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Presidente do Conselho de Escolas Médicas, junta-se agora a nós em direto via telefone neste jornal. Boa tarde, Fausto Pinto. Escreve nesta publicação feita na rede social Twitter que a Academia Médica gostava de saber quem são os especialistas que estão a aconselhar os nossos decisores políticos. Estranha olhar para estas fotografias que foram partilhadas pelo governo e não conhecer os rostos que estão neste encontro?

Muito boa tarde e muito obrigado pela pergunta. Obviamente que o governo entende quem deve convidar e quem deve nomear para o aconselhar e tem toda a legitimidade para o fazer. Aquilo que nós, na Academia Médica Portuguesa, e nomeadamente nas escolas médicas, por vezes estranhamos o fato de não saber exatamente quem são esses especialistas que estão a aconselhar as entidades. E estranhamos, tendo nós, nas nossas escolas médicas, vários grupos que trabalham nesta área, de não terem sido contactados nesse sentido. Obviamente que tem toda a legitimidade o governo e as entidades de convidarem quem entendem. Eu fiz esse tweet porque achei engraçado, porque nas fotografias não vi nenhum epidemiologista médico ou não reconheci, pode não estar todos os ângulos. E também acadêmicos médicos no ativo e um ou dois médicos. E vi, acima de tudo, políticos. E vi pessoas que estão nomeadas institucionalmente e diretamente pelo governo para posições e que estão nas posições que estão a assumir, quer em órgãos tipo Infarmed, Instituto Nacional de Saúde, e com certeza nessas posições estão aí institucionalmente.

Mas a questão aqui é falta de competência de alguns dos responsáveis que foram convidados para estes encontros ou é a questão da necessidade de alargar também os especialistas e as entidades que estão representadas nestes encontros, como por exemplo, neste caso, fazer um convite à estrutura a qual preside também o Conselho de Escolas Médicas, por exemplo?

Nós não pomos em causa a competência das pessoas que fazem parte desse grupo. Não conhecemos a maior parte deles e não conhecemos, de facto, as pessoas que têm especificamente competências na área médica, nomeadamente da epidemiologia, da infectologia e experiência com pandemias. Isto tem sido uma interrogação que, no âmbito das nossas faculdades de medicina, estamos a falar do Conselho de Escolas Médicas, que envolve todas as escolas médicas portuguesas, é um órgão independente e, portanto, não é de nomeação política. Temos à vontade para poder expressar livremente a nossa opinião, sobretudo quando achamos que podemos contribuir. E esse é o aspecto positivo, quer dizer, temos que ter aqui uma atitude, poder contribuir numa situação que é uma situação única no país e no mundo. Podermos contribuir com o nosso saber, das nossas escolas e dos nossos peritos, para podermos encontrar soluções que possam ser mais adequadas e, acima de tudo, poder aconselhar, baseado num conhecimento e numa experiência que está acumulada nas nossas escolas médicas desde há muitos anos. E, portanto, nesse sentido, se quiser, é uma disponibilidade que as escolas médicas têm feito, e têm feito de forma pública já há várias semanas, desde que este problema começou, que temos feito de forma que entendemos ser a nossa intervenção cívica, feito várias recomendações, muitas delas têm, aliás, sido, mais tarde ou mais cedo, reconhecidas ou pelo menos essa informação tem sido veiculada e tem sido usada também pelas entidades para tomar as decisões certas. Portanto, a nossa intenção é positiva e é de poder contribuir para encontrar as melhores pessoas, não só pessoas comprometidas politicamente, mas pessoas que possam ter, de facto, a expertise mais competente no país. Portanto, devem ser as melhores pessoas do país para poderem contribuir para as melhores soluções para o nosso país.

Fausto Pinto, já agora enquanto presidente do Conselho de Escolas Médicas e depois de manifestar também essa disponibilidade para contribuir para este debate que está a ser feito. E tendo em conta que, ao que tudo indica, se devem também suceder estes encontros alargados com a presença das mais altas individualidades do Estado, também com a presença de altos responsáveis políticos, de representantes da Assembleia da República. Se entende também que, no quadro destas entidades relacionadas com o setor da saúde, que o Conselho de Escolas Médicas, ao qual preside, devia estar também representado entre este grupo de especialistas?

É uma decisão que compete às entidades. Se não reconhecem a autoridade das escolas médicas portuguesas, que são quem forma os médicos portugueses, quer no pré, quer no pós-graduado, então algo de mal vai neste país, não é? Portanto, achamos que temos toda a competência para poder expressar, e temo-lo feito, aliás, de forma perfeitamente pública, temo-lo feito e temos manifestado as nossas opiniões. Achamos que temos uma palavra a dizer e temos peritos. Não sou eu, nem eventualmente os meus colegas presidentes, mas temos dentro da academia pessoas com grande qualidade e que podem, de forma independente, dar o seu contributo para o país. E é isso, no fundo, de uma forma positiva, queremos fazer.

Fausto Pinto, só mesmo para terminar, queria aproveitar também esta oportunidade para lhe colocar uma questão sobre outra matéria. Já ouvimos o posicionamento do Conselho de Escolas Médicas a propósito do uso de máscaras. Na altura, houve algumas críticas à Direção-Geral da Saúde, aqui há alguns dias. Entretanto, tem havido também este posicionamento por parte da Direção-Geral de Saúde, dizendo que está a seguir as orientações internacionais. Já ouvi também a ministra da Saúde dizer que foi pedido um parecer para o uso generalizado de máscaras. Pergunto-lhe como é que tem acompanhado este debate que está a ser feito em relação a esta matéria, o uso ou não uso, e essa recomendação sobre o uso de máscaras de forma generalizada no território nacional. E pergunto-lhe também se o Conselho de Escolas Médicas mantém a posição em relação a esse uso de máscaras por parte da população para uma proteção por causa da pandemia da Covid-19.

Nós manifestamos a nossa posição já há algum tempo e a posição é muito clara Nós somos a favor e temos argumentos nesse sentido, aliás, acompanhando vários países por esse mundo fora que têm dado este tipo de recomendação, de que deve haver a utilização de uma proteção, de uma barreira para permitir diminuir a contaminação dentro da população. Neste fim de semana publicamos um texto, que é um texto relativamente extenso, de dois investigadores nossos do Algarve, e que é um documento que foi endossado pelas escolas médicas e em que consubstancia, do ponto de vista científico, a razão porque entendemos fazer esta recomendação. A própria OMS veio agora, e aliás, hoje a recomendação é engraçado que depende do ângulo em que se olha. A Organização Mundial de Saúde, a recomendação que fez, e é lógico que nunca poderia fazer uma recomendação generalizada. Não podemos esquecer que há países que vivem com um dólar por dia, com habitação com um dólar por dia, portanto, nunca poderia fazer uma recomendação generalizada para todos os países do mundo, mas teve o cuidado hoje, concretamente, de dizer que em relação aos países que decidam utilizar esta metodologia, ou seja, a utilização das máscaras, para ter os cuidados inerentes ao esclarecimento da população, etc. Portanto, a própria Organização Mundial de Saúde reconhece que os países têm a autoridade e têm o direito de poder decidir, como entenderem, como é óbvio, na área da saúde, é um direito que assiste.

E em linha também com outros planos de contingência, isso que tem dito também a Organização Mundial da Saúde. Quero-lhe perguntar por que é que, na sua opinião, ainda não houve uma posição clara também por parte das autoridades de saúde nacionais e tem havido também esta dúvida que de alguma forma vai passando para a população portuguesa, que apesar de tudo, quando pode, quando há disponibilidade também no mercado, vai utilizando a máscara, não diria na maioria, mas há uma boa parte dos cidadãos portugueses que vão utilizando, mas talvez alguns ainda não utilizem a máscara como meio de proteção, porque entendem que também não houve aqui uma ideia clara e um posicionamento claro por parte do governo e das autoridades de saúde.

A recomendação, como também deve ter acompanhado, tem vindo a aumentar nas suas indicações. Portanto, no fundo, vem ao encontro mais e mais cada dia daquilo que nós temos vindo a recomendar. Há outros países na União Europeia que já o fazem, como por exemplo, a República Checa. E deixe-me só dar-lhe este exemplo, que eu acho que é muito objetivo. A República Checa teve o primeiro caso um dia antes de nós. As únicas duas diferenças em relação a Portugal é que eles têm uma política de máscaras compulsivas e tiveram cinco dias antes o estado de emergência em relação a nós. Hoje, têm menos de metade do número de infectados e têm um quarto da mortalidade. Portanto, isto são dados objetivos e a única diferença foi esta, foi a utilização das máscaras e começar um pouquinho antes o estado de emergência. Se compararmos todos os países em que houve uma política de introdução, e não é só a máscara cirúrgica, no fundo é uma política de barragem de proteção, portanto, a máscara como proteção ou a existência de uma barreira física, que pode ser um lenço, pode ser um cachecol, pode ser o que for. Além disso, também há um aspecto que é importante dizer: as pessoas estão em confinamento, portanto, não precisamos de 10 milhões de máscaras diariamente, longe disso. E há formas que têm sido mostradas e que têm sido disseminadas noutros países, que nós podemos utilizar, desde máscaras caseiras até utilizar a própria indústria para poder produzir essas máscaras. Há várias formas de se poder atingir este objetivo. E o objetivo é muito simples: é que esta é mais uma, não é a única e não é perfeita, como é óbvio. Mas nós em medicina estamos muito habituados a isso. Estamos habituados a adicionar terapêuticas quando sabemos que adicionando essa terapêutica vamos ter mais resultado. E o que está demonstrado nos países que o fizeram é que têm melhores resultados. E não há nenhum estudo que contraindique. Ou seja, o que é engraçado no meio disto é que não há nenhum estudo, nem a Organização Mundial de Saúde contraindica o uso da máscara. Antes pelo contrário, diz: nos países que a utilizem, têm que ter um conjunto de cuidados. Obviamente! Ensinar a utilizar uma máscara demora dois minutos. Há vídeos, há milhares de vídeos feitos nos vários países e os portugueses não são menos inteligentes que os checos, ou que os maquenses, ou que os austríacos, ou que os singapurenses. Portanto, temos alguma dificuldade, de facto, em entender aqui a hesitação. É uma decisão que se sabe, como é óbvio, das autoridades e todo o respeito por essa decisão, mas discordamos. Temos o direito a discordar e demonstrámos, e já mostrámos e dissemos. Quer dizer, é difícil estar a dar mais conteúdo científico e mais opinião do que aquela que já fizemos e que permite tomar uma decisão como outros países, não é nada de novo. Outros países já o fizeram, países com as mesmas características que as nossas e que têm melhores resultados. E aquilo que nós queremos, a nossa posição, mais uma vez, é construtiva, é procurar ajudar a tomar as melhores decisões para o nosso país. Nós queremos as melhores decisões para o nosso país. E temos a autoridade científica, ética, cívica e moral para o fazer enquanto escolas médicas portuguesas.