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Conferência de imprensa com a Ministra da Saúde, onde foi dado conta dos resultados deste primeiro inquérito serológico realizado pelo Instituto Ricardo Jorge, que dá conta deste dado 2,9% de imunidade da população portuguesa. Para nos ajudar a olhar para este documento, conhecido há poucos minutos, está conosco o epidemiologista Manuel Carmo Gomes. Boa tarde e obrigado pela disponibilidade.
Boa tarde, obrigado pelo convite.
E eu começava por lhe perguntar que comentário é que merece esta taxa de 2,9%, ligeiramente abaixo de alguns países europeus, mas se o surpreende ou não este número, esta taxa de imunidade.
Ora bem, em primeiro lugar, deixe-me dar os parabéns ao Instituto Ricardo Jorge e aos seus excelentes profissionais, que num curto espaço de tempo, com uma amostra de mais de duas mil colheitas de sangue, conseguiram nos apresentar estes resultados e esclarecer uma série de dúvidas que nós já tínhamos, ou melhor, que nós tínhamos e agora foram parcialmente esclarecidas. Esses 2,9% são uma ligeira subestimação da verdadeira percentagem de pessoas que contactaram com o vírus, e já vou falar um bocadinho sobre isso, mas não nos surpreende. Quer dizer, nós se compararmos este valor com o de outras regiões da Europa que foram seriamente afetadas, onde encontrámos valores de 7%, raramente atingiram 10%. Estou a pensar de certas regiões de Espanha, de Itália, a própria Suécia. Portanto, o nosso valor é inferior. Nós não fomos tão atingidos pela epidemia como essas regiões, portanto, isto era expectável. Mesmo assim, o que isto significa é que o número de casos que nós conseguimos diagnosticar, identificar todos os dias, que são conhecidos, está muito aquém do verdadeiro número de infectados na população. Nós estimamos que aproximadamente 10, 11, 12% do verdadeiro número de infectados é que é detetado e diagnosticado. Isto, evidentemente, porque há uma grande percentagem de pessoas que são infectadas e/ou são assintomáticas ou têm sintomas muito leves que não chegam a valorizar.
Era o que ia perguntar. Desculpe interromper.
Deixe-me só argumentar por que eu considero estes 2,9% uma subestimação.
Sim.
Nós sabemos que as pessoas perdem relativamente rápido a titulação de anticorpos no sangue quando são assintomáticas. Isto é, se eu for infetado e não tiver sintomas ou tiver sintomas muito suaves, vários estudos mostram que ao fim de dois a três meses, os anticorpos que eu desenvolvi e tinha a circular no sangue baixam para um nível que pode não ser detetado por este tipo de estudos. Portanto, as pessoas que em Portugal foram infetadas ao longo de março, por exemplo, e que não tiveram sintomas, grande parte delas já não pôde ser apanhada por este estudo. Nós não sabemos exatamente quantos, mas o que isto significa é que estes 2,9% são uma subestimação. O verdadeiro valor é um bocadinho acima, com certeza, não sabemos exatamente quanto, talvez 3, 4, 5%. Portanto, eu colocaria a percentagem de seropositivos, ou melhor dito, de pessoas que contactaram com o vírus em Portugal, na zona dos 3% a 5%.
E que pistas é que isto nos deixa também pra questão da vacina? Ou seja, há a hipótese também de uma possível vacina ter só essa duração de imunidade, os tais dois a três meses?
Isso não sabemos. Deixe-me dar-lhe mais informações relativamente a esta questão da imunidade. Quando nós somos infetados pelo coronavírus, nós desenvolvemos dois tipos de resposta imunitária. Um são os anticorpos. É isso que é avaliado pelos estudos seroepidemiológicos como este que o INSA conduziu. Um outro tipo de resposta chama-se imunidade celular. É a imunidade que envolve um tipo de células, são conhecidas por células T. Há vários tipos de células T, por vezes chamamos de células de memória, e nós sabemos que as pessoas que contactam com este vírus, já está confirmado, mesmo os que são assintomáticos, desenvolvem esse tipo de imunidade. Não sabemos qual é a percentagem de pessoas que em Portugal têm esse tipo de imunidade, dita imunidade celular, mas é um valor que é no mínimo comparável a estes 2,9% que os anticorpos apontam. Ora bem, uma boa vacina, e isto era uma discussão que nos podia levar longe, uma boa vacina é uma vacina que induz resposta o mais semelhante possível a uma infeção causada pelo agente patogênico, neste caso, pelo vírus. Não sabemos se estas vacinas que estão a ser testadas, nomeadamente as que estão numa fase mais avançada, induzem esse tipo de resposta imunológica. Vamos saber isso quando terminar a fase três dos ensaios das vacinas. Provavelmente lá pro fim do ano, coisa que o valha. Se estas vacinas forem capazes de induzir essas duas respostas imunitárias parecidas com aquilo que o verdadeiro vírus induz, talvez a esperança de que a imunidade induzida pela vacina seja prolongada é maior, porque estas células T, em particular, têm uma duração muito longa. Nós ainda hoje encontramos pessoas que foram infetadas pelo SARS 1 em 2003, que embora já não tenham anticorpos, têm ainda estas células memória contra o SARS a circular no sangue. Isto passados 17 anos depois dessa doença. Portanto, tudo depende do tipo de resposta imunológica que essas vacinas induzirem. Se conseguirem imitar a resposta imunológica que é causada pelo vírus, temos esperança de que a imunidade dure mais tempo, não dure apenas um, dois anos. Se não conseguirem, as notícias não são muito boas. Temos aqui uma situação em que a imunidade se pode perder ao fim de um, dois anos, que de resto é aquilo que aparentemente os coronavírus que causam as constipações sazonais provocam. Tem-se estimado que quando uma pessoa tem uma constipação causada por um coronavírus, daqueles coronavírus mais benignos, normalmente fica protegida durante um a dois anos. Em geral, não fica mais do que isso.
Professor, eu perguntava-lhe se este inquérito também ajuda a desmistificar alguns mitos, por exemplo, das crianças serem mais imunes. Há aqui este número de que entre os 10 e os 19 anos a imunidade é de 2% e entre os 40 e os 59 é de 3%, portanto, ligeiramente superior.
Sobre isso, já agora, obrigado pela pergunta, que é muito interessante. Há duas coisas importantes que este inquérito, entre outras, nos diz. Uma é que não existe evidência de que as crianças não sejam tão infectadas como os adultos. A percentagem de crianças seropositivas neste inquérito não é distinguível da percentagem dos adultos. Elas são infectadas como nós somos infectados. Agora, o que nós sabemos é que as crianças, quando são infectadas, têm uma menor probabilidade de ter doença sintomática, grave, etc. Elas têm uns sintomas muito mais suaves. Não compreendemos ainda muito bem por quê. Mas agora, que elas são infectadas, são. E que elas têm vírus no trato respiratório superior, também sabemos já que têm, comparável aos adultos. Agora, o que nós não sabemos bem é o papel que elas desempenham no processo de transmissão. Será que elas, apesar de não terem sintomas nenhuns, foram infectadas, têm o vírus com elas, será que elas têm a mesma capacidade de transmitir o vírus entre elas e aos adultos, que os adultos têm entre si? Há um estudo muito interessante feito recentemente na Coreia do Sul que sugere que até aos nove, 10 anos, essa capacidade de transmissão não é tão grande como nos adultos, mas as crianças entre os 10 anos e, digamos, os jovens adultos, portanto os adolescentes, a partir dos 10 anos, já têm uma capacidade de transmitir semelhante à dos adultos. Outro aspecto interessante que este estudo mostrou e abona muito em favor do estudo, eu esqueci-me há pouco de referir, é que se nós compararmos a seropositividade por região Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, etc, com a incidência que a doença teve nessas regiões, nós vemos que há aqui uma associação que faz sentido. As regiões que foram mais afetadas, nomeadamente o Norte, Lisboa, Alentejo, têm uma percentagem de pessoas seropositivas, portanto, contactaram com o vírus, mais elevada do que, por exemplo, o Alentejo e o Algarve. Isto abona em favor da representatividade deste estudo. É uma comparação que há uma correlação entre as regiões mais afetadas e a maior seropositividade neste estudo, o que abona muito em favor do estudo.