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Junta-se a este jornal Afonso Reis Cabral, é presidente da Fundação Eça de Queiroz, é também trineto do escritor Afonso Reis Cabral. Bom dia, obrigada por estar conosco. Estamos aqui, de facto, neste impasse. Será que o processo vai acabar por ser decidido na Justiça? Parece-lhe que é isso que vai acabar por acontecer?

Neste momento, é absolutamente inevitável o Supremo Tribunal Administrativo de Lisboa pronunciar-se em tempo útil. Eu gostava só de dizer que, contrariando as notícias que foram vinculadas ontem e que correram por aí, o tribunal ainda não decidiu absolutamente nada. Aliás, o próprio tribunal veio ao fim do dia de ontem desmentir as notícias. Simplesmente, terça-feira passada, recebeu um pedido de providência cautelar que decidiu analisar. Ao decidir analisar, notificou a Assembleia da República que vai responder. Portanto, esperamos, e eu espero, que haja alguma sanidade neste assunto, não tenho qualquer dúvida que haverá, e com serenidade esperamos pela decisão sobre a providência cautelar.

E até lá, estamos perante cinco dias apenas para a data da trasladação.

Exatamente. O que se passa é que o pedido de providência cautelar, quanto a mim, só se explica de duas maneiras. Aliás, a altura em que este pedido foi feito, depois de dois anos e meio de publicação em Diário da República da decisão e da votação, por unanimidade, na Assembleia da República. Passaram-se dois anos e meio. A uma semana da trasladação, há um pedido de providência cautelar. Só se explica de duas maneiras: ou por indigência intelectual, ou então por má-fé, uma tentativa dilatória. Como eu não acredito que seja simplesmente indigência intelectual, só posso acreditar que seja má-fé. E é isso que se tem passado.

Afonso Reis Cabral, alguns bisnetos de Eça de Queiroz dizem que não foram ouvidos sobre o processo. Há alguma razão? O processo foi ou não transparente?

Foi absoluta e totalmente transparente. A Fundação Eça de Queiroz foi fundada pela minha família, pela geração anterior. A minha família delegou o espólio, a representação de Eça de Queiroz, até os restos mortais, na Fundação Eça de Queiroz, que foi sempre liderada por pessoas da família. Nós sabíamos, em 2020, quando fizemos as primeiras demarches para que isto pudesse acontecer, que havia maioria familiar, não tínhamos qualquer dúvida. E ainda antes de sair qualquer notícia, e ainda antes de haver qualquer votação na Assembleia da República, informámos toda a família. E não houve nenhuma contestação efetiva na altura. Portanto, nós tínhamos e sabemos que temos maioria. Inclusive, temos uma declaração da maioria dos bisnetos, atendendo à geração mais velha. Temos uma declaração nesse sentido. E portanto, o processo é claríssimo. Foi votado na Assembleia da República por unanimidade, portanto, é a democracia a funcionar. Seis desses bisnetos, uma minoria, liderados particularmente por dois, entenderam que o Panteão é uma desonra. Aliás, eu posso lhe dizer que, ao sábado desta semana, um desses meus primos diz que o Panteão é um sítio carregado de pessoas que não prestam. Portanto, quando se diz à comunicação social isto, e se faz correr, também frases como: "O Panteão é um local mal frequentado", isto estou eu a citar. "É um lugar mal frequentado, em que o meu bisavô iria ombrear com um futebolista, uma fadista, um regicida e, pasme-se, um resistente antifascista que nada fez pelo país, além de ter sido assassinado pela PIDE." Estou a citar um dos subscritores da providência cautelar. Quando a mentalidade sobre o Panteão é esta, nada me espanta, na verdade. E não me espanta também a má-fé de uma medida dilatória, de se colocar uma providência cautelar que poderia ter sido colocada há dois anos e meio, há um ano, há um ano e meio, ao que seja, agora, a uma semana, e entretanto já há menos de uma semana, da trasladação.