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Seguimos para a conversa com o presidente da Câmara de Santa Maria da Feira. Este município adotou um conjunto de medidas para enfrentar esta pandemia. Já vamos detalhá-las. Ainda assim, Santa Maria da Feira tem quase três centenas de casos confirmados de Covid-19. Emídio Sousa, muito bom dia novamente. Surpreendeu estes números?
Não, nós temos 354, números de ontem, de infetados e sete óbitos. Não me surpreende, até acho que o número será muito superior, porque agora estamos a fazer mais testes, mas até há uns dias atrás o número de testes efetuados não era muito significativo e poderia dar-nos uma ideia menos certa daquilo que estava a acontecer no terreno. Portanto, o número não me surpreende. Penso que será maior, mas face à população que temos, é um número perfeitamente aceitável.
O que quer dizer com essa expressão, face à população que temos?
Nós temos 140 mil habitantes, portanto 350 infetados percentualmente é um número relativamente baixo. E é relativamente baixo porque nós somos um território muito industrial, com muitas exportações, com muito movimento de pessoas para todo o mundo, China, Europa, Estados Unidos, etc. Portanto, não me surpreende que houvesse o maior risco de propagação ou até de contaminação. Eu acho que o número é muito superior, como agora estamos a fazer muito mais testes, penso que os números irão aumentar.
Tem ideia de quem são estas pessoas que estão contaminadas com Covid-19?
Sei algumas, eu tenho normalmente uma informação. A maioria começou em empresas e depois foram, de certa forma, passando para a comunidade. Conheço alguns pessoalmente.
Sim, mas tratam-se de idosos ou sobretudo pessoas que trabalham em empresas exportadoras?
A maioria dos casos que tivemos são empresários ou funcionários de empresas exportadoras. Também tivemos casos de idosos. Foi sempre uma das nossas grandes preocupações, talvez a maior desde o início, e preparámos planos muito rigorosos de contingência para essas situações. Acho que conseguimos, de certa forma, controlar a entrada da infeção nos lares. Tivemos um primeiro caso, que até nos serviu um bocadinho de treino, como eu costumo dizer, logo na segunda semana de março, tivemos um caso num lar que tinha poucas pessoas internadas e que foi difícil de gerir. Tivemos duas pessoas com a infeção, uma terceira, e ali percebemos, na altura, as grandes exigências que estas instituições iam colocar. Eu costumo dizer que serviu-nos de treino e conseguimos resolver juntamente com a autoridade de saúde local e preparar tudo o resto.
Portanto, nesta altura, em Santa Maria da Feira, os lares não são uma dor de cabeça.
São uma dor de cabeça, porque nós temos 28 estruturas residenciais de idosos e a qualquer momento pode acontecer numa destas estruturas uma infeção, porque estes espaços são muito propícios a essa infeção. O que nós fizemos foi separar, criar espaços separados para caso viessem a acontecer infeções, termos espaços quer para os não infetados, quer para os infetados. E quero dar aqui o meu grande voto de apreço às pessoas desses lares que se isolaram também dentro dos lares, muitos deles, não todos, mas alguns das pessoas isolaram-se também para evitar o risco de trazerem de fora para dentro o vírus. E neste momento as coisas estão razoavelmente controladas. Agora, nós temos 28 estruturas residenciais de idosos, temos quatro privados, estes das IPSS, e temos ainda alguns semicl clandestinos, semipúblicos, uma coisa assim, às vezes também que nos acontece no terreno. Portanto, é a nossa grande preocupação neste momento.
Vocês são vizinhos de Ovar. Como é que tem sido a proximidade e esse confinamento com o cerco sanitário que foi feito em Ovar em relação a Santa Maria?
Tivemos alguns constrangimentos, principalmente na circulação de pessoas. Nós temos uma fronteira muito extensa com Ovar, e aqui quero dar o meu grande abraço ao pessoal de Ovar, que sofreu muito mais até na pele todo este problema e ainda está a sofrer. Tivemos alguns constrangimentos na circulação de pessoas, porque somos territórios muito industrializados, com empresas de um lado e do outro que interagem muito. Há pessoas que têm empresas aqui na Feira e residem em Ovar e o contrário, a mesma coisa. E todo o confinamento em Ovar provocou algumas dificuldades, porque houve até administradores de empresas, gestores que não puderam vir para as empresas. Houve aqui necessidade de ajudar neste funcionamento, porque a maioria das empresas mantiveram-se a trabalhar. Nós tivemos sempre essa preocupação de apoiar as empresas para evitar perdas de emprego. Mas foi principalmente ao nível da circulação de pessoas. Vou dar um exemplo: uma empresa de transportes que estava a fazer transportes para empresas da Feira, tinha cinco motoristas que residiam em Ovar. Uma outra que faz sacos, aqueles sacos para comida takeaway, da qual dependia também para a produção de dois ou três trabalhadores que residiam em Ovar. Houve sempre muitas dificuldades neste aspeto, ainda existem, mas foi essencialmente isso. E tivemos um outro desafio grande, o nosso hospital é o hospital que também recebe os casos mais difíceis de Ovar. Ovar faz parte do nosso centro hospitalar para aqueles casos de internamento. E o nosso hospital esteve durante muito tempo no limite, e ainda está, porque de facto tinham muitas pessoas de Ovar. Neste momento, penso que Ainda estão com muitas pessoas a levar, mas já há um espaço de recuo, já liberta um bocadinho de espaço.
Senhor presidente, no início desta nossa conversa dizia-me que Santa Maria da Feira regista mais de 300 casos de pessoas infetadas com Covid-19. Eu estou a abrir aqui o relatório da Direção Geral de Saúde de ontem, que diz que há 279 casos confirmados em Santa Maria da Feira. Gostava que esclarecesse a que se deve esta diferença.
Eu penso que é polémico o que aconteceu nos últimos dois, três dias. Nós estávamos a publicar os dados que nos eram fornecidos pela nossa autoridade de saúde local, todos os dias, e nós publicávamos o número de infetados e o número de óbitos. Como surgiu essa orientação no início da semana, no final da semana passada, que iríamos deixar de ter esses dados para publicação, nós tivemos que nos adaptar, mas estes são os dados que eu ainda tinha à data e, portanto, há aqui um desfasamento em termos de dados. Os da DGS são sempre inferiores, porque o tempo em que nós recebemos a informação do número de infetados é muito mais online, é mais em tempo real do que a DGS. Eu penso que a DGS terá aqui sempre um atraso de mais ou menos dois, três dias em relação aos dados que nós temos.
E isto é uma tendência que se confirma noutros conselhos ou só em Santa Maria da Feira?
Tenho ouvido isso de vários colegas com quem tenho falado. Os números da DGS que são publicados ficam sempre ligeiramente aquém daqueles que são a realidade em cada autoridade de saúde local.
Portanto, é sempre mais do que aquilo que a DGS anuncia.
Sim, mas eu penso que é o método que eles têm de receber a informação e de ecologia. Penso que é isso, mas de facto os números da DGS são sempre inferiores àqueles números reais que nós temos no território.
É uma boa questão para colocar à DGS na conferência de imprensa diária que acontece no Ministério da Saúde. Senhor Presidente, gostava de lhe perguntar se mantém para o final de julho a Feira Medieval ou vai cancelá-la?
Ainda vou falar com os nossos parceiros. A Viagem Medieval é um evento que resulta de uma parceria com a nossa Federação das Coletividades e com a Empresa Municipal Feira Viva. Vamos falar ainda nos próximos dias sobre esta hipótese. Ponderarei, a minha opinião vai ser formatada nessa altura, mas eu julgo que não haverá grandes condições para ela se realizar. Nós vamos reunir nos próximos dias para tomarmos uma decisão.
O que aconselha? O cancelamento?
Provavelmente será isso, mas eu quero ouvir os parceiros. Ela é no início de agosto, eu quero ouvir todos os parceiros, não quero tomar esta decisão sem ouvir os parceiros que estão envolvidos neste grande evento no nosso concelho. Eu penso que em agosto ainda não haverá condições, face à evolução da pandemia, mas ainda não queria estar a dar essa notícia sem primeiro falar com os nossos parceiros.
Muito bem, eu percebo a prudência. O Conselho de Santa Maria da Feira foi um dos primeiros a adotar uma série de medidas para fazer face a esta pandemia, nomeadamente o centro de testes. Gostava que me dissesse como é que está a correr esta experiência, se têm o material todo necessário para realizar os testes que se propôs realizar para os habitantes do Conselho e se estão a realizar todos os testes que tinham previstos.
Nós tivemos muitas medidas, desde o encerramento de serviços, parques públicos, logo no início de março tomámos estas medidas todas, encerramento ao público, encerramento em bibliotecas, parques públicos, etc. Fizemos logo isso no início. Numa primeira fase, a nossa grande preocupação foi ajudar os nossos profissionais de saúde, porque ainda não havia equipamentos de proteção individual em quantidade suficiente. Apôs-se a questão do alojamento dos profissionais. Nós avançámos imediatamente com o hotel, avançámos com os equipamentos de proteção individual que lhes faltava para eles poderem trabalhar em condições de segurança. Isto foi logo das primeiras medidas. Depois foi a questão dos testes, porque desde o princípio entendemos que a realização de testes era fundamental para podermos ter estratégias eficazes de combate à doença. E tivemos algumas dificuldades. Primeiro foi para abrir aqui o centro de testes, que conseguimos aqui para a nossa região. A ARS indicou este laboratório para nos fazer os testes, que inicialmente nos indicava um número de testes muito significativo, mas que nunca os atingiu. Depois também percebemos que o país estava mesmo com falta de testes e que o número de testes inferior muitas vezes resultava do facto de não haver testes no mercado. Neste momento, eu julgo que as coisas tendem a normalizar. Penso que o país neste momento já consegue dar resposta às necessidades em termos de testes.
Mas esse centro de testes no Europarque está a realizar testes. Quantos testes por dia?
Ele está a realizar atualmente na casa dos 70 ou 80, que é pouco.
Qual é o máximo possível?
Na altura falaram em 400, depois disseram que não diriam. Eu diria que se eles fizessem 200 por dia já seria um número bom.
E essa diferença de 70 para 400 deve-se a quê?
Eu penso que falta de capacidade do próprio laboratório em termos das pessoas e depois as próprias pessoas que trabalhavam nos locais para recolher as amostras, algumas começaram a ter exaustão e outras até ficaram infetadas. Portanto, houve aqui um período que o laboratório não teria tido os recursos necessários e eu penso que o próprio laboratório também fez um processo de aprendizagem. Neste momento, acho que já está a responder e nós também fizemos mais coisas. Nós queríamos testar todos os idosos, porque era algo que eu entendia fundamental para a nossa estratégia de evitar as mortes.
E fizeram-no?
Fizemos, estamos a fazê-lo desde a semana passada, mesmo antes da Páscoa começámos a fazer. Neste momento estamos a testar todos e eu espero até ao final desta semana, máximo início da próxima, ter todos os utentes dos lares e todos os funcionários dos lares com testes e assim permite-nos ter uma estratégia adequada de prevenção. Conseguimos fazer isso. Estamos entretanto a abrir um segundo centro de testes Em Fiães, que deve estar pronto para abrir na segunda-feira, também para realizar testes e eventualmente um terceiro ainda na sexta-feira em Montelos, que é outra freguesia aqui da parte norte, que é a zona mais industrializada do concelho, também para realizar testes. Isto é muito importante, porque nós já estamos a pensar na economia e na eventual reabertura de algumas das empresas que fecharam. Portanto, queremos ter todas as condições para que as empresas possam reabrir, aquelas que fecharam, outras mantiveram-se em funcionamento, nos próximos dias. Essa é agora a minha grande preocupação, preparar regras e perceber regras para que as empresas possam retomar o trabalho, porque penso que a segunda grande preocupação, e que dentro de poucos dias será a primeira, é precisamente o regresso ao trabalho e o emprego.
Senhor presidente, já fez o teste?
Não. Acho que nunca tive sintomas, estive sempre a trabalhar, agora mais horas do que anteriormente. Agora as videoconferências levam-nos a trabalhar e a fazer reuniões até à noite, às vezes até à meia-noite, mas não fiz o teste, porque ainda não precisei, não tive nenhum sintoma. Tomo sempre muitas precauções nos contactos que tenho que fazer, quase sempre é por videoconferência.
Que medidas é que adotou? Anda de máscara, por exemplo?
Ando de máscara quando saio do escritório. Quando chego a casa, porque a minha filha está em minha casa, tenho um bebê pequeno, mudo sempre de roupa, lavo as mãos. Aqui também sempre que tenho algum contacto com alguma coisa quando chego ao escritório, lavo as mãos, tenho sempre essa precaução. E nas reuniões, raramente faço reuniões presenciais, quando tenho que as fazer, respeito aquela distância de três, quatro metros para evitar alguma contaminação. Até à data, a coisa tem resultado, mas ninguém está livre de vir a contrair. Espero que não, mas se vier a contrair, também espero superá-la.
Muito bem, muito obrigado Emídio Sousa por se ter juntado a esta emissão na Rádio Observador. Emídio Sousa, autarca de Santa Maria da Feira.