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De que forma estas taxas anunciadas por Donald Trump, que já tinham sido anunciadas outrora e que entraram em vigor esta terça-feira, tanto ao México como ao Canadá e à China, e também o fato destes países terem vindo a responder, inclusivamente daqui a instantes Trudeau vai dar uma conferência de imprensa para anunciar uma resposta a estas taxas. De que forma é que estas medidas anunciadas por Donald Trump podem impactar, principalmente a curto prazo?
Nós já conhecemos essa história, porque já tivemos experiências com o mesmo presidente, ainda que mais limitadas no seu primeiro mandato. Basicamente, o que isto faz, repare que pôr uma tarifa é como pôr um imposto antes do preço que os consumidores pagam, o que significa que os preços para os consumidores dos bens importados ficam mais elevados. A ideia é que eles desviem o seu consumo para bens produzidos nacionalmente e que as empresas nacionais fiquem mais competitivas. Mas o que acontece é que as cadeias logísticas e as cadeias de valor das empresas são muito mais complexas. Vamos voltar a ter o que já tivemos em 2018, que é preços de bens intermédios aumentarem por via da imposição de tarifas sobre bens finais. O que isso significa? Significa que a prazo, parte destes ganhos possíveis não se materializam na sua maioria. Por outro lado, penaliza-se os consumidores, que vão pagar a mais por bens que entretanto consumiam e havendo retaliação, o processo aumenta, sendo que depois esses efeitos ocorrem simetricamente do outro lado. E portanto, estando toda a gente a indicar que vai retaliar, os efeitos gerais são ainda maiores. Sendo os Estados Unidos uma economia muito maior, eu acho que o impacto mais negativo vai ser sobre o Canadá e sobre o México. Relativamente à China, é mau para todos, não vejo que haja uma grande diferença entre o que vai ser causado de perda aos Estados Unidos e à própria China. Ambos vão sair piores disto. E quando for a vez da Europa, é exatamente o mesmo raciocínio.
E neste caso, tendo em conta que o suposto seria que a economia evoluísse e os fatores econômicos tivessem maiores resultados nos Estados Unidos, essas tarifas também podem causar grandes impactos a longo prazo?
Os estudos que já existem para aquilo que estava em cima da mesa mostram que os Estados Unidos crescerão menos no curto prazo e sempre menos a médio e longo prazo. Mas a quebra é menor do que no caso, quer do Canadá, quer do México, que são relativamente mais afetados. Para além de que a inflação acontecerá em todos os países. Em termos de teoria econômica, o ideal era o Canadá não retaliar, só que eu acho que politicamente não é possível um dirigente político dizer: "As nossas empresas são oneradas com tarifas enormes e nós não retaliamos." Ao não retaliar, os efeitos simétricos aos que ocorrem na América não ocorrem no Canadá. Mas eu acho que isso é impossível de acontecer e quando chegar a vez da Europa, também duvido muito que a Europa tome a posição ideal que é não retaliar, porque politicamente não é sustentável. Agora, a prazo, todos degradam e os Estados Unidos estão a tentar voltar à economia do início do século XX e anterior, uma economia muito fechada. Simplesmente os Estados Unidos desde a Guerra do Vietnã que se têm vindo a abrir e a economia está preparada para um mundo bastante mais global do que uma autarcia. E por isso eu acho que os planos, como aliás a generalidade dos meus colegas na academia americana, porque quem apoia Trump são as pessoas que estão ligadas a determinados negócios ou a determinados setores, e são, digamos, aqueles comentadores generalistas. Para nós é óbvio, toda a teoria econômica e toda a análise empírica mostra que vai sair a perder e que não é possível criar dos Estados Unidos, enquanto autarcia, uma economia mais pujante do que aquela que os Estados Unidos têm vindo a construir ao longo dos últimos 50 anos.
Portanto, aquilo que me está a dizer é que este tipo de tarifas e a retaliação vai fazer com que esta economia se degrade.
Sim, vai piorar. Em relação aos pequenos países, como o Canadá e o México, que têm muita população, mas a economia é muito mais pequena que os Estados Unidos, quer dizer, o México tem muita população, o Canadá é um país com uma grande área, mas com muito pouca gente para a área que tem, vão sofrer mais, mas os Estados Unidos também vão sofrer. E quando começa uma guerra tarifária com a China e com a Europa, e repare, isto vai atingir, quando ele olha para certos produtos, como por exemplo, o aço, o Brasil é logo o segundo ou terceiro país mais penalizado. Portanto, no fundo, vamos caminhar para um mundo com mais ineficiências e que vai crescer menos do que a alternativa de continuar a ter o comércio como temos tido ao longo das últimas décadas.
Há pouco disse-me que o Canadá e o México não deveriam retaliar, mas que em termos políticos não têm outra hipótese. Por que acha que não deveriam retaliar estes países?
Isso é o que dizem os livros de economia. O que acontece? Porque se eu retaliar aos efeitos que sofro Nas minhas empresas que têm mais dificuldade a exportar para os Estados Unidos, tenho os efeitos negativos que os Estados Unidos têm sobre si próprios, mas agora sobre mim, porque ao pôr tarifas, os meus consumidores vão pagar mais, também vou criar alocações de recursos que não são ótimas, não são as mais adequadas e, portanto, a minha economia também cresce menos e tem mais inflação. Ou seja, um país pequeno como o Canadá, ao fazer isso, vai ficar pior. Simplesmente, são efeitos que não se conseguem demonstrar no imediato. Demoram-se meses, anos a revelar toda a sua dimensão. E isto é um discurso que não passa na opinião pública. Se eu tivesse de convencer alguém do discurso contrário, que é dizer: "Estão nos a fazer mal, nós vamos ter de lhes mostrar que também somos capazes de os atingir", eu acho que é impossível. O mundo não é uma sala de aula.
Há aqui mais alguma coisa que queira destacar a nível português ou a nível europeu, quando as taxas chegarem à Europa, tendo em conta que o Donald Trump também já nos anunciou?
O Donald Trump nós nunca sabemos o que é que ele diz, porque ele diz tudo e o seu contrário e variantes da mesma coisa. O que ele disse é que era ter taxas recíprocas. Taxas recíprocas significaria ter uma taxa média igual à taxa média que a Europa põe aos Estados Unidos. A Europa tem uma taxa média maior nas importações americanas do que os Estados Unidos têm nas importações que vêm da Europa. Mas a diferença são cerca de dois pontos. Se ele põe as tarifas a 25%, não é reciprocidade nenhuma, é criar uma barreira muito maior ao comércio. E aí a Europa vai retaliar, porque já se percebeu que todos os líderes políticos não conseguem defender um discurso diferente e eu, embora discordando sobre se é ou não o melhor a fazer, acho que é inevitável, porque é muito difícil defender o discurso contrário.