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Junta-se a nós, neste jornal das 11h, Humberto Varum, presidente do Colégio de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros, especialista também no comportamento sísmico dos edifícios. Bom dia, Humberto Varum, obrigado por estar aqui conosco, pela disponibilidade em juntar-se a nós neste jornal das 11h. Mais de 24h depois do primeiro abalo e conhecendo as regiões mais afetadas, em particular Marraquexe, pergunto se ainda há risco de vermos mais edifícios a ruir nos próximos dias.
Muito obrigado. Bom dia, André. Bom dia para quem nos ouve. Permita-me que comece por endereçar uma palavra de solidariedade com o povo de Marrocos e uma palavra de encorajamento a todas as forças que estão no terreno a curar as vítimas. Efetivamente, com este sismo, que foi muito forte, muitas estruturas ficaram danificadas. Algumas acabaram por ruir, mas não é dito que algumas estruturas, que embora não tenham colapsado, possam ter algum dano significativo, que eventualmente poderá terminar no seu colapso se houver, por exemplo, algumas réplicas.
E nesse sentido, pergunto também, tendo em conta esse risco de mais edifícios virem a ruir, que cuidados é que devem ser tidos nas operações de busca que ainda decorrem no terreno? Falamos de, muitas vezes, meios que são máquinas pesadas. Nesse sentido, que cuidados é que devem ter os operacionais?
Efetivamente, tal como a comunicação social, e muito bem, com muito rigor, tem passado a informação para a sociedade, essas primeiras horas após o grande evento são horas de foco no resgate das vítimas. Numa fase posterior, haverá a necessidade de fazer uma inspeção rápida às infraestruturas e edifícios que foram eventualmente afetados, que tenham algum dano e que possam merecer o levantamento de algumas dúvidas. Mas o conhecimento técnico que existe na comunidade internacional e também somado à experiência local que existe em Marrocos, com certeza que as forças técnicas, nesta segunda fase, irão conseguir fazer a avaliação com rigor destes edifícios onde se levantam algumas dúvidas de eventualmente haver insegurança, por forma a permitir que a população, os habitantes, entrem nos seus edifícios em condições de segurança.
E o tipo de edifícios que se encontram nestas regiões marroquinas, acha que também é uma das formas de justificar o elevado número de vítimas que temos visto, é muito também pela forma estrutural como são construídos os edifícios por lá?
Sem dúvida, André. Nós, obviamente, estamos atentos, a comunidade técnica em Portugal e o resto do mundo também está atenta à informação que nos vai chegando. Para já, a informação do ponto de vista técnico ainda é limitada. Contudo, com as imagens que a comunicação social tem partilhado, há indícios claros já de que uma parte importante dos edifícios que colapsaram são edifícios que ou foram edificados com materiais naturais, foram edificados com as alvenarias tradicionais noutros tempos, sem as preocupações sismorresistentes que temos hoje em dia no projeto e na construção dos edifícios, ou então, eventualmente, temos também já alguns colapsos de edifícios mais recentes, já edificados em betão armado, mas que eventualmente colapsaram devido a não terem sido construídos com base num projeto formal, completo e rigoroso, e eventualmente também não terem sido construídos com um rigor adequado no controlo dos materiais, na pormenorização e na construção.
Olhando aqui para Portugal, este abalo foi sentido em Portugal. De resto, tem sido palco de alguns sismos de pequena dimensão nas últimas semanas, mas não é preciso falarmos muito sobre o histórico sismológico em Portugal, porque já sabemos qual é que foi o maior de todos. Mas sabemos que grande parte do parque habitacional português não está preparado para sismos. Se Portugal fosse atingido por um abalo da dimensão do que vimos esta semana em Marrocos, 6.9, considera que teríamos um cenário semelhante?
Ora bem, a comparação é sempre difícil de fazer, porque há diferenças nas práticas construtivas, há diferenças na evolução da prática de projeto e de construção. No entanto, não há dúvidas que o conhecimento técnico que a comunidade de engenharia tem vindo a desenvolver a nível internacional, e Portugal, neste sentido, na área de engenharia civil, tem feito um esforço extraordinário e, portanto, não há dúvidas que este conhecimento tem influenciado a evolução dos códigos do projeto, não há dúvida que este conhecimento tem sido ensinado nas universidades. Tem havido uma investigação do mais elevado nível nos nossos laboratórios. No entanto, é importante também dizer que os códigos da atualidade, esses códigos mais rigorosos e que transcrevem o estado do conhecimento atual, são relativamente recentes e, portanto, como dizia o André, efetivamente, há muitos edifícios que foram construídos sem estas preocupações sismorresistentes, porque o conhecimento à época não existia. Por outro lado, há situações, e nós sabemos que existem, embora acreditamos que sejam situações de exceção, onde eventualmente há simplificação do projeto, onde eventualmente não há o devido controlo da qualidade da execução em obra, eventualmente teremos alguns edifícios mais recentes que não garantam o nível de segurança para os quais a nossa sociedade está preparada para exigir ao nível dos critérios atuais. Obviamente que aquilo que nós fazemos hoje em dia é muito melhor do que o que se fazia no passado. No entanto, é importante passar a informação para a sociedade de que Aquilo que nós temos nos nossos aglomerados, nas nossas cidades, nos nossos bairros, é um conjunto de edifícios com características muito distintas, construídos em épocas distintas, seguindo práticas de projeto e de construção distintas. E, portanto, efetivamente temos cenários possíveis de resposta destes edifícios aos sismos que podem variar muito. Aquilo que é importante também dizer é que é nossa responsabilidade, e de novo, repito, o conhecimento técnico existe, as ferramentas existem, mas é nossa responsabilidade, da sociedade, exigir um aumento do rigor em todos os atos de engenharia. E, portanto, nós devemos caminhar no sentido de ser cada vez mais exigentes e não no sentido contrário.
Humberto Varão, eu gostava de lhe perguntar também, olhando para uma situação que tivemos em fevereiro deste ano, tivemos um sismo também muito forte na Turquia, que causou uma destruição talvez ainda maior do que aquela que estamos a assistir em Marrocos. Foi muito discutido recentemente, portanto, o tema dos sismos. Desde fevereiro, desde esse sismo na Turquia, foi feito um novo trabalho sobre sismologia. É um problema que considera que continuou a ser ignorado, aqui não falo tanto por quem trata do assunto, mas mais da área governamental. Acha que o mundo conseguiu aprender novas coisas com o sismo que aconteceu na Turquia?
Ora bem, cada vez que acontece um sismo de magnitude moderada ou elevada, com impacto significativo na sociedade, obviamente que, e fruto da divulgação que é feita pelos meios de comunicação social, existe como que um acordar de novo para o problema. O que é importante é que os decisores políticos e a sociedade, como um todo, mantenham esta atenção ao problema de uma forma contínua. E que, portanto, todas as pessoas, todas as instituições colaborem no sentido de continuarmos a produzir atos de engenharia que sejam cada vez mais conduzentes de uma sociedade e de um parque edificado cada vez mais resiliente. Reconhecemos e sabemos os problemas que existem, temos é que ter capacidade de envolver toda a sociedade, por forma a que cada proprietário, cada promotor, seja também cada vez mais exigente. E os decisores também têm que tomar decisões políticas no sentido de promover projetos cada vez mais rigorosos, por forma a produzir ou introduzir no nosso parque edificado um nível de resiliência sísmica cada vez mais elevado.
Humberto Varão, pergunto apenas uma última questão. O que é que tem de ser feito para nos precaver? Quais é que são as soluções que podem minimizar, no fundo, as consequências de uma destruição como a que estamos a ver agora em Marrocos?
Muito bem. Do ponto de vista da segurança dos edifícios e das infraestruturas, basicamente promover projetos de melhor qualidade. Em intervenções de reabilitação, sermos muito exigentes e, portanto, impormos nas reabilitações do nosso edificado os mesmos parâmetros, os mesmos níveis de segurança que nos impomos tipicamente na construção de infraestruturas e edifícios novos. E, portanto, em intervenções de reabilitação, devemos promover projetos e a sociedade deve exigir projetos à engenharia que estejam ao nível ou que promovam um nível de segurança compatível, como disse, com aquilo que exigimos quando construímos edifícios ou infraestruturas novas.