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Junta-se a esta edição do Meio Dia o especialista em política norte-americana, Nuno Gouveia. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade. Nuno, este anúncio de Donald Trump surge um dia depois do presidente norte-americano ter dado 48 horas ao Irão para reabrir o Estreito de Ormuz. Passamos em poucas horas de um tom ameaçador para um discurso de esperança da resolução do conflito pela via diplomática. Como é que interpreta estes dois sinais aparentemente contraditórios?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que Donald Trump já nos habituou a estes golpes e contragolpes no seu discurso e na sua ação. Nós iniciamos o fim de semana com notícias vindas dos Estados Unidos a revelar que haveria negociações a decorrer entre os Estados Unidos e o Irão, mas que depois foram ofuscadas por esta ameaça, por um ultimato que Donald Trump fez ao Irão para abrir o Estreito de Ormuz em 48 horas e portanto havia a dúvida do que é que Donald Trump iria fazer passadas as 48 horas. E Donald Trump optou por não esperar pelas 48 horas e simplesmente anunciar que não iria atacar as infraestruturas energéticas. Foi curioso também perceber que este anúncio de Donald Trump surge antes das bolsas americanas abrirem, pois a situação econômica e a situação também da bolsa americana não está famosa e Donald Trump, certamente preocupado com o impacto que iria ter este ultimato, antecipou-se à abertura dos mercados nos Estados Unidos e fez este anúncio. Eu acho que é um bom sinal, pois todos percebíamos que se os Estados Unidos, de facto, atacassem as infraestruturas energéticas, isso iria suscitar uma reação do Irão que poderia ser catastrófica para os interesses da economia mundial. E, portanto, este anúncio de Donald Trump pode abrir caminho para uma resolução deste conflito, que está a ter fortes impactos na economia mundial e também internamente nos Estados Unidos, pois esta é uma guerra que é extremamente impopular nos Estados Unidos, sobretudo naquele eleitorado que não gosta de Donald Trump, mas também entre a base republicana começava a haver fissuras no apoio a esta intervenção.

A agência de notícias Associated Press escreve que Trump decidiu estender o prazo para que o Irão reabra o Estreito Ormuz. É disso que se trata, mais uma extensão do prazo, menos uma verdadeira aproximação, tendo em vista a resolução do conflito?

De facto, nós não sabemos, e Donald Trump também nunca é claro nas suas afirmações. Eu vi que pessoas ligadas ao regime iraniano negaram que havia conversações e que este anúncio de Donald Trump era, no fundo, um recuar na intenção de atacar as infraestruturas energéticas do Irão. Portanto, nós não sabemos. Eu acho que, como sempre, quando Donald Trump faz este tipo de anúncio, vamos ter que esperar mais algumas horas ou mais alguns dias pra perceber se de facto existem negociações avançadas para terminar esta guerra ou se isto foi apenas uma manobra de Donald Trump para recuar diante daquele ultimato que, a ser cumprido, poderia ter resultados catastróficos para esta guerra, mas sobretudo para o mundo e para a economia mundial.

Sendo que há aqui uma informação de última hora, duas fontes próximas da Guarda Revolucionária Iraniana dizem que não há qualquer contato com os Estados Unidos, nem direto, nem indireto. Ou seja, que não há conversações em curso.

Eu também li isso e uma pessoa também nunca sabe quem é que fala a verdade nestas questões. Nós também temos visto durante estas últimas semanas fontes ligadas ao regime iraniano negar muitas coisas que depois foram confirmadas, a começar pela morte do Ayatollah Ali Khamenei. Portanto, nós nunca sabemos, por isso é que eu estava a dizer que vamos ter que esperar mais algum tempo para perceber se isto são negociações que estão a decorrer e que estão avançadas ou se foi apenas uma manobra de Donald Trump para ganhar mais tempo depois do ultimato de 48 horas que iria terminar durante o dia de hoje.

Sendo que há aqui uma dúvida, tendo em conta as referências do regime iraniano que já foram mortas desde o início da intervenção militar dos Estados Unidos e Israel, quem é que são os interlocutores do Irão, nesta altura do regime do Irão, junto dos Estados Unidos?

Essa é uma boa questão, porque o que nós percebemos é que as principais chefias foram decapitadas. Os que se iriam suceder também morreram. O próprio novo líder, Khamenei, ainda não foi visto. Aliás, eu esta semana estava a ler um artigo muito interessante onde se falava sobre a CIA e sobre a forma como a CIA está intrigada sobre este novo líder do Irão. Eu presumo que ainda será o presidente do Irão que está vivo e que pelo menos seja ele que esteja a comandar, se é que as negociações existem. Mas, de facto, com a decapitação de tantas figuras importantes no regime, neste momento é difícil perceber até quem é que está a comandar as operações no Irão, porque a situação, e uma pessoa percebe disso, grande parte dos líderes morreram, neste momento também deve reinar uma grande insegurança e uma grande confusão no governo iraniano. E não sabemos também se existe uma cadeia de comando a funcionar ou se também existe uma grande balbúrdia naquela liderança iraniana que neste momento ainda existe.