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Contamos agora em direto com o presidente do CDS, Nuno Melo, nesta edição. Obrigada por estar conosco, Nuno Melo. Naturalmente, vamos querer ouvi-lo sobre o acordo em si com o PAN, o acordo propriamente dito, mas olhando para esta reação da Iniciativa Liberal, o CDS sente-se ignorado, tendo em conta que faz parte da coligação na Madeira e não houve sequer uma referência ao seu partido?
Não, muito pelo contrário, agradecemos até essa precisão. É que este é um acordo entre o PSD Madeira e o PAN. É um acordo em que o CDS não entra e, portanto, nessa medida, não fazia sentido nenhum referirem o CDS.
Mas se é uma coligação, a coligação Somos Madeira, o CDS fica de fora?
Vou chegar lá. O entendimento do CDS é um entendimento para a coligação Somos Madeira com o PSD, não é com mais ninguém, para a obtenção desta maioria, desta estabilidade. E esse entendimento com o PAN é um entendimento entre o PSD Madeira e o PAN, puro de escolha do presidente do Governo Regional. Eu sublinharia que os partidos regionais têm estatutos próprios, são realmente autónomos, decidem sem intromissão dos partidos nacionais, porque pelo menos para o CDS, autonomia não é de faz de conta. E portanto, essa é uma decisão do PSD Madeira, é uma opção do PSD Madeira e do presidente do Governo Regional. Eu quero até sublinhar, para que também fique claríssimo, que o PAN é um partido que ideologicamente está nos antípodas, não tem nada que ver com o CDS e é combatido pelo CDS. Não obstante, e também já lhes esclareço, para que fique igualmente claro, que o CDS está obviamente mais próximo de Iniciativa Liberal do que do PAN. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Ainda assim, o PAN não está sequer no Governo da Madeira. Do Governo da Madeira, e é importante que as pessoas tenham isso bem claro nas suas cabeças, no Governo da Madeira participarão apenas o PSD e o CDS.
Mas o CDS preferia a Iniciativa Liberal para um acordo de incidência parlamentar?
Se alguma vez o CDS tivesse que decidir entre a Iniciativa Liberal e o PAN, obviamente que o CDS optaria pela Iniciativa Liberal, com quem se partilha mais que não seja a ideia de mercado. Não o PAN, que realmente não tem nada a ver naquilo que respeita ao mundo rural, às tradições, a todo um modo de vida. Mas ainda assim, deixe-me já agora dizer-lhe outra coisa, porque é muito relevante. Para além do PAN não integrar o governo, as matérias que são agora públicas, que constam do dito entendimento entre o PSD e o PAN, são de tal modo inócuas que eu duvido algum partido não as aprovasse se fossem discutidas no Parlamento Regional, como suponho, acabarão por ser: a implementação de uma taxa turística regional, o apoio à agricultura biológica, a vacinação gratuita ou a esterilização de animais domésticos, medidas de apoio às rendas, um centro de juventude no Caniço ou uma casa de autonomização para vítimas de violência doméstica. Eu suponho que qualquer partido apoiaria isto. E se é isto que está em causa para que se obtenha a estabilidade na Madeira, então aquilo que me parece importante relevar é que, pelo menos, se dependesse de um partido como o do Chega, o PSD e o CDS não governariam, porque na primeira intervenção da noite eleitoral, o André Ventura tratou de explicar que nunca apoiaria uma solução do PSD e do CDS, pôs-se fora dessa possibilidade e fez o jogo do PS. E portanto, nessa medida, como bem vê, o CDS é um partido que soma, não é um partido que divide a direita.
E já que fala em André Ventura, na reação há pouco a este acordo com o PAN, André Ventura falou na maior traição da direita alguma vez vista em Portugal. Como é que interpreta estas palavras e esta acusação? Imagino que não queira responder diretamente, tendo em conta que está a dizer-nos que o acordo não é com o CDS, mas revê-se nesta acusação?
Eu interpreto, em certa medida, como uma caricatura, insisto. Estas eleições traduziram, apesar da vitória muito expressiva de centro-direita, a necessidade de um deputado para a obtenção da maioria absoluta, uma alteração de circunstâncias que, curiosamente, André Ventura nem sequer quis conjeturar para efeito que fosse. André Ventura foi o primeiro líder político do espaço político de centro-direita, digamos assim, apesar de representar um populismo que não tem nada a ver com o centro-direita, tal qual eu o concebo. Mas foi o primeiro líder neste espaço a falar e para logo, contundentemente, pôr fora qualquer possibilidade de viabilização de um governo do PSD e do CDS. E portanto, o Chega é realmente um frete ao PS. Lamento imenso. É um partido que consegue verbalizar com muita violência tudo e mais alguma coisa em relação ao PS para nos momentos que realmente importam, onde podia fazer a diferença, se colocar do lado do interesse estratégico do PS.
Nuno Melo, temos que regressar só rapidamente aqui à questão da Madeira e à governação do arquipélago.
Só para dizer que a consequência da decisão do André Ventura é, de facto, o interesse estratégico do PS, não mais que isso.
Essa ideia está bem sublinhada. Como é que pode haver a garantia de um acordo para quatro anos e de estabilidade no Governo da Madeira, e o CDS faz parte dessa coligação, quando o acordo de incidência parlamentar é orçamento a orçamento? Não há aqui o risco de o PAN, a qualquer momento, poder tirar o tapete a essa estabilidade?
E se tirar, logo se verá o que poderá acontecer, suponho. Quer dizer, há outros deputados que foram eleitos, de resto, numa fragmentação que eu não acho que venha muito a crédito ou signifique uma grande vantagem na Madeira. De facto, hoje há uma grande fragmentação, há demasiados partidos, uma dispersão muito grande, mas enfim, se o PAN entender que, suponho eu, falando com este distanciamento e respeitando a autonomia regional, fique também isso claro, se o PAN entender a seu tempo fazer cair o que seja, eu suponho que se tentará encontrar outra solução qualquer. Há outros deputados que foram eleitos.
Mas acredita que pode correr bem ou não está com grande expectativa?
Não tenho, para já, nenhum dado que me permita retirar conclusões sobre o que possa suceder ou não. Sei que o importante é perceber que o governo é um governo apenas do PSD e do CDS. O resto é discutido no Parlamento e aquilo que consta desse entendimento do PSD com o PAN, que acabei de referir há pouco, é realmente inócuo e suponho nenhum partido terá em relação a isso qualquer oposição. E se esse for o custo para que se obtenha uma maioria estável na Madeira, não me parece, desse ponto de vista, particularmente grave, independentemente daquelas que pudessem ser as minhas opções, se eu comandasse para alguma coisa.