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Temos agora ao telefone o matemático Jorge Buesco, que tem feito contas à evolução da pandemia. Muito bom dia, obrigada por estar conosco.

Bom dia.

Estava olhando para estes números, esperava que Portugal recuasse pela positiva no combate à doença?

Isto é sempre um pouco imprevisível. Curiosamente, esta evolução foi antevista em maio por o Hélder Carmo Gomes, que é um colega meu da Faculdade de Ciências e que colabora com a Direção-Geral de Saúde. O que nós estamos a observar aqui, foi depois daquela primeira grande onda, que levou ao confinamento e que acabou com o confinamento, uma segunda onda de muito maior comprimento de onda e mais baixa amplitude ao longo do verão, uma espécie de ondeleta de verão. E é isso que nós estamos a observar. Isso era previsto, era esperado. Não foi previsto propriamente dito, porque essas coisas dependem das medidas que se tomam, mas era aquilo que era esperado e, portanto, num certo sentido, ainda bem que aconteceu.

Aliás, Jorge Buesco, deixe-me recordar que o senhor preveu um tsunami europeu e falando em Portugal, o cenário que traçava era muito assustador. Foram, de facto, essas medidas de contenção a que praticamente todos os países aderiram, que conseguiram fazer com que o tsunami se tornasse nessa onda que estava a explicar?

Não exactamente. O confinamento conseguiu controlar aquela primeira onda. E nós hoje, olhando para trás, eu posso dizer exatamente que nós conseguimos escapar ao colapso do sistema de saúde exatamente por quatro dias. Se nós tivéssemos esperado mais quatro dias para tomar essas medidas, teríamos seguido o caminho de Espanha ou de Itália. Portanto, foi mesmo a altura certa.

Foram só quatro dias. Quando entramos em confinamento ainda não havia uma vítima mortal sequer em Portugal. Mesmo assim, parece-lhe que o tempo seria muito curto para que todo o processo explodisse?

Tenho a certeza absoluta. Estávamos em processo exponencial e em processo exponencial estávamos a duplicar os casos a cada dois dias, dois dias e meio. Portanto, quatro a cinco dias seria suficiente para que os internamentos e a questão hospitalar tivesse colapsado. Não há dúvidas.

De acordo com os modelos que trabalha, a expectativa é que estejamos numa onda mais baixa, mas mais prolongada.

Sim, e que está na fase descendente, precisamente, o que é muito bom. Aliás, novamente estamos em contraciclo com muitos dos outros países europeus que não tiveram esta onda de verão, que chegaram praticamente a zero e que neste momento estão a subir novamente. Nós neste momento estamos na fase descendente desta ondeleta de verão e ainda bem, porque seria muito mau que chegássemos à rentrée de setembro, do início do outono, em que se espera e que praticamente se sabe que as coisas vão recrudesccer com um número muito grande de casos. Portanto, ainda bem, felizmente que as coisas estão a recuar.

Jorge Buesco, muito obrigada por ter estado conosco na análise ao número de casos que nesta altura Portugal e o resto da Europa enfrenta, numa altura em que o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças coloca Portugal entre os países que registam o maior recuo no número de novos casos de Covid-19.