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Bruno Vieira Amaral aqui conosco em estúdio. Que marca deixa António Lobo Antunes para a literatura portuguesa?
É uma marca fortíssima. Quando António Lobo Antunes surgiu no final dos anos 70, transformou por completo, foi mesmo uma tempestade na literatura portuguesa, gerou muitos imitadores, influenciou muito as gerações seguintes. Eu acho que foi, dos escritores do último meio século, o mais influente. Era quase inevitável que os escritores que iam aparecer seguissem, tentassem seguir a sombra de António Lobo Antunes, mas ele, de facto, tem uma voz poderosíssima, que despertava esse desejo de imitação, mas que era, na verdade, inimitável. Muitas vezes dizia-se que António Lobo Antunes, sobretudo na fase tardia da sua carreira, estava sempre a escrever o mesmo livro, mas a verdade é que se olharmos para esses livros, vemos muitos temas, muitos retratos de muitos Portugais diferentes que couberam aí. Não é só a questão da guerra colonial, que foi muito importante, sobretudo nos seus primeiros livros. Há muitos Portugais presentes nos livros, desde o Portugal periférico, suburbano, ao Portugal da alta sociedade, do mundo dos banqueiros, que ele conhecia bem. Há aquela máxima do Balzac que um romancista deve conhecer, deve vasculhar todos os setores da sociedade para poder fazer o seu romance e António Lobo Antunes tinha essa capacidade de ir a mundos muito diferentes e trazê-los, uniformizá-los através da sua voz. O que é verdadeiramente revolucionário e decisivo na obra de António Lobo Antunes é a sua voz literária. Ele dizia que ninguém escrevia como ele e a verdade é que ninguém escrevia como ele. É uma voz que se afirmou. No início, encontra bastante resistência. É o caso da atribuição do prêmio API em 1985, que há uns anos estava a ler a decisão do júri e não foi consensual a atribuição desse prêmio a António Lobo Antunes, porque o seu estilo gerava alguma resistência, mas acabou por se impor. E houve ali uma altura, claro, que a literatura portuguesa praticamente se dividiu num Benfica-Sporting, José Saramago e António Lobo Antunes. Mas a verdade é que eu acho que são os dois dos poucos gigantes universais que a literatura portuguesa produziu.
Já vamos continuar a conversa, Bruno, deixa-me só aqui também dar nota de uma nota de pesar da Dom Quixote, a editora Dom Quixote, que dá conta da profunda tristeza com que recebeu esta notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos leitores e admiradores. A editora Dom Quixote compromete-se a continuar a trabalhar e promover a obra de Lobo Antunes, sublinhando também que a importância desta obra ultrapassou fronteiras e lembra um escritor que dedicou toda a vida à literatura, prestando também essa homenagem e deixando as condolências à família, aos amigos e também aos leitores. Bruno, de que forma a editora pode continuar a promover esta obra e que trabalho a editora deve fazer também para que a obra de Lobo Antunes continue a ser recordada como merece?
Esse é um problema dos escritores de todos os tempos. A verdade é que quando vem a morte, a obra acaba por ser menos discutida, menos divulgada. Isso acontece em todos os tempos. Há uma grande exceção, que é a de José Saramago, olhando para os últimos anos, que teve o Prêmio Nobel, que o alturou muito, e o trabalho também da Fundação Saramago, que tem feito muito pela divulgação e pela promoção da obra de José Saramago e, por arrasto também, de toda a literatura portuguesa em muitos eventos internacionais em que a literatura portuguesa é divulgada a reboque do nome de José Saramago e do Prêmio Nobel. José Saramago atingiu esse patamar que nenhum outro escritor português contemporâneo alcançou. Mas a obra de António Lobo Antunes é igualmente valiosa. Não tem esse motor do Prêmio Nobel, é verdade, que eu acho que seria merecido, poderia perfeitamente ter lhe sido atribuído. E ele também percebeu que não seria. A partir do momento em que foi atribuído a José Saramago, ele teve noção que muito dificilmente acabaria por receber o Nobel. Há muito que é possível fazer. A editora tem feito, através da publicação das obras. Há muitos estudos, não só a nível nacional, mas em universidades internacionais dedicados a Lobo Antunes. Por esse aspecto, eu acho que não corre perigo de ficar esquecida. Depois, há um trabalho junto do público, de fazer chegar essa obra ao público leitor, às novas gerações. Esse é um trabalho que terá ser feito a partir de agora. Não sei se através da criação, por exemplo, de uma biblioteca, através de uma fundação. É preciso fazer mais do que apenas a publicação dos livros. Eu acredito que é do interesse não só da editora, mas até do próprio país, através do Ministério da Cultura, contribuir para a preservação e divulgação da obra de António Lobo Antunes.