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Andreia Castro, médica de família, estava a trabalhar quando lhe chegaram as imagens da explosão.
Na noite em que houve a explosão eu estava a trabalhar, estava a trabalhar na urgência, e comecei a receber as imagens pelas redes sociais e na altura fiquei muito impressionada com a situação, mas depois voltei a trabalhar e passou-me. No dia seguinte, contudo, eu estava de folga, estava em casa. Comecei a receber sucessivamente as imagens da explosão, até que chegou a uma altura que eu tentei perceber o que ia ser feito para ajudar.
Foi aí que Andreia Castro contactou várias organizações e rapidamente percebeu que a burocracia ia ser um impedimento. Sem qualquer apoio, decidiu ir na mesma pelos próprios meios. Andreia chegou a Beirute no sábado de manhã, quatro dias depois da explosão, e pôs as mãos à obra.
Foi logo no dia em que cheguei. Dirigi-me imediatamente à Marques de Nestor Pereira, onde tem havido a maior parte dos conflitos, e fui a várias ambulâncias apresentar-me. Disse que era médica, que vivi em Portugal, tinha vindo para ajudar e se precisavam de ajuda.
Andreia Castro ajudou em ambulâncias, nas tendas de rua e nos hospitais, e o cenário era sempre o mesmo: falta de meios para ajudar todas as pessoas.
Os hospitais não têm material, não têm financiamento e não há medicamentos para dar às pessoas.
Da parte do governo, as ajudas têm sido muito limitadas.
Eu tenho noção que os hospitais não têm sido financiados. Portanto, um dos hospitais, pelo menos há dois meses que os médicos não são remunerados. Estamos a falar de uma situação em que temos um país com imensos problemas socioeconómicos, políticos, que têm sido vítimas do embargo, em que estão há muito tempo numa situação de autogestão. Temos também a questão do dinheiro, da inflação, que é uma inflação enorme. Tudo é extremamente caro e difícil de arranjar. Os próprios bancos não facilitam que o dinheiro das pessoas seja levantado, as pessoas não conseguem levantar todo o valor que pretendem e o que levantam desvaloriza automaticamente. Eles ficam com uma grande percentagem do valor. Além disso, temos também a situação da pandemia, em que os profissionais de saúde encontram-se extremamente desgastados nos últimos meses e temos agora o acrescento da questão da explosão.
Todos estes problemas levaram a que o povo libanês saísse às ruas. Andreia Castro esteve junto aos protestos a ajudar as pessoas e relata o medo que sentia.
Claro que se houvesse um coquetel Molotov mandado para a direção errada e pudesse atingir a ambulância, aconteceria o inevitável. Mas tentei sempre crer que haveria algum cuidado com os equipamentos de saúde e que, de certa forma, estaria minimamente protegida. Mas obviamente que andar nas ruas numa altura em que há conflitos, em que há pessoas de repente a correr e que se atropelam umas às outras e há lançamento de gás em simultâneo, vivi momentos que espero não ter que passar por eles novamente.
Das várias pessoas com quem Andreia Castro foi falando, ficou uma certeza.
As pessoas não acreditam que isto tenha sido um acidente. E isto é uma opinião geral. Eu já falei com muita gente sobre o assunto. As pessoas acham que isto teve uma mão interna, nomeadamente do Hezbollah, recusam-se a acreditar que tenha sido um acidente.
Encontrou um país destruído, sem esperança no futuro.
A rapariga que me acolheu perdeu dois amigos na explosão. Ela estava muito perto, estava a 300 metros, foi projetada, tem ferimentos, e das poucas vezes em que ela me fala e se quebra a falar sobre o assunto e que fragiliza, é quando ela me diz: "Eu não quero ser mãe, pelo menos não quero ser mãe neste país, porque este país não tem nada para dar às pessoas".
Há também histórias que Andreia garante que nunca vai esquecer.
Eu vi uma rapariga que é da Síria, tinha sobrevivido a três explosões na Síria. Esta é a quarta explosão e tem apenas 23 anos de idade, é muito jovem. Tinha todo o membro superior direito cheio de ferimentos, muitos deles estavam infectados desde o ombro até ao punho e tinha também muitos ferimentos na cabeça e muitos ferimentos na face. E esta rapariga praticamente quatro a cinco dias sem ser reavaliada, com pensos que não foram tocados e, portanto, com muitas feridas completamente infectadas, algumas das quais nós tivemos que mexer sem anestesia, porque lá a anestesia já não chegava para todos os pontos que nós tivemos que observar e que cuidar novamente.
De Portugal, Andreia Castro trouxe um carregamento de material médico que distribuiu por hospitais e pelas ONG. Angariou ainda mais de 8 mil euros através das redes sociais, mas não é suficiente.
Se não houver uma ação concertada no sentido de conseguirmos trazer quantidades importantes de material e de medicamentos, esta cidade não vai conseguir gerir estas situações todas em simultâneo, por muito que o governo diga que está tudo bem, mas que obviamente não está.
Andreia Castro regressa amanhã do Líbano, mas não descarta a possibilidade de voltar.