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Como directora da escola do Hot Clube, também privava de certeza com o José. Perguntava-lhe primeiro como lembra José Duarte?
Claro, eu conheço o José Duarte já há muitos anos, apesar de ser de outra geração. Mas já remonta à minha adolescência enquanto jovem músico aprendiz a começar a frequentar o Hot Clube a partir dos anos 80 e depois encontrei o José Duarte em muitas outras ocasiões, em concertos, em festivais, em conferências, em programas. Aliás, fui convidado dele uma ou outra vez, não só nos programas de televisão dele, no final dos anos 80, início dos 90, e noutras situações também, de debates e de conferências, etc. Era uma figura muito marcante, uma personalidade muito forte, que também não tinha receio de às vezes uma pequena controvérsia, uma pequena provocação, mas que era também sempre em nome de uma discussão com alguma profundidade e com muito interesse pra causa da divulgação do jazz. E, portanto, acho que é uma grande perda para o jazz português o desaparecimento desta figura com o programa de rádio mais antigo do nosso país e com uma ligação que ele tem ao jazz desde o final dos anos 50. Eu tive a sorte de poder privar com ele desde há bastante tempo, como eu disse, em situações diferentes, em festivais, em concertos, sempre na conversa antes e depois do concerto, sempre muito empenhado, com um compromisso gigantesco, o amor que tinha por esta música. Era uma grande figura, sem dúvida nenhuma.
Falávamos dos programas. Alguma vez esteve nos "5 Minutos de Jazz"?
Não, nos "5 Minutos de Jazz", não, mas recordo-me, por exemplo, de um programa que ele tinha. O próprio programa tinha um formato ligeiramente diferente. É uma ideia que nós damos como garantido no nosso panorama radiofónico, mas é uma ideia absolutamente genial, não só a ideia de passar aqueles escassos minutos de uma peça bem escolhida de jazz, como o próprio título e a contagem inicial, que foi uma ideia absolutamente de génio, aquele "Um, dois, um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz", é uma ideia absolutamente genial. Neste caso concreto, estou a falar de programas, por exemplo, que ele tinha de televisão, um que se chamava "Outras Músicas", que era um programa não só de jazz, mas muito na órbita do jazz e também com músicas do mundo, etc. Um programa muito interessante e que tinha música, as bandas tocavam no estúdio, que é um formato que se perdeu um pouco, de certa forma, mas a seguir havia sempre também um momento de conversa e um momento de debate muito interessante. Eu recordo-me desse caso em concreto, por exemplo, na televisão mais do que no próprio "5 Minutos de Jazz".
Parece um programa bastante completo e diverso. Lembra-se em que canal é que era?
Eu diria que era na altura o chamado primeiro canal. Agora que estou a lhe dizer isto, não tenho a certeza absoluta. Eu penso que seria ou RTP 1 ou 2. Na altura, penso que o nome era mesmo primeiro canal ou segundo. Eu não me recordo em que canal é que era, mas era na RTP. Estamos a falar de final dos anos 80, início de 90.
Uma pequena pesquisa parece sim RTP.
Eu penso que sim, eu penso que era isso. E ele era um grande divulgador, teve muitas plataformas, muitas outras intervenções na rádio. Foi um dos fundadores de um dos primeiros sites de jazz, um bocadinho mais tarde, final dos anos 90, início dos 2000. Foi o fundador de um dos primeiros sites de jazz que houve em Portugal também. Claro que o José Duarte passou por muitas plataformas. A bibliografia dele é muito importante também, de muita coisa que ele publicou. Uma pessoa com uma atividade nesta área genérica da divulgação do jazz superimportante no nosso país.
Perguntava-lhe também se o Hot Clube pensa em ter algum tipo de homenagem. Ainda é muito cedo?
Com certeza. O Hot Clube, como sabe, está numa situação muito particular neste momento. Estamos muito limitados na nossa ação, porque temos a sede fechada como foi amplamente noticiado aqui já há um mês atrás ou há dois meses atrás. Mas claro, com certeza que sim. Acho que fará todo o sentido pensarmos agora quando for possível materialmente e fisicamente fazer essa homenagem, para além de uma homenagem sentida que todos nós fazemos de uma forma mais ou menos pessoal. Com certeza que sim, estamos a assinalar isso também na escola, vamos fazer uma pequena nota na nossa comunicação, mas a seu tempo penso que seria adequado fazer essa referência e essa justa homenagem. Infelizmente, as coisas são o que são. Nós temos andado a sentir nos últimos meses, já desde o final do ano passado, o desaparecimento de algumas pessoas históricas do jazz português. Temos vindo a ter várias perdas que nos sensibilizam muito, que são perdas mesmo do jazz. Estou a falar do Paulo Gil, estou a falar do meu pai, o Bernardo Moreira, antigo presidente do Hot Clube também, do Pedro Martins de Lima, o surfista, mas também um dos sócios fundadores, etc. Tem partido uma série de gente intimamente ligada à história do jazz em Portugal e agora com mais esta partida, é uma perda muito grande do jazz português.
Imagino. Já que estávamos a falar do Hot Clube, a câmara tinha prometido um novo espaço. Esta situação não teve desenvolvimentos?
Os desenvolvimentos estão todos em cima da mesa, está tudo a ser avaliado. Há dois planos. Há um plano mais definitivo, que obviamente implicará um prazo um bocadinho maior. Não podemos ter a ilusão de que vai ser uma solução milagrosa de um dia para o outro. Estamos a falar de um espaço mais definitivo que permita a instalação do projeto global do Hot Clube, que passa não só pelo Clube de Jazz, tal como o conhecemos, mas também com instalações mais adequadas para a Orquestra do Hot e também pra escola. Quando eu digo mais adequada, é uma situação que permita ser mais definitiva, porque a escola do Hot Clube funciona em Alcântara, mas também em instalações partilhadas e que também está a ser avaliada essa situação. Na procura de um espaço mais definitivo e Estão a ser estudados vários caminhos possíveis para estudar uma nova solução, que eu penso que poderá passar pela zona da Praça da Alegria, sem dúvida nenhuma. A questão do espaço provisório: estamos neste momento a estudar, porque vai ter que haver um espaço aberto muito em breve. Não há nada de muito concreto por enquanto, mas eu penso que muito em breve haverá em relação a três ou quatro possibilidades que estamos a analisar, mas que também têm alguns requisitos técnicos de segurança, de público, de palco, de qualidade acústica, etc. Também não é uma coisa completamente fácil, mas eu penso que num futuro muito próximo vamos ter novidades em relação a esse assunto.
Claro, não é apenas um espaço aberto, tem que ter tratamento acústico.
Tem que ter insonorização, tem que ter segurança para o público, é um espaço público de concerto, tem que ter a possibilidade de uma operação do serviço de bar, porque o Hot Club é um clube de jazz, é um bar. Há uma série de requisitos, tem que ter espaço para ter um palco, tem que ter um PA, tem que ter instrumentos, etc. E vai-se encontrar. Mas isso só para dizer que não é só imaginar uma área. É preciso um espaço que tenha condições para receber este tipo de projeto.
E essa procura está a ser feita em parceria com a Câmara ou a Câmara não tem tido papel?
Tem. Estamos a trabalhar ativamente com a Câmara. Claro que não podemos fechar a porta de repente a uma possibilidade que possa surgir por outra via, mas neste momento o nosso interlocutor preferencial, e tem acontecido e tem tido essa disponibilidade, é obviamente a Câmara, que é um parceiro muito importante neste processo todo.
Já agora, por curiosidade, têm falado directamente com o presidente ou com o vereador da Cultura?
Com todos. Temos falado com todos. Falámos já com o presidente, temos dado um contacto mais próximo com o vereador da Cultura e também com pessoas do seu gabinete e também com o Património, porque tudo isto envolve várias áreas das atividades da Câmara. Há a cultura por um lado, mas envolve património também por outro, porque estamos a falar de um espaço físico. E como eu disse, tem havido uma receptividade muito grande, uma abertura muito grande e estamos simplesmente a continuar as conversações a que já demos início aqui há umas semanas.
Seria bom, até para darem continuação à ideia de deixar uma homenagem não só a José Duarte, mas a tantos outros nomes de que me falou.
Claro que sim. Repare, é exatamente isso. O Hot sempre foi isso e vai continuar a ser isso, que é o espaço onde estas pessoas todas se encontravam. Basta dizer, claro que não foi só no Hot Club, mas as primeiras vezes, e se eu for pensar, essa estatística não a tenho, mas eu provavelmente, para falar agora de uma figura como o José Duarte e as longas conversas que tive com ele, eu e muitas outras pessoas, à volta do jazz, da música e às vezes com controvérsia e discordância e concordância, porque era isso o espírito saudável da discussão à volta desta música sempre foi essa, à volta de uma grande sinceridade e franqueza e cada um a defender as suas ideias. Se calhar, a maioria das vezes que eu tive a oportunidade de estar a conversar, a conviver e a conversar com o José Duarte, provavelmente foi no Hot Club. O Hot Club é o sítio onde nós nos encontramos. Os músicos, os divulgadores, o público, os amigos, esta comunidade grande à volta do jazz. O Hot Club é um espaço de pertença, onde as pessoas se encontram, onde se reúnem e onde falam, ouvem e tocam esta música. Portanto, é fundamental a reabertura do Hot Club. É fundamental não só para o Hot Club em si, porque de certa forma estamos a falar da sobrevivência do próprio Hot Club, na medida em que não consegue durar muito tempo sem ter um espaço aberto, isso é claríssimo, mas também para o jazz em Portugal, para os músicos, para os amantes desta música, que é um dos espaços, um dos mais importantes, não o único, felizmente, mas um dos mais importantes espaços do nosso país, onde as pessoas se reúnem à volta deste estilo de música que nos apaixona.