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Perguntava-lhe se esta revalidação do título europeu indoor no triplo salto por parte do nosso atleta Peixardo foi de alguma maneira uma surpresa ou se o atleta estava a sentir um bom momento, se estava a sentir bem a nível físico e se esta marca, se este título o surpreendeu.
Muito boa tarde. Não é de surpresa, embora nós estejamos habituados no desporto a lidar.
Estava-me aqui um colega a dizer que a Oriol também acaba de conseguir ganhar.
Então é dois em um.
Isto é muito bom para o atletismo português.
Com certeza que sim, porque nós vivemos destes grandes momentos que para além de serem prémios extraordinários para os próprios atletas, para o seu talento, para o esforço que fazem diariamente, isto tem um poder magnético muito grande para os outros atletas. Portanto, são atletas que se tornam referências e que os outros tentam copiar, tentam seguir. Mal da área da atividade humana que não tem referências elevadas para servirem de modelos e de motivação. E quando nós temos esta possibilidade no desporto ter atletas deste nível, naturalmente que é uma bênção, eu diria, porque é isto que nós procuramos, é ter referências e podemos imaginar o que seria na música não haver grandes violinistas, grandes pianistas. Quem é que viria, quem é que despertaria para tocar esses instrumentos, para fazer música? Portanto, toda a nossa vida é um pouco referenciada pelos melhores. Naturalmente, são indivíduos extraordinários e neste caso, temos a sorte hoje de ter estes atletas connosco a representar-nos e a viver connosco e a sentirem-se portugueses de alma e coração. Isso para nós é extraordinário, porque isso permite-nos crescer, permite-nos ter outros atletas e que outros atletas deste nível procurem a modalidade para se iniciarem, etc. Tudo isto é muito bom. É muito bom para a modalidade e é muito bom para eles. E desde já muitos parabéns, em primeiro lugar para os atletas, para os seus treinadores, para os clubes que os apoiam também, o que é extremamente importante. Naturalmente, para toda a estrutura técnica nossa também que os apoia. Isto para mim é obviamente um motivo de orgulho e de satisfação.
Era isso que lhe ia perguntar. Termos atletas a conseguir títulos a este nível, que trabalham todos os dias para isso, obviamente, que mantêm a forma física e também mental todos os dias para depois fazer prestações a este nível, são grandes exemplos para os nossos jovens, para os nossos benjamins e até para os seniores, porque a qualquer idade se pode começar a praticar uma disciplina dentro, neste caso, do atletismo. Portanto, Oriol Domínguez mantém o título europeu no peso em pista coberta. Peixardo também. Como é que se faz a partir daqui? O que diria que falta fazer?
Faz-se aquilo que nós fazemos todos os dias de uma forma bastante invisível, infelizmente, mas temos que continuar a fazer o que fazemos, porque temos muitos jovens na modalidade, temos quadro competitivo permanentemente a decorrer, lá está, passa despercebido. Nós só estamos nas vistas quando aparecem resultados deste nível. Infelizmente, quase todo o desporto, com exceção do futebol, é invisível na nossa sociedade. Portanto, é pena. Temos uma cultura muito centrada numa modalidade, mas de vez em quando as nossas modalidades conseguem destacar-se e mostrar estes resultados. Isto são resultados, como muito bem disse, vitais, porque para já verifica-se ou dá-se notícia que existimos e depois que temos atletas da elite mundial. Obviamente, todos os jovens ou uma grande parte dos jovens sonham em pertencer a uma elite, uma elite desportiva, ou uma elite de ordem cultural, ou até científica, ou o que quer que seja. Mas aqueles que sonham em ser atletas da elite do desporto, naturalmente que têm aqui uma janela aberta, porque são estes atletas que dizem que é possível. Venham porque é possível chegarem onde nós chegamos, porque os veem treinar no dia a dia, porque os veem a competir cá e naturalmente sabem que é possível. Costuma-se dizer que um atleta que ganha uma medalha, um atleta que bate um recorde, é um atleta que abre uma porta para outros atletas passarem. E isto é obviamente notável e temos que estar gratos também a estes excelentes atletas por estas alturas, nas alturas certas, no dia certo, estarem bem, estarem no seu melhor, estarem em forma, que é uma característica dos campeões. Nestes grandes momentos, normalmente, quando conta, estão no seu melhor. Portanto, é isto que neste momento eu posso dizer a quente sobre estes resultados. É extraordinário e sinto-me muito orgulhoso em nome da modalidade, naturalmente.
Estava-me a dizer que sente, de alguma maneira, que o desporto, que o atletismo às vezes é invisível. Sente que os atletas têm recursos suficientes para treinar em pistas suficientes, campos de treino suficientes, tanto cobertos como ao ar livre. Como é que se pode evoluir daqui para a frente?
Fala-me de um tema que isso seria um programa interessante para a Rádio Observador Aprofundar esta questão. Olhe, eu digo-lhe assim resumidamente: o atletismo é a modalidade olímpica número um. Até em termos históricos é, naturalmente. É uma das modalidades originais do programa olímpico da antiga Grécia. Em Portugal também somos a única modalidade com campeões olímpicos, com cinco campeões olímpicos, 12 medalhas olímpicas, para além das mundiais e europeias. E eu digo-lhe com toda a clareza: é a modalidade mais desfavorecida em termos de instalações para a sua prática. Nós temos o atletismo que se faz em pista, que é o atletismo olímpico por excelência, com 24 disciplinas olímpicas. Não são todas em pista, temos a marcha e a maratona que são fora da pista, mas serão 21, 22 disciplinas em pista e as pistas operacionais no nosso país, equipadas e com condições, contam-se quase pelos dedos das mãos. Enquanto que em cada distrito há piscinas, há pavilhões, há campos de futebol sintéticos com ervados naturais, etc., normalmente as pistas não existem.
Pois, é Braga, é Pombal, é Lisboa e talvez mais alguma?
Não, nós incidimos muito a competição e está a dizer muito bem. Incidimos a competição, eu posso-lhe dizer, em Viana do Castelo, Braga. Por exemplo, Porto não tem nenhuma pista operacional para o atletismo. Aveiro, neste momento, o distrito de Aveiro está de aflição porque não tem pistas para fazer competições, porque uma está em reparação, a outra de Aveiro propriamente dita, da universidade, está em muito mau estado. Depois descemos, temos Coimbra, Aveiro, Lisboa, Setúbal e Algarve. No interior é difícil encontrar pistas com boas condições para fazermos competições, por exemplo, de nível nacional. A maior parte dos concelhos do país não tem uma pista. Dou-lhe o exemplo, e é um exemplo bastante esclarecedor, do distrito de Viseu. O distrito de Viseu é o maior distrito do país com 24 concelhos. Apenas temos uma pista em Viseu, uma em 24 concelhos. Isto é, todos os jovens dos 23 concelhos restantes não têm acesso ao atletismo olímpico, a este atletismo, ao triplo salto, ao salto em comprimento, aos lançamentos, ao salto em altura, ao salto com vara. Não é possível fazê-lo no distrito de Viseu, a não ser num dos 24 concelhos. É, na realidade, o distrito exemplar a este nível. Portanto, está a ver qual é a nossa situação. É um paradoxo.
Pois, os atletas têm que se deslocar muito para treinar e para competir, não é?
É impossível. Imagine um jovem do interior do país, imagine um jovem de um destes concelhos que eu referi do distrito de Viseu. Imagine que quer fazer atletismo. Não tem onde! Porque não podem estar todos os dias a caminhar para a capital do distrito, para Viseu, para fazer a modalidade. É impensável. Tem que haver instalações de proximidade, minimamente de proximidade. Não é pensável que os atletas de 23 concelhos se dirijam para a capital do distrito para fazer atletismo no dia a dia. Para não falarmos nas condições do atletismo na escola, que é outra situação terrível para nós. E este é o paradoxo que eu aponto sempre. Somos a modalidade com melhores resultados, a modalidade olímpica número um e é a última em termos de condições. Agora, uma coisa eu digo também, e faça-se justiça, e vai ao encontro da sua pergunta inicial. Estes atletas que nós estamos agora aqui a falar e que estão a este nível, eu diria que lhes falta muito pouco daquilo que são as condições ideais. Têm praticamente todas as condições e não é por acaso que chegam a este nível. É porque lhes conseguimos dar, o Comitê Olímpico, o IPDJ, portanto, com o apoio do Estado, conseguimos dar-lhes as condições ideais para eles se prepararem. O grande problema está destes atletas de alto nível para baixo, isto é, daqueles que têm talento, daqueles que gostariam de praticar a modalidade e não conseguem chegar à prática da modalidade porque não têm as condições mínimas, as condições na escola, que são muito más, para não dizer inexistentes, para a prática do atletismo. Aí é o nosso grande problema. Eu costumo dizer que isto é como se fosse uma casa com um telhado de último modelo, de última geração, com os melhores materiais, mas depois grande parte das paredes do edifício não estão bem. Para não dizer que estão em ruínas, no caso de muitas zonas, muitas áreas do nosso país estão completamente desprotegidas, completamente desguarnecidas das condições mínimas. Obviamente, não era meu propósito estar a falar nisto num momento de glória para os nossos atletas e para a modalidade, mas a realidade destes atletas para baixo é muito deficitária, é muito carente. Precisamos, na realidade, de um outro olhar. Isto são défices acumulados ao longo de décadas e décadas. Naturalmente, eu sei que não se resolvem de um momento para o outro, mas deveríamos ter uma outra consciência sobre o valor do desporto no nosso país e olhar de outra maneira estas modalidades. Eu diria que o atletismo, obviamente não é por ser o presidente da federação que o digo, tem que ser encarado como uma modalidade prioritária. É a base. Eu diria que é a modalidade mãe, e não sou só eu a dizê-lo, diz-se mesmo a nível internacional, é a modalidade mãe de todas as outras modalidades. Desenvolvem-se capacidades no atletismo que são básicas para qualquer outra modalidade. A velocidade, a força, a resistência, a técnica mesmo do saltar, do correr e do lançar é uma base para outras modalidades