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Há um caso confirmado de peste bubônica na Mongólia, uma região autônoma da China. Trata-se de um pastor. É um caso que já tinha sido identificado como suspeito de infecção pela doença. Este homem está estável, a receber tratamento no hospital. A notícia foi avançada em instantes pelo New York Times. Além deste caso, já foi identificado um outro suspeito de peste bubônica numa jovem de 15 anos, também na Mongólia. Conosco temos agora, ao telefone, um infectologista do Hospital Egas Moniz, professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, Jaime Nina. Bom dia, muito obrigada por estar aqui conosco. O mundo está a viver uma pandemia e é normal que uma notícia destas possa criar algum alarme. Por isso é importante explicar as diferenças que há entre o tratamento à peste bubônica e à Covid-19.

Sim, a primeira coisa que eu queria dizer é que a peste bubônica há casos todos os anos, há milhares de casos todos os anos.

E, portanto, só é notícia agora porque estamos todos alarmados com a pandemia da Covid-19. Essa é a primeira ressalva importante.

E porque foi notificado na China. A China tem alguns casos, mas não é o principal foco. O principal foco atualmente é em África, nomeadamente na ilha de Madagáscar, que nos últimos 20 anos tem tido entre metade a dois terços dos casos do mundo, conforme os anos.

E o que é, concretamente, a peste bubônica?

É uma doença infecciosa muito grave. Há várias formas, mas a taxa de letalidade, ou seja, o número de mortes dividido pelo número de casos, anda sempre entre 50% a 100%, conforme as formas. Historicamente foi muito importante, basta lembrar a peste negra que varreu a Europa no século XIV e que terá morto cerca de um terço da população da Europa na época. Quando digo Europa, digo o norte da África, o Medio Oriente, etc. Isto é uma bactéria, não foi específica da Europa, ela varreu grande parte do velho mundo.

E há, desta altura, tratamentos, Jaime Nina?

Sim. Ela é altamente suscetível a vários antibióticos, como bactéria que é, ao contrário dos vírus, que os antibióticos não fazem nada. Por exemplo, quando foi o surto do sul de Angola em 71, 72, as brigadas de luta contra o surto de peste iam de aldeia em aldeia, davam uma única injeção de estreptomicina, 1 g, e 15 dias depois, quando passavam, toda a gente estava curada. Com uma única injeção.

Portanto, como infectologista, não fica preocupado, alarmado com notícias que indicam que há casos na Mongólia nesta altura.

Não, a Mongólia é uma das zonas endêmicas, a Mongólia interior, que é aquilo que se refere a notícia, tal como a Mongólia independente, tal como o sul da Rússia, o sul da Sibéria, da Ásia Central, as repúblicas da Ásia Central, é uma das zonas endêmicas de peste. Todos os anos há lá peste.

E há o risco de sair das zonas endêmicas e chegar a outros locais como a Europa ou continente americano.

Tem a ver com a transmissão. Ao contrário do atual vírus, que se transmite por via aérea, a peste, tradicionalmente, nomeadamente a peste bubônica, que é aquilo que se refere a notícia, é transmitida por um inseto, por pulgas. Pulgas que habitualmente picam os ratos. Portanto, é uma doença que está muito associada aos ratos e às pulgas. É uma doença que está ligada à pobreza e está ligada ao subdesenvolvimento. Os surtos que houve na Europa, foi na Europa da Idade Média. Hoje em dia não é crível que haja um surto de peste na Europa, ou na América do Norte, ou no Japão, ou noutras zonas desenvolvidas do mundo. Zonas relativamente pobres, pode acontecer.