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Miguel, 2020 é um ano atípico, também o é na moda, a moda não escapa. Enquanto designer, enquanto criativo, que impacto é que este momento tem no seu trabalho e na sua dinâmica criativa?
Obviamente que estamos a passar uma fase que nunca ninguém pensou que tal situação acontecesse. E obviamente que tem sempre grandes impactos em todas as áreas. À área da moda, o impacto é bastante grande. Eu tive lay-off o meu ateliê e, pela primeira vez na vida, consegui descansar e estar um bocado mais descansado. Nós fechamos sempre o nosso ateliê durante o mês de agosto pra férias. E eu ando sempre numa vida de aeroporto, malas e hotel. Sempre a acumular milhas. E pela primeira vez, ao longo de não sei quantos anos, consegui estar a descansar em casa durante bastante tempo. E esse bastante tempo que eu estive a descansar, não estive a desenhar, não tive vontade de o fazer. Quis pura e simplesmente descansar e poder, sobretudo, refletir e repensar muitas coisas. Obviamente que a área da moda é uma das áreas muito castigadas com toda essa situação, porque muitas das vezes não é propriamente um bem tão importante como produtos de supermercado, de alimentação, etc. E há que realmente ter que reinventar e reestruturar toda uma série de coisas. Se eu dissesse que desenhei, não desenhei. Eu peguei em várias coisas pra poder desenhar a coleção e pensar, mas acho que não tinha atmosfera, não tinha clima. E eu sempre quando é pra desenhar coleções, eu preciso estar a ver pessoas, preciso estar a ver o design dos hotéis, a decoração dos restaurantes, ver pessoas na rua. Eu preciso disso tudo. E não propriamente, no momento, ter um espaço ótimo onde estive no confinamento, não é o espaço ideal pra poder estar a desenhar. É pra poder até descansar, mas, sobretudo, pensar. E esse pensar, sobretudo, tem a ver um bocado com esta coleção que eu apresento agora, que é uma coleção, em que eu faço uma remodelagem à minha parte, nomeadamente de homem. E essa remodelagem, no que diz respeito a casacos, fatos, calças e por diante, é, sobretudo, uma remodelagem que tanto possa ser um bocado ambígua, que tanto possa usar o homem e possa usar a mulher. Há uns tempos pra cá, eu tenho tentado abordar muito essa área, em pequenos detalhes, nomeadamente unhas dos homens pintadas ou um pouco de maquiagem, etc. Isto não é uma questão de dar um ar feminino à coisa, mas dar um ar completamente diferente. E consegui ajustar, nomeadamente, a parte de remodelagem, foi o meu trabalho, no fundo, quando estive em isolamento, no sentido de poder fazer com que o fato tanto dê pra homem como dê pra mulher. Isso acho que foi a grande vantagem que eu consegui, no meio desta confusão toda, deste trambolhão de todo, conseguir fazer. Obviamente que tudo se tornou muito mais complicado. Quando digo que tornou muito mais complicado, sobretudo porque, a partir do momento que existe uma feira em Itália que deixa de existir, nomeadamente uma feira pra comprar matérias-primas, que é onde eu estou habituado há muitos anos vou fazer. E que eu durante quatro dias tenho uma coleção pra ver tecidos às nove horas da manhã da Cerruti, às dez da Loro Piana, às onze da Zegna, ao meio-dia da Canoni. Portanto, durante quatro dias, obviamente que teve que haver uma situação altamente complicada, que foi desses quatro dias anulá-los, porque a feira só aconteceu um dia, eu não fui a essa feira sequer, e passar a ver as coisas no ateliê, todas as coleções. Obviamente que o trabalho é logo a dobrar. E, sobretudo, é repensar em tudo e eu acho que também o cliente, no fundo, apesar de as lojas não estarem a vender tanto quanto gostariam ou igual ao que acontecia nos anos anteriores, os clientes de loja estão cada vez mais exigentes. Querem coleções mais completas, querem coleções maiores, quando mesmo fazendo a normal coleção já é uma confusão muito grande, porque as matérias-primas não chegam, porque demoram meses a chegar, porque as fábricas estão fechadas lá fora no estrangeiro, matérias-primas, porque os fechos não chegam, os botões não chegam, porque nada chega e torna-se complicado. Quer dizer, chega, mas demorar a chegar, não é no timing certo. Portanto, preparar essas coleções torna-se muito mais complicado.
Teve um pouco mais de trabalho, também parece-me que teve tempo para uma reflexão. Nos últimos dias também temos assistido a uma certa adaptação dos designers em relação ao formato em que apresentam as suas coleções, menos manequins, formatos alternativos ao desfile. Pra hoje, o Miguel não foi exceção e também preparou aqui um cenário especial.
Eu tive essa experiência porque faço o calendário oficial da moda italiana e fiz o meu desfile agora há um mês. E entretanto, já foi repensado todo o desfile. E o que acontece? Acontece que o desfile foi um vídeo, foi feito apresentar um vídeo digital, na qual acontece que é algo que dá 10 vezes mais trabalho do que fazer um desfile normal, porque é preciso situações completamente diferentes a que não estamos habituados. E fazer um filme em que antigamente, há uns tempos atrás, quando eu apresentava a minha coleção na Fashion Week de Milão, sente-se um fosso grande entre a Miguel Vieira e uma Prada, uma Gucci, etc., porque são grandes marcas, estão cotadas na bolsa, têm muito dinheiro pra investir. Já sentia-se um fosso. Neste momento, o fosso cada vez é maior, porque neste momento, essas grandes marcas também fazem os filmes digitais, os vídeos, etc. Só que estamos a falar, vou inventar, mas vão buscar o Steven Spielberg, grandes realizadores e têm investimentos megalómanos na criação desses desfiles. Nesses vídeos, que são quase que filmes autênticos, longas-metragens, apesar de serem curtas, mas todos os ingredientes necessários para fazer o filme estão lá colocados. E obviamente que eu não tenho o budget para poder fazer. E apesar de correr muitíssimo bem todo o desfile e correr muito bem toda essa parte, mas estamos a falar que se nota um fosso maior. Eu tenho que trabalhar muito mais para poder acompanhar essas marcas. Aqui irá acontecer a mesma coisa, será o desfile que foi apresentado em Milão através de um vídeo. No entanto, a única diferença que vai existir, e que é preciso também reinventar sempre as situações, há uma parceria entre o Miguel Vieira, o Portugal Fashion e a Vogue Café, na qual, através da Vogue Café, vai haver um menu que vai estar no café Vogue Café, em que tem três coquetéis Miguel Vieira e vão ser apresentados hoje. Um coquetel que chama-se Pink Garden, que é um coquetel rosa, que tem a ver com as cores rosa que vai começar no desfile. Depois tem um Blue Capri, que é as cores azuis das roupas e os manequins também vestidos com essas respectivas roupas e com os coquetéis também azuis. E depois vai haver um que é Biscuit Brown, que é um bege, que é os tons também bege. E serão apresentados hoje aqui esses três coquetéis, que serão comercializados no Vogue Café e que têm a ver com as cores da coleção que eu apresentei em Milão e que depois irá apresentar-se o vídeo que apresentei no desfile, na Fashion Week Milão.
Miguel, acha que passado este período mais atípico, o setor da moda e esta indústria vai retomar a normalidade ou acha que há situações que não vão voltar a ser iguais ao que eram?
Eu estou ansioso, esperançoso, que isto tudo pare e que as coisas tornem-se outra vez normais. Eu sou se calhar um bocadinho old school e eu sinto muita falta no desfile das palmas, sinto falta do contato dos cabeleireiros, sinto falta do contato dos maquiadores, sinto falta com os produtores, com os jornalistas, com tudo. E eu não sou um homem de distâncias, eu sou um homem de afetos, sou um homem de abraços, sou um homem de toque. E tudo o que está se a passar neste momento é algo que, muito francamente, não é do meu agrado. É 10 vezes mais trabalhoso, como acabei de explicar, mas é algo muito impessoal, é algo muito distante, é algo que não me atrai. Olhei para a moda sempre, desde os inícios da moda, desde os inícios mesmo dos grandes costureiros, de poder ver o desfile, o manequim, a passarela, toda a mise-en-scène que envolve um desfile. Que é a chegada dos convidados nos carros, o entrar para o desfile, ver a pessoa do seating. Tudo isso me fascina. Tudo o que está a acontecer agora é muito: "Ok, eu vou ver um vídeo na internet, eu vou ver um vídeo no telefone, no smartphone". Não é algo que me seduz. Quero urgentemente que isto mude.