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Contamos nesta edição das 16 horas, em direto, com Rui Reininho, que escreveu o prefácio da autobiografia que Rita Lee editou em Portugal em 2017. Já vamos falar sobre essa colaboração, Rui Reininho. Para já, o rock em língua portuguesa perdeu uma das maiores vozes de sempre?
Olá. Sim. Uma das expressões mais sinceras e talvez das mais comunicativas que o chamado rock bicho, inglês ou quer que seja. Sabe que a Nina, como a gente chamava Rita, atuou ao lado de gente como o David Bowie, o Rolling Stones e Sting. Quer dizer, de fato, ela estabeleceu uma ligação que era um pouco até, se calhar, percebi lendo a sua autobiografia, que havia até uma certa, não diria rejeição, mas uma certa antipatia de algumas das nossas vedetas conhecidíssimas dos MPBs. Os Chicos, os Caetanos, as Simões e as Gaias. Ela estava em outra corrente e sempre quando há um movimento muito forte, torna-se muitas vezes snob em relação a uma coisa que é o pessoal do rock, que continua a ser considerado sub ou contracultura. Mas ela forma realmente os mutantes e a forma dela era indissociável de uma criatividade muito grande. E depois era uma mulher muito forte. As atitudes dela levaram-na até à prisão, estando grávida, tendo sido acolhida. Na autobiografia ela fala nisso. Ficou muito surpreendida que a primeira pessoa forte, digamos assim, a ir visitá-la foi a Elis Regina, que ela acho que lhe disse: "Eu pensava que a menina me odiava, me desprezava". Mas não, a Elis realmente era muito grande e pensou, com certeza: "Aquela gaja está presa, está aflita e eu tenho que ir ajudá-la". Isso é que são heroínas. Isso é que são mulheres e mulherões. Não são aquelas chocas cheias de curvas. Fazem alguma coisa umas pelas outras.
E como é que surgiu o convite para escrever o prefácio de "Uma Autobiografia"? Era assim que se chamava o livro.
Surgiu por aqui pela esta editora simpática, pela Contraponto, de um amigo, Rui Conceito, que diz que eu fui falado e propalado lá e de repente disseram que eu nem quero chamar a Rita, naquela intimidade, embora tenha lido as páginas todas de trás a frente.
Mas conheceu-a pessoalmente?
Tivemos um contato videofônico e a coisa mais simpática que aquela criatura maravilhosa disse foi assim: "Oi, gato. Adorei seu texto". E pronto, eu tive ali a bênção de uma das criaturas mais mágicas, mais transgressoras, porque a vida dela realmente não foi fácil. Uma menininha, como ela diz, dos subúrbios de São Paulo. Que contava desassombradamente: "Eu fui violada aos seis anos por um operário lá em casa, mas isso já passou". Quer dizer, aquela vontade de sobrevivência e de não pôr carga nas coisas e as coisas que lhe aconteceram, de fato. Um bocado como o Manolis lá amou como um monstro, viveu como um monstro. Dirigiu, teve frustrações enormes nalguns dos seus espetáculos em que montavam, porque não era muito fácil. Realmente, uma garota, como ela se dizia, meio chalupa, que gostava mais de desenhos animados do que de filmes sérios. Gostava mais de banda desenhada do que literatura. Que se impôs de uma maneira fantástica. Amou, bebeu, fumou ali a sua maconha, fez o que fez e viveu extraordinariamente e fez com que o miolo disso tudo, que as pessoas não pensam assim, mas esta pessoa fez tanta gente feliz. Com as suas músicas, com os seus banhos de espuma, no escurinho do cinema e algumas músicas até mais elaboradas e até mais avançadonias.
Tem uma preferida, Rui Reininho?
Eram fantásticos para mim. Quando eu vi aquelas roupas, olhei para aquilo, daquilo dá zero para os Mamas and Papas, aqueles grupos psicadélicos. Muito bem.
E tem alguma preferida, alguma música preferida, Rui Reininho?
Não, minha querida, eu não tenho nenhuma preferida. Infelizmente, na minha vida. Neste caso é obra global. É certo que às vezes vou buscar aquele velho vinil com aquelas capas um bocado kits, cheias de cor. E às vezes enterneço-me, porque infelizmente não sou um homem de cocktails, mas tenho saudade de ir lá para fora e beber um cocktail à James Bond e pensar que ela podia ter sido uma Bond girl. Uma grande girl foi, de certeza. Minha querida Rita, boa viagem para o outro planeta, que tu também não eras muito daqui.
E esta é uma altura de homenagear a Rita Lee, que soubemos na última hora, morreu ontem aos 75 anos. Já agora perguntava-lhe, Rui Reininho, se o rock português aprendeu mais com o rock brasileiro ou vice-versa.
Eu acho que vice-versa o contrário. Eu acho que o rock brasileiro tem coisas fantásticas, que é aquela simplicidade de pôr as situações. E depois aquela coisa de não cantar para dentro. Depois, não se refugiar como nós nos refugiamos durante anos no ing-alês. Sempre tiveram uma liberdade fantástica. Eu conheci poucos, infelizmente. Os Paralamas, o RPM. O Herbert Viana é um grande compositor. Dois ou três diziam que eu tinha uma certa semelhança com o homem da Ai, perdão, estou aqui engasgado. Está muito vento aqui. Estamos aqui no Minho e está muito vento. Mas a Legião Urbana e coisas de São Paulo sempre foi um rock muito preocupado com o que dizia. E aqui às vezes não, parece assim um bocadinho "nhonhonhó, nhonhonhó, xoxoxó".
Obrigada, Rui Reininho.
Mas não ficamos pela negativa do "nhonhonhó, xoxoxó". Estão a acontecer coisas muito boas aqui na nossa vizinhança. No Minho, o Glockenwise, a Surma, muita gente. Estão a fazer muito bem. Muito obrigado.
Tal como também a Rita Lee fez muito bem pela música rock brasileira e pela música em língua portuguesa. Muito obrigada, Rui Reininho, por ter estado nesta edição das 16h, aqui na Rádio Observador. É a notícia que marca esta tarde. Rita Lee morreu ontem aos 75 anos