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Miguel Guimarães, junta-se agora ao Jornal do Meio-Dia em direto. Olá, boa tarde, Miguel Guimarães.

Boa tarde. Viva, como está?

Obrigado. Em que momento é que os profissionais de saúde deixaram de ser ouvidos?

Os profissionais de saúde, e estou a falar de profissionais de saúde que estão no terreno, as pessoas que estão a trabalhar na área da saúde pública, que estão a trabalhar na medicina do trabalho, que estão a trabalhar nos hospitais, no centro de saúde, foram muito ouvidos no início da pandemia e com bons resultados. Foram fazendo as suas sugestões, umas foram aceites, outras não foram aceites. Mas a verdade é que levou a um resultado global muito positivo no combate à pandemia na fase inicial. Nesta fase de desconfinamento, os profissionais de saúde têm-se queixado que deixaram de ser ouvidos. Aliás, têm vindo várias pessoas, de facto, dar esta nota. Por quê? Repare, esta questão de Lisboa, concretamente, é uma questão que se arrasta há algum tempo. Isto não começou hoje, nem ontem. E quando nós estamos a lutar contra um vírus, isto é o combate aos vírus faz-se assim, nós temos que antecipar as medidas rapidamente. Isto é, as medidas de segurança, de vigilância, de fiscalização, medidas mais robustas, como por exemplo, o seu primeiro-ministro neste momento tomou relativamente à região de Lisboa e Vale do Tejo, alguns conselhos, pelo menos, são medidas que devem ser tomadas logo desde o início. Portanto, nós temos que antecipar. Aliás, a luta contra os vírus e contra as infecções, tem muito a ver com a prevenção e com a antecipação das medidas. Eu acho que deixou de se ouvir muito os profissionais de saúde, eles estão-se a queixar disso, e bem. E eu acho que era importante continuar a ouvi-los, até porque-

E foi por causa disso, Miguel Guimarães, que passou a haver um excesso de otimismo, como diz no comunicado?

Pois, eu acho que houve um excesso de otimismo. Na prática, o que está a acontecer é que existe um grande otimismo de toda a gente, de quem tem responsabilidades no país. E esse excesso de otimismo leva, por um lado, as pessoas, os portugueses, a pensar que já está tudo bem, que está tudo absolutamente controlado e começam a fazer aquilo que não se pode fazer numa pandemia, que é facilitar em termos daquilo que são as medidas de proteção individual e coletivas. E portanto, nós temos a pandemia ainda em curso, estamos numa fase de desconfinamento e, portanto, é natural que estes surtos possam aparecer e vão aparecer mais. E não é só em Portugal que vão aparecer, aparecem também nos outros países que estão a desconfinar. E o que nós temos que fazer é estar atentos, é continuar a ter em mente que a luta contra a pandemia ainda não chegou ao fim, é como estarmos numa batalha, e portanto, temos que cumprir escrupulosamente aquilo que são as regras emitidas pela Autoridade Nacional de Saúde. E temos que adotar novas regras, antecipar novas regras à medida que a pandemia está a evoluir. Isto é, se nós temos uma evolução negativa numa determinada região ou, se quiser, até no país, nós temos que implementar novas medidas restritivas.

E elas vão ser implementadas, Miguel Guimarães, nestas áreas?

O primeiro-ministro já decidiu várias medidas importantes.

Mas também exatamente nas medidas da região de Lisboa, nomeadamente nestas 19 freguesias, considera ou tem informação de que os profissionais de saúde também não foram ouvidos?

Sim, os profissionais de saúde, de uma forma geral, não foram ouvidos. Ainda ontem eu estive a ouvir a diretora do Serviço de Infeciologia do Hospital Dona Estefânia e ela falou exatamente nisso, como têm falado outros diretores de Infeciologia, como têm falado outros médicos de saúde pública, com quem tenho conversado de vários pontos do país. Que as pessoas inicialmente eram ouvidas e foram ouvidas muito na fase inicial, mas neste momento não estão a ser ouvidas. Quer dizer, ouvem-se os peritos do Infarmed, aqueles peritos que fazem a sua apresentação no Infarmed, mas é preciso ter a noção que é fundamental ouvir pessoas que estão no terreno. As pessoas que estão a tratar os doentes, as pessoas que estão a seguir os doentes, que estão a registrá-los, etc. Porque essas pessoas é que estão a pôr a mão na massa, entre aspas, desculpe a expressão, mas isto é que é a realidade. E, portanto, ouvir as pessoas é fundamental.

Miguel Guimarães, gostava ainda de ouvir a sua opinião. Até porque temos o tempo limitado. Hoje o Expresso ouviu alguns peritos e revela que foi a falta de técnicos que impediu o controle da epidemia em Lisboa. De acordo com o que o jornal apurou na Amadora, que é um dos conselhos mais afetados, chegou a haver uma centena de casos positivos em que não foi possível fazer atempadamente esse trabalho de identificação e isolamento de positivos.

Sim, mas repare, é disso que eu estou a falar. Repare, as pessoas que estão no terreno têm ideias exatamente do que é preciso fazer e do que é que falta. Eu por acaso não vi a reportagem hoje do Expresso, mas isto que os meus colegas de saúde pública, provavelmente estão a dizer no Expresso, eu não sei quem é que falou, não faço ideia, é a realidade. Portanto, se nós tivermos a humildade, como eu digo no comunicado, de ouvir as pessoas que estão no terreno, nos vários sítios, falar com os profissionais que estão a ver doentes, com os profissionais que estão a seguir os doentes, nomeadamente os de saúde pública, falar com os colegas de medicina do trabalho, nós temos uma percepção mais correta daquilo que está a acontecer e daquilo que é preciso fazer. E, portanto, isto é mais importante, se quiser, do que ouvir apenas pessoas que se baseiam em números teóricos. É importante ir ao terreno. Isto é como em qualquer batalha, em qualquer sítio. E, portanto, isso, de facto, não tenha acontecido e este apelo que nós fazemos agora é para que isto aconteça. Quer dizer, não entenda isto como uma crítica. Isto é um apelo, no fundo, à Autoridade Nacional de Saúde, para que, de facto, ouça mais as pessoas, fale com as pessoas, porque estas pessoas têm conhecimento do que é que está a acontecer, se calhar, melhor do que quem está cá em cima.

Muito bem.

E, portanto, é fundamental ouvi-las.

Muito obrigado, Miguel Guimarães, o bastonário da Ordem dos Médicos, em entrevista aqui no Jornal do Meio-Dia da Rádio Observador, depois de um comunicado em que acusa o governo de deixar de ouvir os profissionais de saúde sobre a evolução da pandemia de Covid-19