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Apesar de existir uma maior disponibilidade de informações, o conhecimento sobre saúde e doença nem sempre é o mais correto. As falsas notícias nesta área podem confundir a população em geral, o que pode levar a comportamentos menos saudáveis. A expressão literacia em saúde é repetidamente utilizada, mas nem sempre entendida. Um inquérito realizado em Portugal pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE concluiu que metade dos portugueses têm níveis insuficientes de conhecimentos relacionados com a saúde, o que pode ser prejudicial à sua qualidade de vida. Na conversa que vou ter com Cristina Vaz de Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, vamos tentar perceber que medidas podem ser tomadas para evitar as doenças que mais matam em Portugal, como o AVC e o infarto, e como podemos dotar os portugueses com informações que possam ajudá-los a promover a sua saúde. Eu sou a Cláudia Pinto e esta é a entrevista: "Se eu fosse Ministro da Saúde". Cristina Vaz de Almeida, bem-vinda. Há uma grande facilidade em aceder a informação sobre saúde. Andamos literalmente com a informação no bolso, mas nem sempre a usamos da melhor forma. Se tivesse o poder de mudar alguma coisa no Serviço Nacional de Saúde para resolver a mortalidade devida às doenças cérebro ou cardiovasculares, qual seria a primeira prioridade?

Muito obrigada pelo convite. É um grande prazer estar aqui e é um grande desafio. Não me quero substituir a nenhum ministro da Saúde, mas de facto é um desafio muitíssimo interessante. Quando olhamos para um país razoavelmente pobre, vemos que a pobreza traz mais doença, mais obesidade, mais doença cardiovascular. Há um tema aqui que acho que é extremamente importante, que é as mulheres e os acidentes cardiovasculares. Uma em cada três mulheres morre de acidente cardiovascular e, por isso, se tivesse esta posição, eu acho que nós temos que atuar de uma forma integrada, ou seja, dentro da prevenção, de um bom diagnóstico, do tratamento e da reabilitação. Mas tinha aqui um olhar sobre as mulheres, sobre o gênero. Evidentemente que ao lado das mulheres estão os homens, que também têm acidentes cardio e cerebrovasculares e por isso é preciso olhar para a população, sobretudo a população que vive num desfavorecimento social. Nós temos muita população pobre. Sabemos que a população pobre é mais obesa, tem mais hipertensão, tem mais diabetes e por isso estes programas sobre o coração, digamos assim, de uma forma mais simples, têm que intervir de uma forma integrada, isto é, não só na prevenção, atuando sobre as condições prévias à doença, isto é, a pessoa fazer mais rastreios, ter mais programas, por exemplo, com os municípios de atividade física. Aproveitar aqui a ligação da rede, porque é muitíssimo importante a ligação da rede, não só a rede de saúde, a rede social. Hoje em dia fala-se muito da prescrição social e é muito importante para, por exemplo, encaminhar as pessoas para uma maior atividade física. Sabemos que a atividade física é promotora de um bom coração e por isso, neste campo, também as mulheres estão aqui um bocadinho à parte. Não só nesta questão do tratamento preventivo, porque não dão tanta atenção aos sinais. Por exemplo, as mulheres descuram mais os sinais.

Também são muito cuidadoras da família.

E são muito cuidadoras.

Estão muito atentas à saúde do marido, dos filhos e de toda a família.

Sem dúvida. Acho que é preciso uma atenção muito grande sobre a mulher em todo o ciclo de vida, mas sobretudo a mulher que vive em condições mais pobres, de mais carência, porque nós sabemos que a pessoa que tem mais carência económica, menor nível de educação, tem mais baixa literacia em saúde. E ao ter mais baixa literacia em saúde, o que é que acontece? Não consegue nem aceder aos serviços, nem compreender o sistema complexo da saúde e depois não consegue tomar decisões acertadas em saúde. Muitas vezes não toma decisões acertadas porque, como disse e muito bem, está a pensar na família, está a pensar nos dependentes, está a pensar nos filhos, está a pensar no sustento da família. E nós vemos isto, por exemplo, em muita população migrante. As mulheres são uma grande força de trabalho nestas populações migrantes e muito mais descuradas em relação à sua saúde e à saúde do coração. E por isso, este olhar sobre a mulher é um olhar muito importante. É um olhar que depois beneficia toda a sociedade. Mas, sobretudo, nós temos que fazer um favorecimento social destes contextos tão difíceis onde as pessoas vivem, porque o contexto também conta, o comportamento conta. Nós sabemos que cerca de 60% das doenças, sobretudo as doenças cardiovasculares, as doenças oncológicas, têm a ver com o comportamento. Se nós conseguirmos atuar sobre o comportamento, evidentemente que isto não se faz num ano, nem numa legislatura, em três anos, mas tem efeitos para o futuro. E eu acho que qualquer pessoa que esteja num cargo de decisão tem que pensar também que tem que se ver daqui a 10 anos, tem que se ver a próxima geração e intervir nestas próximas gerações. Eu acho que nós temos que avançar mais no campo da promoção da saúde. Temos um budget muito pequenino, um orçamento muito pequenino no campo da promoção da saúde e da prevenção da doença. Agora, com a transferência de competências para os municípios, penso que é muitíssimo importante trabalhar em rede, trabalhar com os municípios. Tenho estado em vários eventos onde estão autarcas e eles estão com vontade de fazer. Precisam talvez é da força da saúde, da ligação, da interligação, da preparação, de trabalho de equipa. E a política pública pode ajudar nesta integração. E eu acho que é essencial. Acredito muito que aqui há o vaso comunicante de todas as doenças, inclusivamente as doenças cardiovasculares, que é A alimentação, a atividade física e a saúde mental. Se conseguirmos trabalhar estes três campos, estas três dimensões, conseguimos ter populações mais saudáveis. E se conseguirmos educar estas populações de uma forma onde trabalhamos não só a razão, mas a emoção, porque só pela razão ninguém deixa de fumar, por exemplo. A pessoa deixa de fumar com algo significativo. A pessoa até pode ter a capacidade de, por exemplo, abrir a lamela do comprimido, agarrar no copo de água e tomar o comprimido, mas se ela não der importância a isto, ela não vai ter adesão terapêutica.

Certo.

E por isso é preciso tornar significativas estas ações. E de facto a força da medicina de proximidade, da saúde de proximidade, onde estão os médicos, os enfermeiros, os psicólogos, os terapeutas, os nutricionistas, os fisioterapeutas, podem ter aqui uma valorização em termos de intervenção. E eu acho que isso é muito importante.

Temos ouvido falar mais em literacia em saúde, o que é uma boa notícia, mas por outro lado, não é garantido que saibamos o verdadeiro significado. E eu sei que também é um desafio pedir que me responda resumidamente, mas o que significa a expressão literacia em saúde?

Literacia em saúde, eu costumo dizer que é dar competências às pessoas para que elas se sintam motivadas a tomar decisões acertadas em saúde. No entanto, competências significa que eu tenho que pelo menos atuar em três campos. Tenho que lhe dar conhecimento, a pessoa tem que conhecer aquilo que eu lhe proponho que ela saiba. Capacidade, eu tenho que garantir que a pessoa tem capacidade para fazer aquilo que eu lhe estou a pedir. E depois a questão dos atributos da pessoa, ou seja, é o ser, que pessoa é aquela, que ser é aquela, que contexto é que ela vive. E por isso, são as competências que geram motivação e não é a motivação que gera competências. Nós não podemos andar a fazer eventos, festas e ações para motivar, quando elas ainda não têm competências. Por isso, primeiro as competências, são as competências que geram motivação e a motivação depois gera para a tomada de decisão acertada. É isto a literacia em saúde. Parece difícil, mas não é.

Eu ia dizer que até parece simples explicado assim, mas é mais complexo.

É mais complexo, porque depois é preciso trabalhar em rede, há uma ciência por trás, há princípios e metodologias. Há a ciência do comportamento. Nós temos que, e sobretudo no plano nacional de literacia em saúde e ciência do comportamento, assim se chama, em que tive o gosto de participar, usamos o modelo COM-B, quer dizer, as competências, as oportunidades que também são dadas às pessoas. Por exemplo, na Holanda, quando fizeram aqueles espaços para os ciclistas andarem, para porem a bicicleta, incentivarem a atividade física. Nós aqui já vamos começando a ter e de uma forma já mais ampla, mas ainda há muito que fazer.

Num artigo de opinião que escreveu para o Arterial, o projeto observador dedicado às doenças cerebro e cardiovasculares, defendeu que se 85% das doenças cerebro e cardiovasculares são evitáveis, há que apostar na promoção da saúde desde a infância. Já falou aqui um pouco da promoção da saúde, mas de que forma é que os mais novos podem então ajudar a prevenir estas doenças no futuro?

É uma pergunta excelente. Os mais novos, se começarem a aprender, e é o princípio da ciência do comportamento, a modelação. As crianças aprendem por modelação. Se nós lhes ensinarmos que elas devem proteger o coração, devem ter uma alimentação adequada, e isto também começa não só em casa, mas na escola. Muitas vezes os pais não têm competências e por isso é preciso desenvolver competências parentais. Aliás, nós temos nos nossos estatutos a implementação no currículo escolar da literacia em saúde em todas as disciplinas.

No mesmo artigo que escreveu para o Arterial, referiu que enquanto especialista em literacia em saúde, considera que as respostas às doenças cerebro e cardiovasculares têm de ser vistas de forma abrangente, estruturante e com parcerias de vários setores. O que falta para estas áreas trabalharem mais em conjunto?

Eu acho que aí as políticas públicas e as grandes entidades que trabalham com as políticas públicas, por exemplo, a Direção-Geral da Saúde, pode ser promotora da criação de rede. E promotora da criação de rede, criando essa necessidade de criar não grandes equipas, mas equipas multiprofissionais e interdisciplinares, que possam trabalhar projetos exatos e concretos nas várias áreas e nas várias regiões, de acordo com as maiores necessidades, porque o país é diferente, o país e as ilhas são diferentes e as necessidades são diferentes.

Mesmo as populações, há pouco estávamos a falar sobre isso, mas as populações têm características muito diferentes consoante o sítio onde vivem. Até o acesso à saúde é completamente distinto.

Por exemplo, a esperança média de vida no norte é maior do que no sul e muito maior do que, por exemplo, nos Açores ou na Madeira. E têm características diferentes. Há populações mais litorais, a população urbana tem necessidades diferentes de uma população muito de região interior. E por isso, é isto, é ver que maiores problemas existem, criar grupos multiprofissionais e interdisciplinares para trabalharem em conjunto, apresentando estratégias e projetos. Eu costumo dizer que eu não gosto do projeto como se fosse um namoro. Eu gosto do casamento. Por quê? Porque um projeto só é financiado, acaba o projeto e ninguém mais fala nele. As boas práticas estão um pouquinho escondidas. Nós procuramos, na Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, dar visibilidade às boas práticas de literacia em saúde. Temos feito isto de forma regular. Temos também mais de 200 sócios, a maior parte, e mais de 60 parceiros, são profissionais das áreas da saúde. Dar relevo àquilo que se faz bem no país para replicar. Às vezes não é preciso muito dinheiro, é preciso é ajustamento e as pessoas saberem: "Olha, preciso de tomar este passo, este passo e este". E implementar. Evidentemente que há alguma adaptação aos contextos. Mas precisamos mesmo de mostrar as boas práticas que o país faz, que há muito boas práticas de literacia em saúde.

Ligando as doenças cerebrovasculares à literacia em saúde, o que falta aos portugueses enquanto cidadãos, por um lado, e por outro, a quem toma as decisões do país para melhorar os números que colocam o AVC ou o infarto como a principal causa de morte e incapacidade em Portugal?

Há uma literacia em saúde individual. O indivíduo tem responsabilidade e tem que desenvolver as suas competências e a sua educação. Depois, há uma literacia em saúde comunitária. As próprias comunidades desenvolvem estratégias para desenvolver esses mesmos programas. E depois uma literacia em saúde pública, que tem a ver com as preocupações da pobreza, por exemplo, do ambiente. No ano passado morreram em Portugal duas mil pessoas. O professor Fausto Pinto, que é um cardiologista de referência, fala no seu relatório sobre o coração do ano passado, 2024, sobre este problema, que é: a poluição mata. E matou duas mil pessoas no ano passado em Portugal. Evidentemente que muitas delas têm comorbilidades, mas o facto é que o ambiente também tem um grande papel. Hoje em dia falamos no One Health e a literacia em saúde tem trabalhado também, nós na sociedade, com outros stakeholders e outros profissionais, como por exemplo, os médicos veterinários, porque têm também uma grande função nas questões do antibiótico aos animais, das zoonoses, na proximidade entre o homem e o animal, nesta integração que é preciso ser feita e, sobretudo, isto tem a ver com o ambiente e com sustentabilidade. O campo da sustentabilidade é um campo que nós poderíamos rever no sentido de reaproveitar estratégias e estruturas para não termos que estar sempre a investir na mesma coisa. E muitas vezes poupa-se dinheiro de um lado para depois poder dar do outro lado. E esta dimensão de olhar para o país também de uma forma muito criteriosa, muito diferenciada, também é muito importante. Porque sendo um país diferente, as pessoas também têm necessidades diferentes. Uma pessoa que viva no meio de uma aldeia onde só viva cinco ou seis pessoas, isolada, como é que ela vai ao médico? Como é que ela vai fazer o seu rastreio? O que nós temos que conceber? Evidentemente que há as carrinhas que hoje em dia são organizadas pelos municípios e que vão ter com as pessoas. É uma das alternativas. Mas nós temos que pensar às vezes até de uma forma fora da caixa, mas sobretudo olhar para os outros países também e ver que oportunidades os outros países também tiveram, o que fizeram, e se nós podemos adaptar cá em Portugal. E às vezes é isto que temos que fazer, olhar, pensar de forma crítica. Não pensar de uma forma leve. Eu acho que nós precisamos mesmo de pensar mais profundamente, de forma crítica, mas sobretudo, há muitos dados que nós temos. Eu às vezes estou cansada de ouvir dados, porque nós temos que depois fazer ação. Saímos da investigação e vamos para a ação.

Lá está, os problemas estão identificados, o que falta é a resolução mais célere.

A resolução e a prática. A prática daquilo que é a ciência. E nós temos feito muito. Temos o projeto Ativar, de desenvolvimento de competências dentro das universidades seniores e juntas de freguesia, temos o programa Ritmo nas escolas para alimentação, atividade física e saúde mental. Temos a Movonica, do encontro das pessoas com doença crônica. Vamos para o terreno. Evidentemente que isto é difícil. Sobretudo para uma sociedade científica sem fins lucrativos. Mas temos tido algum apoio também das entidades e isso também é importante compreenderem que isto não é um trabalho isolado, tem que ser um trabalho conjunto.

Muito obrigada, Cristina Vaz de Almeida. Chegamos ao fim de mais um episódio da entrevista "Se eu fosse Ministro da Saúde", disponível em observador.pt e nas plataformas habituais de podcast. Passe pelo nosso site e aceda aos conteúdos do Arterial, onde terá a oportunidade de responder a um breve questionário sobre o seu conhecimento sobre doenças cerebrocardiovasculares. Demora 30 segundos. Obrigada e até a um próximo episódio.