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Foram detectados dois casos da nova variante de Manaus, a variante P1 do novo coronavírus. Dois casos detectados em Portugal, na região de Lisboa e Vale do Tejo. Ainda não foram confirmados pelo Instituto Nacional de Dr. Ricardo Jorge, mas por enquanto o laboratório Unilabs já confirmou à Rádio Observador que estão detectados estes dois primeiros casos desta variante que veio do Brasil. E é precisamente do Brasil que vem também o nosso convidado. Está connosco em direto ao telefone o Dr. Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz Amazonas, um centro de investigação que está a focar-se no novo coronavírus e nesta variante. Foi também o centro e a equipa de investigação que descobriu os primeiros casos desta variante de Manaus nesta região do Amazonas. Dr. Felipe Naveca, agradeço obviamente a disponibilidade para falar connosco aqui em Portugal com a Rádio Observador. Em primeiro lugar pergunto-lhe: para nós portugueses que começamos agora a ver estas novas variantes a chegar aqui ao nosso país, olhando especificamente para esta variante chamada variante de Manaus, esta variante que vem do Brasil, quais são os principais perigos desta variante e as principais diferenças para aquela que será, vamos chamar, a variante clássica, a variante original do novo coronavírus?

A variante encontrada no Amazonas tem mutações numa região que nós chamamos de proteína spike. Ela tem três mutações no sítio de ligação ao receptor celular e essas mutações já foram encontradas na variante do Reino Unido e também na África do Sul. E essas mutações já foram associadas com o aumento da ligação à célula, com o aumento da afinidade para com as nossas células e também com o escape de anticorpos. Então a gente acredita, e tudo leva a crer, que essa variante tem maior poder de transmissão. E também o fato de que nós até novembro não encontrávamos essa variante no Amazonas. Quando encontramos em dezembro, já foi em 51% das amostras sequenciadas e em janeiro já é mais de 91% das amostras sequenciadas. Então ela teve um aumento muito grande na frequência e essas mutações, tudo indica que ela é sim mais transmissível.

Doutor, para quem nos ouve e que queira perceber melhor em termos práticos qual é que é o perigo de contágio desta variante, pergunto-lhe: numa cadeia de contágios normal, ou seja, vamos chamar com a variante original do novo coronavírus, comparando com esta variante de Manaus, vamos chamar-lhe assim, qual seria a diferença? Se eu estiver infectado com esta variante de Manaus, eu corro o risco de passar o vírus a mais gente, a mais pessoas, elas ficarão mais doentes do que se tiverem a variante normal? É assim que funciona?

Em termos de doença mais grave, isso a gente não tem uma resposta ainda. Eu tenho conversado com alguns amigos médicos que estão atendendo e a gente tem informações um pouco contraditórias. Alguns acham que estão vendo quadros diferentes, por exemplo, um quadro em pessoas mais jovens e com gastroenterite. Outros dizem que não estão vendo diferença, só estão vendo o número maior de casos. Então para essa questão da clínica, a gente está desenhando um estudo agora para poder justamente associar se tem ou não diferença do ponto de vista da doença. Em termos de transmissão, sim, tudo indica que ela é mais transmissível por conta desse aumento acelerado. Nós nunca tivemos no Amazonas uma linhagem predominando com mais de 90% das amostras sequenciadas e em tão pouco tempo. Então isso tudo nos leva a crer que ela é sim mais transmissível. Agora, se ela causa uma doença mais grave, a gente ainda não tem essa certeza.

Olhando para a situação nesta altura aí em Manaus, daquilo que temos visto cá em Portugal, das notícias que nos vão chegando, é um cenário verdadeiramente difícil, com muitas vítimas mortais. Pelo que li e percebi, houve mais vítimas de Covid-19 em Manaus este ano do que todas as vítimas mortais de qualquer caso que houve no último ano em Manaus. Para quem está agora aí, nos pode descrever o impacto real, porque é o impacto real desta variante. Como é que nos pode descrever esse impacto?

É uma situação realmente muito dramática que a gente está vivendo em Manaus. O aumento muito de casos, quer dizer, você começa a ter muita gente, inclusive pessoas próximas, infectadas. Então os hospitais entrando em colapso, inclusive tanto da rede pública quanto da rede privada. Nós tivemos até os momentos piores, até oxigênio faltou, para poder suprir essas pessoas. A gente teve um cenário muito difícil, mas não pode ser só atribuído à presença da variante. A gente acredita, sim, que ela é um dos principais motivos, mas o fato de que nós já vínhamos enfrentando um aumento de casos depois do Natal e Ano Novo, isso também acredito que tenha sido um papel importante para o aumento de casos e um sistema de saúde que não aguentou esse acesso de casos.

Olhando para a vossa pesquisa, conseguiram perceber se esta nova variante, se esta variante de Manaus causa mais assintomáticos, as pessoas desenvolvem mais sintomas ou menos sintomas do que quem tem a variante clássica do novo coronavírus?

Essa é uma das coisas que está em estudo agora pra gente saber dos sintomas. Uma informação que eu posso te dar, que a gente já tem, é que nós temos três casos confirmados de reinfecção por essa variante. Pessoas que tiveram infecção pelo coronavírus meses atrás por outra variante, e agora nós conseguimos sequenciar tanto a primeira quanto a segunda infecção, e esses três casos foram pela nova variante. Ou seja, ela parece que consegue causar essa reinfecção. A gente ainda não sabe se por conta de uma queda dos anticorpos ou porque ela consegue escapar mesmo dos anticorpos de infecções prévias. Esses experimentos estão em andamento na Fiocruz do Rio de Janeiro e a gente deve ter respostas pra isso entre uma ou duas semanas.

Temos visto muitos especialistas, até portugueses, que têm falado da dificuldade que têm os próprios anticorpos em conseguir combater esta nova variante. É mais difícil para os anticorpos combaterem esta nova variante, a variante P1?

O que a literatura tem mostrado é que a mutação chamada E484K, que a nova variante tem e outras variantes têm de importância, como a da África do Sul, essa mutação sozinha consegue diminuir a eficiência dos anticorpos de infecções prévias. Isso já foi mostrado em outros experimentos. E como ela tem essa e outras duas mutações na posição 417 e 501, a gente acredita que é um cenário que vai diminuir realmente a ligação de anticorpos prévios e vai aumentar a ligação ao receptor celular. Então por conta disso, seria a explicação desse vírus ser mais eficiente no sentido de ser transmitido e potencialmente escapar dos anticorpos.

Doutor, por último, para quem lidou diariamente, acredito eu, e pesquisou diariamente e tem feito, acredito, a sua vida à volta desta variante, deste vírus, pergunto-lhe que mensagem pode deixar para os portugueses que começam agora a ouvir estas notícias sobre esta variante de Manaus. Que mensagem é que gostaria de deixar, de tranquilidade ou não, para quem começa agora a ter contato com esta nova variante?

Eu acho que a experiência que nós temos no Amazonas é muito triste, no sentido de um sistema de saúde que não suportou a carga. Então eu digo que o que a gente precisa nesse momento, e eu digo isso aos irmãos portugueses, é aumentar as medidas de controle, ou seja, o distanciamento social, a necessidade da utilização de máscaras e lavagem das mãos periodicamente, evitar o contato mesmo das pessoas, porque é a única maneira que a gente consegue frear o avanço de um vírus como esse. Eu não sei lhe dizer como está a vacinação em Portugal, mas aqui no Brasil ainda está muito no início. Então a gente não pode contar que a vacina vai ser uma medida eficiente. A gente ainda precisa saber o quanto de eficácia pode cair por conta dessa variante. Então acho que é extremamente importante nesse momento as medidas de controle de distanciamento social, de cuidados de lavagem das mãos, utilização de máscaras, pra que a gente consiga diminuir a circulação do vírus, incluindo essa variante que tem sido um problema tão grande no Amazonas.

Doutor Felipe Naveca, agradeço a imensa disponibilidade para falar conosco. O pesquisador da Fiocruz do Amazonas, aqui a contar-nos um pouco o comportamento, os perigos desta nova variante brasileira de Manaus, que chegou hoje a Portugal.