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António Costa Pinto, olhando para o Conselho Nacional que teve lugar ontem, é a segunda vez que Rui Rio sai derrotado de um conselho e que Paulo Rangel consegue angariar votos do partido. É Paulo Rangel que sai mais forte desta reunião do PSD?
Nós temos que observar esta reunião do Conselho Nacional para a sociedade e internamente, porque internamente é preciso ver quem votou com Paulo Rangel, quem votou com Rui Rio. Os membros do Conselho Nacional valem todos um voto, mas não valem todos a mesma coisa sob o ponto de vista de eleições internas de um partido político. Um presidente de uma distrital não vale a mesma coisa que um mineiro. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que se parece evidente que Rui Rio, que tem teoricamente a maioria do Conselho Nacional, vê algumas das suas propostas a serem negadas, isto quer dizer, evidentemente, um aumento do ativismo a favor de Paulo Rangel. Mas eu recomendaria alguma prudência. O que me parece fundamental nas duas propostas que estavam em causa é justamente a maximização, e é para isso que servem as eleições internas dos partidos, a maximização do resultado eleitoral de cada um. E, evidentemente, o pagamento de quotas ou não pagamento de quotas representa aqui cada um dos candidatos a observar que tipo de mobilização consegue fazer para ganhar o partido em eleições diretas.
Mesmo nessa questão, até porque Rui Rio queria abrir a votação a todos os militantes com quotas pagas, Rangel disse que não, que análise é que podemos fazer desta solução que esteve em cima da mesa?
Essa questão remete para a estrutura interna dos partidos. É difícil para fora, porque sobretudo passa a imagem de clientelismo. Mas a experiência, quer do Partido Socialista, quer do PSD, aponta para, por exemplo, dezenas de militantes de repente aparecerem com as quotas pagas porque empresários políticos internos lhes pagam as quotas. Ou seja, nós temos aqui sempre muitas dimensões que são dimensões clientelares. O que vale a pena salientar aqui neste caso é que Rui Rio, aparentemente, tem menos peso no aparelho e, portanto, aposta mais no voto individual da militância de base. É isto que aparentemente estava em causa, e Rui Rio perdeu. Ou seja, nos votos dos militantes com quota, evidentemente, o aparelho tem uma importância maior.
Rui Rio tem sido acusado, de certa forma, de mudar de narrativa. Houve, de facto, uma mudança na estratégia do presidente do PSD nos últimos dias, nas últimas semanas.
Rui Rio legitima a sua mudança, basicamente, com base na certeza, que acabou por ficar, da sua previsão que teríamos eleições antecipadas. Primeiro propôs o adiamento e a seguir, evidentemente, a realização do congresso e do processo eleitoral mais cedo para preparar o partido. É uma contradição que, num certo sentido, lhe dá razão, mas evidentemente também ilustra que ele já não tem a maioria do Conselho Nacional para o apoiar.
Com eleições também marcadas para daqui a 20 dias, o que é que podemos esperar? Rangel sai mais bem posicionado. Disse que é preciso prudência, precisamente porque os dois candidatos vão buscar, de certa forma, votos a campos diferentes do partido, mas o que é que podemos esperar nas próximas semanas para esta luta pela liderança?
Uma sondagem realizada pela Universidade Católica ajuda-nos a perceber um pouco a imagem que o eleitorado do PSD tem destes dois líderes. Um representa, num certo sentido, a moderação e a experiência política, o outro representa mais, evidentemente, a novidade. O que está aqui em causa é quem é, porque isso é mais importante no PSD e no eleitorado do PSD do que, por exemplo, no eleitorado do PS, quem é o candidato a primeiro-ministro. E entre a mobilização do aparelho e a mobilização de base, vai estar aí, evidentemente, o vencedor. Eu diria que vai vencer quem tem maior mobilização do aparelho.
Vou fazer-lhe só uma última pergunta também, olhando para o que saiu do conselho de ontem. Houve, de certa forma, um chegar a um acordo ou pelo menos a compromissos. O PSD sai também deste congresso com uma imagem diferente aos olhos do eleitorado nacional? Pode também contribuir para uma mudança de narrativa, neste caso, nas eleições antecipadas marcadas para janeiro?
Nós sabemos que as eleições internas dos partidos, com a sua dinâmica de tensão, de mobilização clientelar, não são bem vistas pelos portugueses, muito embora sejam, evidentemente, um instrumento central de funcionamento dos partidos e do sistema político democrático. Mas eu diria que, com esta antecipação, o PSD tem todas as condições para se apresentar com líder. Evidentemente, também vai ser importante que o derrotado dê uma imagem de unidade, ou seja, que nas vésperas das férias do Natal, o PSD dê uma imagem de unidade em torno de um candidato a primeiro-ministro.
Parece possível essa unidade, independentemente do resultado?
Os partidos têm uma rapidíssima capacidade de conversão interna. Convém também salientar que mesmo o, neste caso, ou secretário-geral, ou o presidente do partido, ou o candidato, há listas para deputados que têm que ser realizadas, há maiorias e minorias que têm que ser negociadas, tudo aponta para que exista alguma negociação entre o candidato derrotado e o candidato vencedor.