Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Que benefícios tem este estudo para o contexto económico atual? Várias razões. Em primeiro lugar, acho que é um prémio muito importante e acho que foi uma boa escolha da Academia Sueca. Neste caso, não foi da academia, estão ligados do Banco Central, porque o Prémio Nobel de Economia é dado pelo Banco Central da Suécia. De qualquer forma, os princípios são idênticos aos dos restantes Prémios Nobis, que têm a ver com contributos para o progresso dos respectivos campos científicos. E há uma coisa engraçada, é uma nota pessoal, mas que eu não quero deixar de referir, é que eu acabei de chegar de Estocolmo precisamente. Por razões familiares, estive lá precisamente na semana passada e tive a oportunidade de ver todo o movimento que está à volta da atribuição dos Prémios Nobel e é, de facto, uma situação muito interessante. Este foi o último, enquanto eu lá estive outros Prémios Nobel foram atribuídos, mas relativamente ao Prémio Nobel de Economia, é interessante dizer que vem na sequência do Prémio Nobel de Economia dado o ano passado, porque a temática é a mesma, é a temática do crescimento económico e particularmente com foco no crescimento endógeno e nos fatores que precisamente incentivam o crescimento económico. Portanto, há uma certa sequência. Aliás, à semelhança do ano passado, também são três economistas que receberam o Prémio Nobel, de diferentes nacionalidades, mas que convergiram em termos das matérias em estudo. O Mokyr, aquilo foi uma coisa curiosa, porque metade é dada a um, depois a outra metade é dada aos dois. A primeira metade é dada ao Joel Mokyr, que tem, sobretudo, um pendor mais histórico em termos da investigação histórica sobre o crescimento económico, sobre o crescimento endógeno, o crescimento sustentado e o papel precisamente da tecnologia e os prémios atuais. E estou a falar do prémio atual. O ano passado teve muito a ver com o crescimento endógeno. Este ano é mais colocado no papel da tecnologia. Este Mokyr faz, como eu disse há pouco, a abordagem mais histórica, os outros dois, o Aghion e o Howitt, mais em termos da análise da inovação, do papel da chamada destruição criadora. E liga-se muito com problemas que atualmente estão a ser discutidos, que têm a ver com a política industrial e a necessidade de retomar a política industrial. A política industrial esteve durante muito tempo posta para segundo plano, no sentido de se dizer que no fundo o mercado se encarregava de gerar as transformações que eram necessárias ao crescimento económico. E num contexto em que o crescimento económico está fraco em todo lado, no mundo inteiro, mas particularmente na Europa, novas abordagens em termos daquilo que se pode fazer para promover o crescimento é importante. E penso que a atribuição, quer do Nobel deste ano, quer do Nobel do ano passado, a investigadores, a economistas que centraram a sua atenção precisamente nas transformações estruturais e no crescimento económico e no papel da tecnologia e da inovação associada à tecnologia, penso que é muito significativo, no sentido de alertar para a necessidade de pensarmos de forma integrada e a médio e longo prazo os problemas económicos. Ou seja, o mercado tem um papel, mas não é o único. E é preciso pensar a médio e longo prazo, sobretudo tendo em conta que neste momento estão a ocorrer transformações estruturais muito profundas a nível da economia, estão a emergir novos países, novas potências económicas, particularmente a China, mas não só. E nesses países tem havido uma atenção muito particular à questão do médio e longo prazo, à questão das políticas económicas, da coerência das políticas económicas, da transformação tecnológica, coisa que foi de certo modo relegado para segundo plano nas chamadas economias avançadas. E curiosamente, agora a ideia da política industrial, da nova política industrial, está recuperada. Na Europa, foi um choque o relatório Draghi, quando ele chamou a atenção para o gap tecnológico da Europa relativamente à China ou aos Estados Unidos, e à necessidade, de facto, de haver políticas integradas que sejam orientadas precisamente para promover o crescimento e dentro daquilo, a necessidade de uma nova política industrial europeia. Mas também os Estados Unidos estão preocupados com isso, porque têm o exemplo positivo de países como a China, a Índia, mas outros países também no passado, a Coreia do Sul, o próprio Brasil, teve também momentos importantes de transformação estrutural E portanto, estas ideias da inovação, da tecnologia, da programação a médio e longo prazo, são ideias muito importantes e que mesmo para Portugal são extremamente úteis. Em Portugal também se discute opções em matéria de desenvolvimento económico e acho que este Prémio Nobel deve-nos obrigar a refletir sobre a especialização que está a ocorrer na economia portuguesa. A enorme dependência de um setor em particular, mas não só, que não requer, por exemplo, mão de obra muito qualificada, ou requer muito pouca mão de obra qualificada, e em contrapartida, o resto da economia está a ter dificuldade em integrar uma mão de obra jovem cada vez mais qualificada que o país está a produzir e de certa maneira está a incentivá-los a ir para o exterior. Isto são tudo aspectos que merecem uma reflexão atenta, profunda, uma discussão que não se pode situar apenas no terreno político e ideológico. É importante despirmo-nos de preconceitos e de a prioris políticos e ideológicos para olhar para os problemas efetivos, para os problemas objetivos da economia e procurar encontrar respostas conjuntas para os problemas que a economia de facto neste momento tem. E no caso concreto de Portugal, e reforço essa ideia, deve-nos levar a pensar na necessidade de reintroduzir o vetor estratégico na nossa economia, de pensar a médio e longo prazo, de no fundo recuperar uma ideia desenvolvimentista que já existiu no passado e que produziu resultados e que obviamente tem de ser novamente repensada e reintroduzida na economia, não para repetir o passado, mas para pensar os desafios do futuro atuais e o melhor modo de facto nele intervirmos e de o orientarmos no sentido que consideramos mais positivo. Portanto, estou contente, são pessoas e são economistas com os quais ao longo da minha carreira tive a oportunidade de contactar através dos seus trabalhos, dos seus estudos e de utilizar nas minhas próprias atividades como docente e como investigador, mas também tive a oportunidade de tentar ser mais próximo até pessoalmente há já bastantes anos. E lembro que, não sei se se recorda, mas na primeira metade, fim de 2005, 2006, na primeira para a segunda metade da primeira década do ano 2000 em Portugal, havia também, e até foi falado, do choque tecnológico, não sei se se recorda, mas da importância dada à inovação e à transformação tecnológica. As coisas na altura foram colocadas em termos de um choque tecnológico que a economia portuguesa precisava de ter. E estes autores, quer o Aghion, quer antes os Nobais do ano passado, particularmente o Acemoglu, tiveram na altura, pouca gente se lembra disso, mas tiveram até, creio, em Portugal em iniciativas ligadas precisamente a esta, na altura a discussão que se fazia relativamente à importância da transformação tecnológica. Há cerca de 20 anos, em Portugal, já se pensava nestas ideias do crescimento endógeno, da sustentabilidade do crescimento, do papel da tecnologia, da necessidade de transformação estrutural da economia, sobretudo desta necessidade de pensar a médio e a longo prazo em termos estratégicos. Portanto, também aqui uma nota de uma certa satisfação pessoal por ver que muitas ideias que depois acabaram por ser relegadas para segundo plano, estão em termos internacionais neste momento no primeiro plano novamente. E isso é visível com a atribuição do Nobel. E também lembro aqui e chamo a atenção para o World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional, que vai ser apresentado publicamente ou hoje ou amanhã, não tenho agora aqui a data certa, mas entretanto já saíram dois capítulos, já houve uma publicação prévia de dois capítulos, um centrado nas economias emergentes e em desenvolvimento e outro centrado nas economias avançadas. E curiosamente, de certa maneira por antecipação, toda esta problemática das políticas industriais, do seu papel e do modo como podemos promover as políticas industriais, enfim, dos cuidados que é necessário ter relativamente à coerência das políticas, já lá está. E foi antes da atribuição do Prémio Nobel. Aqui uma coincidência muito interessante, que eu julgo que é importante ver, estudar e discutir e que seguramente nos próximos tempos vão mobilizar as atenções dos nossos economistas, particularmente num contexto em que Portugal também tem que olhar para frente e para o futuro. António Mendonça, muito obrigada.