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Tendo em conta que a criminalidade violenta e em termos gerais desceu em Lisboa, mas subiu a nível nacional, que conclusões podemos tirar do Relatório Anual de Segurança Interna ainda com dados provisórios?
Eu acho que a primeira conclusão que podemos tirar é que os dados ainda são provisórios. Como tal, sendo os dados ainda provisórios, apesar de eu imaginar que a estatística não vá mudar, eu acho que nós podemos perceber à partida que há uma melhoria, mas realmente continua a haver determinados pressupostos que nos devem preocupar. Vou focar apenas dois, principalmente a questão, por exemplo, do aumento da delinquência juvenil, portanto, da criminalidade associada à delinquência juvenil. Isto realmente para nós é aquilo que eu considero, passe a expressão, um wake-up call. E ao mesmo tempo, temos também um aumento absurdo do número de violações, e portanto, a ser realmente refletido nos valores finais, estes 10% de aumento das violações, estamos perante um crime que é muito preocupante. Temos que o estudar a fundo, sem qualquer margem para haver aqui questões de natureza ideológica por detrás desta abordagem. Como tal, são dois valores que me preocupam, mas é claro, podemos continuar a afirmar que determinada outra criminalidade é possível porque nós cada vez temos menos polícias na rua e aquele policiamento de visibilidade, aquele policiamento em que nós temos realmente a presença do polícia na rua e que isto serve de forma dissuasora, não existe. Portanto, é normal que nas nossas cidades e em muitos outros sítios, esta pequena criminalidade continue a ter uma presença, independentemente de subir ou descer em termos estatísticos, importa referir que existe. E uma das causas é nós não conseguirmos inverter a tendência da perda de polícias e da saída de polícias da rua para outras funções, outras missões, que, em boa verdade, até pouco têm a ver com o espírito das forças de segurança como a GNR e a PSP.
Então considera que estes dados a longo prazo podem vir a ser preocupantes a nível nacional?
Não, repare, nós não podemos achar que estes dados transformam Portugal num país péssimo, horrível e sem qualquer tipo de segurança. Também não podemos continuar a dizer que Portugal é um dos países mais seguros do mundo, quando estamos a falar em métricas de paz e não propriamente de segurança pública. Portanto, temos que ter aqui uma noção daquilo que estamos a dizer. Agora, que Portugal é um país seguro, é. Que temos um aumento da criminalidade a vários níveis, temos. Há outros números que descem, sem dúvida, mas realmente temos é que começar a perceber quais são as causas. E uma das causas, claramente, é a inexistência de polícia na rua. Cada vez temos menos polícias na rua e isto permite que determinado tipo de criminalidade continue sempre a acontecer. Independentemente de ser mais um, menos um, mais três, menos três, ela há de sempre continuar a acontecer. E depois temos outros fenômenos que têm que ser combatidos de uma forma muito mais séria, como por exemplo, a questão da violência doméstica, a questão da delinquência juvenil. Não são só os polícias que vão fazer milagres. Tem que haver aqui um trabalho conjunto entre o Estado, quer do ponto de vista legislativo, quer outro, das forças de segurança, das comunidades locais, das autarquias. Tem que haver aqui um entrosamento de toda a gente. E depois, como eu tenho dito também, nós hoje em dia já temos ciências que se dedicam a estudar grande parte destes fenômenos, desde a psicologia no comportamento humano, a sociologia, a criminologia e por aí fora. É hora de nós começarmos a ter profissionais a estudar estes fenômenos e sabermos sobre o que estamos a falar e como é que podemos resolver estas situações. Não podemos continuar a achar que isto é só um problema do governo, porque também é, mas não é só um problema do governo ou da existência ou inexistência de políticas públicas para isto ou para aquilo. Temos é que começar a ser profissionais na forma como abordamos estas temáticas. E repare, mais do que um manual para criticar a ação governativa ou das forças de segurança, o RASI tem que ser também um documento educacional que permita, do ponto de vista científico, tirar-se conclusões e saber exatamente como combater os fenômenos. Porque repare, se da delinquência juvenil constatarmos que grande parte da radicalização destes jovens é feito online, ou seja, nas redes sociais, eu pergunto: não estará na hora de termos um sistema de monitorização das redes sociais para que de forma preditiva consigamos perceber onde é que estão a tentar radicalizar os nossos jovens? Que tipo de mensagens é que estão a passar? Como é que nós as combatemos? Como é que nós as eliminamos da própria internet? Se calhar ontem já era tarde. Portanto, há todo um conjunto de sistemas que têm que ser usados para bem da nossa própria sociedade. A educação começa em casa, continua nas escolas. Temos que sensibilizar os pais que os miúdos provavelmente não podem passar 20 horas agarrados às PlayStations e essas coisas todas, alheados do mundo e a viver em realidades paralelas, onde este gênero de informação e desinformação e ações de radicalização proliferam. E temos que consciencializar as famílias, as escolas, de que os jovens têm que ser integrados de uma forma diferente. Porque repare, eu não posso olhar para a juventude hoje em dia aos olhos dos anos em que eu fui jovem, porque quando eu era jovem, eu brincava na rua e não tinha internet e não tinha telemóveis. A vida é completamente diferente, a vida mudou e nós temos que acompanhar essa mudança. Mas também não podemos achar que é tudo mau, não podemos achar que as forças de segurança, que os serviços de segurança são entidades que visam invadir a nossa privacidade. Temos é que cooperar todos e fazer o melhor pela sociedade, porque Portugal é um país seguro, ninguém tem dúvidas. Agora, não podemos é deixar isto degradar-se ao ponto de entrarmos na lama.