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A Direção-Geral da Saúde anuncia que foram confirmados em Portugal cinco casos do vírus monkeypox, entre 20 suspeitos, o vírus monkeypox ou varíola dos macacos. Margarida Tavares é diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e Infecção por VIH da Direção-Geral da Saúde. Boa tarde, doutora. Pedia que me explicasse exatamente que tipo de vírus é este e se há motivo para alarme, se as pessoas devem ficar preocupadas.

Muito boa tarde. De facto, é um vírus conhecido já há muito tempo. É um vírus que foi identificado pela primeira vez nos anos 50 em animais. É um vírus zoonótico e que também foi identificado em humanos ao longo do tempo, pela primeira vez em 1970, e depois disso tem havido vários surtos ou casos isolados, sobretudo na África Central e Ocidental, e também já houve alguns surtos fora da África, nomeadamente o primeiro em 2003 nos Estados Unidos, associados também ao contato com animais. Neste momento, os casos que referiu são em humanos. Não há história, não há conhecimento, para já, de nenhum contato com animais, obviamente. Nós também sabemos que a transmissão entre humanos é possível. É um vírus que não se transmite com uma grande facilidade entre humanos, mas transmite-se se houver um contacto próximo e prolongado, nomeadamente contacto com as lesões cutâneas ou mucosas que costumam caracterizar a apresentação deste vírus, desta infeção. Os casos que temos até agora são casos ligeiros, em termos de gravidade clínica, e, portanto, a grande maioria das situações será dessa natureza e não é uma situação que temos que estar muito atentos. Vamos acompanhar os próximos casos, porque há outros casos suspeitos que estão ainda a ser investigados. Também vamos investigar melhor estes casos que já são confirmados. E vamos acompanhar também a situação que está a ocorrer em Inglaterra, com a qual nós ainda não sabemos se existe alguma ligação, mas estão a ter também casos idênticos, também de gravidade muito ligeira e, portanto, é considerado neste momento pelas autoridades de saúde um baixo risco em termos de população em geral, mas obviamente vamos estar atentos à evolução desta situação, ainda muito precoce.

Há pouco falávamos no surgimento de surtos ao longo dos anos. Podemos falar aqui no surgimento de um novo surto ou os números ainda são baixos para assim o classificar? Ainda não se pode falar num surto.

Podemos classificar dessa forma, porque, de facto, não é uma situação esperada. Sempre que nós falamos de um aumento acima daquilo que é o esperado de o número de casos de uma determinada infeção, nós a partir daí podemos falar de um cluster de casos ou mesmo de um surto. Sim, podemos, porque é acima daquilo que é esperado, porque não é de esperar que esta doença circule, que esta infeção circule, que este vírus circule entre nós.

Certo. Uma dúvida que eu tenho aqui, doutora, é a situação dos cinco casos confirmados em Portugal. A doutora falava-me que são casos ligeiros, é o que indica também o comunicado da Direção-Geral da Saúde. No entanto, pergunto-lhe se estes cinco portugueses ou se estes cinco casos em Portugal estão hospitalizados, precisaram de cuidados hospitalares, se têm que fazer quarentena, como é que funciona? Ou seja, se eu agora tiver a confirmação de que estou infetado com este vírus, tenho que cumprir quarentena, se sim, de quantos dias, como é que funciona?

Isto tudo vai ser obviamente melhor explicado no futuro, em colaboração com as autoridades europeias também. Mas não, estes casos que foram identificados são todos casos em ambulatório, portanto, não foram hospitalizados, não carecem de hospitalização. O que é recomendado para uma pessoa que é caso confirmado, suspeito ou provável, de facto, é que se abstenha de contacto físico próximo com outras pessoas e que o faça enquanto mantiver estas lesões características, estas lesões cutâneas. Para já, essas informações são aquelas que são as mais corretas. As pessoas que contactaram com essas pessoas, elucidaremos melhor ao longo do tempo, mas enquanto assintomáticas, não oferecem qualquer tipo de risco de transmissão e devem, sim, estar atentas à possibilidade de surgirem alguns sintomas gerais, nomeadamente acompanhados de febre ou algumas lesões cutâneas ou mucosas.

A taxa de mortalidade é preocupante. Eu creio que o ECDC, o Centro Europeu para o Controlo de Doenças, fala numa taxa de mortalidade de 10%. É grave ou é preocupante?

Classicamente, é essa a letalidade. De facto, a mortalidade entre as pessoas que adquirem a infeção é essa que está reportada. No entanto, devo ressalvar que essa é uma letalidade resultante daquilo que aconteceu nos países africanos onde tem sido identificada, nomeadamente nos países da África Central e Ocidental. E ao longo destes últimos Dezenas de anos. Portanto, obviamente que é fácil de concluir que hoje em dia, num país com os meios e o Serviço Nacional de Saúde e todos os meios que existem ao nosso dispor, não é provável que essa taxa se mantenha. Isto para dizer que nós não temos certeza de como é que podemos quantificar essa letalidade, mas será seguramente inferior, no meu ponto de vista, pelo menos o vírus a manter-se como nós o conhecemos até hoje, a 10%, sem dúvida. E como lhe digo, todas essas situações são situações muito ligeiras, quer as que estão a ocorrer em Portugal, quer as que ocorreram também e estão a ocorrer e estão a ser identificadas no Reino Unido.

Doutora Margarida Tavares, só mesmo para terminar, pergunto-lhe: como tratar este vírus? Algum tratamento especial já definido? Alguma vacina? A vacina da varíola pode ser suficiente?

São questões que precisaremos de voltar nos próximos dias, mais uma vez, também. Não existe nenhum medicamento aprovado para o tratamento deste vírus, embora se saiba que existem alguns antivíricos que poderão ter ação neste vírus, mas que não serão considerados como alternativa nas situações normais e, como lhe disse, autolimitadas, ou seja, as pessoas recuperam por si próprias facilmente, ao longo de algumas semanas, recuperam o seu estado de saúde habitual sem qualquer tratamento, a não ser os tratamentos sintomáticos habituais que nós fazemos nestas situações de doenças febris. A vacina da varíola pode conferir alguma proteção cruzada, mas ainda também não é consensual, em termos de orientações europeias e da Organização Mundial de Saúde, se será de utilizar ou não em algumas circunstâncias.

Certo, é uma situação que vamos ter que continuar a acompanhar.

Exatamente, é muito precoce e não nos podemos, de facto, precipitar a interpretar algumas coisas.