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O Parlamento Europeu aprovou esta quarta-feira o primeiro regulamento para a inteligência artificial. Queria lhe perguntar no que isto consiste concretamente.
Ok, eu vou ser bastante candido relativamente a este assunto. Eu tenho tido noção do que isto está a acontecer. Olhei para o documento. Parece ser um documento cheio de boas intenções: proteger a democracia, proteger os princípios e os direitos dos cidadãos. Há, no entanto, uma série de aspectos cuja implementação vai ser complicada e há ali umas fronteiras difíceis de definir. Olhando de helicóptero para o documento que está publicado no site da União Europeia, é o que eu posso dizer sem mais análises profundas, até porque é bastante difícil ver quais são as ramificações.
Quais é que são essas medidas que são complicadas de executar?
Há uma série de aplicações que estão barradas, como por exemplo, a detecção de emoções em certas circunstâncias, identificação em tempo real de certos aspetos. Algumas destas coisas têm usos benignos e às vezes vai ser, presumo eu, não sei como é que isto vai evoluir, que algumas das utilizações até pudessem ter alguma utilidade, mas que depois da implementação da legislação e a maneira como isto vai ser imposto, imposto é uma palavra se calhar demais pesada, mas como vai ser regulamentado que vá desincentivar, por exemplo, a investigação em certas áreas, o que tem efeitos nefastos também. Isto é tal coisa, não lhe posso dizer, eu não adivinho o futuro. É difícil. Há coisas, como eu digo, que são positivas, por exemplo, proteger as pessoas de certos usos. Há outras que são, a meu ver, otimistas, como por exemplo, há aqui uns aspetos que é obrigar a que a produção de material, os deepfakes em particular, serem identificados. Isto para agentes bem comportados até funciona, mas não te protege dos agentes que queiram enganar as pessoas, ou seja, as pessoas continuam a ter o mesmo tipo de problemas que temos agora. Há aqui uma série de aspetos que são difíceis de avançar. E depois, há um aspeto que é a inteligência artificial vai ser tão sofisticada no futuro que provavelmente a nossa melhor defesa contra a inteligência artificial é a própria inteligência artificial. E se estamos a limitá-la no desenvolvimento, estamos também a condicionar as nossas hipóteses de sermos assim, defesa, de estarmos lutando contra eventuais agressões.
Então, se bem percebi das suas palavras, aquilo que está a tentar transmitir é que é uma proposta que foi aprovada por unanimidade no Parlamento Europeu com boas intenções, mas que na prática não vai mudar assim tanta coisa.
Eu não quero dizer assim. Vai mudar muita coisa, até porque estas regulamentações, e já vimos com a proteção de dados, que muda muita coisa, mas é preciso alguma cautela na implementação, porque às vezes o otimismo tem consequências que são difíceis de prever. Às vezes há medidas que são tomadas otimisticamente, mas depois quando são implementadas, as pessoas não são perfeitas, digamos assim, e pode haver, não digo abusos, mas intenções não previstas. Ou consequências não previstas, melhor dizendo.
Sim, uma última pergunta, David Matos. Tem alguma ideia de como é que isto poderia ser feito de outra forma? Como é que esta proposta poderia estar mais bem feita?
Tenho que ser sincero e dizer que não, mas eu acredito numa perspetiva evolutiva. O facto de isto existir não é mau, mas não deve ser visto, a meu ver, isto sou eu a falar como cidadão, não devia ser uma coisa talhada em pedra e imutável que agora ninguém mais revê nada do que aqui está. E isto devia ser uma coisa que devia ser acompanhada de acordo com as necessidades da sociedade, de forma que se houver algum aspeto que precise ser revisto, que não seja uma coisa difícil de fazer. Ou seja, há aqui uma série de aspetos que são importantes, em particular aqueles da defesa dos direitos. Os aspetos de proteção do público e dos cidadãos, eu acho que são talvez a melhor perspetiva e a limitação, os usos banidos, como eles dizem na proposta, são aspetos que, numa perspetiva otimista, são a meu ver bons. Eu, como cidadão, sou a favor de alguém se preocupar com isso. Por outro lado, como investigador, vejo ali hipóteses de usos benignos, até aspetos médicos, até de interação social, até agentes que nos ajudem a estar connosco próprios, uma espécie de espelhos inteligentes, se quisermos pensar assim, que podemos estar a limitar o desenvolvimento de certas coisas que nos ajudam a estar melhor no dia a dia. Eu gostava que isto não acontecesse. E não vejo assim uma ameaça no que está escrito neste momento, mas lá está, eu não adivinho como é que isto vai evoluir na implementação. E pronto, lá está, estamos aí a ser proibidos de fazer alguma coisa que pode limitar algumas investigações úteis só porque existem aspetos nefastos na utilização. Mas isso como qualquer arma ou como qualquer tecnologia, enfim, há sempre esse risco.