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Nuno Ramos de Almeida é o chefe de redação deste Contacto, que ganhou o prêmio de melhor jornal europeu na categoria jornal local nos European Newspaper Award. Começo por lhe perguntar, Nuno, como é que toda a redação olhou para esta vitória?
É uma vitória muito importante, porque nós já tínhamos sido premiados em anos anteriores, em 2019, com sete prêmios, entre os quais a melhor infografia, de autoria do Carlos Monteiro, mas este é o prêmio maior que podíamos ter, porque é ser considerado o melhor jornal da Europa. E nós somos um jornal no Luxemburgo em língua portuguesa, portanto, não somos um jornal nem em francês, nem alemão, nem luxemburguês. Aqui a impressão é luxemburguesa, mas somos um jornal de língua portuguesa, portanto, que serve a comunidade portuguesa e os falantes de português. E é com grande orgulho que temos este resultado.
Falando sobre o nome do jornal, é usado para justificar a escolha do prêmio. Chama-se Contacto, tem precisamente também esse cuidado de manter um contato direto com a comunidade portuguesa e também com a comunidade que vive no país.
O jornal tem 50 anos. O jornal fez 50 anos o ano passado. E, portanto, desde há 50 anos que sai o Contacto e funciona como um jornal profissional de jornalismo, que dá as notícias do ponto de vista de quem vive no Luxemburgo, mas também falando sobre a parte internacional, sobre Portugal e sobre a sociedade em geral. E é um ponto de vista da comunidade lusófona, do ponto de vista português, mas é um jornal, um projeto jornalístico, o que significa que nós não somos propriamente um jornal que se limita aos aspectos mais folclóricos da questão. Somos um jornal um pouco de empoderamento da comunidade portuguesa, em que ela expressa as suas opiniões, em que fazemos artigos sobre, imaginemos, algum problema bastante grave do ponto de vista do custo da habitação, a questão do emprego, as questões sociais em geral, a cultura, e do ponto de vista de quem vive aqui no Luxemburgo. Não é apenas a cultura portuguesa, mas é um ponto de vista dos falantes de português e serve uma comunidade linguística que tem uma porcentagem elevada dos residentes no Luxemburgo. Cerca de 20% das pessoas percebem ou entendem o português. 16%, segundo as estatísticas, são portuguesas, depois há uma comunidade cabo-verdiana, uma comunidade brasileira e, portanto, é este o âmbito do Contacto.
E a própria equipe do jornal também é toda constituída por falantes, neste caso, são todos portugueses. Pode nos falar um pouquinho também da equipe que compõe o Contacto?
A equipe é mista, a maior parte da redação são jornalistas que vieram de Portugal, embora tenhamos o auxílio de jornalistas da Rádio Latina que nasceram aqui no Luxemburgo, e temos uma rede de correspondentes. Temos sete correspondentes, um em Bruxelas, um no Reino Unido e vários em Portugal. E é com esta equipe que nós fazemos o site e o jornal. Portanto, é uma equipe de profissionais, jornalistas, grande parte deles com carreira em Portugal e que agora vivem no Luxemburgo.
Este prêmio distingue o jornal e descreve o Contacto como um jornal moderno no coração da Europa. Este é precisamente um prêmio também que está ligado ao design e ao layout dos meios de comunicação. O que distingue o Contacto?
Eu acho que aquilo que é interessante e aquilo que o júri viu é que nós somos, de facto, um jornal local. Somos um jornal numa língua de uma comunidade que é minoritária no Luxemburgo, mas temos uma ambição global. Temos uma ambição de falar aquilo que acontece no mundo, aquilo que acontece no Luxemburgo, de uma forma jornalística e aprofundada, onde as questões sociais e locais têm o seu espaço, mas onde as questões globais também têm o seu espaço. E isso reflete-se no grafismo, porque nós damos uma grande importância à imagem como uma forma de transmitir mensagem, mas também temos textos e reportagens aprofundadas. Temos trabalhos de investigação que por vezes estão fora das fronteiras. Por exemplo, uma das reportagens que é citada pelo diretor gráfico é uma reportagem que foi feita pelo Ricardo Jorge Rodrigues e pelo Rui Oliveira na Bélgica, na zona onde os imigrantes pretendiam, depois do fim de Calais, fugir e dar o salto para o Reino Unido. Portanto, sendo uma questão que aparentemente não é uma questão do Luxemburgo, para nós é uma questão que tem sentido falar para as pessoas da situação das migrações, da situação das dificuldades que as pessoas passam, de todas essas situações que são contadas. E, portanto, é isto que, neste caso, a forma e a organização de conteúdo expressa. A sua modernidade tem que ver não apenas com o seu aspecto gráfico, não apenas com o trabalho, nós temos infografias de duas páginas onde contamos uma história em relação a isso, mas tem que ver também com o conteúdo ser diferente ou menos habitual dos jornais locais.
Nuno, para terminar, estamos durante uma pandemia, os meios de comunicação, o jornalismo também está a ser obviamente afetado por esta pandemia e o jornalismo local não é exceção. Quais são os desafios que o Contacto tem sentido nesta altura em particular e como é que estão a conseguir conciliar também esse trabalho de informar a comunidade e ao mesmo tempo que estamos a lidar com várias restrições por causa desta pandemia?
Primeiro, a gente não confinou o jornalismo. Tivemos os cuidados necessários, as máscaras, o distanciamento social, mas tentamos estar na rua, tentamos perceber o que estava a acontecer, porque havia uma grande sede neste momento de confinamento e neste momento que as pessoas tiveram que ficar em casa, de informação. A nossa grande dificuldade não foi só as condições que toda a gente vive. A nossa grande dificuldade foi conseguir, e ainda é hoje, separar o trigo do joio. A quantidade de informação contraditória e de circulação é muito grande. Nós, por vezes, temos estudos que nos dizem uma coisa sobre os contágios e que nos dizem na tarde seguinte, às vezes pelo mesmo organismo, o seu contrário. E, portanto, como o nosso papel não é divulgar estudos contraditórios, é tentar mediar, a nossa grande dificuldade, não sendo nós cientistas, conseguir dar uma informação que seja útil para as pessoas e conseguir dar uma informação que seja verdadeira e que seja jornalística. E esta tem sido a grande dificuldade. Nós multiplicamos, como deve acontecer com o Observador, o nosso trabalho por várias vezes. As pessoas estão a trabalhar horas e horas para conseguir dar informação, para conseguir proteger a comunidade, para conseguir saber o que é que está a acontecer num terreno que é obviamente desconhecido, mas nós temos que conseguir ter a capacidade de mais do que divulgar coisas que nos vão caindo, mediar de uma forma jornalística e conseguir perceber o que é que está a acontecer. E esta tem sido a maior de todas as dificuldades. E todos os dias tentamos vencê-las e às vezes somos vencidos por elas.