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Quando eu digo que fazes tudo em esforço, é fazes tudo em esforço.

Eu queria e queria. Comecei a sentir que estava num ponto que pareciam areias movediças.

As minhas próprias capacidades cognitivas estavam comprometidas já, e que eu teria que recuperá-las.

Um dos sinais mais evidentes do burnout é tu teres muita dificuldade em ler o que quer que seja sem te perderes. Eu ia a meio do parágrafo e já não me lembrava o que tinha lido no início.

Não consigo controlar, por exemplo, as pernas ou os braços, ou achar que estava toda dormente ou ficar bloqueada e não conseguir andar. Isto é tudo surreal, porque acaba por dominar todas as ações, todos os dias, todos os movimentos.

Dar a parte fraca não é algo que esteja aceite naquilo que é a nossa cultura.

As pessoas não podem esperar que a recuperação de um burnout ou de um princípio de burnout seja de novo um estalar de dedos, porque não vai acontecer. Não há milagres.

Dr. Vítor Couto Vio, não é um estalar de dedos o processo de saída de um burnout?

Não, não é mesmo um estalar de dedos. É uma coisa mais complexa.

Este é o "Sair do Labirinto". Eu sou o Paulo Farinha e vou conversar com o psiquiatra Vítor Couto Vio sobre burnout. Fátima Lopes, Gustavo Carona, Marisa Matias. Eram deles as vozes que ouvimos antes nas entrevistas para a série "Labirinto: Conversas sobre Saúde Mental", que pode encontrar no site do Observador. Não vamos falar destes casos em particular. São histórias que o Dr. Vítor Couto Vio não conhece, mas conhece muitas outras com burnout ou síndrome de burnout. É psiquiatra há 30 anos e é nesse contexto que acompanha e ajuda pacientes a sair deste labirinto. Vítor Couto Vio, bem-vindo. É como o ouvimos dizer, não há milagres?

Sim, não há milagres e ouvimos no testemunho a característica basilar, que é este sentimento de exaustão e que depois se traduz num conjunto de sintomas que podem ser os mais variados, desde os cognitivos, como se dizia ali, a não ler.

Dificuldade em ler.

Os sintomas vão desde os emocionais à parte fisiológica, às alterações, inclusivamente, queda de cabelo. As pessoas podem imaginar tudo o que quiserem. Alteração da esfera sexual, alteração do apetite na parte física, alterações comportamentais, a irritabilidade, a impaciência, a perda de controle. É uma variação de sintomas que atravessa muito o espectro de outras áreas, desde sintomas de ansiedade, a sintomas do humor, a sintomas comportamentais. Tudo pode ser uma consequência daquilo que foi a exaustão ou que é a exaustão.

É disso que falamos quando falamos de burnout, uma exaustão física e mental?

É, é isso que falamos.

Em contexto profissional?

Exatamente. No fundo, é isso mesmo. Aquela coisa do estresse laboral crônico, o estresse ocupacional crônico. Quando é crônico, porque é a definição de burnout, porque os japoneses encontravam aquela coisa estranha ligada ao trabalho chamada karoshi, que era a morte súbita laboral. Bem complicada, e eles foram os primeiros a pôr isso em cima da mesa. O burnout é isso. Sabe o que eu costumo dizer em relação ao burnout? Eu às vezes utilizo muito a ideia dos simbolismos e dos acrônimos pra explicar a coisa. Eu costumo dizer que o burnout é uma dialética entre o mel e o fel. O que eu quero dizer com dialética entre o mel e o fel? O fel do burnout é frustração. A pessoa não consegue desempenhar mais o trabalho.

O que ouvíamos dizer.

Sim.

As areias movediças que falávamos, que ouvimos.

Sim, a pessoa entra completamente numa rampa deslizante em relação à sua capacidade de trabalho. Por quê? Já lá vamos às causas, mas quando eu disse fel, acontece esta frustração do F, a exaustão, que é do E, e o L tem a limitação das capacidades. Estou frustrado, porque não sou capaz. Aquilo que eu me propus fazer, eu não sou capaz. Estou exausto, estou esgotado. Esgotamento é outra expressão, estoiro é outra expressão, queimei é outra expressão, burnout, queimei. Estas expressões são utilizadas pelas pessoas: queimei, pifei.

E estou limitado.

E estou limitado. Estou frustrado, exausto e limitado. O mel.

E o mel?

O mel é a dialética contrária, quando eu quero ajudar, no sentido genérico. É só pra ter uma imagem pras pessoas. O mel é como as pessoas resgatam uma coisa que ficou comprometida, a sua capacidade motivacional, em relação a uma coisa que já não têm, não têm capacidade, a motivação não está lá. Como se consegue novamente resgatar aquilo que é o E de envolvimento? O envolvimento é a pessoa estar envolvida com aquilo que é um propósito, dar outra vez sentido às coisas, pertencer ao grupo, fazer parte, ter reconhecimento. Isto é o envolvimento. E o L é a ligação. O E tinha a ver com este propósito, este sentido, será que é possível? Porque deixou de ter sentido, assim não faz sentido. E o L é a ligação, a pertença, como o ser humano é ser de relação. E as pessoas que estão em burnout estão desligadas.

Este mel é um processo que demora algum tempo.

Sim, demora.

Como se sai do labirinto? Como se processa este mel na saída do labirinto de um síndrome de burnout?

Sim, como nós olhamos para os aspectos motivacionais, para os aspectos de propósito e para os aspectos de ligação, de pertença e de reconhecimento e de realização? Está tudo comprometido no burnout. Envolve tentar ter a percepção, quais são as características daquela pessoa que levaram ao burnout, quais são as características do sítio onde ela está que levaram ao burnout As pessoas não se podem culpabilizar porque entraram em burnout. Aquilo não é propriamente uma fraqueza, aquilo é a suscetibilidade que decorre do conjunto de coisas que no mundo atual cada vez são mais propícias em termos de ambiente a desencadear burnout.

O burnout é uma síndrome relativamente recente em termos de caracterização e diagnóstico?

Em termos de conceitualização. Eu acho que sempre houve burnout, mas atenção, com a vida como está, é muito mais fácil haver burnout.

É mais propício.

É mais propício, por quê? Eu digo isso muitas vezes, lá vêm as imagens. É uma sociedade em 5D. Há muito volume, muita velocidade, muita vacuidade, muita voracidade, muita volatilidade, muitos "v". Fazer tanta coisa com menos recursos, com menos tempo. As causas do burnout têm muito a ver com isto, que é menos recursos pra fazer mais coisas, menos tempo, menos sentimento de pertença.

Com menos pessoas.

Exatamente.

Nas equipes.

Isso! Mais coisas pra fazer com menos pessoas, menos capacidade de controle. A pessoa tem uma inquietação enorme perante a perda de controle, a insegurança. Eu costumo dizer que a insegurança e a perda de controle e a imprevisibilidade são a mãe e o pai das ansiedades. E o burnout tem isto: a imprevisibilidade, a perda de controle, a sensação de que eu não tenho mais capacidade pra fazer tantas coisas naquele tempo. Portanto, esta relação entre perda de controle, não estar ligado, não haver um sentimento de pertença, não haver reconhecimento, a pessoa sentir que não há reconhecimento para aquilo que se faz. Tudo isto são coisas que se acentuaram muito numa sociedade muito acelerada e com muitas exigências.

Muito voraz.

Muito voraz.

Perante esta descrição de sintomas que ouvimos e perante estes tempos que vivemos e o contexto profissional em que decorre o burnout, há profissões que são mais propensas ao desenvolvimento de síndrome de burnout?

Historicamente, o burnout começa a ser muito estudado nas profissões ligadas ao cuidar. As profissões, nomeadamente, saúde, da área social, as profissões que se ligavam ao cuidar, cuidar dos outros, foi por onde se começou. Agora está largada em qualquer lado. Acontece na banca, nos professores, aqui na rádio, em todos os lados. Acontecerá em todos os lados. Por quê? Porque estas variáveis que eu estou a dizer acontecem em todos os lados.

Mas essa primeira identificação em profissões ligadas ao cuidar, por isso é que há tanto burnout nos médicos?

É. E a Ordem dos Médicos há uns anos fez um estudo e realmente, estatisticamente, aquilo impactava, assim como os enfermeiros também fizeram. E, portanto, impactava bastante, por quê? Porque há um paradoxo. As pessoas quando vão pra uma área de cuidar, supostamente, também devia ser nas outras, mas vão com uma ideia de vocação e de missão. Algumas delas, agora vão menos. Mas quando vão com uma ideia de vocação e missão, se há uma dissonância entre aquilo que eu me propus enquanto propósito de vida e aquilo que eu sou capaz de fazer e os recursos que tenho, o tempo que tenho, se eu tenho que fazer consultas em não sei quantos minutos, porque o computador me obriga e porque a gestão me obriga, começa a haver uma dissonância entre aquilo que é o meu propósito e aquilo que estou a conseguir fazer.

Que leva muitas vezes a uma frustração.

Exatamente, o F do FEL. Leva à frustração, exaustão e limitação das capacidades. E as limitações das capacidades, na situação de burnout, e então em saúde é impactante, porque muitas vezes as pessoas ficam mais cínicas. Pra se defender, vai aparecer alguém que fica mais cínico, porque é a forma de não se angustiar tanto pela incapacidade que tem a responder.

É aquilo que se fala da despersonalização.

Isso. Exatamente. É essa dissonância.

É uma barreira emocional que as pessoas colocam.

É, para tentar aguentar o que está a acontecer. E enquanto dá pra aguentar, metem ali um mecanismo de defesa que é contrário e paradoxal àquilo que se pede em saúde. E a empatia deixa de estar lá. E, portanto, isto fica paradoxal. E por isso é que nas profissões de saúde este paradoxo marca.

E como é que se sai deste labirinto? Como é que se trata um burnout?

Há uma parte que é: quando existem aqueles sintomas todos, os sintomas que são consequência do burnout, aqueles sintomas têm que ser tratados e, portanto, se a pessoa estiver deprimida na sequência do burnout ou se estiver ansiosa de uma forma incapacitante, pode ter que fazer uma medicação.

Podemos estar a falar de antidepressivos, ansiolíticos.

Podemos estar. Isto é uma parte. Estou a falar ajuzando. Agora, a montante, há muita coisa a fazer. E há muita coisa a fazer no que diz respeito à forma como estratégias que não são especificamente terapêuticas têm efeito terapêutico. Pra já, como é que naquela organização se tem mais lideranças em vez de chefias, que era outra área que eu gosto.

E era outra questão que eu tinha pra lhe colocar, que era: o que as organizações podem fazer para isto? Mas voltando aqui a uma questão. Há um burnout, aquela pessoa está exausta, tem sintomas físicos, tem sintomas emocionais, tem sintomas cognitivos, percebe que já não aguenta mais, bate à porta do consultório, o que é que se faz?

Uma das coisas é: provavelmente nesses sintomas, eu vou ter que diminuir o sofrimento, mas não basta diminuir o sofrimento, porque eu sei que aquela pessoa vai voltar pro mesmo sítio, se não levar outras ferramentas, a coisa vai repetir outra vez.

Ok.

E então aí, com aquela pessoa em particular, vamos tentar perceber quais são as ferramentas daquela pessoa. Por exemplo, pra gerir esse estresse, se tem capacidade de ser assertiva, se não tem, se tem ferramentas pra gerir conflito ou não, se é uma pessoa que engole elefantes e não é capaz de forma assertiva colocar as suas coisas. Há um conjunto de variáveis que têm a ver com as nossas competências relacionais, que dentro de uma organização, se não forem trabalhadas pelo próprio e pela organização, vão repetir o ciclo.

Então passa muito por estratégias de comportamento.

Sim, estratégias. Se eu não tiver competências nenhumas de gestão de estresse, se eu não tiver competências nenhumas de gestão de conflito, se eu não tiver capacidade de lidar com a mudança, porque às vezes eu posso entrar em burnout perante uma mudança que não me foi explicada. E que é caótica para mim. E, portanto, se eu não tiver essas competências, eu vou estar sujeito novamente a entrar no mesmo processo, porque não fiz dentro de mim uma mudança que me permitiu gerir, porque eu não consigo de imediato mudar a organização. E, portanto, se alguém vem ao pé de mim, eu não telefono para a organização e digo: "Mude-se a organização". Mas aquela organização, ela própria, a nível da sua gestão de pessoas, como se diz agora, a nível dos seus recursos humanos, devia ter estratégias. Sabe que a pandemia trouxe isso, pôs na moda aquilo que é o bem-estar nas organizações. Eu gostava é que não fosse uma moda, que não fosse uma commodity. Se for uma moda, passa e não resulta.

Sim, era outra questão que eu gostava de lhe colocar. A pandemia veio aumentar o número de casos de burnout ou veio trazer mais para a ribalta uma situação que já ocorria?

Veio trazer mais para a ribalta uma situação. Veio trazer casos com características também diferentes, vou lhe dar um exemplo muito típico: as pessoas podem ter burnout por razões diferentes. Eu tinha uma pessoa que dizia assim: "Eu vou para casa e tenho uma casa pequenina, onde eu relaxo é num sofá que tenho lá, é tão bom quando eu chego do trabalho e relaxo". Quando foi "obrigada" a ir para casa, trabalhava naquele sofá, não pode ver aquele sofá. O mesmo sofá que a relaxava, está de vomito ao sofá, como ela dizia.

Misturar os espaços de descanso e de família.

E, portanto, houve burnout ligado a isso, que é estar em casa a tentar conciliar um monte de coisas. Sem dúvida. Mas a pandemia nivelou as pessoas, ou seja, todos perceberam: "Ah, afinal a gente todos podemos ter coisas de saúde mental".

Isto não acontece só aos outros.

Sim.

Mas essas estratégias de trabalhar a assertividade, de a pessoa conseguir não engolir elefantes e de identificar na própria estrutura da organização o que pode estar mal, são situações que decorrem num período longo. Perante uma situação aguda de um burnout e perante uma situação em que a pessoa já não aguenta mais, de exaustão completa, primeira coisa a fazer?

Parar.

Parar.

Sim, ou seja, parar, primeira coisa a fazer, parar, porque é muito difícil, mesmo quando se vai, por exemplo, medicar, mas ao mesmo tempo a pessoa está no mesmo contexto, é como se estivesse a empurrar esta parede no estúdio onde estamos. A parede não move. E portanto, nós queremos que a parede mova para um sítio melhor. Para mover para um sítio melhor, não vale a pena eu continuar aqui, porque eu não vou empurrar a parede se a parede me está a sufocar. Portanto, eu tenho que sair daqui, fazer um trabalho que me alivie e que me dê musculação emocional. No fundo, eu tenho que me muscular emocionalmente e cognitivamente para depois, se o ambiente ainda for aquele, eu poder colocar-me de outra maneira, às vezes em coisas prosaicas. Estamos a analisar como é que você fala com o seu chefe. "Mas nunca disse o que sentia ou o que achava". "Mas vamos tentar, vamos ver". Mas a pessoa na história da sua vida já tinha um pai autoritário a quem não era capaz de dizer não. E, portanto, quando se faz uma abordagem psicoterapêutica, também ligada ao burnout, nós temos que perceber porque é que aquela pessoa em particular pode ter sido mais suscetível na responsabilidade que é dela, também a das organizações, como é evidente.

Exatamente. Por isso é que é tão frequente em diagnósticos de burnout, que a pessoa tenha que colocar uma baixa médica, ir para casa e descansar e durante um determinado período de tempo. E o que é aconselhável fazer nesse período de tempo? Dormir, descansar, não pensar em trabalho? Como é que é?

Não pensar em trabalho dá jeito, ir para casa e depois estar a receber e-mails do trabalho. Isso acontece com muita frequência. "Então responde-me lá". Isso não é possível. Não é possível, porque ativa toda a toxicidade onde a pessoa tive inscrita. E, portanto, há uma toxicidade, há que descontaminar primeiro. Mas atenção, muito importante isto, na minha perspectiva: eu quando estou a trabalhar uma situação dessas, é a partir do primeiro dia que se trabalha o regresso ao trabalho. Por quê? Porque uma pessoa que sai do trabalho, entra em lua de mel. O mel dá bocado, mas entra em lua de mel, porque fica aliviada. Mas se não começarmos a trabalhar o regresso, a pessoa quando se aproximar do regresso, vai ficar angustiada, até com vômitos e tudo mais para voltar ao trabalho.

Então, este regresso ao trabalho não é algo que se prepare apenas numa fase posterior. Logo desde o início se começa a pensar nisso?

No meu caso, sim. Por quê? Agora, não pode ser de uma forma ameaçadora. A pessoa tem que saber que tem direito a parar, mas que esse parar vai ter uma finalidade que é um regressar, porque se a pessoa é cúmplice da ideia de que não vai regressar, porque a pessoa tem receios, legitimamente, de voltar para o mesmo contexto e acontecer o mesmo. O que tem que ser trabalhado é: no regressar, significa que quando for esse o momento, a pessoa está mais estabilizada e está também mais musculada emocionalmente e cognitivamente para lidar com um sítio que foi complicado e para tentar lidar de forma diferente. Porque o que acontece é que se nós deixarmos que a pessoa, de uma forma inconsciente, ache que não vai voltar para aquele contexto, também não estamos a ser honestos intelectualmente, porque a pessoa precisa de voltar. E, portanto, a ideia é: este é um trabalho em que tem todo o direito a parar, mas este parar é um parar transitório para regressar.

Esse parar, variando de caso para caso, de paciente para paciente, falamos habitualmente de que período mínimo de tempo, se é que isto se pode colocar?

Varia mesmo de paciente para paciente, depende da dimensão, porque há pessoas, como é óbvio, umas têm mais resiliência, outras têm menos resiliência e portanto, podem chegar a fatores, a variáveis de burnout, de formas mais marcadas ou menos marcadas. Mas vamos imaginar, quer dizer, genericamente ou estatisticamente, parar um mês. Mas repare, um mês estou a falar por baixo. Há pessoas que pararam muito mais tempo, porque esticaram tanto a corda, que estão num estado lastimoso em termos das suas capacidades. E outras não. Outras sentem que as coisas, até porque como se fala mais, têm mais a percepção, também de uma forma às vezes mais imediata, dizem: "Isto, eu não me estou a concentrar, eu não consigo responder", e podem pedir logo ajuda aí. Outras não. Outras esticam mais a corda e quando esticam fica mais difícil.

Este pedido de ajuda, ao contrário de outras patologias em que por vezes, quando falamos de saúde mental, em que por vezes é precisa a ajuda de pessoas Das pessoas com quem vivemos, das pessoas com quem trabalhamos, para nos ajudar a identificar alguns sintomas. O burnout não, é tão evidente que a pessoa percebe imediatamente que alguma coisa não está bem?

A pessoa percebe. Por quê? Porque nós passamos muito tempo no trabalho e estamos a perceber coisas óbvias. Não conseguimos desempenhar da mesma maneira, produzir da mesma maneira e temos um conjunto de alterações que estranhamos em nós. Impaciência, irritabilidade, alterações do sono, dores de costas, alteração da tensão arterial. Fazemos análises, está tudo alterado. E portanto, percebemos, quer objetivamente, quer subjetivamente, que há coisas que estão diferentes daquilo que era.

Uma das características do burnout é a fadiga extrema, mas curiosamente, isto pode dificultar o sono ou que as pessoas tenham um sono reparador, não é verdade?

É.

Há estratégias para ajudar a pessoa a lidar com isso?

Sim. A exaustão é tanta que as pessoas quanto menos dormem, menos são capazes de recomeçar o sono. Por quê? Porque mesmo a parte química está tão alterada, os ciclos, os ritmos circadianos estão tão baralhados que a pessoa não consegue dormir. Estratégias, sim. O descanso deve ser mais um descanso ativo e não um descanso passivo, porque o descanso passivo pode perpetuar uma situação em que a pessoa está, e embora esteja fora do seu ambiente de trabalho, está mesmo a ser alimentado no seu desligar. Quando eu chamo descanso ativo-

É isso que eu ia perguntar. Do que falamos quando falamos de descanso ativo e descanso passivo?

Descanso passivo é uma coisa em que a pessoa continua desligada, ou seja, senta-se no sofá, enterra-se no sofá, liga a televisão e vai consumindo. Isto é um descanso passivo, que não é construtivo em termos terapêuticos, porque alimenta o mesmo processo, só que está fora do ambiente de trabalho. O descanso ativo é progressivamente ir resgatando variáveis que não estava a ter tempo a fazer. Como é que se alimenta? A que horas é que se alimenta? A que horas é que vai pra cama? Como é que se escolhe uma série que é a costa e não 10 séries seguidas que vê de uma forma aleatória e desligada? Como é que faz exercício físico de uma forma regular? Fundamental.

É também aquilo, um voltar a ter uma certa noção de controle sobre a vida?

É isso mesmo. Uma das ideias é essa, porque a pessoa no burnout tem a vivência de perda de controle, que é uma das variáveis aflitivas, e portanto, há que resgatar essa noção de controle. E como é que se resgata? Resgata com aquilo que são recursos e competências que dependem da pessoa e que lhe dão essa noção de que está outra vez a tomar conta das coisas.

Vitor Couto Vil, muito obrigado por se ter juntado a nós e por nos ter explicado um pouco mais sobre o burnout e sobretudo como lidar com esta síndrome. Eu sou o Paulo Farinha, este foi o Sair do Labirinto.

Mental, uma parceria Observador, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Hospital da Luz, com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e Ordem dos Psicólogos Portugueses.