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Conosco em estúdio junta-se agora a nós também a Daniela Nunes. Obrigado por se juntar também a nós nesta emissão especial. Daniela, temos aqui, se calhar, o culminar de um longo tempo e de uma longa história que acaba por terminar desta forma, ou pelo menos neste momento estamos neste ponto.

É exatamente isso. Bom dia, Luís, também para quem nos ouve. Deixa-me começar por dizer que para mim, e para perceber o que está a acontecer hoje, é preciso começar por perceber também quem é esta figura, quem é Nicolás Maduro e por que é que Trump e os Estados Unidos estão à procura desta pessoa e capturaram esta pessoa. Maduro, de facto, não é um acidente da história venezuelana, ele é um produto direto do chavismo. Vem do aparelho sindical e partidário criado por Hugo Chávez e herda o poder em 2013, precisamente depois da morte de Chávez, numa eleição muito contestada e também muito marcada por sérias dúvidas acerca da sua legitimidade, como de resto aconteceu há menos anos ainda. E Maduro, ao contrário de Chávez, e este foi sempre o seu grande handicap, nunca teve o carisma nem o apoio popular tão sólido do seu antecessor e com o tempo, isso fez com que ele fosse fechando o regime na Venezuela. Ou seja, as eleições começaram a ser sempre altamente questionáveis, os opositores foram começando a ser afastados, as instituições começaram a ser controladas, os protestos começaram a ser reprimidos, por aí fora. Portanto, formalmente, hoje, ou pelo menos até esta madrugada, ele diz-se eleito, mas na verdade governa como alguém que não confia exatamente no voto. E obviamente isso a nível internacional fá-lo acumular um conjunto de acusações de corrupção, de violação de direitos humanos e muito especificamente para os Estados Unidos e para Donald Trump, de ligação ao narcotráfico. E é aqui que reside a importância fulcral desta figura para Donald Trump e para os Estados Unidos. Para Donald Trump, Maduro não é só um autocrata na Venezuela e não é só um motivo de compaixão em relação aos venezuelanos. Ele é um problema de segurança interna para os Estados Unidos. E como sabemos desde o século XX, com a Doutrina Monroe, os Estados Unidos sempre consideraram a América Latina como uma parte vital da sua segurança doméstica. Isto remete-nos, obviamente, para o período da Guerra Fria, em que, e é importante esclarecer, o objetivo dos norte-americanos não era o de controlar diretamente os países deste chamado quintal político, mas sim impedir que regimes hostis ou alinhados com potências rivais pudessem ameaçar aquela região precisamente comumente conhecida como um quintal político. Portanto, mais uma vez para os Estados Unidos, a América Latina nunca foi só a vizinhança, mas foi sempre uma questão de segurança regional e interna e uma questão que bate à porta diretamente dos norte-americanos. Portanto, para responder diretamente à tua pergunta, as minhas introduções são sempre algo longas.

Mas é importante também para contextualizar e perceber do que é que estamos exatamente a falar.

Exato, e de onde é que vimos, não só onde é que estamos, mas de onde é que vimos. As relações entre os Estados Unidos e a Venezuela não se deterioraram de um dia para o outro. Não foi exatamente com a última eleição altamente duvidosa de Maduro que as coisas se deterioraram, até porque estas relações vêm se degradando há décadas, há muitos anos, desde a chegada não só de Maduro, mas de Hugo Chávez ao poder, e agravaram-se profundamente, obviamente, com Maduro, com estas acusações constantes de autoritarismo, repressão, corrupção, por aí fora. Nos últimos meses, muito em particular, esta tensão intensificou-se de forma muito clara com a administração Trump a alimentar uma narrativa, por exemplo, com base no aumento de recompensas pela captura de Maduro, com o reforço de sanções à Venezuela, com a autorização de operações militares contra redes de tráfico provenientes da Venezuela. O que isto quer dizer? Quer dizer que a operação desta madrugada não surge do nada. É, na verdade, o culminar de uma situação de escalada que tem literalmente décadas. E portanto, só para concluir e para explicar aos nossos ouvintes que o que aconteceu hoje não é uma invasão dos Estados Unidos à Venezuela. Não há nenhuma forma de ocupação territorial, nem nenhuma forma de controle do país ou dos venezuelanos. Tratou-se, sim, de uma operação militar cirúrgica, muito limitada no tempo e no espaço, obviamente, teve de requerer algum alinhamento ou algum cruzamento de dados e de informações entre as forças norte-americanas e as forças venezuelanas, porque não foi disparado um tiro, as pessoas saíram ilesas.

Foi muito cirúrgico.

Foi muito cirúrgico, exatamente. E o que faz crer que o objetivo dos Estados Unidos se cinge realmente à captura deste homem e não ao de instalar um regime norte-americano. Não é o objetivo de fazer da Venezuela um satélite norte-americano, como de resto acontece noutras partes do globo, que também nos remetem para a Guerra Fria. Julgo que terei algum tempo aqui ainda nesta emissão para também regressar a esses paralelismos, nomeadamente com a Rússia e com a Europa de Leste. Isto para dizer o quê? Tratou-se de uma operação militar cirúrgica e não de uma invasão como aquela que vemos, por exemplo, no Donbass, por parte da Rússia.

E conseguimos fazer também essa análise no que diz respeito à oposição venezuelana, ou seja, aquilo que tem sido a evolução da oposição venezuelana e como é que ela chega aqui também a este ponto, tentando perceber também como é que poderá reagir agora também daqui para frente.

Luís, olha, não queria deixar aqui Um prisma demasiadamente pessimista em relação ao papel da oposição, mas a verdade é que ele, quer na Venezuela, quer noutras formas de autoritarismo pelo mundo afora, o papel da oposição cinge-se sempre muito a um universo do possível, quando aquilo de que estamos a falar é um regime autoritário. Nós sabemos que Maduro não ganhou as eleições legitimamente. O processo eleitoral foi altamente contestado, conforme continua a ser, mas a verdade é que ele já não está na Venezuela, mas o regime está lá. E isto está perfeitamente alinhado com a forma como eu acabei a intervenção anterior. O que aconteceu na Venezuela não foi, ou não está a ser para já, uma transição de poder, uma transição de regime, nem sequer foi o abatimento, se é que posso utilizar esta expressão, do regime ditatorial encabeçado por Nicolás Maduro, até porque a vice-presidente está neste momento a ocupar a posição de presidente interina.

E até porque não há de todo qualquer declaração por parte da oposição depois daquilo que se passou. Não há qualquer reação até agora.

Até porque é preciso ter algum cuidado. As instituições continuam a ser controladas pelo mesmo regime. Maduro continua a ter uma posição, se quiseres, quase espiritual dentro da Venezuela. O próprio ministro da Defesa, e isto convida também a outros paralelismos, na Rússia isto também aconteceu com Shoigu. As formas de autoritarismo são muito mais parecidas do que as democracias liberais, curiosamente. Há muito mais semelhanças entre regimes autoritários do que entre democracias, que podem ser muito diferentes entre si. Mas isto para dizer o quê? Isto para dizer que, se reparares, não é exatamente na Venezuela que as pessoas estão particularmente felizes e a deitar foguetes pro ar.

Há pouco vi até uma descrição de uma venezuelana que está em Portugal, mas que tinha informações de lá, que na Venezuela reina o silêncio.

Silêncio, exatamente. Por quê? Porque as pessoas, e justamente por se tratar de um regime autoritário, as pessoas que estão dentro da Venezuela estão a viver, neste momento, um misto de euforia, excitação e expectativa com medo e receio. Medo porque obviamente não sabem o que as forças do regime de Maduro ainda podem fazer, também elas face ao medo que estão a sentir. Porque de repente a figura central deste regime é capturada e vai ser levada à justiça norte-americana, como já adiantaram as últimas notícias. Portanto, a alma deste projeto está capturada. Resta saber se os demais, se os que lá ficaram, nomeadamente o ministro da Defesa, que é, aliás, um militar, e a vice-presidente, vão ter a capacidade, o tal carisma e o apoio popular, esse quase certeza absoluta que não vão ter, e aquele que tiverem, de certeza que é por via do medo. Vamos ver se essas pessoas vão ter o carisma suficiente para provar que conseguem tomar as rédeas do poder e fazer com que os venezuelanos dentro da Venezuela não saiam à rua, como os venezuelanos nas comunidades pelo mundo inteiro espalhadas e, em particular, na Flórida, estejam a sair. Isto para dizer o quê? Isto para dizer que não é exatamente na Venezuela que as pessoas estão a dar prova dessa euforia de que eu falava, porque as pessoas têm medo, porque o regime continua lá. E deixa-me dizer que, de facto, a continuidade do regime é um cenário possível dentro daqueles que eu destacaria como sendo três grandes cenários possíveis para o amanhã, que é como quem diz, para o futuro, que nós não sabemos se é daqui a uma semana, se é daqui a um mês ou se é daqui a um ano. Um desses cenários é precisamente a resistência armada e o caos. O caos político, o caos social, a continuidade da pobreza e quiçá o seu agravamento. E isto advém do quê? Da influência que o chavismo tem na Venezuela, à forma como a ala militar está tão intrinsecamente ligada à ala política, e portanto, a forma como o setor militar serve o poder político, eventualmente convidando a alguma forma de guerra civil ou a fraturas internas prolongadas no tempo. Por outro lado, embora me pareça pouco provável, também existe um cenário de um novo governo, portanto cai este regime, ao fim destes anos todos, e dá-se uma transição para um novo governo pró Estados Unidos ou pró-democracia liberal à la americana. Se realmente Maduro for detido e levado a julgamento, como entretanto as notícias fazem crer, pode realmente haver tentativas de instalar um governo democrático ou pró Estados Unidos. Mas eu julgo que isso não acontecerá tão brevemente assim. Até para não parecer que esta operação militar tinha esse propósito. Porque como já sublinhei, o propósito principal era o de capturar esta pessoa e ele foi cumprido com muito sucesso e com muita rapidez. Depois, existe um terceiro cenário, que é uma espécie de via D'Almeida, que é um acordo negociado, e negociado aqui à semelhança do que estamos a ver também nas outras guerras em curso, tanto no Médio Oriente como no leste da Ucrânia. Existe sempre uma possibilidade, neste momento, que as coisas estão muito frescas, algo remota, mas existe sempre uma possibilidade para alguma negociação, nomeadamente mediada por, passo a redundância, um mediador que consiga ver e posicionar-se dos dois lados da barricada. Exemplos: Brasil México ou as próprias Nações Unidas. Acho isto muito pouco provável nos próximos dias, que é como quem diz, nas próximas semanas ou quiçá nos próximos meses, porque está tudo muito fresco ainda.

Até porque quem sobreviveu, quem continua no poder na Venezuela, a vice-presidente, o ministro da defesa continuam a falar enquanto alguém que manda no país.

Exato.

E portanto, nada aparenta que eles vão sair do lugar, pelo menos não por os próprios pés.

E por isso, Luís, isso é que explica que as pessoas na Venezuela estejam mais contidas, exatamente porque Maduro já não está lá, mas o madurismo e o chavismo estão. Portanto, é preciso manter o mesmo cuidado de há décadas. Nós estamos a ver, sobretudo fora da Venezuela, estes focos de euforia. E eu há bocado estava a identificar o da Flórida, porque é onde reside uma comunidade gigantesca de venezuelanos, que esses sim, choravam e dançavam, eram seis e tal da manhã, e cantavam e dançavam e pulavam todos juntos, porque de facto, isto é um objetivo de há muitas gerações. Há pessoas que já viveram, já foram mães e já foram avós e continuam a assistir à luta e à resistência em relação a um regime que agora é encabeçado por Maduro, mas que já foi encabeçado por Chávez. E portanto, isto obviamente é um motivo para alimentar uma expectativa muito forte nestas pessoas. Mas sobretudo para aquelas que estão na Venezuela, é preciso conter essa expectativa e essa euforia, na medida em que, como digo, Maduro saiu, mas o regime continua lá. E até ver, quer estas duas figuras particularmente protagonistas, a vice-presidente e o ministro da defesa, ainda não deram nenhum sinal de fraqueza, ainda não vieram levantar nenhuma bandeira branca sobre "estamos disponíveis para negociar ou para conversar com quem quer que seja".

Antes pelo contrário, continuam convictos daquilo que é a posição deles.

Exatamente. E nestes casos, o silêncio pende sempre para o lado negativo das coisas. A não manifestação significa que as coisas ficam como elas estão, e como elas estão, é mau, obviamente. Sobretudo para os venezuelanos.