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Semáforo Político na Rádio Observador, sempre com a Judite França e com o Bruno Vieira Amaral. Como convidado, recebemos João Oliveira, candidato da CDU não eleito nas legislativas antecipadas. O primeiro sinal verde é para moderação do Miguel Vieira. Miguel, bem-vindo ao Semáforo Político.

Muito boa tarde. Recebemos João Oliveira, o candidato da CDU não eleito nas legislativas antecipadas. Foi o primeiro resultado da CDU, que perdeu Santarém e Évora e com isso um dos deputados de maior relevo do PCP, António Filipe e João Oliveira, líder da bancada. Boa tarde, João Oliveira, bem-vindo ao Observador.

Boa tarde, viva.

João, já refeito do desaire da não eleição para o Parlamento?

Nós refazemos rapidamente. A partir do momento em que são apurados os resultados e que identificamos a força com que passamos a contar para intervir na Assembleia da República, é a partir daí que começamos a olhar para frente. Nós refazemos rapidamente.

Ontem o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, admitiu a derrota, mas percebeu-se pelo discurso que não faria nada diferente. Voltariam a chumbar o orçamento do Estado?

Olha, eu diria ao contrário. Eu permito que nós fizéssemos, o PS não havia de encontrar destino diferente. Eu julgo que, sobretudo depois dos resultados eleitorais que ontem se confirmaram, ficou ainda mais claro que verdadeiramente era isto que o PS tinha na manga. O PS estava verdadeiramente à procura da maioria absoluta e utilizou o orçamento do Estado como pretexto, fazendo tudo para que ele não fosse aprovado. E estou ainda mais convencido que tivéssemos nós feito o que fizéssemos, que o PS provocaria sempre aquele desfecho. E a recusa sucessiva das propostas que nós fomos discutindo, a recusa das soluções para os problemas do país, em problemas tão evidentes e tão graves como eram já na altura os problemas do Serviço Nacional de Saúde, apenas para dar um exemplo, eu julgo que mostram bem que a verdadeira vontade do PS era, de facto, provocar eleições antecipadas para obter este resultado que obteve.

Como é que interpreta então o sentido de voto dos portugueses, tendo em conta que tanto o PCP como o próprio Bloco de Esquerda disseram isso mesmo, acusaram o Partido Socialista de estar a conduzir as coisas para umas eleições antecipadas, por forma a que pudesse obter essa maioria absoluta. Foi uma mensagem não apreendida pelo eleitorado?

Não, há mensagens fortíssimas que foram propagandeadas não apenas pelo PS, mas inclusivamente pelos órgãos de comunicação social em geral, que conduziram naturalmente a um quadro em que se verificou aquele resultado eleitoral. Uma acentuadíssima dinâmica de bipolarização, e particularmente a partir da utilização das sondagens e dos elementos que hoje se verificam que eram absolutamente artificiais, da falsa aproximação do PSD ao PS com a ideia de que havia o perigo do regresso da direita. E portanto, por um lado, a bipolarização, por outro lado, a acentuação dessa criação artificial de que havia, de facto, o perigo do regresso da direita ao poder, procurando canalizar para o PS toda a ideia do voto útil e simultaneamente a intervenção do PS decidido a atacar os partidos à sua esquerda, a apropriar-se das iniciativas e das propostas que resultavam da intervenção da CDU, do PCP e dos Verdes ao longo destes anos. Para além, naturalmente, de dificuldades objetivas que constituíam, por exemplo, a situação da epidemia e as dificuldades de realização de uma campanha em circunstâncias normais, em condições normais para aquilo que é hábito fazermos. Há um conjunto de elementos que contribuem para esse resultado. O desfecho foi aquele que é conhecido e a partir daqui temos que olhar para frente e ver como é que se intervém.

O voto útil tem uma fatia grande desse resultado?

Eu julgo que é evidente. Esta criação artificial da ideia de que o PSD estava, de facto, a disputar com o PS.

Foram aquelas sondagens em desameito da campanha eleitoral, não é? Aquela sondagem avançada pela CNN com uma amostra reduzida que apontava inclusivamente para a vitória de Rui Rio.

Na véspera do voto antecipado. Esse momento foi um momento verdadeiramente crucial. Quando na véspera do dia do voto antecipado se anuncia sondagens que diziam que inclusivamente o PSD já era o partido mais votado à frente do PS, cria-se todo esse enquadramento que já no quadro da bipolarização vinha sendo desenvolvido e que particularmente a partir desse momento acaba por condicionar depois. Porque naturalmente nós íamos percebendo que os portugueses não se tinham esquecido daquilo que tinha sido o governo do PSD e do CDS, não se tinham esquecido das dificuldades que tinham passado e às quais não queriam regressar.

João, mas foi este o único fator que contribuiu para esse resultado eleitoral ou de facto o chumbo do orçamento do Estado também acabou por condicionar o sentido de voto do eleitorado?

Acabei de fazer referência a uma série de fatores que contribuem todos nesse sentido. Por um lado, a bipolarização, a criação artificial do perigo do regresso da direita ao poder, os elementos da apropriação por parte do PS das medidas que resultavam nas pensões, nas creches, no passe dos transportes, que resultavam de iniciativas da CDU, toda a narrativa contra os partidos à sua esquerda. O PS não fez uma campanha procurando visar o PSD, mas sim visando os partidos à sua esquerda, nomeadamente a CDU. E naturalmente encaixa nessa narrativa a posição de vitimização em relação ao orçamento do Estado que o próprio PS tinha provocado, para chegar a esta situação de eleições antecipadas.

João, além da questão do voto útil, que até parece ter penalizado mais o Bloco de Esquerda do que o Partido Comunista, não estará também a acontecer uma erosão progressiva do eleitorado do Partido Comunista?

Não. As circunstâncias específicas de cada uma das eleições Naturalmente impõe uma avaliação e uma apreciação dessas circunstâncias. Eu julgo que estes elementos que nós acabámos de identificar aqui muito dificilmente podem estar presentes noutras eleições, sejam elas autárquicas, de Parlamento Europeu ou presidenciais, porque cada uma das eleições tem um quadro próprio em que é disputado. Nós temos a noção exata de que há muitos que se esforçam por procurar apagar do mapa o PCP e a CDU, e eu julgo que a resposta que foi dada é uma resposta exactamente no sentido oposto a esse. É o sentido de, com a nossa intervenção, com a nossa ação de esclarecimento, com os muitos milhares de activistas que por todo o país fizeram uma campanha de esclarecimento no contacto directo com os trabalhadores e com as populações, nós conseguimos apontar ainda assim a perspectiva de contrariar esses desígnios que eventualmente alguns teriam preparados para nós, à semelhança daquilo que fizeram com outros partidos. Portanto, eu julgo que é exactamente o oposto. Naturalmente, é esse enraizamento do PCP e da CDU no povo português e junto dos trabalhadores que permite também nestas circunstâncias enfrentar esses objectivos da nossa neutralização.

João Oliveira, vamos então ao semáforo. Que cor escolhe e quem ou o que é que quer associar a essa cor?

Era possível escolher várias cores.

O que quiser, João.

Era possível escolher várias cores para várias circunstâncias destas eleições. Eu julgo que o sinal vermelho para a maioria absoluta, que naturalmente dificultará a resposta aos problemas do país, eu julgo que é talvez o elemento mais significativo a destacar. Eu diria que quando os portugueses verdadeiramente queriam soluções para os seus problemas e estavam genuinamente preocupados com aquilo que poderia resultar das eleições no sentido de haver essa resposta aos problemas do país, a obtenção pelo PS de uma maioria absoluta naturalmente é um sinal vermelho a essas pretensões dos portugueses na resposta aos seus problemas e que naturalmente colocará dificuldades acrescidas na possibilidade de eles efectivamente terem resposta. E portanto, isto naturalmente vai colocar uma grande exigência do ponto de vista da ação e da iniciativa política, da afirmação dessas soluções e da sua exigência do ponto de vista das massas e dos trabalhadores.

Vamos ter o PCP mais na rua, João Oliveira, com essa mobilização que nos últimos tempos até havia essa acusação de não haver uma mobilização tão forte dos sindicatos e mais um partido de oposição, claramente de oposição.

Nós continuaremos nas ruas e na oposição, como sempre temos estado, a procurar juntar as forças que são necessárias para vencer as dificuldades e os obstáculos que se vão colocando. Sabe que nós ao longo destes anos fomos tendo variadíssimas circunstâncias. O aumento das pensões é talvez um dos exemplos mais evidentes, porque quando nós começámos a discutir os orçamentos com o PS em 2016, o PS não queria o aumento das pensões e o primeiro orçamento não teve o aumento das pensões. E foi de facto, por um lado, a nossa insistência e a nossa intervenção e, por outro lado, a luta dos reformados que vieram para a rua reivindicar o aumento extraordinário das pensões, foi de facto a conjugação desses dois factores que permitiu que a partir de 2017 começasse a haver aumento de pensões, porque o PS recusava-os. Ora, eu julgo que continuam a ser esses os dois elementos verdadeiramente preponderantes para que essa resposta aos problemas do povo e do país possa acontecer, ainda que ela seja mais difícil num quadro de maioria absoluta, porque tenho a certeza absoluta que com a nossa iniciativa e a nossa intervenção no quadro da Assembleia da República e fora dela, mas também com a luta dos trabalhadores em torno dos seus direitos, das populações em relação às suas condições de vida, eu julgo que é possível encontrar os dois elementos que já no passado confirmaram a sua importância. Portanto, desse ponto de vista não deixaremos de estar onde sempre temos estado, ao lado dos trabalhadores todos os dias, ao lado das populações todos os dias, a procurar construir essas soluções para os seus problemas.

João, escolheu a cor vermelha, mais nenhuma cor. O laranja não é uma cor que pretenda trazer para esta rubrica d'O Observador? Ou o verde? Não há sinais verdes nem laranjas resultantes destas eleições?

Podia haver alguns sinais verdes. Eu diria que o facto de termos chegado à conclusão que afinal de contas houve algum retrocesso do ponto de vista da abstenção talvez seja um sinal verde a extrair destas eleições. Eu julgo que esse realmente é um elemento relevante. Essa caracterização talvez possa ser feita nesses termos, porque acho que é um elemento de valorização. Em termos de sinais, o sinal amarelo ou laranja.

Sim, é melhor. Se preferir o amarelo ou laranja, imagino que vira mais a suscetibilidade do João Oliveira.

Não, sabe que eu não tenho nenhuma conceção sectária relativamente às cores que dificulte desse ponto de vista. Mas em relação aos sinais laranjas, talvez os elementos relacionados com a forma como a campanha acabou por ser muito condicionada pelas sondagens e por esses elementos artificiais que introduzem de facto uma forte componente de distorção daquilo que está verdadeiramente em causa. Talvez este aspeto seja de facto relevante associado a outro, ou seja, a distorção daquilo que está em causa nas eleições, seja por via das sondagens que criam essas ideias artificiais relativamente àquilo que é o ponto de situação relativamente às opções de voto dos portugueses, mas até em relação às próprias condições e aquilo que verdadeiramente está em discussão quando se coloca em causa, por exemplo, as ideias da eleição do primeiro-ministro, quando aquilo que está em discussão é a eleição de deputados em cada um dos distritos, talvez seja um dos elementos que mereça o sinal laranja, porque deve merecer de facto uma reflexão mais alargada da forma como o quadro

De facto, o quadro eleitoral acaba por ser muito condicionado por elementos que são absolutamente estranhos e que são utilizados naturalmente com o objetivo de condicionar e favorecer determinado tipo de resultados e a concentração do ponto de vista da bipolarização entre PS e PSD. Talvez isso seja um dos elementos que valha mais a pena reter para o futuro, naturalmente com o objetivo de os poder contrariar.

João Oliveira, peço que não nos deixe, gostava ainda de lhe fazer duas perguntas, mas vamos conhecer as cores do nosso painel da tarde da Rádio Observador. Começo por ti, a Judite França. Que cor escolheste, ou cores?

Escolhi só uma cor, porque acho que não temos muito tempo e escolhi um verde superbrilhante para o PS, porque ganhou com maioria absoluta quando ninguém acreditava nisso. Acho que nem os próprios socialistas acreditavam que isso fosse possível. E nós andamos aqui a falar de ziguezagues, do que parecia até um António Costa no final da campanha, de cabeça perdida. Podemos meter a viola no saco, porque António Costa fez precisamente aquilo que precisava de fazer. Conseguiu culpabilizar o PCP e o Bloco de Esquerda, por um lado, pelo chumbo do Orçamento de Estado, pela crise política, mas eu acho que há aqui um fator de garantes de estabilidade em plena pandemia que não pode ser menosprezado. Depois o PSD fez todo o resto que António Costa precisava, mas eu vou deixar o PSD para o Rui Pedro Antunes, para sei que tem aí uma cor ótima também para o PSD. E acho que olhando para o Parlamento, ele mudou o eixo e o PS também mudou o seu eixo. Passou a ser um partido mais de centro, sem a geringonça, isso parece-me evidente. E agora vamos assistir a quatro anos de maioria absoluta. Vamos ver como é que elas correm.

Rui Pedro Antunes, queres falar sobre o PSD? Que cor queres associar ao Partido Social-Democrata e ao resultado que obteve na noite eleitoral de ontem?

É um sinal vermelho, também aqui para ir na linha do nosso convidado, para quem o vermelho é uma cor que ele aprecia, mas acima de tudo porque é um sinal vermelho sendo negativo. Eu até ia contar aqui uma história, mas fica para mais tarde. Eu tenho isto que cada vez que vem ao semáforo deixo aqui uma promo para uma história mais tarde.

É por saber.

É verdade.

É por saber a curiosidade dos nossos ouvintes.

Qual foi a primeira vez que o Rui Rio falou alemão e por quê? Porque essa história envolve a nós do Observador. Mas isto para dizer o quê? Que Rui Rio ontem, independentemente da derrota e de falhanço de estratégia, que é normal, é a democracia a funcionar, a maneira como a claque ia vaiando os jornalistas, uma coisa que tínhamos visto no Altice na noite em que Sócrates caiu, por exemplo, cada pergunta dos jornalistas, uma vaia e coisas desse gênero. Isso acho que dava razão às pessoas que diziam que Rui Rio ia ser uma espécie de um pequeno déspota relativamente aos jornalistas e à comunicação social. Isso só lhe ficou mal e falar alemão é uma falta de respeito, mas se não fosse jornalista, se fosse um adversário político, era igualmente uma falta de respeito.

E era muito interessante perceber quem é que estava ali nos apupos.

Sim, provavelmente uma claque dos mobilizadores do costume. Salvador Malheiro, eu não sei, porque não vi as pessoas, não estava lá. Mas normalmente quando há esse tipo de claques do PSD costuma ser assim. Sinal vermelho por causa disso. Sinal vermelho porque o PSD fica numa situação muito difícil. Não há uma figura que possa agregar o partido. Olhamos para Rangel, Luís Montenegro.

E se calhar também não tem grande interesse nesta altura, precisamente por aquilo que a Judite estava a pôr em evidência. São quatro anos de maioria absoluta do PS.

É uma travessia no deserto. Nenhum deles está no Parlamento, nenhum deles é agregador. São todos agregadores, se calhar, de um voto útil, também se fossem novamente eleições contra outros, porque têm anticorpos não só na área política deles, mas noutras.

E ninguém quer fazer de António José Seguro.

É, e o PSD não é um partido que está ali que possa propor algo diferente. Se for uma oposição corrosiva, estão lá 11 deputados do Chega que vão gritar até estourar os microfones. Se for uma oposição criativa, está lá a Iniciativa Liberal e até às vezes documentada, etc. Se for uma oposição, como vemos o deputado João Oliveira não está no Parlamento, uma oposição à esquerda, estão lá os antigos parceiros da esquerda. Se for uma oposição de pessoas que sejam muito competentes e tenham sido escolhidas para áreas específicas de ataque ao governo, não são, porque o grande critério para a escolha das listas de deputados do PSD foi se tinham ou não apoiado Rui Rio, que ganhou margem para isso com aquela vitória a Paulo Rangel. Portanto, nada disto augura nada de bom para o PSD, para a reorganização do partido. Vão ser quatro anos de travessia no deserto e por isso Rui Rio deixa o partido neste estado e por isso um sinal vermelho. Se bipolarizou a campanha, quando bipolariza um verde e um vermelho, se a Judite deu o verde ao PS e à maioria absoluta no sentido vencedor, eu tenho que dar o vermelho a Rui Rio, porque ele de certeza, entre todos os derrotados, é o maior deles todos.

Vida difícil para o PSD nos tempos mais próximos. Bruno Vieira Amaral, que cores?

Eu tenho um sinal verde daqueles que ficam abertos muito tempo, quatro anos para António Costa, por esta vitória que foi inesperada pela dimensão que teve e que também veio esvaziar um pouco e fazer empalidecer as outras vitórias, os outros vencedores da noite, que para mim foram André Ventura e o Chega e a Iniciativa Liberal, porque apesar de terem crescido bastante e de terem tido bastante representação parlamentar, acabam por não contar para o jogo do governo com a maioria do PS. Portanto, o PS correu-lhe tudo bem e consegue esvaziar, em parte, este crescimento acentuado da direita e nomeadamente da extrema-direita. E tenho sinais vermelhos para Rui Rio e para Francisco Rodrigues dos Santos. Diz-se que Chicão foi o coveiro do CDS. Rui Rio foi uma espécie de enfermeiro dos cuidados paliativos do PSD. O PSD até cresceu em votos, mas é uma derrota em toda a linha, porque deixa de contar, não conseguiu aquilo que queria, que era vencer as eleições, desde logo, não acreditando na maioria absoluta, mas também não consegue ter influência com a maioria absoluta do PS. E por último, um sinal vermelho também para o PCP e o Bloco de Esquerda, mas que têm uma vantagem, que é Eles estão libertados a partir de agora para fazer oposição, que eu acho que é a vocação quase natural destes partidos. Com uma diferença: o BE em 2011 foi muito penalizado quando deixou cair o governo de José Sócrates, mas teve a sorte de logo a seguir ter um governo de direita e isso fez com que recuperasse muitos votos em 2015. Agora, vai ter uma maioria absoluta de um partido de esquerda e vai ser muito interessante ver como é que o Bloco de Esquerda reage a esta nova configuração.

Vai ser mais difícil fazer oposição neste quadro parlamentar, João Oliveira?

As maiorias absolutas são sempre mais difíceis de fazer oposição, porque naturalmente uma maioria absoluta tende sempre a limitar muito as possibilidades da própria oposição exercer os seus direitos de oposição. A experiência tem sido sempre essa, nunca tem sido outra. Eu só passei por uma que foi de facto a maioria absoluta do José Sócrates e lembro-me bem do quadro de até degradação do trabalho parlamentar que a maioria absoluta acabava por impor. Desse ponto de vista, não se pode esperar nada diferente. Acho que essa circunstância da maioria absoluta é aquilo que verdadeiramente determina a tentativa de limitação da própria iniciativa e da atividade dos partidos de oposição.

E o que esperar da reunião do comitê central do PCP que está agendada para amanhã?

O que esperar? Um balanço mais aprofundado daquilo que foi a participação neste ato eleitoral e aquilo que foi o enquadramento que ele teve, a forma como chegámos a ele e a forma como disputámos. E sobretudo, uma projeção para a frente daquilo que é o caminho a fazer e aquilo que são as linhas a seguir relativamente à nossa ação e à iniciativa mais imediata e mais a prazo, que temos que levar por diante em função da força com que saímos do ato eleitoral e daquilo que ela significa do ponto de vista institucional, de capacidade de intervenção para levar à Assembleia da República os problemas do país e as soluções para que eles possam ser ultrapassados. Como lhe digo, nós não temos por hábito ficar a carpir mágoas, temos sobretudo por hábito ver exatamente a força com que saímos e como é que a podemos utilizar da forma mais eficaz possível em função daquilo que é a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo. E portanto, é isso que faremos também nesta circunstância, naturalmente tendo em conta o contexto em que estamos e o quadro que resulta destas eleições.

E o João Oliveira, agora que não é deputado, que espaços vai encontrar para continuar a intervir como tem feito até aqui?

Vou continuar a intervir da forma como o partido entender que pode ser mais útil e portanto, até aqui no quadro da Assembleia da República, neste momento fora dela, noutros espaços que certamente hão de ser definidos em função desta nova circunstância, mas eu diria com determinação redobrada, se é que é possível redobrar a determinação que já vinha de trás, mas com determinação redobrada face às exigências maiores que neste quadro temos que assumir perante aquilo que resulta do ato eleitoral de ontem.

João Oliveira tem sido apontado sucessivamente como um dos potenciais sucessores do atual secretário-geral do Partido Comunista, Jerónimo de Sousa. Esta não eleição para o Parlamento é um revés nessa possibilidade?

Olhe, sendo sincero, eu não gosto muito de especulação e normalmente costumo dar combate aos especuladores, mas essa questão vou deixá-la mesmo para a especulação, porque acho que só no plano da especulação é que essa questão tem sido colocada e só neste plano é que pode ser desenvolvida a partir desse momento que agora adiantou. Portanto, eu vou deixar isso mesmo para a especulação. Os especuladores que especulem à vontade. Desse ponto de vista, só não leva mal a minha gargalhada. Mas sinceramente, essa questão e a forma como ela vai sendo repetidamente colocada, já só com boa disposição é que consigo olhar para ela.

E é com essa boa disposição de João Oliveira que terminamos este Semáforo de hoje. João Oliveira, o antigo líder da bancada parlamentar que não foi eleito nestas eleições legislativas, convidado neste dia seguinte à noite eleitoral.