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O primeiro-ministro israelita não adianta informações sobre o calendário desta ação militar que pretende expandir em Gaza. Está connosco em directo nesta edição o Major-General João Vieira Borges. Muito obrigada pela disponibilidade. Esta conferência de imprensa foi feita numa altura em que Netanyahu está sob forte pressão internacional para recuar na ocupação a 100% da Faixa de Gaza. Que avaliação é que faz às respostas que deu aos jornalistas estrangeiros e o que é que lê nas entrelinhas?

Muito boa tarde. Eu acho que ele está sob pressão também interna, mas sobretudo internacional. E nesse aspecto, aquilo que li nas entrelinhas foi um discurso muito político, porque entre ocupar e libertar Gaza a diferença não será grande. Em termos militares, a missão vai ser uma missão particularmente difícil, mas ele também soube usar a linguagem política para rapidamente antecipar as perguntas dos jornalistas. Ou seja, a questão humanitária, que era a questão que inclusivamente o chefe de Estado-Maior punha em causa desenvolver uma operação destas, estando a situação que está em termos reais. Ele, na prática, passou logo as culpas. Ele não desmente a situação crítica que está, usa outras palavras, mas passa sempre as culpas para o Hamas, porque interrompeu.

Continua a negar que há fome em Gaza.

Exato. Na prática, acha que é propaganda do Hamas que interrompe sistematicamente o abastecimento e, por outro lado, culpa também as Nações Unidas, que não distribuem adequadamente, segundo as suas palavras há pouco. E portanto, essa é uma questão que ele remete as culpas para outra parte, mas por outro lado, é muito estranho ele fazer comparações com Rafah, em termos da deslocalização da população. Nós estamos a falar da cidade de Gaza, é muito diferente de Rafah, o número é muito maior, a população está numa situação completamente diferente. O deslocamento da área maior para a área menor é muito mais difícil. Na prática são dois objectivos, que é a cidade e depois aquela parte central que nós podemos ver onde caem os pára-quedas, que é a zona de Mahali. E portanto, são duas áreas enormes. Vamos deslocar mais de 1 milhão de pessoas para outras áreas menores, o que vai fazer com que, certamente, nem toda a gente se vá deslocar. Vai ser muito difícil em termos de operação militar. E já agora, se me permitem, já começo a ver entre os militares israelitas, tanta necessidade de haver convocatórias. Portanto, o planeamento em simultâneo vai durar certamente mais de uma semana para esta operação militar, porque obviamente o planeamento tem que ser muito cuidadoso.

E terão de ser destacados reservistas. Há essa notícia também. Não desta conferência, mas tem sido propalada, sim.

Sim, são as notícias que começam também a aparecer, não só nas redes sociais, mas também já oficialmente até na própria "Times of Israel". E, portanto, não vai ser uma operação fácil. Agora, por outro lado, se me permite, há aqui uma ação conjunta, a nível das Nações Unidas, de pressão sobre Israel.

Hoje o Conselho de Segurança da ONU está reunido, até.

Sim, parece que se tentou antecipar, não é? De maneira a dar já uma resposta política, mais política que estratégica e militar, porque ele não desenvolve muita parte do plano. Também é bom que não desenvolva, porque senão também o Hamas fica a saber tudo. Mas de qualquer maneira, foi pressionar a comunidade internacional, que esta é a decisão melhor, como ele diz, e é a decisão mais rápida. Portanto, ele diz que é a melhor e a mais rápida. Ele já deu as respostas a perguntas que eventualmente lhe podiam fazer. De qualquer maneira, é uma situação que, se me permitem, pode pressionar aquilo que é o plano de paz que está a ser desenvolvido em conjunto. Ele continua a ser trabalhado em Doha. Há pouco tive informações nesse sentido e portanto, isto também é uma pressão sobre o próprio Hamas, da parte quer dos Estados Unidos, quer da parte do Egito, quer da parte do Qatar, porque é melhor antecipar. No fundo, ele está a dizer: "Tem uma semana", tendo em conta que o planeamento é uma semana, "tem uma semana para que o Hamas se renda". Basicamente, é isto que ele está a fazer. E portanto, ou que se renda ou que desista da opção militar e que vá ao encontro daquilo que foi a decisão de Nova Iorque, que era no fundo, uma decisão que, ao contrário do que alguns pensam, era a decisão mais de bom senso e aquela que transformava o Hamas numa organização política com aquilo que já se passou com a LP há uns anos atrás. E com sucesso, em determinada altura. E portanto, há aqui antecipação dele, vamos ver, porque ele não tem muito receio da pressão internacional. Ele tem mais receio da pressão dos Estados Unidos. Vamos ver também-

Só os Estados Unidos têm poder para fazer Netanyahu eventualmente recuar, embora não pareça que vá fazê-lo.

Claramente, Vanessa, eu não tenho dúvidas. Ele está mais preocupado com a reação agora dos Estados Unidos a esta sua intervenção, e àquela que vai ter mais logo, é mais interna, mas que os Estados Unidos estão atentos, do que propriamente relativamente à comunidade internacional, que é acusada tanto por ele, como infelizmente pelos Estados Unidos, na minha perspetiva, de que o Hamas ganhou uma nova vida com aquela decisão. Aquela decisão ia pôr o Hamas numa situação que eu tenho a impressão que vai ser pior do que qualquer destas que nós vamos ver, em função desta modalidade de ação, que é assim que nós chamamos, da parte já tomada, da parte Netanyahu.