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Esta decisão agora tomada por Marcelo Rebelo de Sousa, que imagem é que pode trazer à política nacional e também à Presidência?

À partida, o chefe de Estado tinha a prerrogativa de responder por escrito, o que controlaria sempre muito a resposta, e portanto tinha essa oportunidade. Eu acho que mesmo sendo algo facultativo, o presidente da República devia ter demonstrado essa abertura para responder às questões dos deputados, porque daria uma imagem de total transparência. É óbvio que é um direito dele não o fazer, mas efetivamente se não tinha nada a esconder, também não se trata de entrar num debate na lama, trata-se de responder a questões de deputados numa comissão de inquérito e portanto não há ali nenhuma razão objetiva para o presidente se furtar a responder a questões. Depois, porque para Marcelo também é importante, normalmente nestas questões, ir ao encontro daquilo que é um consenso partidário alargado. E na verdade, embora o PSD tenha dito que não havia necessidade do presidente responder às questões, há muitos outros partidos que exigem que o chefe de Estado responda e, portanto, também para ir ao encontro daquela que é a função do Parlamento e que é a sua posição, devia ter feito isso. A razão única que o presidente tem é que, como órgão de soberania, como líder da hierarquia do Estado, considera que não tem que prestar de alguma forma, não tem que ser escrutinado desta forma pela Assembleia da República, e aí pode ter uma razão formal ou institucional da posição que tomou.

Há aqui alguma coisa que queiras destacar a propósito desta decisão?

O presidente da República não quis dizer logo, alimentou até aqui um tabu, se iria ou não responder a estas questões dos deputados. Não quis fazê-lo ontem a seguir ao Conselho de Estado, porque estava a ser debatido o futuro da Europa e outras questões. Na verdade, acabou por dizer em declarações aos jornalistas, também não esperou que a notícia chegasse ao Parlamento e que fosse noticiado por via do Parlamento. Também não se percebe muito bem aqui porque é que alimentou este tabu. No fim do dia, eu creio que o presidente acaba por perder com o facto de não responder, pela razão de que a comissão de inquérito, quando foi criada pelo Chega, era quase uma espécie de caça a Marcelo. Ou seja, era para tentar apanhar o presidente da República aqui nesta teia de ligações e de alegados favores do caso das gémeas. E na verdade, as audições não levaram a nada disso. Ou seja, o presidente, ao contrário do que muitos esperavam, acabou quase por ser ilibado de uma forma transversal pelos vários intervenientes na comissão. Também por isso não se percebe o porquê de o presidente se furtar a responder a questões, já que, na verdade, também não ia acabar por fazer grandes revelações, porque ninguém lhe imputou nenhuma acusação grave que ele tivesse que se defender. E portanto, acaba por ser um bocadinho até contranatura, um chefe de Estado e um presidente que tem como estilo falar sobre tudo e que até convocou uma espécie de conferência de imprensa para uma sala esconsa do Palácio de Belém no início deste processo, depois não tendo tido essa oportunidade, não tenha correspondido àquilo que era a vontade da maioria dos grupos parlamentares e tenha optado por não responder às questões dos deputados.