Eu ia lhe fazer uma pergunta sobre essa questão, já agora aproveito a deixa, foi uma denúncia que a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros fez na semana passada no Parlamento. Há alguma atualização? Tem novos dados ou novos casos dessa vacinação indevida?

Nós continuamos a receber, como falámos dessa situação e das denúncias que estamos a receber, continuamos a receber mais denúncias e isto é muito triste. Perceber que quem nos representa, quem representa o povo e que deveria dar o exemplo, é tudo menos sério, infelizmente. E temos mais situações que estamos a encaminhar ao Ministério da Saúde.

Algum caso em concreto que me possa adiantar, de alguma instituição em específico?

Sim, a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, por exemplo, que vacinou o seu provedor e a mesa da Santa Casa. E não venham dizer que estão em contacto com doentes Covid, porque não estão. Isto é a chico-espertice em todo o seu esplendor e não é sequer desculpável e muita pena temos que não seja crime.

Deixe-me voltar um pouco atrás. Quantos profissionais de saúde, não sei se há números exatos, se a Ordem dos Enfermeiros dispõe desses números, quantos profissionais de saúde é que ainda não foram vacinados, tanto do particular, como do privado, como do SNS?

Do privado foram ainda vacinados muito poucos, do SNS não foram ainda todos vacinados. O Ministério da Saúde tem esses números, creio que divulgou ontem, mas não estão todos, infelizmente. E temos muitos enfermeiros que fazem parte das brigadas de vacinação, que estão a ir aos lares e às unidades do social fazer a vacinação a colegas e eles próprios ainda não estão vacinados. Muitos enfermeiros dos centros de saúde que vão a casa de doentes positivos, muitos enfermeiros das unidades de cuidados na comunidade, das equipas de cuidados continuados, não estão ainda vacinados dentro do SNS. No privado, ainda menos que isso e, portanto, não é aceitável esta medida.

Portanto, o governo está a passar um mau sinal à população ao passar à frente destes profissionais de saúde. Não podemos também olhar para isto, pergunto-lhe, como um sinal de bom exemplo por parte dos políticos ou de forma a sensibilizar, como foi feito noutros países da Europa e do mundo, em que os políticos ou como, por exemplo, o primeiro-ministro de um certo país, que foi vacinado para dar o exemplo? Não podemos olhar também dessa forma?

Mas qual bom exemplo? Uma coisa é um primeiro-ministro, outra coisa é nós estarmos a falar de provedores de Santas Casas e autarcas que querem furar o esquema, que levam os maridos e as mulheres. Isto não é aceitável. Em Espanha, quando isso aconteceu, agora há poucos dias, demitiu-se a mais alta figura do exército espanhol. Portanto, qual é o bom exemplo que nós estamos a ver aqui? Eu estou a ver um péssimo exemplo. É o exemplo da chico-espertice, que efetivamente não ter caráter e tentar furar aquilo que são as regras, compensa. Se nós queremos que os políticos sejam um exemplo para o povo, este não é seguramente um bom exemplo. E uma coisa é o primeiro-ministro, outra coisa é estes casos que estamos a falar. E não é por estas pessoas terem agido mal, porque agiram mal, que agora vem o governo com uma medida tentar desculpá-los, até porque a maioria deles, infelizmente, eram autarcas do PS ou pessoas ligadas ao PS. Isto não é admissível.

Considera que o governo possa voltar atrás nesta medida, depois destas críticas por parte dos enfermeiros?

Não sei. Não faço ideia.

Ou por parte da pressão social, que até pode começar a surgir?

Eu acho as pessoas, francamente, naquilo que é a sua intervenção democrática, um pouquinho amorfas, porque eu acho que toda a gente se devia insurgir contra isto. Não sei se vão voltar atrás pela pressão das pessoas. Há uma coisa que eu sei: nós não podemos desculpar o erro destas pessoas que agiram mal, mudando aquilo que são os critérios da prioridade de vacinação só para deixá-las bem vistas ou elas ficarem tranquilas. Isso é absolutamente errado. Não sei se eles vão voltar atrás, porque infelizmente desde março há uma série de medidas que nós estamos a propor para que não tivéssemos chegado à situação que chegamos agora, e não voltaram atrás e adotaram algumas delas e, portanto, vejo isso com muita apreensão.

Só mesmo para terminar, senhora Bastonária, aos olhos da Ordem dos Enfermeiros, quando é que os titulares de cargos políticos deveriam ser vacinados? Em que fase é que se deveriam inserir?

A seguir a esta fase que nós estamos ainda a terminar e que ainda agora, infelizmente, vai a metade e que tem a ver com primeiro os profissionais de saúde, depois aqueles que são os utentes que estão em lares, porque são a maioria dos idosos, infelizmente, que estão institucionalizados em Portugal, embora nós tenhamos sempre defendido um modelo diferente, em que eles pudessem ser apoiados em casa. E todos os dias nós vemos, e é uma tristeza, é um sofrimento enorme. A maioria deles estão a morrer. Os políticos não estão a morrer e nem estão em contacto direto com o Covid e portanto teriam que vir a seguir e não seriam todos. Efetivamente, seriam alguns que se impõe que pudessem ser vacinados, mas nunca, quanto a nós, autarcas e provedores de Santas Casas.