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Junta-se a nós neste jornal o dirigente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira. Bom dia, Francisco Ferreira.
Bom dia.
Como olha para este tipo de protestos?
Em primeiro lugar, convém reconhecer que os SUVs são veículos que, por causa do seu peso e das suas características, são os mais poluentes entre os automóveis. Não tenhamos dúvidas em relação a isso. E sejamos claros, em muitos casos, nós não precisávamos ter um carro daquelas dimensões para o tipo de transporte que utilizamos. Passado isso, quer do ponto de vista da poluição do ar, quer do ponto de vista do clima, em relação ao tipo de ação que está a ser feita, era fundamental que as pessoas fizessem queixa para sabermos realmente qual é a dimensão, porque as redes sociais parecem que estão a ampliar demasiado, mas é um tipo de ação que nós condenamos precisamente por poder pôr em causa situações de emergência ou situações que perturbam fortemente aquilo que é a utilização do automóvel em determinadas circunstâncias. Seria útil, por exemplo, pôr o papel e alertar para a questão, mas não ir além disso. Há efetivamente um exagero, um abuso em relação àquilo que pode constituir um risco para as pessoas que estão a utilizar o automóvel e que não o conseguem porque têm os pneus, na maior parte, pelo que conseguimos perceber, esvaziados, não furados, mas com incapacidade de usarem no momento.
Há aqui, portanto, um equilíbrio ou uma fronteira entre o que pode ser uma ação de protesto e de denúncia e aquilo que pode depois trazer consequências mais graves. O Francisco Ferreira acredita que cabe às associações ambientalistas informar e sensibilizar, e não mais do que isso.
Exatamente. Nós temos tido à escala, não apenas da Europa, mas à escala mundial, várias ações de grupos ambientalistas, nomeadamente em relação à questão do clima. Estamos todos unidos em relação à necessidade de fazermos algo e de chamarmos a atenção das pessoas para esta emergência climática, mas é preciso garantir que as ações que são feitas, efetivamente, atinjam o seu objetivo e não acabem por funcionar ao contrário, levando as pessoas a desacreditar aquilo que é um alerta absolutamente crucial. E este tipo de ação está nessa linha e muitas das vezes só dá razão a quem continua a achar que o clima não está a aquecer como está e que os efeitos que estamos a ter não estão relacionados com a atividade humana e com a queima dos combustíveis fósseis. E, portanto, é preciso efetivamente acertar, e muitos grupos têm corrigido essa ação, no sentido de haver um envolvimento e uma compreensão melhor das ações que são feitas para este alerta da crise climática.
Francisco Ferreira, independentemente do tipo de protestos que possam surgir, a verdade é que Portugal está a enfrentar um momento de seca prolongada. Ontem o governo anunciou novas medidas nesse sentido, nomeadamente para o Algarve, onde a situação é mais preocupante. Como é que vê as medidas anunciadas pelo governo e a criação de um grupo de trabalho para aprofundar as medidas, sobretudo para o Algarve?
Nós continuamos a dar as respostas em cima do momento, e é isso que é inacreditável, de depois de sabermos, termos modelos e termos alertas de que esta não é uma situação que nós temos que lidar na altura, temos, sim, que preveni-la e não é para este ano, é para este ano e para os próximos. É só olharmos a série de dados da última década para percebermos o que está a acontecer em Portugal e em muitos outros países do mundo. Nós não temos um plano para o uso eficiente da água. Tivemos entre 2012 e 2020, mas a partir de 2015 não teve efeito. É isso que nós precisamos, são essas medidas estruturais, e que vão muito para além de alguns investimentos no plano de recuperação e resiliência. Claro que é bom termos um grupo de trabalho, claro que é bom termos uma comissão para a avaliação da seca, mas isso tem que ser urgentemente complementado por medidas estruturais que efetivamente nos evitem ou nos previnam aquilo que está a acontecer no Sudoeste Alentejano, em outras partes do Alentejo também, e principalmente no Algarve.