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Está conosco em estúdio também o Tiago Pereira, editor de cultura do Observador. Tiago, bem-vindo também a esta emissão especial. O certo é que para além de ser conhecido como escritor, António Lobo Antunes era conhecido por todos, não é?

Sim, eu acho que era o Lobo Antunes. Independentemente de ser um nome associado à alta literatura, de ser um nome que podemos dizer sem reservas, influenciou definitivamente a literatura portuguesa, mudou, deixou sua marca, construiu legado, mas depois era o Lobo Antunes e toda mundo o conhecia, tivessem as pessoas lido ou não, tivessem as pessoas lido só um livro ou não, tivessem as pessoas lido, por exemplo, um dos livros que reuniu as crônicas que ele escreveu, que era talvez um dos livros mais populares. Porque tinha aquele formato mais curto, mais condensado. Era uma figura que mesmo gerando paixões, eu não diria ódios, não me parece, não estou a ver por quê. Talvez alguma curiosidade quando António Lobo Antunes tinha uma frase mais incisiva numa entrevista, quando era citado, recusando uma e outra vez o epíteto de possível laureado com o Prêmio Nobel e recusando homenagens. Mas era uma figura que fascinava pela forma, obviamente, como escrevia e como parecia conseguir revolver as entranhas, que, depois isso é interessante, apesar daquela classe na escrita, eram entranhas que são comuns a toda gente. Depois a grande diferença está em quem consegue levá-las a um outro patamar e ele conseguia fazer isso. Mas os demônios que ele trazia de um lado particular, mas que eram partilhados de forma geral por toda gente. A forma como foi progressivamente incluindo mudanças na sua escrita à medida que ia incluindo mudanças na sua vida e na sua idade, a relação permanente que tinha com aquilo que viveu enquanto médico, aquilo que viveu na guerra e como levava isso depois para os livros. Eu acho que as pessoas todas ficavam, e continuarão a ficar, fascinadas com a capacidade de transpor isso para letras. E ele tinha depois aquele semblante que muitas vezes ficava na dúvida se ele estaria a ser muito sério ou se estaria a ser irônico. Portanto, ele tinha muito mistério à mistura.

E cultivava isso também, de certa forma.

Claro, sim, não sei se de forma voluntária. Não sei se era um objetivo esclarecido e definido que ele tinha e que dizia: "Agora, de repente, vou aqui investir no meu mistério". Tenho dúvidas, mas era uma coisa que de fato fazia parte dele, podemos chamar de charme. Acho que é mais interessante. Falei em charme e o Bruno Vieira Amar está aqui olhando para mim.

Ligou o microfone.

Liguei logo. Chamaste-me? Não. Mas é bom lembrar que quando António Lobo Antunes irrompe na literatura portuguesa, é um terremoto.

Exato.

Não só pelo que escreveu, mas pelo que dizia nas entrevistas. Eu tenho de citar isto aqui. Eu aqui há uns tempos publiquei um artigo sobre um livro que reunia as entrevistas que o António Lobo Antunes deu ao longo da carreira. Não tenho agora presente aqui o nome do livro, mas deixem-me recordar a primeira entrevista ao Diário Popular, que ele deu ainda nos anos 70, a 18 de outubro de 1979, e ele disse isto sobre a literatura portuguesa: "Fala-se em masturbação intelectual. Eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não tem sangue, não tem tripas, não tem aquilo a que Rilke chamava sangue, olhar e gesto. É uma literatura sem sangue e sem olhar e sem gesto. É uma sei lá, pá, é uma merda que anda à roda." Peço desculpa pelo-

É charme.

Isto é o Lobo Antunes quando aparece, foi no ano em que ele publicou os primeiros livros. Portanto, ele não veio para trazer a paz. Na altura, ele veio para agitar as águas e há muitas críticas a escritores que ele faz ainda durante os anos 80. Ele nunca foi, pelo menos naquela fase inicial, nunca foi de meias-palavras. Ele entrou mesmo para agitar as águas.

Isso tudo faz com que ele, apesar do nível literário a que chegou e do estatuto que tinha enquanto escritor, era uma figura extremamente pop. Eu diria que se alguém aparecesse agora, não sei se vou criar uma moda, provavelmente não, espero que não, não quero ter nada a ver com isso, mas se fosse moda agora, de repente, usar T-shirts com a cara do Lobo Antunes, eu não me surpreenderia. E eu acho que seria uma coisa que qualquer pessoa poderia usar, de qualquer idade, e não seria de todo estranho ou tão estranho como se possa pensar à primeira vista, e seria uma espécie de ícone. Aquela cara que toda mundo reconhece, aquela pose que toda mundo viu em televisões, aquele "que sé lige" profissional que ele tinha, mas que era muito instintivo e que não me parece que ele trabalhasse para o ter e que o levou a ter esta atitude que o Bruno falava assim que apareceu, de eu vou fazer as coisas como eu quero, é assim que isto vai ser. E acho que foi uma filosofia que ele carregou a vida toda e em todos os livros, parece-me. Não foi uma coisa que ele protagonizou só para marcar diferença assim que apareceu. E eu acho que para lá de todos os méritos literários, que o Bruno será muito mais expedito em elogiar do que eu, eu acho que há este lado abrangente de marca cultural que define aquele artista, autor ou intérprete que consegue, de fato, chegar a um estatuto superior, em que nós o consideramos quase como uma espécie de entidade especial que engloba muitas características e muitas especialidades, se assim queiras, que o tornam, de fato, diferente.

Tiago Pereira, obrigado também pela tua presença aqui em estúdio. Agora vais ter um programa para preparar de novo.

Estava querendo dizer o mesmo, depois das duas vai ser dedicado.

Vai ser extraordinário, porque o Bruno vai lá estar, portanto, vai correr bem. Digo eu.