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Junta-se a nós em direto agora o jornalista da RTP, Paulo Dintinho, que foi correspondente em Paris. Bom dia, Paulo.

Bom dia.

Vão ter algum efeito prático as moções de censura que já estão anunciadas?

Temos que esperar. As contas fazem-se no fim. A priori, o cenário mais provável é que elas não passem, apesar de haver uma iniciativa de moção de censura transpartidária que é feita por alguns deputados do centro-direita. O centro-direita está muito dividido em relação a esta questão. Teoricamente deveria ser favorável a ela, mas é o cenário mais provável, porque é preciso 289 deputados. É pouco provável que passe, embora haja alguns que digam que sim, que vão votar essa lei, porque a extrema-direita também já disse que vota todas as moções de censura e a extrema-esquerda, a esquerda radical, já disse também que irá votar esta moção de censura, especificamente. Se ela passar, o governo cai e este projeto de lei desaparece. É verdade que o novo governo, se Macron nomear outro primeiro-ministro ou mesmo chefe do Executivo para formar um novo governo, eles podem tentar ainda fazer aprovar esta reforma, mas é pouco provável que isso venha a acontecer. Macron deixou essa ameaça em setembro, que era se uma moção de censura for votada, eu dissolvo imediatamente, mas todos nós sabemos que em política, a verdade só existe no presente indicativo. E como um cenário de eleições antecipadas não será certamente muito favorável a Macron, porque há uma rejeição muito significativa por parte dos franceses relativamente a esta reforma. Há uma sondagem, creio que de hoje, que foi divulgada na BFMTV, que diz que 68% dos franceses rejeitam esta alteração da idade da reforma e, portanto, vamos ver. Em princípio, não passará. Em todo caso, deixa-me dizer-te uma coisa. Não deixa de ser curioso porque os franceses parece que vivem numa bolha. O Tribunal de Contas, na semana passada, francês, obviamente, veio dizer que a dívida francesa deve atingir 111% do Produto Interno Bruto, o déficit deve estagnar nos 5%. Portanto, eles vivem numa bolha por comparação com os países vizinhos, como é o caso, por exemplo, de Portugal, dos países da União Europeia, Itália, que a reforma é aos 67 anos, na Alemanha que é aos 67 anos, e aqui estamos a falar de passar dos 62 para os 64. Mas sempre que há tentativas de mexer nas reformas, é sempre um cabo dos trabalhos em França. Eu assisti quando o Sarkozy tentou alterá-la dos 60 para os 62 anos e as manifestações imensas que houve. Depois também houve quando o Édouard Philippe, em 2020, tentou também de uma forma um bocadinho canhestra alterar a idade da reforma através de uma reforma por pontos e provocou enormíssimas manifestações. Ela só foi suspensa por causa da pandemia.

E Paulo Dintinho, muito rapidamente, com estas sucessivas tentativas de mexer no sistema de reformas, será que Macron não terá que voltar atrás?

Repara, mesmo que a reforma seja aprovada e que passe, que a moção de censura seja chumbada, o cenário de uma suspensão desta legislação é possível. Aconteceu no passado. Eu lembro-me, ainda nem era correspondente em Paris, mas fui lá na altura por causa das manifestações, imensas manifestações do governo de Dominique de Villepin, por causa também de uma legislação, mas na altura era sobre o emprego para jovens. Foi uma coisa terrível, universidades bloqueadas, metrôs bloqueados, enormíssimas manifestações. O governo conseguiu aprovar, através também deste expediente constitucional, o artigo 49.3, essa legislação, mas depois acabou por a suspender face àquela que era a rejeição da maioria dos franceses também relativamente a essa reforma. Agora, que eles vão ter que encontrar uma solução qualquer, vão ter, porque as contas começam a derrapar e o déficit é cada vez maior. E há também, do ponto de vista orçamental, uma série de desafios que a França tem que enfrentar, como todos os países, a transição energética, a educação, a saúde ou a defesa, e é preciso recursos para isso, e quando as dívidas aumentam muito, ficamos nas mãos dos credores. Isto é válido na nossa vida pessoal e é válido na vida dos Estados.