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O meu nome é Tânia Pereirinha e este é mais um "Saúde no Limite". Desta vez com o doutor Paulo Mergulhão, que é Secretário-Geral da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos e médico internista e intensivista no Hospital dos Lusíadas, no Porto. Doutor Paulo Mergulhão, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Seja bem-vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado e obrigado pelo convite.

Ao longo deste último ano, temos falado muito sobre a luta dos profissionais de saúde portugueses contra a Covid-19 e temos visto inúmeras reportagens dentro dos hospitais e unidades de cuidados intensivos, sempre do Serviço Nacional de Saúde. O que se passa no setor privado? Acabou de fazer noite na sua unidade. O que se passa atualmente?

Vou lhe dar a minha perspectiva. Não tenho dados concretos dos outros hospitais, mas eu acho que o setor privado, com avanços e recuos próprios, diria eu, de uma situação pra qual ninguém estava preparado, tem dado o seu contributo, e que me parece um contributo relevante. Por exemplo, o meu hospital, neste momento, tem 20 e tal camas de medicina, que é uma proporção já muito significativa das nossas camas de internamento, adstritas à ARS Norte, num esforço de tentar descarregar os hospitais daqui da região de doentes não Covid. Este hospital, neste momento, tenta se manter Covid free, desculpe-me a expressão. Mas a verdade é que as outras doenças não desapareceram e também precisam de tratamento e, portanto, estas camas têm tido uma rotação muito significativa e é uma carga de trabalho muito importante. E eu acho que é um esforço relevante. Já começa quase a ser um lugar-comum dizer que as outras doenças não desapareceram, e isso é verdade. Portanto, acho que é importante haver lugares onde estes doentes possam ser admitidos e tratados da mesma forma que os outros.

Lógico. Que tipo de doenças é que vos estão a chegar? E de que zonas? Porque eu sei que em novembro estavam a dar resposta às necessidades não Covid dos hospitais de Guimarães, Santo Tirso, Malicão e São João, no Porto. Era isso?

O São João acho que era mais do Santo António. Confesso que não atualizei os dados, mas na prática, todos os hospitais da região da ARS Norte podem referenciar pra cá doentes, dentro das vagas que nós temos disponíveis. Quais são os que referenciam mais? Confesso que não lhe sei dizer assim dados concretos. Houve uma altura que o Hospital de Penafiel estava bastante sobrecarregado, mas isso, entretanto, felizmente, melhorou. O Centro Hospitalar do Porto, o Hospital de Santo António também, quanto mais não seja por proximidade, que é um hospital aqui muito próximo de nós, também tem referenciado alguns doentes. O São João, que eu me recorde, talvez não, mas como digo, não tenho os dados concretos pra lhe dizer. Mas a verdade é que na região da ARS Norte, julgo eu, por dois motivos, porque nós estamos já numa fase um bocadinho mais avançada daquilo que foi o pico da pandemia, portanto, nós já estamos em decréscimo de casos há algum tempo. E depois, por uma boa organização interna da ARS Norte e dos hospitais que integram a rede, neste momento, há uma situação clara de sobrecarga. Não me interprete mal, isso não há dúvida nenhuma, mas não penso que seja uma situação descompensada. Portanto, as coisas têm se gerido de forma sensata.

Mas no seu hospital, quando fala em sobrecarga e estava a falar nas tais 30 camas que estão adjudicadas à ARS Norte, isso são 30 num universo de quê? E que sobrecarga é essa, exatamente?

Não sei se são bem 30, julgo que são 28, mas é irrelevante. Num universo de 100 camas, essas estão reservadas, entre aspas, e sempre ocupadas com doentes da ARS.

E a sobrecarga de que falava?

A sobrecarga que eu estava a falar não é especificamente do Hospital Lusíadas, é transversal a todos os hospitais do país. O que eu quero dizer é o seguinte: há claramente uma situação de sobrecarga, e em relação a isso, acho que não pode haver dúvidas. E é uma situação de sobrecarga sustentada no tempo, não começou agora. Mas a minha perspectiva na ARS Norte, torno a dizer, é que neste momento é uma situação que se tem conseguido gerir de forma razoável.

E dizia-me que no seu hospital, nos Lusíadas Porto, que para já estão Covid free. Mas na primeira vaga receberam doentes Covid?

Recebemos, sim, senhora. Recebemos. Tivemos na Unidade de Cuidados Intensivos, já não sei dizer de cor, mas pra aí uma dúzia de casos. Devo dizer que também nem todos críticos. Nós optamos, nessa altura, como tínhamos quartos que permitiam o isolamento mais fácil na Unidade de Cuidados Intensivos, todos os doentes, pelo menos na fase inicial, passavam pela Unidade. E dessa experiência, eu devo dizer que o doente Covid, quando chega à fase de doença crítica, de precisar de suporte de disfunções de órgão, nomeadamente disfunção pulmonar grave, são doentes muito complexos e que realmente representam uma carga de trabalho muito grande pra medicina intensiva. Normalmente, quando são ventilados, nomeadamente quando são ventilados invasivamente, ficam muito tempo intubados e ventilados. Frequentemente precisam de técnicas de resgate, precisam de ser ventilados de barriga pra baixo, e isso num doente que está sedado, que está muitas vezes paralisado e a respirar com a ajuda de um ventilador e com vários tubos, cateteres, esse tipo de coisas, é uma manobra muito complexa. Que gera uma carga de trabalho muito significativa para as equipes e depois tem que ser repetido ao longo do tempo. Portanto, neste momento, peço desculpa por estar puxar a brasa pra minha sardinha, mas realmente a perspectiva pra medicina intensiva para as próximas, diria, quatro a seis semanas, é muito complicada, porque há aqui claramente uma desfasagem no tempo. O que se vai passar no próximo mês na medicina intensiva, na prática, já aconteceu. O que eu quero dizer? As pessoas que vão precisar de atendimento já estão infectadas neste momento. Nós estamos a falar dos tais 70 mil por semana que tivemos nas últimas semanas. E nós a nível nacional, já estamos numa fase de quase exaustão de sistema.

E desta vez, aí no seu hospital, não têm doentes Covid. Foi uma decisão do Ministério da Saúde?

Foi uma decisão, julgo eu, do conselho de administração do grupo. Eu sei que há hospitais privados a tratar doentes Covid. Inclusivamente na região de Lisboa, o hospital do grupo Lusíadas de Lisboa tem doentes Covid, tanto privados como doentes da ARS. E eles tiveram necessidade de aumentar de forma muito importante as vagas da Unidade de Cuidados Intensivos e estão numa situação complicada neste momento.

Como médico intensivista, estava me a dizer que, a puxar a brasa à sua sardinha. E sabe que os seus colegas vão ter este tal mês muito complicado pela frente.

Já estão a ter há muito tempo.

Exatamente. Faz-lhe confusão não estar a participar desse esforço?

Olha, muito pessoalmente, faz, claramente. A verdade é que este hospital Lusíadas Porto é um hospital relativamente pequeno e nós só temos dois médicos intensivistas no quadro. E portanto, eu participar do esforço fora do hospital implicava fechar aqui a Unidade de Cuidados Intensivos.

Claro.

Comprometo de forma irremediável a atividade hospitalar. Nós não podemos estar a receber 30 doentes de fora ao mesmo tempo, sem ter a capacidade de lhes acudir se alguma coisa correr mal. A unidade aqui tem que estar a funcionar e é impossível estar em dois sítios ao mesmo tempo, as pessoas não se conseguem dividir assim. O esforço que todos nós, julgo eu, temos que fazer, e isto não é reservado aos médicos, nem aos enfermeiros, é pra todos mesmo. É tentar cumprir o melhor possível aquilo que é o nosso papel.

Exatamente. E neste caso, não está propriamente fácil do seu lado também. Porque era o que me dizia até antes da entrevista começar, que vocês estão cheios de doentes.

Em regime dia sim, dia não, digamos. E como digo, o hospital também sofreu as agruras próprias da Covid-19. O que eu quero dizer, pessoas que vão pra casa porque ou tiveram contactos de risco, ou tiveram mesmo doença, ou pessoas que têm que ir pra casa porque estão em assistência às famílias. Agora com o encerramento das aulas, criou-se novamente uma situação de pressão muito grande. E nós estamos a trabalhar numa lógica também de recursos muito escassos e acho que o pessoal aqui, não queria falar em nome da direção clínica, mas a minha perspectiva é que a nossa equipe assistencial aqui do hospital, sem ser muito grande, tem dado uma resposta espetacular, com um regime de trabalho que é muito mais intensivo do que aquilo que é habitual num hospital com estas características.

Estava me a dizer dia sim, dia não. A título pessoal, diga.

A título pessoal, faz-me confusão, é verdade, mas não tenho mesmo resposta pra isso. Como digo, implicava eu fechar a minha unidade e não é um assunto que eu consiga ponderar assim.

Claro. E estava me a dizer que está a trabalhar dia sim, dia não. Isso com turnos de noites? Como assim? Como é que são os seus dias?

Nós funcionamos muito num regime normal. A maior parte das unidades de cuidados intensivos privada funciona com poucos médicos do quadro e depois com o apoio de colegas de fora. E nós fazemos questão, e a maior parte das pessoas das unidades de cuidados intensivos faz questão que esse apoio seja prestado por médicos especialistas em medicina intensiva, ou seja, o fato de vir um médico de fora não pode equivaler a um downgrading do padrão de cuidados. E como deve calcular, os colegas de fora que trabalham conosco neste momento têm muita dificuldade em dar-nos disponibilidade de turnos. E a nossa construção de escala é sempre um exercício complexo, e não é só aqui, é em todo lado, de juntar as poucas disponibilidades que vai havendo e depois eu e o doutor Alexandre, que é meu outro colega do serviço de cuidados intensivos, cobrirmos o resto do turno, porque não pode haver períodos de ausência.

Claro. E se são dois, está tudo explicado, não é?

As unidades de cuidados intensivos são serviços de laboração contínua e quem fala de médicos, atenção, fala de enfermeiros, que o problema é muito semelhante, não é? E auxiliares da ação médica. Os recursos humanos neste momento são um bem muito escasso, pelo menos na área da medicina intensiva, e admito que nas outras áreas de atividade hospitalar também.

Aliás, esta quarta-feira chega a Portugal a ajuda alemã. Que traz essencialmente médicos de cuidados intensivos. Há uma questão: além de médicos, vão chegar ventiladores. Como secretário-geral da sociedade, acho que se calhar me consegue ajudar. É uma coisa que nós temos ouvido muito, é que não nos faziam falta mais ventiladores Fazem, não fazem? O que se passa, afinal?

Eu acho que nós, neste momento, temos o parque de ventiladores ajustado. Eu conheço mal esse processo da ajuda da Alemanha, mas a impressão que me dá, sinceramente, é que eles, na prática, vão deslocar uma unidade de cuidados intensivos quase pré-montada. Portanto, deve ser uma decisão de logística para não criar mais confusão. Os colegas certamente já estão habituados a trabalhar com os ventiladores que vão trazer e penso que a lógica deve ser um pouco essa. Agora, que realmente houve um aumento significativo daquilo que era o parque de ventiladores nacional no último ano, houve. E tanto quanto sei, neste momento, estamos a falar de ventiladores invasivos. Não penso que haja falta. Há outro tipo de equipamentos que podem ser muito úteis em doentes com Covid, que eventualmente são mais escassos.

Como por exemplo?

Eu não sei ao certo o que é que os colegas da Alemanha vão trazer. Estamos a falar de oxigenoterapia nasal de alto fluxo e coisas assim, que ainda não é tão disseminada a sua utilização como a ventilação mecânica invasiva e, portanto, muitos hospitais podiam não ter a disponibilidade de equipamentos que seria desejável.

Agora, voltando um pouco atrás, falávamos no seu trabalho e na forma como está a trabalhar. Ia lhe perguntar se, porventura, será uma das exceções e se já terá sido vacinado contra a Covid-19. Uma das exceções no privado.

Que eu saiba, a vacinação no privado já começou há, mais ou menos, uma semana e aqui no grupo Lusíadas começou anteontem. Peço desculpa, errei. Hoje é que começou ontem. Peço desculpa, começou na terça-feira.

Já recebeu a sua dose?

Não, peço desculpa. Começou na segunda, já recebi a minha dose, sim, senhora. Fui vacinado na segunda-feira.

Fez-lhe sentido este atraso ou este entrega no tempo?

Eu acho que nós temos que ser razoáveis nisto. O Hospital Lusíadas Porto é um hospital não muito grande e, como digo, Covid free. Para mim é inteiramente lógico que a prioridade vá para os sítios de maior pressão e de maior risco. Não faria muito sentido nós estarmos, entre aspas, "na linha da frente da vacinação". Portanto, entendo perfeitamente a decálage de tempo que há entre os principais hospitais que são do Sistema Nacional de Saúde e os hospitais do serviço privado. Eu sei que houve muita discussão sobre esta matéria e agora mais para o fim já começava a haver algum desconforto de muita gente, o que é compreensível, mas o esforço de vacinar tanta gente em tão pouco tempo ia sempre ter os seus problemas e o fornecimento das doses de vacina também não está a vir ao ritmo que inicialmente se previa. Portanto, eu acho que o que aconteceu é inteiramente previsível. Previsível, quer dizer, inteiramente compreensível.

Sim, porque a verdade é que— diga.

Eu não queria ser deselegante no que vou dizer, mas alguns disparates sobre a distribuição das vacinas, a conversa sobre corrupção na distribuição das vacinas e coisas assim, eu acho que na maior parte dos casos, sem eu conhecer nenhum ponto de tarde, atenção, estou a lhe dar a minha opinião, mas o que me parece é que é muito por causa da boa vontade das pessoas pensarem em não desperdiçar doses, porque o plano inicial pode não ter sido o mais adequado. O que eu quero dizer? Quando nós preparamos doses de vacinas para administrá-las, a vida da vacina já preparada é muito curtinha. E, portanto, se a pessoa a quem nós—

São as tais 120 horas ou não?

Como diz?

São as tais 120 horas ou é menos do que isso?

Depende um pouco de que vacina estamos a falar, mas eu acho que é menos depois de preparada para administrar.

Ok, porque consultada acho que são 120 horas e 120 horas são cinco dias, não é assim tão pouco quanto isso.

Mas depois as condições locais muitas vezes não são assim tão ideais como isso. E eu acho que é isso que se está a passar. Falta uma pessoa ou uma pessoa que pode ter tido um contacto de risco e que na altura decidiu não se vacinar ou que surgiu alguma situação. E estão a sobrar doses e se nós não estivermos bem preparados para dizer quem é o próximo, estão a se tomar decisões ad hoc e que não é o ideal, claramente.

E dão disparates.

Foi no hospital de Penafiel que se demitiu a direção clínica, foi aqui o diretor regional do INEM Norte também se demitiu por causa disso. E eu quero acreditar que isto não seja proferido de corrupção, acho que é a boa vontade de resolver uma situação que se devia ter evitado de início. Eu acho natural que as pessoas se demitam, porque realmente estas situações deviam ser previstas. Saltar disto para dizer que é corrupção e mais não sei o quê, parece-me um exagero, sinceramente.

Pode não haver dolo.

Ou falta de preparação. Mas a verdade é que falta de preparação é a nossa história, e não só a nível de Portugal, é a nossa história a nível global do último ano. Ninguém estava preparado para esta pandemia.

Sim, mas entretanto passou um ano e as coisas já estão um pouco—

Passou um ano de muito pouco tempo para refletir, agora estou a falar da parte que eu conheço. Passou um ano de estar a correr, entre aspas, atrás do prejuízo. E não é bem um ano de planeamento, é um ano de reação às pressões. Devíamos ter preparado melhor as coisas na altura do verão, em que a coisa acalmou, claramente, sem dúvida nenhuma. Na altura, ninguém sabia muito bem quando é que íamos ter as vacinas prontas. Portanto, eu admito que houvesse outras prioridades na cabeça de quem tinha a responsabilidade de o fazer. Eu acredito muito no que vou dizer. Eu acho que nós não estamos propriamente na fase de criar ruído e de fazer análises muito profundas sobre o que tem corrido mal. A fase em que nós estamos é de cerrar fileiras e de todos nós tentarmos o melhor daquilo que nos compete daqui para a frente. E acho que o momento de analisar, de pensar no que é que correu mal e no que é que devia ter sido feito diferente, tem que ser deixado para uma fase mais à frente, em que haja disponibilidade, até intelectual, para pensar nas coisas de forma sensata.

Presumo, então, que não concorde também com esta discussão ideológica que algumas partes da sociedade e da vida política têm feito em torno do setor privado e do público.

Eu confesso que essa discussão ideológica me faz muita confusão. Eu trabalhei 20 anos naquilo que é a minha casa, que é o Hospital de São João. E vim-me embora porque achei que estava na altura de dedicar mais tempo à família e de ter mais tempo disponível e saiu-me um tiro pela culatra, claro.

Saiu em 2020, não foi? Ou foi final de 2019?

2019.

Pronto.

A regulação daquilo que é a atividade pública e privada em Portugal decorre da tutela do Estado, portanto, são decisões que todos nós tomamos ao elegeremos os nossos governos. Dentro dessa lógica, eu não percebo muito bem como é que há dúvidas em relação àquilo que deve ser o contributo da medicina pública e da medicina privada. Todos nós somos regulados pelo mesmo organismo, que é o Ministério da Saúde, e portanto, acho que é uma discussão que nesta fase não faz muito sentido. E eu torno a dizer, não entendo bem. Não entendo quais são os bloqueios, quais são os obstáculos de haver uma relação mais eficaz. Se bem que nos últimos tempos, parece-me que, por força da pressão da pandemia, as coisas estão mesmo a acontecer. Pelo menos na Grande Lisboa. Tenho falado com alguns colegas, tanto do setor privado como do setor público, e a pressão está a ser mais ou menos idêntica nos dois lados. Estão todos a dar o contributo possível e aquilo que conseguem.

Falando com esses colegas, tem ideia de como é que estão as coisas nestas unidades? Sei que não é, será a concorrência, mas o Hospital da Luz abriu uma enfermaria para servir os doentes do Amadora-Sintra. É uma coisa completamente nova, não é?

Sim. Tanto que eu sei de falar com colegas de vários hospitais, a situação em Lisboa, eu torno a dizer, tanto nos hospitais públicos como nos hospitais privados, neste momento, é de uma sobrecarga muito significativa e de gestão quase, eu nem vou dizer diária, quase hora a hora das vagas disponíveis e com algum cansaço acumulado, às vezes também se perde um bocadinho o discernimento. Às vezes há situações muito difíceis de gerir e de disponibilizar os recursos, que são muito escassos, de escolher quem é o próximo doente a ter acesso a uma vaga de medicina intensiva. Não tem sido um exercício fácil. Há uma estrutura que é a Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional da Medicina Intensiva, que tem feito um trabalho notável nessa área de centralizar um bocadinho aquilo por ARS.

Essa decisão?

Hospitais. Como diz?

Ia-lhe perguntar se centralizavam essa decisão de quem é que segue ou não.

É isso. Foi uma conclusão que nós já há bastante tempo chegamos, é que era necessário esse tipo de gestão centralizada de vagas. Eles têm feito muito esse esforço de, por um lado, saberem quais são as vagas disponíveis ou previsivelmente disponíveis nos diferentes hospitais das ARS, quais são os hospitais muito mais sobrecarregados em termos de doentes à espera ou de doentes com necessidades mais dramáticas, e fazerem essa distribuição de vagas o mais racional possível. E é um trabalho angustiante para quem tem que o assumir, não há dúvida nenhuma disso.

São as pessoas que têm o poder de escolher. Quem tem a oportunidade ou não.

Não é o poder, é a responsabilidade.

Isso é como nos super-heróis. Com grande poder vem grande responsabilidade.

Não se deve aplicar neste contexto. Não se devem criar falsas expectativas em relação ao que as pessoas são capazes ou não são capazes de fazer. E eu acho que as pessoas deram, têm dado e acho que vão continuar a dar tudo aquilo que são capazes. Mas não há super-heróis. Não há pessoas com capacidades sobre-humanas, há pessoas a fazerem esforços muito para além daquilo que seria expectável e exigível numa situação normal, e é importante reconhecer isso. Mas também temos que ter a noção, e eu acho que isto vai ser muito importante nas semanas que vão começar agora, que as coisas não esticam até ao infinito. E há um risco significativo do sistema não conseguir dar resposta a todos.

E isso já não será só na zona de Lisboa, será a nível nacional, porque vamos sempre tentar distribuir.

Exatamente. Seria inaceitável, digo eu, haver uma situação de rutura numa região do país e o resto do país, independentemente de ser setor privado, setor público, setor social, tendo capacidade de dar resposta, não dar essa resposta. Eu penso que isso seria Seria incompreensível. É claro que transferir um doente, principalmente um doente crítico, ao longo de distâncias muito grandes, como de Lisboa para o Porto, nunca é um exercício fácil. É preciso pensar muito bem em termos de relação risco-benefício, porque por muito bem que a coisa seja planeada, o transporte de um doente nestas situações acresce risco para o doente. Dito isto, se não houver outra solução, temos todos que nos organizar para garantir que isso aconteça da forma mais segura e o mais eficaz possível.

E quem diz Lisboa-Porto, diz Lisboa-Viena, por exemplo?

Viena?

Como é que acha que pode resultar esta ajuda?

Olha, essa história da transferência de todos os doentes pra Áustria eu só tenho ouvido falar nas notícias. Tenho a noção que a informação que tenho sobre a matéria é muito insuficiente. Primeiro, eu acho que transferir doentes para fora do país, havendo ainda capacidade de resposta interna, é um contrassenso. Depois, acho que mesmo em termos de cuidados aos doentes e, mais do que aos doentes, talvez às famílias, isso também nos coloca problemas que têm que ter resposta. O que eu quero dizer? Muitos dos doentes, ou uma proporção significativa dos doentes que têm que ser tratados em medicina intensiva neste contexto de Covid, infelizmente vão acabar a falecer. E os que forem pra Áustria não vão estar protegidos desse risco. E eu ainda não percebi muito bem se as famílias vão acompanhá-los, se têm acesso a visitas, se vão conseguir ver os doentes numa fase muito complicada da vida. Depois vai-se pôr a questão, inevitavelmente, da barreira da língua. Um doente português acordar na Áustria numa unidade de cuidados intensivos, de forma imparável, não será propriamente fácil. Eu disparo um bocadinho as coisas. Eu acho que a oferta alemã de deslocarem pra cá uma equipe, com todas as críticas que se lhe possa fazer, eu entendo-a como um gesto de boa vontade e não vejo minimamente com maus olhos. Não estou a dizer que seja má vontade da Áustria, não é isso que eu quero dizer, mas consigo entender muito melhor a estratégia de deslocar pra cá uma equipe assistencial para nos ajudar in situ, do que propriamente estarmos a transferir doentes a milhares de quilômetros de distância, até porque o próprio exercício logístico da transferência, eu não sei como é que está pensado, mas transferir um ou dois doentes é uma irrelevância, não é isso que nos vai ajudar. Transferir um volume significativo de doentes, mesmo em termos logísticos, não sei como é que está pensado. Não vejo isso como uma oferta que vá acrescentar aqui uma ajuda significativa, sinceramente.

Neste momento, o que acha—

Sou muito incompleto sobre esta matéria.

Neste momento, o que acha que poderia ser uma ajuda significativa a mais?

Eu acho que já disse isto no outro dia e vou repetir. Eu acho que a grande ajuda que nós podemos dar é tentar diminuir o número de novos casos. E isso passa por não fazer ruído, seguir as recomendações da Direção Geral de Saúde, perceber que nós estamos a lidar com uma doença nova e, portanto, que as recomendações por necessidade vão mudar ao longo do tempo. E que se nós no início não recomendávamos máscaras era porque a melhor evidência que tínhamos ia nesse sentido. E se eventualmente vamos mudar a recomendação de máscaras para máscaras de uma capacidade de filtração diferente, que eu não sei se vai acontecer ou não, mas tem corrido muito esse boato, é porque a evidência científica que nós temos neste momento disponível sugere que isso é uma boa estratégia. E quem fala sobre máscaras, fala sobre o plano nacional de vacinas, fala sobre as estratégias de higienização das mãos. Eu estou um bocado de fora, eu não estou envolvido na elaboração destas recomendações e portanto acho que sou neutro naquilo que vou dizer. Mas é muito fácil criticar a posteriori as decisões que se tomam com base em conhecimento muito insuficiente. Eu acho que nós não estamos nessa fase. Qual é a melhor coisa que nós podemos fazer? É controlar a incidência de novos casos. Não é reagir à pandemia, é tentar cumprir aquilo que achamos que é realmente eficaz pra diminuir a incidência. É isso que nos vai ajudar, no fim, a controlar isto. Felizmente, nos últimos dias, parece que estamos finalmente a conseguir diminuir os números de novos casos.

Portanto, isso deve significar que estamos a diminuir agora, não é? Vocês vão ter o impacto nas unidades de cuidados intensivos ainda mais à frente. Significa que poderemos voltar a respirar um bocadinho de alívio quando?

Se esta trajetória dos últimos dias se mantiver, nós passamos de 10, 12, 13 mil casos por dia para 5 mil casos, 6 mil casos por dia. Se esta trajetória, idealmente continuar nesta taxa de diminuição que estamos a ter, eu espero que o panorama nos cuidados intensivos daqui a quatro, cinco, seis semanas comece finalmente a acalmar. Agora, fevereiro, e provavelmente mesmo que isto melhore consistentemente daqui pra frente, eu diria que as próximas seis semanas ainda vão ser de muita sobrecarga.

Entretanto, todas as outras doenças. O que lhes está a parecer e como é que as pessoas estão a chegar tarde? Que tipo de problemas é que têm visto?

Isso é uma coisa que nós temos visto, tanto nos doentes que internamos aqui diretamente, como nos doentes que vêm transferidos. A descompensação das doenças crónicas. Insuficiências cardíacas, insuficiências respiratórias crónicas, diabetes. Há uma série de situações. Não há dúvida nenhuma, julgo eu, que a pandemia cria um problema de acesso aos cuidados de saúde. Eu acho que isso é reconhecido por toda a gente. E isso obviamente que é muito mais gravoso nas pessoas que têm doenças crónicas ou doenças evolutivas. Eu acho que ainda foi ontem que eu ouvi o diretor da oncologia do Santo António a falar sobre isso e que há um problema grave neste momento com o diagnóstico precoce de doenças oncológicas. É claro que esse tipo de doenças, quanto mais tarde forem diagnosticadas, mais difícil é o seu tratamento, isso não há dúvida nenhuma. E portanto, ainda há bem pouco tempo, o Ministério da Saúde mandou suspender tudo quanto fosse atividade cirúrgica não urgente nos hospitais. É claro que isso vai criar um grupo, um número muito elevado e muito importante de pessoas que necessitam de tratamento, talvez não de tratamento urgente, mas que necessitam de tratamento, seja por doenças não letais, mas que comprometem a qualidade de vida, seja por doenças potencialmente fatais, mas em que atrasar a cirurgia se considera que não será um risco tão significativo. Há aqui um grupo grande de pessoas, e estou só a falar da atividade cirúrgica, porque se formos pro lado das patologias médicas, o trabalho acumulado pro Sistema Nacional de Saúde, e não só para o Serviço Nacional de Saúde, fala-se de sistema quando se fala de todos os hospitais. Está-se a empurrar pra frente muito trabalho que vai ter que ser feito. E portanto, mesmo quando nós tivermos a pandemia controlada, e mais cedo ou mais tarde havemos de ter, depois vamos ter que lidar, em termos de sistema de saúde, com as consequências das coisas que necessitavam de ter sido feitas e não foram, não por falta de vontade das pessoas, mas por absoluta falta de capacidade. E também penso que isto aqui vai ser um problema transversal ao mundo todo, não é um problema específico de Portugal. Agora, quando se dá uma ordem tão categórica como mandar parar tudo quanto é produção cirúrgica dos hospitais, tirando as situações de cirurgia oncológica ou de cirurgias emergentes, é claro que isto vai criar uma pressão assistencial no futuro muito grande. As doenças não desaparecem por decreto.

Mas era inevitável?

Era inevitável. Da minha perspectiva, era inevitável. Não estou a fazer uma crítica. Temos que ter a noção da realidade.

Claro. Portanto, como é que perspectiva o próximo ano, os próximos anos, para todos estes doentes?

Olhe, não perspetivo. Eu estou a acabar de preparar uma reunião sobre controle de infecção pra apresentar logo à tarde e uma das coisas que eu vou argumentar é que é impossível perspetivar o ano de 2021. Eu tô com muita esperança que nós finalmente, entre implementarmos aquilo que é o programa de vacinação e cumprirmos de forma rigorosa o nosso papel e conseguirmos achatar a curva, pra usar mais um lugar comum, que nós consigamos finalmente ter uma incidência de novos casos, digamos, gerível. Agora, se bem se recordar, nós em maio, junho, achamos que o problema estava ultrapassado. Na segunda fase, em dezembro, também achamos que o problema estava ultrapassado, ou controlado, não ultrapassado, mas controlado. Se bem que já tínhamos a noção que janeiro ia ser um mês complicado, acho que ninguém estava à espera deste drama de novos casos que foi janeiro. E portanto, o que nós temos visto é que esta pandemia tem muita capacidade de nos surpreender e de nos trocar as voltas. Acho que a situação, por exemplo, das novas variantes que têm surgido, é preocupante. Felizmente, aquela que está em circulação mais alargada, a famosa estirpe inglesa, parece ser controlável com as vacinas que nós temos disponíveis.

As outras parece que começam a surgir evidências de que podem não ser, não é?

Não há nada de conclusivo, mas há alguma preocupação sobre isso. O que eu quero dizer? É muito difícil criar expectativas concretas de que nós vamos ter sucesso ou não no controle da pandemia. E portanto, nesta fase acho que mais vale manter uma monitorização muito apertada da situação e não fazer planos, ou melhor, pelo menos ao meu nível, não fazer planos de muito longo prazo. Acho natural e tô convencido que isso deve estar em marcha, que a tutela esteja a preparar os planos A, B e C de recuperação da atividade, mas também temos que ter a noção que nesta fase há muitas incertezas nesse tipo de planeamento a longo prazo.

Portanto, por agora é um dia de cada vez, não é?

É um bocado isso.

Doutor Paulo Mergulhão. Uma semana de cada vez. Doutor Paulo Mergulhão, muito obrigada pelo seu testemunho e bom trabalho.

Tenha um bom dia. Obrigado, com licença.