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Acaba por ser uma notícia que já era esperada desde a convenção da IL. Foi feita uma espécie de pré-anúncio por João Cotrim de Figueiredo e perante esse pré-anúncio, creio que seria quase impensável que não avançasse. De qualquer forma, é uma formalização dessa candidatura pré-anunciada. Julgo que pra Iniciativa Liberal é provavelmente a candidatura mais forte que poderia apresentar, bem mais forte que Mariana Leitão. E portanto, de alguma forma, neste aspecto, a passagem de Mariana Leitão pra liderança, abandonando naturalmente a candidatura presidencial e o facto de João Cotrim de Figueiredo se ter pronto ficado a assumir essa candidatura, acaba por deixar a Iniciativa Liberal numa posição bastante mais confortável para estas presidenciais.
E como disse bem, que João Cotrim de Figueiredo tinha feito este pré-anúncio da candidatura durante a convenção da IL. E justificou dizendo que se avançasse seria porque os outros candidatos não traziam entusiasmo, não inspiravam e não diziam nada aos jovens. Sente que esta candidatura veio somar-se às outras ou será diferente como Cotrim promete?
Sim, percebeu-se que a aposta de João Cotrim de Figueiredo era, de facto, nesse segmento eleitoral, que é também muito o segmento em que a Iniciativa Liberal tem tido mais sucesso. Portanto, o eleitorado mais jovem, mais qualificado, urbano, e que a aposta de João Cotrim de Figueiredo é de que os candidatos até agora apresentados, nenhum deles será especialmente apelativo para esse segmento e que isso permitirá a João Cotrim de Figueiredo pelo menos ter uma boa base de apoio inicial pra sua candidatura presidencial. Eu creio que à medida que o tempo for passando e depois durante a campanha, João Cotrim de Figueiredo precisará de algo mais do que isso. Ele já hoje repetiu várias vezes na entrevista à SIC essa mensagem. Julgo que não poderá passar toda a campanha só com essa ideia, portanto, precisará necessariamente de algo mais, mas parece-me que como base de partida, e ainda mais pra uma candidatura que previsivelmente terá que no seu único partido a apoiar a Iniciativa Liberal, parece-me que é uma lógica que faz algum sentido.
E o que é que sente que falta a Cotrim de Figueiredo, além do apoio dos jovens?
Acho que precisa de se diferenciar mais claramente, nomeadamente dos outros candidatos no espaço do centro-direita e direita, incluindo aqui também o almirante Gouveia e Melo, que tocará também mais nesse espaço, ainda que também procurando ir ao centro-esquerda, de forma a motivar o voto em Cotrim de Figueiredo face às alternativas. Eu creio que pra motivar esse voto, pra mobilizar esse voto, será preciso algo mais do que dizer só que é o candidato da mudança e o candidato que apela a esse segmento. E provavelmente precisará de fazer algo que evitou fazer nesta entrevista, que é ser mais assertivo nas críticas aos seus principais opositores. Estou aqui a pensar, nomeadamente, pra já, em Marques Mendes e Gouveia e Melo. Cotrim de Figueiredo evitou criticá-los de forma assertiva. Se não estou em erro, até praticamente ignorou Marques Mendes e mesmo em relação a Gouveia e Melo, não foi particularmente crítico. Eu creio que no espaço eleitoral pelo qual vai concorrer e pra aspirar a um bom resultado, que pode ir até pra lá do tal objetivo mínimo dos dois dígitos, mas numas eleições que vão ser muito abertas, em particular à direita, eu acho que Cotrim de Figueiredo pode e deve aspirar a passar à segunda volta. Não será fácil, mas é uma possibilidade que deve estar no seu horizonte. Mas pra isso precisa, a meu ver, claramente se distinguir mais dos outros candidatos e, em particular, do que deverão ser os seus principais concorrentes, nomeadamente Marques Mendes e, enfim, numa lógica um pouco mais abrangente, Gouveia e Melo também.
Já que fala, por acaso vai um bocadinho de encontro à próxima pergunta que ia lhe pôr, que é Gouveia e Melo, após o pré-anúncio que João Cotrim de Figueiredo fez na conferência da IL, referiu-se a João Cotrim de Figueiredo como um candidato part-time. Neste momento, sente que Cotrim está full-time com esta decisão?
Eu acho que essa crítica de Gouveia e Melo é uma crítica justa. Também na entrevista à SIC, João Cotrim de Figueiredo nesse aspecto foi bastante frontal, disse que não ia abdicar do Parlamento Europeu, o que se compreende. Agora, a verdade é que um empenho pleno numa candidatura presidencial, e nomeadamente naquele objetivo que eu dizia há pouco, me parece bastante difícil, mas não impossível no cenário que teremos nessas presidenciais, até de poder passar à segunda volta, com o espaço à direita muito dividido. Essa aposta mais forte, a meu ver, exigiria deixar o Parlamento Europeu. Compreende-se que João Cotrim de Figueiredo não esteja nessa disposição, até porque quis ser também candidato ao Parlamento Europeu, quis ser cabeça de lista e teve um bom resultado. E esse bom resultado nas eleições europeias também se deve em boa parte a ele próprio, isso é reconhecido. Portanto, parece-me uma opção legítima não abdicar. Agora, naturalmente, acho que vai ser um ponto fraco da sua candidatura e é um ponto fraco que, a meu ver, Gouveia e Melo viu bem e apontou bem, porque de facto alguém que avança para umas presidenciais Mantendo-se como eurodeputado, é de facto alguém que não está a apostar em pleno nessa candidatura presidencial, por muitas qualidades que possa ter. E acho que João Cotrim de Figueiredo reúne várias dessas qualidades que são importantes para uma candidatura presidencial.
Há pouco disse que sentia que o candidato podia passar à segunda volta, mas sente que esta candidatura pode vir a alterar as contas do que nós já tínhamos, por exemplo, previsto nalgumas sondagens?
Acho que sim. E aliás, acho que aqui há uma diferença muito substancial, nomeadamente face à candidatura que estava prevista até à saída do Rui Rocha, que era a candidatura de Mariana Leitão. Eu acho que Mariana Leitão, neste momento, seria uma candidata presidencial que provavelmente valeria menos do que a IL e João Cotrim de Figueiredo é um candidato presidencial que, a meu ver, claramente vale mais do que a IL. Ou seja, Mariana Leitão, na melhor das hipóteses, numa candidatura presidencial, conseguiria o espaço eleitoral da IL. João Cotrim de Figueiredo, como aliás, as eleições europeias também sugeriram, o resultado das europeias sugeriu, tem potencial para ir além desse espaço eleitoral atual da Iniciativa Liberal. Nesse sentido, há aqui um problema grave, em particular para Marques Mendes. Já se percebeu que a candidatura de Marques Mendes não é uma candidatura particularmente forte, o candidato não é particularmente carismático. Com a candidatura de Cotrim de Figueiredo, que é um candidato, ainda com apoio institucional partidário bastante mais fraco que o de Marques Mendes, mas que eu diria que é um candidato que em termos de perfil pessoal, tem em vários aspectos até um perfil com mais potencial do que o de Marques Mendes, e que pode entrar nesse eleitorado de centro-direita, as contas para Marques Mendes passar a uma segunda volta ficam, a meu ver, claramente mais complicadas do que se a candidata presidencial da Iniciativa Liberal fosse Mariana Leitão. Se somarmos a isto o pré-anúncio de André Ventura de que o Chega também terá candidato, e eu julgo que esse pré-anúncio também não é alheio ao facto de Cotrim de Figueiredo avançar, porque o Chega fica também mais pressionado, quer pelas declarações que Gouveia e Melo teve relativamente ao Chega, quer pelo facto da Iniciativa Liberal ter uma candidatura mais forte, as contas para Marques Mendes complicam-se, e poderemos ter um campo à direita muito dividido. Ou seja, teremos o almirante Gouveia e Melo, certamente a entrar numa parte desse eleitorado de centro-direita e direita. Teremos Marques Mendes. Teremos, muito provavelmente, como já foi anunciado, um candidato do Chega. Teremos um candidato apoiado pela IL bastante mais forte do que o que era previsto se a candidata fosse Mariana Leitão. E portanto, poderemos ter uma pulverização desse espaço em que dependendo de como a campanha correr, eu creio que não é possível antecipar, não há um bilhete garantido para a segunda volta, nomeadamente para Marques Mendes. Claro que eu diria que neste espaço é quem parte numa melhor posição, para além de Gouveia e Melo, porque Marques Mendes tem, apesar de tudo, o apoio do PSD, que é o principal partido desta área política. Mas face a este quadro e a este xadrez muito pulverizado, eu creio que de facto vamos ter umas presidenciais muito abertas à direita, muito vai depender da dinâmica da campanha, e portanto, que Cotrim de Figueiredo, para além do tal objectivo, que eu chamaria um objectivo mínimo de chegar aos dois dígitos, ter o tal resultado pelo menos igual ou superior ao que teve nas europeias. Se a campanha correr bem, se João Cotrim de Figueiredo conseguir aproveitar esse potencial e ir além do espaço eleitoral da IL, o cenário de poder ser ele a passar à segunda volta é um cenário equacionável, ainda que com toda esta pulverização, eu diria que o cenário de passagem à segunda volta mais provável neste momento acaba por ser para o próprio António José Seguro, se conseguir agregar o espaço do centro de esquerda.
E por fim, falamos não de um candidato ainda, falamos de uma possível candidatura. Rui Moreira ainda não descartou a possibilidade de fazer candidatura e disse em entrevista à CNN em julho que se Cotrim avançasse, não condicionaria se candidatar também. Mas agora que João Cotrim de Figueiredo deu o primeiro passo, acha que Moreira pode recuar?
Vejo com muita dificuldade a viabilidade de uma candidatura presidencial de Rui Moreira, já antes mesmo do anúncio ou da formalização do anúncio de João Cotrim de Figueiredo, mais ainda depois desse anúncio, porque da mesma forma que João Cotrim de Figueiredo vem ocupar ou competir por parte do espaço do centro-direita e também de Marques Mendes, o mesmo sucede com Rui Moreira. Seriam três candidatos num espaço muito semelhante ou pelo menos com vastas áreas de sobreposição. Acresce que não me parece que Rui Moreira tenha, neste momento, reconhecimento nacional suficiente para viabilizar a sua candidatura. Agora, poderá fazer uma avaliação de que, perante umas presidenciais tão abertas, poderia ter hipóteses. Parece-me, francamente, que o anúncio de João Cotrim de Figueiredo reduz ainda mais o espaço disponível para Rui Moreira e portanto, vejo com alguma dificuldade que essa candidatura possa ser viável. Se eventualmente se vier a concretizar, que não me parece o cenário mais provável, mas se se vier a concretizar, eu diria que aumentaria ainda mais a pulverização à direita e tornaria ainda mais incerto o que vai ser o resultado da primeira volta das presidenciais.