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Quando falo, descubro mais sobre mí. E quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos ao Somos Todos Malucos, um podcast Observador nesta sétima temporada. Todas as conversas estão disponíveis no site do Observador, no YouTube, Spotify, iTunes, plataformas digitais em que facilmente encontram estas conversas. Todas as semanas, todas as quartas, já sabem, tenho aqui um convidado. E às segundas, os miniepisódios, que se chamam intermédios, que sou eu sozinho, a divagar sobre os temas que já passaram por aqui e os convidados, e também convidando-vos a assistir a conversas que já levam três anos. Deve ter umas 140 conversas que já passaram por aqui. Hoje, o Diogo, que é psiquiatra, tem uma página no Instagram que dá pelo nome de "Reflexões de um Psiquiatra", e depois de um livro que lançou, que se chama "E quando não está tudo bem", lançou agora recentemente, no início do ano, este "Não complique: e outros 17 bons hábitos de saúde mental". É um livro muito prático, pequeno, para quem gosta de livros pequenos. É um livro pequeno, muito prático, para vocês rabuscarem, para escrever. Muito chato para aquelas pessoas que não gostam de escrever em livros, mas aqui é suposto escreverem. É um workbook, na realidade. Diogo, muito obrigado por teres aceito o convite, por estares aqui. Eu convidei-te porque este livro chamou-me muito a atenção, o "Não complique: e outros 17 bons hábitos de saúde mental". Que hábitos são estes?

Antes de mais, obrigado por estar aqui, é um privilégio. No fundo, são um conjunto de 18 hábitos que têm fundamentação científica e que ajudam a promover a nossa saúde mental. E o que é isto, promover a nossa saúde mental?

Exatamente, o que é isto, promover a saúde mental?

Promover a nossa saúde mental é tratar bem da nossa saúde mental de modo a que não fiquemos doentes. Isso é o objetivo máximo. O que não quer dizer que seja sempre assim, porque, na prática, por melhores bons hábitos que a gente tenha, nós não estamos imunes a doenças. E as doenças podem nos bater à porta. Um desportista pode ter um enfarte cardíaco, um tipo que se preocupa muito com a dieta pode ter diabetes, tal como a pessoa que trata muito bem da sua saúde mental também pode ter uma doença mental. Agora, o que é certo é que estamos a falar de probabilidades. E se a pessoa tiver bons hábitos de saúde mental, que é uma coisa que nós temos medianamente pouco ou fraco.

Ou nada.

Ou nada, muitas vezes. A pessoa tem muito maior risco de vir a ter uma doença mental. E a ideia é: "Ok, no meu último livro falei sobre doenças, e agora vou falar como é que se prevêm as doenças?" Pode ser uma coisa matemática interessante, e é uma coisa que até, a meu ver, pouco explorada.

Sim.

O que fazer antes.

Não sei se tens conhecimento destes números, mas há uma percentagem elevada de pessoas que podem vir a lidar, nem que seja uma vez na sua vida, com questões de saúde mental.

Completamente.

É uma percentagem bastante elevada.

Isto até é um número que costuma dizer que é um em cada quatro ou um em cada cinco. Mais positivos, mais negativos, mas na realidade estamos assim. Isso é 20% ou é 25%.

Desde uma coisa mais simples, não é bem simples, todos têm as suas questões, mas desde da ansiedade, que é mais comum.

Nós em psiquiatria costumamos dividir entre doença mental severa e doença mental menos severa. Ou seja, por exemplo, esquizofrenia, doença bipolar, são as chamadas doenças severas. A ansiedade, a depressão, o transtorno obsessivo-compulsivo, são coisas menos severas. Agora, isto não quer dizer nada para a pessoa que está a sofrer delas. Basicamente, a pessoa que está a sofrer delas, aquilo é grave, obviamente.

E também se pode tornar severa.

Claro que sim. Isto é uma distinção muito artificial, que às vezes nós psiquiatras utilizamos, que eu nem acho particularmente bem e acho que não ajuda muito a combater sequer estes preconceitos que existem sobre doença mental. Ter qualquer doença mental é uma grande chatice. Ponto número um. E todas elas provocam imenso sofrimento, quer seja uma perturbação de pânico, supostamente é uma doença mental simples, uma coisa fácil de tratar, uma coisa fácil de resolver, quer seja uma esquizofrenia, que realmente é uma doença mais complexa. Com muito mais sintomas e mais difícil de resolver. Agora, todas elas provocam sofrimento imenso e acho que todas elas merecem a nossa atenção.

Tu cuidavas da tua saúde mental antes de seres estudante de medicina?

Não. Quer dizer, havia coisas que nós fazíamos e há coisas que nós fazemos de forma intuitiva, que nós sabemos que são boas para nós, que nos fazem sentir bem. Por exemplo, fazer desporto. Fazer desporto é uma coisa que nos faz imensamente bem à nossa saúde mental. Eu, por acaso, sempre fiz desporto e, por exemplo, quando eu ando no curso de medicina, deixei de fazer desporto, porque de repente não havia tempo para fazer desporto. E foi uma grande estupidez. Porque, na prática, o que eu devia era ter continuado com esse bom hábito.

Ou seja, nessa altura é que tu precisavas mais.

Exato. Quando uma pessoa está mais em stress, com mais complicações e mais exigências, é a altura que ainda deve fazer mais hábitos para o seu bem-estar. Fazer desporto, alimentar-se bem. A partir de toda a gente até conhece mais ou menos estes hábitos assim muito básicos. Alimentar-se bem, dormir bem. Todos nós sabemos o que é uma noite mal dormida e como é que nos sentimos a seguir. Que a nossa saúde mental não está no seu melhor depois de uma noitada de copos ou depois de uma direta para estudar para um exame.

Sim.

E há muitas coisas aqui que são intuitivas, mas que, na realidade, se nós sistematizarmos isto e transformarmos isto num hábito, que é a ideia deste livro.

Ou seja, de forma consciente.

De forma consciente, transformar isto numa coisa inconsciente. O que eu quero dizer com isto? Vamos tornar isto um hábito. Nós podemos ter bons hábitos e podemos ter maus hábitos. Hábitos que são maus e hábitos que são bons. Por exemplo, hábitos maus, fumar, beber em excesso. A pessoa não pensa nisso, é uma coisa já a certa altura inconsciente. Mas se uma pessoa começar a praticar bons hábitos de saúde mental Tem de ser coisas simples e de preferência com fundamento. Podemos ter a hipótese de fazer uma coisa já sem pensar e que nos está a fazer bem. Por exemplo, se nós agora dedicarmos um bocado de tempo para estarmos atentos a como é que nós estamos, que é logo o primeiro hábito que eu ponho aí, porque é um hábito muito chave para todos os outros hábitos.

Que é exatamente?

É logo o primeiro. Eu trouxe aqui a cábula para não me enganar e ainda me lembro.

Exato. Presta atenção.

É, presta atenção. O facto de nós prestarmos atenção a nós próprios. "Como é que eu me estou a sentir hoje? Hoje acordei bem, estou bem disposto, estou mal disposto, estou triste, estou chateado."

Mas como é que eu crio esse hábito, por exemplo, de prestar atenção?

É hábito.

Eu nem sequer consigo tomar a minha medicação todos os dias. No outro, eu lembro-me que cheguei ao fim do dia e pensei assim: "Caralho, esqueci-me hoje de tomar a medicação."

Todos os hábitos é da mesma maneira. A fórmula mágica para os hábitos é mais ou menos sempre a mesma, que é: é preciso persistência e no início é preciso consistência, ou seja, é preciso perceber que isto é importante e, portanto, valorizar. E ao mesmo tempo é preciso fazê-lo muitas vezes, fazê-lo tantas vezes de seguida, ao ponto que uma pessoa já nem pensa nisso.

Pois.

E a vantagem é essa. E, por exemplo, se tu arranjasses um hábito qualquer para a tua medicação, que nem sequer te obrigasse a pensar nisso, se calhar nunca te esquecias dela.

Pois é. Que hábito? Dá aí uma sugestão.

Há pessoas que têm-

Preparar a medicação no dia anterior.

Preparar a medicação no dia anterior ou tê-la, por exemplo, na banquinha. Por exemplo, eu tomo um medicamento para a tensão arterial e aquilo está lá na banquinha ao pé do pequeno-almoço, portanto o pessoal mete a mesa do pequeno-almoço, eu saco lá o medicamento, está lá. E não me esqueço. E depois para não me esquecer ainda mais, que mantenho o sono um bocadinho também alterado, tem um tracker, ou seja, uma aplicação que faz um sinal 8:20 ou 7:20. "Diogo, já tomaste a tua medicação?" E eu vou lá carregar e carrego "sim".

E sabes o que eu faço? Eu carrego "não" e-

E depois nunca mais te lembras.

E depois não me lembro.

Agora é preciso perceber o que funciona, o que é que não funciona. Isto é tentativa.

Isto também é traços de déficit de adesão diagnosticado. Uma coisa muito ligeira, mas que implica nestas coisinhas.

Por exemplo, para o déficit de atenção, ter não sei quantos hábitos práticos e implementados ajuda imenso.

Pois.

É uma daquelas estratégias não medicamentosas. Ter um post-it. "Não te esqueças, riminhos, é suposto tomares isto." Ao porta do frigorífico.

Não te esqueças de ir para a cama com a tua mulher.

Por exemplo.

Às vezes dá jeito.

Hábitos que são mais prazerosos, que uma pessoa não precisa de lembrete.

É verdade. Sim, realmente esse não precisas de pôr um post-it, nem um tracker. Tu já fizeste a tua-

Quer dizer, não sei. Se calhar há pessoas que precisam.

Mas por que tu achas que as pessoas descuram este cuidado da saúde? Por que não valorizam a saúde mental? É porque não está visível?

Eu acho que isso é parte do problema. Eu ainda há pouco tempo falei também num outro podcast sobre a questão das doenças invisíveis, e as doenças invisíveis são sempre coisas chatas. Tal como a minha hipertensão, também não é uma doença invisível, isto a mim não me afeta minimamente. Eu de vez em quando tenho que medir, também me esqueço sempre de medir, tenho o meu alarme a dizer "ok", às terças ou às quintas, eu depois que me diz e aquilo o alarme vai sempre para trás. Portanto, esse é um hábito que eu ainda não implementei, mas está em curso. Mas o que acontece é que quando nós não vemos, especialmente quando estamos bem, quando nós não vemos o que está a acontecer, por exemplo, se nós tivermos uma perna partida, nós vemos a perna partida e aquilo dói-nos e dá-nos muitos sinais. Quando nós não vemos o que está a acontecer ou porque estamos bem ou porque nem sequer temos consciência que estamos mal, o que acontece muitas vezes, acabamos por descurar. E isso é uma questão, é saúde mental.

Eu acho que é não valorizar os sintomas, encará-los como algo normal do momento. Não é? É muito aquela coisa: é normal eu estar cansado, é normal eu não conseguir dormir, porque estou com muito trabalho, é normal eu andar irritado porque whatever. E ao normalizar-se, na realidade, tu estás a deixar que isso se vá aprofundando até um ponto.

Nessa parte, depois também é importante, porque na realidade a maior parte destas doenças mentais, digamos, mais simples, mais correntes, mais presentes, mais prevalentes, os sintomas delas são exatamente iguais a emoções normais. A pessoa sente ansiedade, a pessoa sente irritação, a pessoa pode-se sentir chateada ou triste por uma coisa qualquer que lhe tenha acontecido. Agora, uma questão é: estou triste porque, sei lá-

Morreu alguém?

Morreu alguém, apareceu a conta do IRS para pagar e isso dá e quintuplicidade, enfim, várias coisas. Outra coisa é estar triste, sem motivo nenhum, durante semanas e semanas, com um humor que não é reativo a nada, tipo eu ganhei o Euromilhões e continuo triste, o que se passa aqui alguma coisa. E portanto, como as pessoas têm baixa literacia do ponto de vista de saúde mental e emocional, acabam por normalizar imenso as coisas e ligar a isto, por exemplo, "estou só cansado, isto é só trabalho, umas férias resolvem". E depois o que acontece é que vão de férias e as férias não resolvem, por exemplo.

Ou então, como no caso dos burnouts, resolvem, mas rapidamente volta.

Os burnouts resolvem, mas resolvem temporariamente.

Está naquele ambiente de férias porque está fora do ambiente que lhe causa problemas e quando volta, volta tudo ao mesmo.

Basicamente.

O meu psiquiatra disse-me uma coisa que me assustou na altura, porque foi demasiado real aquilo que ele me disse. Eu estava já a entrar há coisa de um ano, estava a entrar já num processo depressivo outra vez, eu não sei se o termo técnico é este, mas eu tenho uma espécie de depressão basal.

Pode ser, pode ser um termo.

Não mata, mas doi. Estás a ver? Que está provavelmente associada à perturbação psíquica ou compulsiva ou à ansiedade. Mas às vezes pode-se aprofundar se eu deixar isto arrastar. E ele disse-me uma coisa que me assustou, que foi: "Tu não fazes as coisas por..." Lembrei disto por quê? Tu estavas a falar do humor, do humor não reativo. Ele disse-me assim: "Tu fazes as coisas não por prazer, mas pela memória do prazer."

Ok.

E isto para mim fez muito sentido. Eu não tenho prazer, eu faço porque supostamente aquilo deixaria-me feliz.

Sim.

E se calhar, eu acho que isso, lá está, as pessoas entram num registo E eu tomar esta consciência: "Caraças, eu realmente não estou a ir jantar com os amigos, eu não estou feliz por ir jantar com os meus amigos. Eu estou a ir buscar memórias do que é jantar com os amigos." Isto pode ser um bom sinal também.

Isto foi uma coisa que te encaixou muito bem e que na realidade também tem a ver com este hábito do prestar atenção. De repente, realizaste: "Ok, eu não estou aqui neste jantar a sentir como normalmente me sentiria. Eu estou mesmo chateado, ou triste, ou o que quer que seja. Mas estou aqui por hábito, um hábito mecanizado, costumo ir às terças-feiras jantar com os meus amigos e continuo a ir." O que não é um hábito mau de todo, mas é importante perceber como é que eu me estou mesmo a sentir neste momento. Este hábito de nós prestarmos atenção a nós próprios, é um hábito, é tipo um superpoder. Isto é uma coisa que se pode desenvolver, mas é preciso que haja muito esta questão de eu preciso ter consciência disto, que haja esta necessidade.

Sim, não sei se concordas ou não, eu acho que esse hábito de prestar atenção vem sobretudo com outros hábitos que tu referes também, tipo o parar, o mindfulness.

Parar? O mindfulness faz parte de prestar atenção. Essa é a técnica mais poderosa possível de prestar atenção. Se nós andamos sempre a correr, quando é que paramos para prestar atenção? Isso não dá. Isso é um problema que a gente tem na sociedade. A maior parte de nós anda sempre a correr de um lado para o outro. E que está associado a outro hábito, por exemplo, que é criar limites. Se calhar não posso andar sempre a correr. Por isso é que nós quando combinamos agora este podcast, eu disse: "Terça-feiras à tarde é que é um dia bom." E não andei aqui muito a pensar: "Que fixe, vou ter um podcast com o Rami, e agora vou alterar a minha agenda toda e vou complicar a minha vida toda." Não, terças à tarde é o dia que eu tenho livre. Deixa lá ver, se der, dá. Se não der, não dá. E isso, por exemplo, é também um hábito que eu tenho vindo a desenvolver, que é esta coisa de não complicar demais, respeitar muito os momentos que eu tenho livre para fazer o que me der na real gana, o que me der prazer.

Ou seja, tudo parte do prestar atenção. Foi por isso que colocaste em primeiro?

Eu acho que nada disto consegues fazer se não prestares atenção.

Mas eu senti que comecei a prestar mais atenção.

E nós vivemos numa sociedade um bocado de déficit de atenção. Há o déficit de atenção, diagnosticado, doença, ok. Uma coisa. E depois há esta cena de andarmos sempre a correr e com não sei quantos estímulos e notificações, e agora é preciso que venhas aqui, daqui a 15 minutos tens que estar acolá, e agora ainda há mais isto e mais aquilo outro, e mais aquilo mais. E a certa altura uma pessoa não para pra pensar. Não parar pra pensar é mais ou menos dramático, porque é quando a gente para pra pensar, que conseguimos ter noção de coisas como, por exemplo, aquela que aconteceu no psiquiatra, onde paraste pra pensar, estiveste ali numa consulta parado, a pensar nas coisas, a falar com outra pessoa. E chegou-se a essa conclusão fácil, se calhar.

Sim. E no meu caso, por exemplo, eu comecei a fazer mindfulness há uns anos. Não pratico todos os dias, não sinto essa necessidade. Se calhar devia praticar pra ter como hábito enraizado. Mas já pratiquei, depois parei, mas procuro fazer duas, três vezes por semana. Mas, por exemplo, pra mim, o mindfulness, eu defino isso como: permite-me criar uma janela de oportunidade.

Completamente.

Eu acho que a mim o que me fez prestar atenção foi o mindfulness, porque naqueles cinco, 10, 15, 20 minutos, nunca menos de cinco, mas entre os 10 e os 20 minutos que eu fico ali num processo de atenção plena, de estar consciente do momento, ouvir o que me rodeia, mas sem prestar atenção, isso tudo. Acho que foi o que me permitiu, em momentos em que eu estou mais obsessivo ou mais estressado, perceber: "Espera aí, eu já estou a entrar aqui numas ações que não fazem sentido nesta altura."

O mindfulness é uma ferramenta muito eficaz. Agora, a verdade é que depois nem toda a gente tem paciência pra aplicar isso todos os dias.

Eu acho que nem toda a gente, não sei se concordas.

Agora, mas o mindfulness não é só aquele momento. Se tu fizeste aquele momento e tiveste determinada atenção, também te dá para os outros dias.

Sim.

E tiveste também a regular o teu sistema nervoso, a nível do sistema de alarme, o sistema digestivo, a amígdala, etc. Para níveis mais baixos te permitem pensar com mais claridade ao longo da semana.

Sim.

Portanto, esse hábito, duas, três vezes por semana, de mindfulness, é espetacular.

Aliás, eu digo-te uma coisa.

Eu gostava de conseguir fazer isso.

Eu não faço, mas eu, por exemplo, há semanas que eu não faço, mas também estou consciente que não faço. E não é aquele tipo: "Caraças, tenho que ir meditar." Se eu digo "tenho que ir meditar", não vou, porque isso soa a obrigação.

Aquela cena.

Não, acho que também não pode ser obrigação.

Tu tinhas preparado no guião, por que os hábitos são sempre uma seca e não sei o quê, e obrigações que não são.

Mas eu acho que as pessoas têm essa ideia. Eu acho que as pessoas associam os hábitos da saúde mental como uma seca.

Mas a ideia é desmontar isso, porque não tem de ser uma seca.

Então desmonta, mas não achas isto, que as pessoas têm essa ideia?

Acho que têm a ideia de cuidar de si, do seu corpo ou da sua mente, é uma seca e é uma obrigação.

Não é visível? Não sei porque eu nunca não sei.

Agora, por exemplo, hábitos que eu proponho aqui. Fazer coisas novas. Como é que isto é uma seca? Vou saltar de paraquedas.

E a pessoa que se calhar não tem isso vai dizer assim: "E agora vou saltar de paraquedas?"

Mas pode ser outra coisa qualquer que eu queira experimentar, ou vou aprender a dançar kizomba, ou whatever. Por que não? Isto pode ser coisas muito giras. Mesmo a prática da atenção plena. Por exemplo, eu gostei imenso do processo de aprender a técnica e tentar fazer a técnica. Depois foi uma coisa que eu não implementei, eu pensei: "Isto não tem nada a ver comigo." Mas presto atenção às coisas, tenho esse esforço e faço, por exemplo, às vezes em momentos de pausa, ou estou no consultório ou estou em casa e faço mesmo esse esforço consciente: "Agora, espera, o que é que se está a passar à minha volta? O que é que se está a passar comigo?" Mas não assim uma coisa estruturada, que pra mim, nem com aquela vozinha da meditação. Não sei porque aquilo aqui dá-me um bocado e eu não consigo fazer aquilo bem. Agora, é preciso encontrar as coisas de modo que funcionem. Dormir bem, cuidar do sono é uma seca? Não sei, eu gosto de dormir bem. Não é uma seca.

Eu tenho um problema que se calhar muita gente que está a ver e a ouvir tem o mesmo problema que eu, que é: eu à noite, é o momento que eu tenho para ver séries.

Também eu, e eu também faço isso e é muito bom ver as séries.

E vês até que horas?

Antigamente eu via dois episódios de uma série e agora vejo só um. E a seguir vou mais ou menos cedo para a cama e vou ler um livrinho, que também me sabe bem e altera isso.

E deitas-te a que horas?

A que horas é que eu me deito? Por volta das 22h30, 23h30. Depende.

Tens filhos?

Tenho filhos. Porque de manhã o dia começa cedo com miúdos.

Que idade é que têm os teus filhos?

Um tem 18.

Esse já está-

O outro tem 15. Esse já está despachado, o de 15 também. Depois tenho uma miúda de oito.

Pronto. Sim, mas a de oito ainda tem que ir para a cama cedo. Não é?

Ainda tem que ir para a cama cedo.

Os outros já não mandas nada.

Os outros vão lá a vida deles, a partir das 22h00 ou desaparecem, ou vão para o quarto deles, ou vão sair com amigos, ou nem sei bem o que se passa com eles às vezes.

Sim.

A pequena sim, deita-se cedo, nós deitamos, vemos a nossa série, normalmente eu e a minha mulher estamos ali, vemos uma série, um episódio, depois vamos para a cama.

E a que horas é que te levantas?

Eu levanto-me sempre aí por volta das 07h00, 07h20.

E tens hábitos de de manhã, rotinas matinal?

Tenho uma rotina matinal, que é: eu gosto de fazer as coisas com tempo. Não estou a dizer que faça, por exemplo, uma meditação matinal. Isso é um ótimo hábito. Há pessoas que fazem isso ou fazem alongamentos, etc. Mas a minha rotina matinal é uma coisa muito simples, é tomar o pequeno-almoço com calma. Gosto de tomar o pequeno-almoço com calma e beber o meu cafezinho.

Mas isso é saúde mental.

É. Não é uma seca.

Não é uma seca. É verdade.

É bom. E estamos ali. Podia acordar muito mais tarde e fazer tudo a correr, mas prefiro acordar um bocadinho mais cedo e fazer as coisas devagar.

Mas lá está-

E depois levo a miúda à escola e depois também é uma coisa que me sabe bem e depois se calhar não estaciono ali logo ao pé da escola e andamos a pé um bocadinho. Quando vamos com tempo. São hábitos.

Pois, isso que tu estás a falar, lá está, são hábitos de saúde mental, ou seja, fazer as coisas com tempo. Não é? Porque eu fico com a ideia que nós andamos já sempre a correr atrás do prejuízo.

Nós andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Nós andamos sempre a correr atrás do prejuízo.

Sim.

Eu não sei também qual é que é o teu take aqui nisto. Não só porque é uma coisa que nos é implementada desde muito cedo, que temos de andar sempre a correr e a ser produtivos e a fazer coisas e mais e mais e mais e mais. Como percebemos mensagens constantes do ponto de vista mais social de que tens de produzir mais, tens de ser mais eficiente, para consumires mais, para depois produzires mais, para depois consumires mais. Isto, no fundo, parece assim uma espécie de uma ratoeira. Por isso é que é importante que a gente às vezes pare. Pare para pensar: "Mas espera, o que é que eu estou a fazer? O que é a minha vida? Porque é que eu faço isto?" Não é? Até que ponto é que temos de andar aqui nesta corrida e quem é que manda-

Olha, estão a ligar-me. Nunca me tinha acontecido, mas pronto.

Não faz mal.

Vou pôr. Sim.

Lá está, mas são essas demandas que nos estão sempre a aparecer, não é?

Pois é.

Um telefonema e não sei o quê. E a gente pode escolher, por exemplo: "Não vou atender isto agora, que agora eu estou aqui numa conversa com o Diogo." Temos de escolher isso. E não é uma seca. Eu não acho que ter bons hábitos de saúde mental seja uma seca. Eu acho mesmo que eles até são o contrário de uma seca, acho que podem ser muito prazerosos.

Sim, eu concordo. Estou a fazer o papel do advogado do diabo. Porque eu, por exemplo, eu tenho, aliás, vou ter um convidado em breve para falar só disso. O desporto, para mim, é das coisas mais importantes que existe para a saúde mental.

Eu também acho.

E o Diogo é psiquiatra. Eu sou só na ótica do utilizador.

Não, mas eu posso fazer o back disso completamente do ponto de vista científico.

Então.

Há dezenas de estudos, enfim, ensaios, meta-análises, não sei o quê, que nos dizem: fazer desporto. Desporto que envolve suar, não é caminhar a ver as montras.

Sim.

Agora, desporto que nos faz suar, que nos faz aumentar a parte-

O ritmo cardíaco, etc. Sim.

Não estou a dizer que a musculação também não seja importante, também é, ou condicionamento, etc. Isso também está associado a coisas boas. Mas se nós fizermos desporto três vezes por semana, pelo menos meia hora, isso é quase tão eficaz como, por exemplo, a utilização de um antidepressivo, numa depressão ou uma ansiedade. Portanto, é uma coisa espetacular. Andaram a comparar pessoas que fazem só antidepressivos para tratar uma depressão ou uma ansiedade, versus pessoas que fazem só desporto e temos resultados muito comparáveis. Portanto, o desporto é uma ferramenta fundamental. Eu hoje em dia dou por mim nas consultas a prescrever as medicações que tenho que prescrever e depois a escrever lá para baixo: desporto, alimentação cuidada, arriscar mais. Ainda hoje convocou arriscar mais, por exemplo.

Porque eu costumo falar isto a amigos meus e já partilhei essa ideia aqui. As pessoas que têm medo de tomar a medicação ou que falam de que se prescreve demasiados antidepressivos em Portugal ou whatever. Pode ser, não sei. Mas eu vejo a medicação como um estabilizador da minha neuroquímica, do meu cérebro, e que me abre a janela para eu poder cuidar de mim. E lá está, imagina se eu estou a atravessar, olha como estava nessa altura, a entrar num processo depressivo. Eu não tinha vontade de fazer desporto. Eu deitava-me a dizer: "Amanhã vou treinar", e depois: "Não vou, porque não me apetece, porque já perdi tempo, porque whatever". Quando eu começo a tomar a medicação e começo a me sentir bem, então lá está, o prestar atenção chama-me para: "Ok, então vou aproveitar agora para implementar essas mudanças que eu sei que me fazem bem". Eu acho que sobretudo isso, a medicação é uma janela de oportunidade para tu poderes trabalhar em ti.

Isso que tu disseste é tão importante, porque eu, por exemplo, na minha prática, eu também falo muito com os doentes. Os doentes começam a tomar a medicação e muitas vezes passado um mês já se estão a sentir bem.

E depois ignora o resto.

E depois o que eu lhes digo é: "Isto agora é suposto fazer-se nove meses, que é o que as guidelines indicam, senão pode haver recaídas." Enfim, isto depende dos casos. Isto depois é conversa mais de médico. Mas, na realidade, o que eu lhes digo é: "A gente agora vai aproveitar esta oportunidade, porque temos agora esta moita, e tal, e porreiro, sentes-te melhor, ainda bem. Mas a ideia é, quando tirarmos a medicação, continues a sentir-te bem. E portanto, o que é que vamos fazer? O que é que vai mudar aqui, para não voltares a cair no mesmo? Que hábitos é que podes mudar?" E os hábitos podem ser fazer desporto, sim. Pode ser vou aprender uma coisa nova, pode ser vou dedicar-me ao voluntariado, pode ser vou fazer uma terapia ao mesmo tempo que estou a fazer isto para mudar certos pensamentos enraizados ou para me aceitar mais como sou, por exemplo.

Sim.

E, portanto, na realidade, é uma janela de oportunidade. Eu também concordo totalmente com essa visão. As pessoas estarem melhores. Uma coisa mais simples, na depressão. Na depressão há muito aquela coisa de: "Epá, anima-te, vai fazer desporto, vai fazer não sei o quê". Que é só a pior coisa que se pode dizer a uma pessoa quando está deprimida. Porque a pessoa até pensa que se faz bem, mas não consegue, é exatamente isso. E o que é que faz? Faz com que a pessoa se sinta ainda pior.

Que é um merdas.

Exato. Que é um merdas, que não consegue fazer nada, que não faz nada de jeito e que depois ainda fica mais deprimido ou mais ansioso ou mais angustiado, etc. Esses conselhos não são maus, mas quando a pessoa está melhor, se calhar depois de se estabilizar, se calhar depois de começar a medicação ou a terapia ou o que tiver a indicação para fazer, quando tiver menos sintomas. Porque um dos sintomas da depressão é exatamente falta de energia e falta de prazer.

Sim.

Portanto, fazê-lo quando se está melhor, dar estes conselhos quando a pessoa está melhor, ok, tudo bem. Mas normalmente o que eu digo aos meus doentes quando estão nesta fase má é: "Faça o que for possível. Se for o dia inteiro fechado em casa, com os stores para baixo e na cama, que seja, isto depois há de melhorar". E depois começo a chateá-los mais para a frente, quando eles estão melhores.

Claro.

E aí esses conselhos são muito úteis, mas aqueles conselhos na fase inicial, quando a pessoa está péssima e vai fazer isto e isto, se fizesses aquilo outro, isto passa-te num instante e tanto faz, e não é preciso ir ao médico, e os medicamentos psiquiátricos, isso é tudo um embuste e tal. Enfim, aqueles preconceitos e aqueles mitos. Isso não ajuda nada.

Sim, não ajuda e-

Desajuda.

Desajuda, exato. E, por exemplo, em relação ao desporto, não houve uma única vez, porque eu tenho amigos meus que tomam antidepressivos, mas que não mudam hábitos e que até se sentem melhores.

Mas continuam a tomar o antidepressivo.

Mas depois continuam com a mesma coisa, a beber e a fumar e a não fazerem mais nada. E eu digo: "Vai fazer desporto, começa a caminhar, nem que seja caminhar, vai caminhar, começa a fazer desporto". Não houve uma única vez que eu fosse treinar, e já fui treinar muitas vezes contrariado, porque não me apetece.

Também eu.

Mas não há uma única vez que eu acabe e que diga: "Isto foi péssima decisão."

Sim.

Eu acabo sempre um treino a pensar: "Ainda bem que eu vim."

Claro que sim.

Sempre.

Claro que sim.

Isso é muito curioso.

E com estes hábitos todos a ideia é mesmo essa, ainda bem que fiz isto.

Sim.

Porque, na realidade, como é o caso do desporto, aquilo para já liberta uma série de substâncias químicas muito boas e muito prazerosas na altura, mas depois a longo prazo uma pessoa está a pensar: "Eu estou a investir em mim."

Sim.

Mesmo que saia daqui, por exemplo, como eu saí na segunda-feira do meu ginásio, a dizer que vou matar o meu PT e tal, e que este gajo é um assassino. Peço desculpa. David, não leves a mal. Gosto muito de ti. Mas, é pá, sim, aquilo dói, mas compensa.

E os hábitos de saúde mental, estes 17 hábitos que tu falas aqui.

18.

18, exato. O "não complique", mais os outros 17.

Isto acontece imenso, é tão engraçado.

Pois é.

Isso é um sinal. Por exemplo, tu tens o déficit de atenção, tudo bem, mas já estive com malta que pelo menos não me disse, tinha déficit de atenção e que, lá está, por esse ritmo frenético, está sempre: "Então e o outro também faz parte?"

Pois é, o não complique, que é o primeiro. Teoricamente, o não complique é o primeiro.

Não, o não complique está lá no meio. É o qual? Deixa-me ver, que eu não é que tenha essa dor na ação disto. O não complique está aqui. É décimo quinto, vê lá.

Ah, décimo quinto.

É um hábito muito agregador, o não complique. O não complique implica que a gente consiga fazer uma série de outras coisas. Gerir estresse, gerir prioridades, estabelecer limites.

Sim.

Prestar atenção às coisas, perceber o que me interessa, o que não me interessa. E a curiosidade, por exemplo, também entra nisso. Porque se nós não formos curiosos.

Pois, tu falas nesse hábito aqui, que é o seja curioso.

Ser curioso é muito importante.

Mas ser curioso em relação a quê?

A tudo.

Como assim?

À vida. Na prática é isso, ser curioso em relação à vida que nós temos, a tudo. Porque nós, se formos a ver, como é que nós aprendemos e como é que nós nos desenvolvemos do ponto de vista emocional e intelectual? A brincar.

Sim.

Os putos aprendem porque são curiosos, naturalmente. Nós somos criaturas naturalmente curiosas. Queremos aprender a brincar, a experimentar coisas novas, como é que funciona este aparelho, como é que é este aparelho ali, o que está a fazer, quem é este senhor, qual é o nome desta pessoa. Nós temos sempre imensas perguntas e depois, infelizmente, porque fomos sendo muito formatados ao longo da nossa infância, adolescência, para o currículo é que interessa, e tens de pensar nisto e não pensar naquilo outro, começamos a deixar de ser curiosos. E quando deixamos de ser curiosos, há uma série de partes do nosso cérebro que no fundo, quase que enfrujam, porque não são estimuladas. Porque eu posso ser psiquiatra e posso ter muita habilidade nesta psiquiatria, mas se eu fizesse só psiquiatria, se calhar o meu cérebro não funcionava assim tão bem. Portanto, gosto de ser psiquiatra, tudo bem, mas também gosto de aprender coisas novas. E, por exemplo, agora quero aprender a tocar guitarra. Por que não? Ser curioso são este tipo de coisas. E é um curioso com a vida.

Por que achas que as pessoas não são curiosas? Lá está, porque estão presas nesta roda.

Eu acho que muito disto tem a ver com a maneira como nós crescemos no século XXI. Que é muito formatada, não no bom sentido, formatada mesmo no sentido de não faças muitas perguntas, age em conformidade, sê um certinho, sê um bom menino, comporta-te bem, etc. Tem boas notas, tem um bom emprego, faz tudo de acordo com as guidelines da vida, que não existem. Nem sabemos de onde é que elas surgem, na realidade. E, portanto, nós perdemos esta capacidade de brincar com as coisas Quem diz brincar com as coisas, é um bocado também brincar com as pessoas. Ser curioso também em relação às pessoas. Eu estou aqui com o Ramins e quero fazer perguntas sobre ti, por exemplo.

Sim, ser curioso. Exato.

Tu queres fazer perguntas sobre mim, não é? Tu queres saber que horas eu acordo de manhã, mas porquê?

Tu vives numa altura em que as pessoas não estão preocupadas em ser curiosas em relação às outras, estão preocupadas em que ela não concorde com elas.

Isso é uma coisa terrível.

Não é?

Isso cada vez mais.

Porque é que a pessoa tem outra religião? Porque é que tem aquela opinião?

Isso é extremamente interessante.

Num sentido apenas de abertura, eu quero é perceber porque é que tu escolheste isto.

Sim, eu não quero ser doutrinado, vou a um evento de física quântica. Eu não percebo nada de física quântica, mas se calhar dá-me gozo perceber. Então explica-me lá um bocado sobre porque tu gostas disto e quem é que és tu e porque funcionam assim as coisas. Ou tu és muçulmano, como é que é isto? Como é que funciona? Que rituais é que fazem? O que é que isto faz em ti? Acho que isso é um aspeto muito bom. Quanto mais coisas o nosso cérebro fizer, treinar e pensar, mais neuroplasticidade vai ter.

É isso.

É um conceito muito interessante, ou seja, o nosso cérebro é tipo músculo. Se nós o treinarmos-

Cria novos caminhos neuronais.

Se nós o treinarmos, ele vai adaptar-se para aquilo que a gente o treinar. Porque se nós o treinarmos só para uma coisa, um ponto específico, desta maneira, a vida tem que ser assim, com muitas regras e muito certinho, ele vai-se treinar para isso. Agora, tudo o resto vai atrofiar. E nós temos neuroplasticidade, ajuda-nos a combater coisas como, por exemplo, défices cognitivos, demências, isto é uma coisa que também está mais estudada.

Se calhar, depressão, ansiedade.

Depressão também e ansiedade também.

Sim, porque estás mais recetivo a novas sensações.

E por exemplo, se estes teus amigos lá dos medicamentos, se eles fossem curiosos e fossem mesmo saber e falar, se calhar não tinham preconceitos, por exemplo.

Sim.

Portanto, ser curioso é um hábito também. Todos eles são mesmo importantes. O ser curioso. E é engraçado, parece uma coisa assim um bocado intuitiva, ou parece um disparate completo. Ser curioso, o que é isto? Mas não é. E isto está estudado. Quanto mais as pessoas são mais curiosas, quanto mais abertura têm para falar com pessoas diferentes, para estar em contextos diferentes, para experimentar coisas novas, maior resistência têm, por exemplo, em relação à depressão, à ansiedade. E mesmo coisas, por exemplo, mais complicadas, tipo demências.

Mas eu acho que o próprio facto, tudo acaba por remeter outra vez para o primeiro ponto do presta atenção.

Presta atenção.

No sentido em que tu ao seres curioso naturalmente, também vais prestar mais atenção.

Claro.

Não é?

E se estiveres atento às coisas, também mais atenção te vai gerar, tipo este panfleto que eu vi na rua. "O que é isto?" Até pode ser, sei lá, de repente, uma coisa espetacular, ou vais conhecer pessoas novas, ou um hobby espetacular, ou uma coisa que nunca pensaste e de repente agora faz parte da tua vida. Por tudo isto precisamos estar atentos, não podemos andar sempre com o olho lá para o outro.

Essa é uma questão que tu abordas também muito, que é a questão do ócio, que as pessoas veem o ócio como preguiça.

É. Só que não.

É importante ter esse momento de não fazer porra nenhuma?

Não fazer. Eu até digo lá a brincar que é importante que a gente aprenda a não fazer nada de jeito, porque às vezes ouço esta coisa, "não fazes nada de jeito", mas não fazer nada de jeito, é uma perícia também fundamental.

Por quê? O que isso faz bem? Não fazer nada de jeito ou não fazer nada.

Não fazer nada, para já, faz uma coisa espetacular no cérebro, que ativa redes neuronais completamente diferentes desta coisa de estarmos sempre a fazer alguma coisa ou estarmos atentos. Ativa uma coisa que é a rede neuronal padrão, que por acaso é só uma área do cérebro que é responsável por coisas como a consolidação da memória autobiográfica, de quem é que nós somos, de onde é que viemos, para onde é que queremos ir. E ao mesmo tempo, é a zona de onde nasce a criatividade. As ideias novas, muitas vezes surgem deste modo ócio. Não é por nada que grandes pensadores e pessoas geniais, tipo Einstein, Virginia Woolf, etc. Até dou alguns exemplos. Dizem: "As minhas melhores ideias surgiram quando eu estava a dar um passeio, não fazer nada à volta do lago". E de repente, foi assim aquele momento Eureka, porque efetivamente o cérebro funciona de um modo diferente. Nós temos acesso a coisas diferentes quando estamos neste modo de não fazer nada. Não fazer nada não implica estar numa cadeira assim, zumbi, morto. Não fazer nada pode ser estar numa conversa despreocupada. Pode ser estar a dar um passeio, pode ser estar na praia.

Olhar para o céu. Não andar, mas olhar.

Com óculos escuros, eventualmente, dependendo da graduação.

Sim, olhar para o nada. Estar dentro do carro.

Estou aqui. Agora, por exemplo, cheguei um bocadinho antes e estava no carro e depois já me estava a dar o meu modo. Enfim, todos nós temos esta tendência. "Não sei o quê, uns startups, e-mails, o que é que se passa?" Depois parei. Deixa-me só estar aqui um bocado e ouvir a música que estava na rádio. E pronto. Cheguei aqui e sinto-me bem.

Sim. Mas lá está, mais uma vez.

E este ócio, ou não fazer nada, ou parar um bocado, é um antídoto natural para o estresse. O que isto vai fazer, isto reduz, mais uma vez, o funcionamento do sistema alarm, da amígdala, do sistema nervoso simpático, e põe-nos num modo mais relaxado, mais calmo, o que é ótimo para quem tem, por exemplo, uma perturbação de ansiedade.

Sim.

E, portanto, não fazer nada está muito desvalorizado.

E deve ser complicado as primeiras vezes, para quem não está habituado, tal como a "mindfulness" ou outra.

Sim. A mim não fazer nada dá-me imenso gozo. Enfim, todos temos idas ao spa. Eu tenho três filhos. Há às vezes aquele momento em que de repente a casa está vazia, não está ninguém. E eu de repente olho para a minha agenda e vejo: "Não tenho mais nada. Que bom!" Portanto, há uma liberdade imensa.

Eu tenho essa dificuldade, de quando não tenho nada, ter que arranjar alguma coisa.

Lá está, porque não estamos habituados. Também é um exercício.

Pois é isso. Se calhar as pessoas que não estão habituadas vão tentar implementar este hábito.

Eu vou te dizer também, confissão, na realidade eu também tinha essa dificuldade.

Pois, acredito.

Isto não foi uma coisa natural, mas a certa altura fui treinando isto.

Como é que treinas?

Com atenção, com persistência, passo a passo E percebendo e depois olhando para os resultados. Ok, isto às vezes sabe muito bem não estar aqui a fazer nada ou ver como é que os ramos da árvore estão aqui, como é que está a bater a luz nestas folhas hoje, por exemplo.

Sim.

E perceber o efeito que isto tem em mim, exatamente como tu sentes o efeito no desporto e percebes: "Ainda bem que fiz isto". E não estou a dizer às pessoas que não devem fazer nada sempre, mas parar às vezes cinco minutos, as pessoas às vezes têm uma hora de almoço e vão comer a correr, que é para despachar mais trabalho, que é para fazer sei lá o quê, mais rápido ou mais produtivo, etc. Ou para chegar a casa mais cedo, para se enganar mais cedo com a mulher e com os filhos. Se calhar, por que não aproveitar essa hora de almoço? E ok, comi em 15 minutos e agora vou dar uma voltinha durante 40 minutos. E estou aqui a pensar com os meus botões ou estou a ouvir uma música, ou estou basicamente neste modo ócio. O modo ócio é muito importante. Lá está, não é uma seca.

Sim, é verdade, não é uma seca. Tu falas desta questão de "não seja vítima". O que tu queres dizer "não ser vítima"?

Isso foi um capítulo que eu tive que ter muito cuidado a escrever, porque é o seguinte: há imensas vítimas de coisas completamente atrozes, nós sabemos isso. Há situações de violência, abusos, há pessoas que estão a levar com mísseis a toda hora, enfim, sabe-se lá por quê. Há atrocidades a toda hora, portanto, há muitas vítimas. Mas depois também há uma outra coisa que às vezes acontece, quer com pessoas que são vítimas, quer com pessoas que não são vítimas, e aí é um bocado diferente, que é a certa altura aconteceu uma coisa muito má e eu não consigo sair do papel de vítima. Ou seja, como isto me correu mal, como a vida me correu mal, como houve esta coisa horrível que me aconteceu, isto é o meu destino e, portanto, eu passei a ser um espetador passivo da minha vida. E aquilo que nós tentamos fazer, nós os psicoterapeutas, os psiquiatras também, é que a pessoa assuma um compromisso com a vida dela.

Um papel ativo.

E, portanto, passe a ser, no fundo, o ator principal da sua vida. E portanto, isso implica sair do papel de vítima para o sobrevivente e depois implica sair do modo de sobrevivência para o modo de viver outra vez a minha vida, apesar do que me aconteceu e ter gozo com ela. E às vezes isto é uma coisa que não é fácil de fazer. E, portanto, o não ser a vítima, ou seja, sair do papel de vítima, ou seja, sair do papel passivo, de "Aconteceu uma coisa má, portanto, a minha vida acabou a partir daqui", é um daqueles hábitos que provavelmente será um dos mais difíceis a implementar, porque essas pessoas às vezes ficam mesmo com a ideia enraizada de que mereceram as coisas que lhes aconteceram.

Isso é uma crença, não é?

Por exemplo, sim. E às vezes exige muito trabalho mesmo a nível de psicoterapia. Mas quando se sai desse modo, é voltar à vida, mesmo que nos tenha acontecido. Portanto, a nossa vida não acabou ali naquele evento traumático que nos aconteceu.

É aquela ideia do-

Isto não é um respeito pela vítima, é o contrário. É ok, aconteceu-te isto, mas vamos lá ver o que é que podemos fazer com isto, como é que a gente pode dar algum significado a isto e seguir em frente.

É aquela ideia de não interessa o que te aconteceu, mas o que fazes com aquilo que te aconteceu.

É um bocado isso.

Embora isto seja de uma forma muito linear, o que eu estou a dizer.

Linear está ótimo, é a melhor maneira de chegar à mensagem às pessoas. Isto quando o pessoal começa com psiquiatria e psicologias é a pior coisa que se pode acontecer. Por isso é que é bom falar com pessoas que não são da área, porque isto, enfim, isto no congresso e tal, a certa altura já ninguém percebe. Parece uma pessoa de fora e nem percebe nada do que os outros estão ali a falar. Aqueles psiquiatras e aqueles psicólogos, e nós às vezes também temos dificuldade em seguir. Às vezes torna-se tudo tão técnico e complicado e linguagem inacessível, mas é isso. As coisas acontecem e muita gente sofre coisas muito complicadas na vida deles. E há um imenso respeito por isso e tem que haver um imenso apoio, mas a verdade é que as pessoas ficam no papel de vítima. Às vezes até sem consciência.

Exato, era isso.

A maior parte das vezes sem consciência. E depois há pessoas que se fazem de vítima, isso é uma coisa totalmente diferente. Muitas vezes as pessoas que traumatizam as pessoas são aquelas pessoas narcisistas, psicopatas, etc., e que também fazem muitas vezes esta coisa do papel de vítima. "Eu sou um desgraçado, têm que tomar conta de mim", enfim, aquelas coisas muito manipuladoras. Isso não tem nada a ver. Eu também falo disso nesse capítulo só para dizer: "Ok, não é isto". Ser vítima, deixar de ser vítima.

Também pode ser o síndrome de Münchausen, que já falámos aqui.

O síndrome de Münchausen ainda é uma coisa mais complicada.

Sim.

Mas, enfim. À medida que nós saímos deste papel de vítima, também nos conseguimos proteger muito mais destes agressores. Porque se nós tomamos um papel ativo na nossa vida, também não deixamos que nos traumatizem mais. Porque aquilo é uma coisa que se vê muito, por exemplo, na clínica, pessoas que sofreram traumas complicados ou na infância ou na adolescência, ou mesmo em idade adulta, tanto faz, têm uma tendência enorme a voltar a retraumatizar-se. Por quê? Porque estão no papel de vítima, porque são alvo muito fácil para estes psicopatas, narcisistas, predadores, que andam por aí, que cheiram isto à distância. Isto são tipo tubarões, eles topam isto e vão atrás dessas pessoas e tombam. Mais um trauma. E enquanto a pessoa não voltar a reganhar as rédeas da sua vida, está basicamente tramada. Por isso é que este é um hábito muito importante e é provavelmente um dos hábitos mais difíceis de fazer neste livro.

Sim. O meu psicólogo, há uns anos já, referiu uma coisa que eu também lá está, também nunca tinha pensado e que fez muito sentido. Porque, por exemplo, eu tinha a tendência para desvalorizar aquilo que me estava a acontecer. E no sentido, não faz sentido eu estar a sofrer com isto, há pessoas muito piores do que eu.

Comparações.

Estás a ver? Nesse sentido. Na altura eu estava a mudar de casa, a minha mãe tinha morrido. Da lista das coisas que podem causar mais ansiedade, o top três eu tinha as de lá, que era morrer um familiar, mudar de casa e o nascimento de um filho.

Mas ao mesmo tempo há pessoas a morrer com rockets em Gaza.

Certo. E ele disse uma coisa que para mim faz sentido e que eu procuro usar ainda hoje, até com as minhas filhas, às vezes digo assim: "Para pra pensar. Caraças, eu tenho razão para estar triste, eu tenho razão para estar ansioso, eu tenho razão para estar na merda. Fogo!" Mas já que eu tenho essa noção, então O que eu posso fazer com isto? Ou seja, dar o outro passo a seguir, aceitar. É uma grande merda, isto que me aconteceu é uma grande merda, independentemente do que está a acontecer no mundo, é uma grande merda. Mas pronto, agora o que eu faço com isto?

As comparações são sempre muito injustas. Há sempre essa tendência das pessoas quando estão numa fase em baixo e estão a passar por coisas merdas, coisas difíceis, têm sempre tendência a comparar por cima. No sentido de há pessoas que têm muito pior, e há sempre, há sempre pessoas que têm muito pior. Também há sempre pessoas que têm muito melhor, não nos esqueçamos disso. E tanto faz, as dores não se comparam. A dor é a nossa dor, os nossos sentimentos são os nossos sentimentos, as nossas emoções são os nossos sentimentos, isso não é para comparar com ninguém. E são válidos como são. E portanto, se a pessoa está a sentir triste, tu até falas de coisas graves, mas até por exemplo, eu estou triste porque fizeram um risco no carro. Parece uma coisa completamente fútil, mas para aquela pessoa é realmente importante o carro, tem direito a estar triste.

Que sinais na nossa saúde mental é que as pessoas devem estar atentos? Porque estes hábitos de saúde mental devem ser implementados quando tu já estás num processo, sentes que algo não está bem ou deve ser algo que se deve estimular naturalmente?

Idealmente, isto tinha que ser uma aprendizagem desde que somos miúdos. Se calhar se aprendêssemos menos Matemática e Português, não estou a dizer que a Matemática e o Português não sejam importantes.

Mas cá na Cidadania, pelo menos meter na Cidadania e estar a correr, por exemplo.

O que se chama literacia emocional.

Sim.

Como também se fala agora de literacia financeira, e agora já vai haver cursos, literacia emocional também é importante. Quanto mais cedo nós tivermos noção disto e das coisas que se passam ao nível da nossa saúde mental, tal como temos mais ou menos da parte da saúde física, melhor. Agora, isto não quer dizer que a pessoa, por exemplo, não comece a fazer. A qualquer altura a pessoa pode mudar. E portanto, se é numa fase pré-doença, melhor. Se é numa fase em que a pessoa já está doente e já está a passar mal, isto também vai ajudar.

Claro.

Apesar de isto serem hábitos que estão muito estudados a nível de promoção de saúde mental, muitos deles também estão estudados no ajudar a sair da doença mental. E portanto, qualquer altura é boa para te criar bons hábitos. Não há más alturas para criar bons hábitos.

E sobretudo mantê-los.

Sim.

Porque depois às vezes há aquela tendência, tal como na medicação, começamos a sentir melhor e a malta: "Agora já não preciso". E deixa de tomar. Que eu também já fiz isso. E deu cocó, como é óbvio. Deu asneira. Os hábitos é a mesma coisa.

É a cena do desporto.

Exato. Está a correr bem, continua.

Estava a fazer desporto, fazia BTT, fazia um monte de coisas, cheguei à faculdade e depois comecei a entrar no internato e depois estava a acabar o curso, e estava a fazer o doutoramento e penso: "A balança já quase chegou aos 100 quilos e eu não me consigo mexer. Sinto-me em burnout, isto não está a funcionar, tenho que fazer alguma coisa". Para mim, foi preciso chegar a esse ponto. Assim um burnout ou um pré-burnout, ou sei lá o quê. Na altura não foi diagnosticado. Começou a chegar à atenção que alguma coisa está errada. E felizmente, é possível voltar a retomar bons hábitos.

Sim.

E ganhar essa consciência.

E que sinais é que as pessoas devem estar atentos na sua saúde mental, de que podem estar a precisar de algo? Ou de mudar alguma coisa na sua vida?

Há muitos sinais, mas há alguns sinais que são logo muito chamativos. O facto de a pessoa dormir mal, por exemplo, é um deles. Quando a pessoa não está a dormir mal, alguma coisa se está a passar. Claro que pode haver não sei quantos problemas físicos, hipnose de zona, etc. Mas 90% dos casos ou mais, estou a dar este valor ao ar, mas há de ser qualquer coisa mais ou menos parecido com isto, tem a ver com questões de saúde mental. Ou porque estou estressado, ou porque estou ansioso, ou porque estou a ficar deprimido, ou porque estou com pânico. Tanto faz, quase todas as doenças mentais perturbam o sono. Depois quando a pessoa começa a notar que há uma alteração do padrão do ponto de vista de socialização. Aquela coisa de: "Dava imenso gosto estar com os meus amigos e agora eles ligam-me e eu nem atendo o telefone ou digo não, não dá muito jeito esta semana", e estou sempre a desmarcar. Por exemplo, estes excessos, padrões de alterações a nível social, também acho que é um sinal de alarme muito importante. Um outro sinal de alarme muito forte, que não deve ser nada desvalorizado, é quando a pessoa tem ideias de suicídio ou de se magoar, etc. Por exemplo, isso é um sinal de alarme enormíssimo. E às vezes as pessoas dizem isto: "Não ando aqui a fazer nada", e as pessoas não ligam, está só cansado. Mas isso deve ser daquelas coisas que levanta todas as antenas para toda a gente que se importa com essa pessoa. E a pessoa quando está a dizer isso, já está a fazer uma comunicação de: "Ajuda-me, se faz favor, que eu não estou a conseguir." Isto é um sinal de alarme um bocadinho mais forte, que é mais evidente. E depois há outras coisas menos evidentes.

Irritação.

A pessoa andar sempre irritada, não ter paciência para nada.

Chorar do nada.

Chorar do nada. Às vezes também nos acontece normalmente, mas sim, quando é uma coisa muito persistente, sinto que as minhas emoções não estão reguladas, portanto, posso estar aqui a chorar aparentemente do nada, como de repente estou muito bem-disposto e afinal estou triste outra vez e há este padrão de grande instabilidade. Não estou a dizer que a gente tenha de ser uns robôs, assim sempre em "flat line". Porque isso só vai acontecer quando estivermos mortos, esperemos. Agora, há variações, mas quando são variações muito pronunciadas e que causam mal-estar, é preciso perceber o que se passa. Não faz mal tentar perceber. Não faz mal uma pessoa ir, por exemplo, a um psiquiatra, um psicólogo, e sair de lá: "Não tens nada, estás tudo bem."

Sim, essa é a questão. Eu digo muitas vezes também: vocês não precisam de ir a um psicólogo ou a um psiquiatra só quando estão mal. Isso é ser curioso.

Por exemplo. Eu estive um bando que já segui, já tinha tido alta, já tive alta não sei quantos anos. "Ontem fui à urgência e tal e tinha tido um ataque cardíaco." Enfim, não sei se foi um ataque cardíaco, mas estava com mais trabalho e mais estresse e o corpo deu sinais. E pronto, e lá na urgência deram-me medicação e mandaram-me para casa, etc. Não explicaram grande coisa, não falaram muito com ele. Ele marcou uma consulta especificamente para falar comigo, para saber o que se passa, o que não se passa. E na realidade não se está a passar nada especial, precisava de férias e precisava descansar. E precisava ter cuidado com a sua saúde mental antes que aquilo deteriorar mais, porque não queremos que ele volte a ficar como ficou. E portanto, todo aquele excesso de trabalho que ele está a ter agora, ok, se for momentâneo, a gente aguenta, mas se calhar está na altura de ter uma conversinha lá com o chefe ou com o coordenador, etc, para começar a abrandar o ritmo, porque senão isto vai dar Porque queria.

Sim. Eu tenho amigos que já foram a psicólogos simplesmente que me disseram: "Olha, podes me passar o contato de um psicólogo?" E eu pergunto: "Mas o que estás a passar? Queres conversar sobre alguma coisa? O que se passa?" E muitas vezes recebo a resposta, e eu sei que é sincera: "Não, está tudo bem, mas há aqui um tema que me incomoda e eu quero perceber um bocadinho mais sobre isto". Isso é ser curioso.

Isso é espetacular, isso é ser curioso. Com os psiquiatras, talvez isso passe menos, não é?

Sim, mas o psiquiatra também é bom, e o Gustavo Jesus muitas vezes fala disso aqui. O psiquiatra é bom por ser um médico e por poder despistar outras coisas.

Claro, tem essa vantagem.

Não é?

Mas isso é mais quando nós estamos a falar já de estados de doença, por exemplo. Uma pessoa que tem uma crise de vida: "Estou agora a passar por chatices com a minha mulher" ou "Os meus filhos já têm 18 anos. Como é que é isto agora, de repente, eles têm 18 anos e vão-se embora de casa?". E poder falar com alguém, mesmo que não tenha nenhuma doença, é uma coisa que acho que é boa.

Sim.

E se esse alguém pode ser amigos? Sim, pode ser amigos. Podem ser os nossos amigos, podem ser os nossos familiares, até pode ser a própria pessoa envolvida. Mas às vezes sabe muito bem ter uma opinião de uma pessoa neutra.

Neutra e que tenha um conhecimento alargado e que já tenha ouvido histórias parecidas. Cada história é uma história, mas que já tenha ouvido histórias que se ligam a essa.

E também sabe bem isso. Senão é uma seca.

Exato. Não é uma seca, tens razão. O Diogo ficou preso, ficou extremamente ofendido.

Não, achei essa piada porque eu acho que isso tem muito por onde chegar.

Tem.

E é uma realidade. Porque as pessoas acham mesmo que: "Isto da psiquiatria e da psicologia é tudo uma seca, é tudo um problema, é tudo uma chatice". Uma das coisas que eu tento trazer com isto é a minha visão mesmo da psiquiatria, quando faço coisas lá no Instagram e quando escrevo no blog é descomplicar as coisas. Isto não precisa ser tão complicado como parece.

Sim. Uma coisa que eu digo sempre é: quando as pessoas vão ao psicólogo ou a um psiquiatra, vocês não escondam nada, digam tudo, não tenham vergonha. Vocês pensem assim: "Eu estou a pagar, esse gajo vai ouvir tudo o que eu tenho para dizer". Porque vocês só se estão a enganar a vocês, não estão a enganar mais ninguém.

Sim.

E aquela pessoa que está sentada à vossa frente já ouviu milhares de histórias, está a ouvir a vossa pela primeira vez. Mas certamente, já ouve o padrão base, se calhar, já ouviu noutros sítios. Por isso, não faz sentido. Aproveitem a oportunidade.

Aproveito para passar como mensagem: quando uma pessoa vai a um psiquiatra, psicólogo, enfim, nós temos uma coisa muito básica, que é raro haver em qualquer outra relação, que é: nós não vamos fazer julgamentos de valor.

Claro, sim.

Portanto, se a pessoa vai dizer que faz uma coisa-

Não vai dizer: "E agora anda maluco. Estás muito mal, tu".

Até pode fazer uma coisa altamente maluca e condenável do ponto de vista de sociedade, etc. Mas nós não vamos estar ali a julgar a pessoa, vamos estar a ouvir, vamos estar a tentar perceber porque é que esta pessoa veio ter conosco e o que nos quer dizer e o que quer saber de volta, ou o que quer que a gente comunique de volta. E, portanto, se forem a psis, não esperem julgamentos de valor.

Sim.

Fiquem descansados, podem ir à vontade.

Isto são 18 hábitos. Destaca-me aqueles que tu consideras que são essenciais. É muito difícil. Eu sei que é difícil.

Essa pergunta fazem sempre que eu venho aos podcasts e falar sobre o livro. Eu diria top cinco. Há três coisas muito básicas que eu vou juntar no grupo saúde física, digamos assim. Dormir bem, comer bem, mexer o corpo. Vamos juntar isso como se fosse só um hábito. Depois o prestar atenção, como já falámos aqui imenso, acho que isso é mesmo fundamental. Depois há outra coisa que é estabelecer limites. Quando eu falo de estabelecer limites, estou a falar de limites para nós e para os outros. E estabelecer limites para nós pode ser: "Ok, não vou trabalhar a partir das 18h" ou "Neste horário".

E aquela ideia de eu tenho que trabalhar. Eu não quero, mas tenho que trabalhar.

Tem mesmo?

Isso acontece muito.

Não sei, é preciso perceber se tem mesmo. Será que tem mesmo?

Sim.

Por quê? A pessoa escolhe a sua vida, não é?

Sim.

Não estou a dizer que há situações muito difíceis de gerir do ponto de vista de mercado de trabalho, em que parece tudo muito difícil, mas acho que não é impossibilidade, a pessoa pode sempre mudar.

Sim.

Portanto, por quê?

Tem o poder pessoal.

Portanto, esta coisa de nós termos limites com os outros também é importante, no sentido de não podermos estar sempre a agradar os outros, a querer fazer tudo pelos outros ou ser abusado pelos outros e não pôr limites a isso. Acho que isso é fundamental para termos uma boa saúde mental. Uma outra coisa que eu chamo muito a atenção e que se calhar também é dos hábitos fundamentais, se podemos chamar assim, acho que é este, que nós já falámos um bocadinho, de poder dar-se ao direito, que se calhar é uma necessidade, de poder entrar em modo ocioso, em modo não fazer nada.

Sim.

E depois há um outro, que no fundo é muito agregador disso tudo, que é ser autêntico, ser honesto. Ser honesto consigo próprio, que é também um hábito desafiante, mas que eu acho que é um hábito, no fundo, também fundamental.

Ser honesto em que aspecto?

Não é ser honesto não roubar no supermercado.

Sim.

Eu sei que estou um bocado nastistas para isso. Parece-me também um bom princípio.

Sim, mas ser honesto: eu neste momento preciso de ajuda.

Ya, por exemplo.

Eu estou cansado, não consigo fazer mais hoje.

Por exemplo. Isso é um exercício da honestidade.

Também é um exercício de compaixão.

Claro.

Para consigo.

Isso é também importante.

Eu acho que é essencial, foi uma coisa que eu também acho que passei a valorizar mais, cometendo sempre muitos erros, como cometo, mas essa compaixão de quando caio no mesmo buraco, porque caio muitas vezes no mesmo buraco, ser mais pragmático e menos vítima.

Esse hábito da compaixão é o que eu chamo de abraçar a perfeita imperfeição. Nós cometemos erros, estamos sempre a cometer erros. Aprendemos imenso com os erros, é assim que a gente aprende, a gente não aprende nada com o que acerta.

Sim.

Aprendemos com os erros. E falhamos. Isso não é sinal de fraqueza, é sinal que somos humanos.

Sim, não há como contornar isso.

E, portanto, se calhar esse também é um... Não sei, eu tenho dificuldade. Se calhar vou acabar por listar os todos no meio dos cinco.

Mas eu acho que sim, faz sentido isso que disseste. A compaixão para mim funciona muito nesse sentido de se eu caio na mesma asneira, não entrar no "és um merdas, estás outra vez aqui, isto nunca me vai passar". Tem que parar logo aí a conversa, essa ruminação. E ok, contigo outra vez. Querias? Não.

E eu tenho uma amostra um pouco enviesada, porque vejo muitos doentes com problemas de saúde mental. As pessoas são muito críticas, mas mesmo fora da amostra dos doentes, entre amigos e colegas, etc. As pessoas são muito exigentes e muito críticas consigo próprias. Têm muito pouca compaixão. Eu sei que compaixão em português parece uma palavra que fica mal isto. Isto em inglês fica muito melhor.

Compassion? Não. Como é que é em inglês?

É compassion.

Mas é, na verdade, com paixão.

É, mas parece que é quase dar uma esmola. Ter compaixão por não sei quem em português. Mas não é nada disso. Na realidade, é um exercício de autoaceitação, de nos aceitarmos como somos e de nos tratarmos bem. Eu às vezes faço um jogo com os meus doentes, isto é uma técnica. Que é quando as pessoas estão nesses pensamentos negativos e horríveis. Ainda hoje uma pessoa me disse: "Eu me sinto um buraco negro." E eu pensei assim: "Bolas, ser um buraco negro deve ser uma grande chatice, aquilo é um vazio e só atrai porcarias e asteroides." Não estava a ter autocompaixão nenhuma. Eu estava com ele: "Por exemplo, se um amigo teu te dissesse eu sou um buraco negro, tu ias continuar essa história? Vamos tentar puxar aqui para outras coisas e vamos pensar, se calhar não és um buraco negro, és só uma pessoa que está com uma dificuldade agora." Porque ser uma coisa é diferente de estar.

Sim.

Ser é a pessoa assim, não há nada a fazer. Estar, eu posso mudar. E quer uma pessoa se sinta um buraco negro, uma merda, uma porcaria, um chato ou uma pessoa insuportável. Logo esta mudança de verbo, ser para o estar, é uma diferença brutal. E quando nos pomos também neste papel. O meu amigo vem e diz-me: "Eu sou um merdas." A gente não vai dizer: "Sim, és um merdas, tens toda a razão." Não, nós não fazemos isso. Então por que fazemos isso conosco próprios?

Não devíamos ser nós o nosso melhor amigo.

Claro, devíamos.

A não ser que não estejamos a ser sinceros com o outro e estejamos a pensar: "É mesmo um grande merdas." Não, aqui eu acho que não acontece. Se fores amigo genuíno.

Não queremos ter amigos desses, não é?

Claro. Mas se tu vês um amigo teu que está a sofrer, tu procuras fazê-lo entender que aquilo é um momento.

Sim, procura ajudar e não mandar abaixo.

E é isso que tu tens que fazer contigo.

Sim. Porque é difícil.

Claro que é.

Acho que essas cenas todas são simples, mas difíceis ao mesmo tempo. É quase difícil de explicar como é que isto pode ser simples, mas também pode ser muito complicado ao mesmo tempo. Mas a verdade é que a prática faz a perfeição. Que a perfeição seja uma coisa que eu adore, até odeio isso. Mas a verdade é que quanto mais prática nós temos em tratar-nos bem, em sermos honestos conosco, sempre estarmos atenção, em sermos curiosos, enfim, estes hábitos todos em prestar limites, mais fácil se torna fazer isto tudo. E as coisas tornam-se menos complicadas. Daí o "não complique", tu tiro.

Sim, faz sentido. Eu acredito, tu tens maus hábitos.

Toda a gente tem maus hábitos.

Claro. Mas tens consciência desses maus hábitos, que eles fazem parte da tua vida?

Sim.

E não alteras porque achas que fazem sentido ou estás a tentar alterá-los?

Muitos deles estou a tentar alterá-los, alguns já os alterei.

Mas às vezes sabe bem ter maus hábitos. Acho que são importantes. Ou não?

Mas aí não são maus hábitos, são bons.

Por exemplo, tu falas da alimentação. Eu procuro ter uma alimentação correta, mas às vezes apetece-me comer um grande croissant.

Uma exceção não é um mau hábito.

Pois não, mas eu acho que exato.

É um bom hábito. Lá está.

E não é um hábito, é uma exceção.

Sim. Isso é uma coisa boa. Por exemplo, dormir bem é importante. Eu tive muitos maus hábitos de sono durante muito tempo.

Mas às vezes apetece ficar de madrugada acordado.

Ser médico não ajuda nada a isso, e os bancos e não sei quê, e putos a acordar. E depois envolver-me numa série ou então vou jogar "play session" até às tantas da manhã. Maus hábitos, ok. E depois andava cansado, etc. Aquelas coisas, as consequências dos maus hábitos. Depois tomei consciência, "Isto não pode ser". Ou então às vezes acontecia uma coisa que às vezes hoje acontece que eu tenho que ter esse cuidado, que é eu tenho que ter cuidado de não levar as coisas do trabalho, o estresse, para casa. E, por exemplo, estamos no jantar de família, está tudo bem, estamos todos à conversa com a criançada e eu estou irritado. Estou irritado, mas não estou irritado com eles. Estou irritado, sei lá, com uma cena que me aconteceu menos boa no meu dia.

Claro.

Portanto, isso é um mau hábito, levar essas coisas para casa. E é um bom hábito conseguir, por exemplo, fazer uma pausa. Eu agora tento quando chego a casa, fazer uma pausa. E a pausa às vezes pode ser uma coisa tão simples como: cheguei a casa, vou tirar a roupa do consultório, como fiz antes de vir para aqui, tirar a camisa e vou vestir uma roupa confortável.

Mudar o cenário.

Ya.

Sim.

Não há vidas perfeitas, toda a gente está a ter um mau hábito e há coisas más que de vez em quando também nos fazem bem.

É isso, é a exceção.

Claro.

Manteres isso. Eu acho que faz muito pior uma pessoa que tenha uma alimentação correta e não ceder a pequenos momentos de prazer, porque "ai, não posso, que isto me faz mal". Mas entender, "ok, hoje vou comer um croissant". Se começar a comer croissants todos os dias, aí se calhar, lá está. Mas isso é prestar atenção e perceber.

Por exemplo, nisso prestar atenção, se um dia quisermos andar com a cabeça nas nuvens, porreiro. Isso também é um bom hábito.

Fazer madrugadas às vezes também pode ser porreiro. Vou ver filmes até às tantas da manhã.

Não digo que não, hoje já não fazia isso, mas já fiz.

Sim, mas lá está, se tu aceitares que estás a fazer aquilo de forma deliberada e consciente, não é um mau hábito.

Que vai trazer umas consequências para nós no dia seguinte.

Tudo bem, mas eu acho que aí tu aceitas as consequências. Isso é o que eu digo às minhas filhas. Eu digo-lhes assim: "Hoje quero me deitar às tantas da manhã." Tudo bem? "Não tens aulas amanhã, podes te deitar à vontade, mas vais acordar cansada, vais acordar com sono, eu não te vou deixar dormir até à 13:00." Estas são as consequências.

Nessa idade é que é?

12.

Ainda dá para fazer isso.

Os outros cagavam, não é? Os outros: "Ele está a acabar comigo." Não, 12 e 14. Eu digo isto: "Está tudo bem, mas não te esqueças é destas consequências. E se andares irritada, foste tu que quiseste andar irritada."

Tipo, eu não quero que me chateies com isso. Limites.

Também é verdade. Sim, ainda hoje. Porque depois eu entro em discussões metafísicas e elas ainda não têm idade. Não têm idade ou não têm paciência. Eu acho que é mais isso. Estão na adolescência e pré-adolescência. Eu tinha o carro muito encostado num sítio e uma entra no carro e diz assim: "Tu deixas sempre o carro muito encostado, depois eu não consigo entrar e se eu bater com a porta, a culpa é tua." E eu: "Não, se tu bateres com a porta, a culpa é tua, não é minha. Estás a entender o que eu estou a dizer?" E ela: "Estou, não precisas dizer mais nada." "Não, mas estamos a conversar, eu não estou a acusar-te de nada. Estás a perceber porque é que eu estou a dizer que a culpa será sempre tua? Porque é uma ação tua, o carro está assim, mas a ação é tua." E ela: "Está bem, eu não quero saber mais." E eu: "Está bem, pronto, já percebi."

Adolescentes é espetacular.

Ou não.

Ou não.

Ou não.

Já tive um adolescente a dizer-me que eu sou o pior pai do mundo.

Ah, também já tive.

É espetacular.

Já tive, sim senhor.

E depois passou, pronto. Faz parte, temos de aturar com essas cenas.

Não digo nada. Isso entrava outra conversa completamente interminável aqui. Mas nós enquanto sociedade, o que é que podemos contribuir enquanto indivíduos para esta maior consciencialização dos hábitos importantes na saúde mental?

Como sociedade ou como indivíduos?

Como indivíduos.

Como indivíduos numa sociedade.

Exatamente, como indivíduos numa sociedade, como é que nós, para além destas conversas que estamos a ter aqui, e se calhar os nossos próprios hábitos.

Acho que os nossos exemplos são a coisa mais importante que nós podemos fazer.

Sim.

Por exemplo, com pais de adolescentes ou de crianças. Quando são já problemas, eu às vezes chamo muito à atenção: "Olha, mas o pai também faz isso. Por exemplo, ele está sempre ao telefone, na mesa, não sei o quê, não larga." Então, e como é que são os pais também? Também têm telefonemas de trabalho a meio do jantar.

Às vezes eu digo: "Chamou-me à atenção para isso?" E eu: "Sim senhor, tens razão."

Claro, obviamente. Nós darmos o exemplo, acho que é das coisas mais poderosas. E eu acho que é uma coisa que eu falo aqui logo na introdução do livro, que eu acho que estes hábitos podem ser contagiosos. Qualquer hábito bom pode ser contagioso, tal como os maus. Eu vejo os meus amigos todos a fumar, vou também fumar. Vejo os meus amigos todos a praticar desporto e a terem cuidado com eles próprios e com o seu bem-estar. Se calhar eu estou a gostar disto e eu estava num buraco e agora de repente está bem disposto e a socializar e meteu-se numas coisas novas. Eu gosto disto. A história de dar o exemplo, acho que é das coisas mais poderosas e nós aprendemos também imenso por exemplo, tal como aprendemos com a curiosidade e com o brincar, aprendemos imenso com o exemplo. Darmos o exemplo, acho que é uma boa dica aqui do ponto de vista mais individual. Do ponto de vista social, é preciso fazer muito mais. É preciso muito mais informação, é preciso muito mais literacia. Era importante que, se calhar, os governos organizassem as entidades para falar um bocadinho sobre saúde mental nas escolas.

Acho que era importante tudo aquilo que tu disseste nas escolas, de ter uma cadeira de literacia emocional.

Eu acho que é uma coisa mais prática.

Era muito necessário.

As equações quadráticas ou o que os gajos estão a aprender no segundo ano, que eu já nem percebo nada daquilo.

Sim, eu acho que faria muito mais sentido. Eu próprio já fui falar a algumas escolas e os putos pensam que eu vou para a galhofa e quando eu começo a falar de coisas sérias, há aquele choque de: "Este gajo está a falar de coisas que eu sinto."

Que seca!

Entra num momento de: "Eu pensava que vinha aqui para rir", mas depois já estão a fazer perguntas.

Claro que sim, os adolescentes adoram isso.

Porque identificam-se com aquilo que eu estou a dizer.

Eu já fui a imensas escolas fazer formações de várias coisas, os adolescentes estão sequiosos por isso. Eles gostam disso. Eles sabem muito mais sobre saúde mental do que sabíamos nós na nossa geração. Muito mais. Nós éramos na idade da pedra, aquilo para nós, saúde mental passava-nos completamente ao lado.

Claro.

Eles adoram isso e é só dar-lhes a oportunidade. E a maior parte das pessoas, lá está, ao contrário desta ideia de que a saúde mental é uma grande seca, por acaso nem acho. Eu acho que estas coisas da psiquiatria, da saúde mental, das neurociências, eu acho que isto é completamente fascinante.

Sim.

Ainda é o único grande órgão inexplorado e que temos imensas coisas a aprender, que aprendemos todos os dias. Sabe-se muito pouco, mas sabe-se imenso ao mesmo tempo. Estamos a evoluir nesse conhecimento de uma maneira estrondosa, mas continua a ser uma área muito inexplorada e portanto cheia de coisas novas e de curiosidade. Porque não?

Que mensagem é que tu gostavas de deixar a quem nos está a ver e a ouvir neste momento?

Eu acho que já passamos aqui muitas mensagens, eu acho que passamos muitas mensagens muito boas, mas sobretudo queria, não pensei muito nisto, mas vou ser espontâneo, que também é uma coisa que é importante. Eu acho que as pessoas não devem assumir estes temas da saúde e da doença mental como se fossem bichos papões. E o que eu gostava muito que acontecesse, e talvez um dia venha a acontecer, é que a gente possa falar disto à mesa de um café, numa esplanada, e não necessariamente em congressos ou num podcast específico deste tema. Falem sobre isto. Quanto mais falarem, melhores as coisas são para todos. E portanto, mensagem: comunicações abertas. Comunicação aberta funciona espetacularmente bem em tudo.

Sim.

E na saúde mental ainda mais.

Eu acrescentava só uma coisa que é: ao falar, vocês vão perceber que, se calhar, a pessoa que está à vossa frente já passou ou está a passar exatamente pelo mesmo.

Claro.

E estão a abrir uma janela de oportunidade para que possam aprender um com o outro.

É, e falar é tão importante também nesse aspeto. Porque se nós estamos a falar um com o outro, eu, por exemplo, aprendi hoje imenso. Se calhar tu me aprendeste algumas coisas e conhecemo-nos.

Eu acho que aprendi mais do que tu.

Acho que aprendemos uns com os outros. Sempre.

Diogo, muito obrigado pela tua presença.

Obrigado eu.

Obrigado por teres vindo. O Diogo, curiosamente, está neste estúdio e cruzou-se com o nosso convidado da semana passada, que trabalhas também com a associação SLS Voz Amiga.

Que é uma coisa de timing espetacular, porque ele esteve cá na semana passada e eu estive agora.

E tu estiveste agora, mas na realidade estiveram os dois aqui neste momento. Já íamos falar na quinta dimensão e realidades paralelas, mas não. Deve-se apenas ao momento da gravação. Muito obrigado por estarem desse lado. Já sabem, venham ao YouTube, deixem os vossos comentários. Que hábitos é que vocês praticam? Pergunto-vos eu. Que hábitos é que vocês praticam? Para responderem ou para pensarem. É assim mesmo uma seca a saúde mental e fazer estas coisas todas? Por isso, venham aqui aos comentários, partilhem estas conversas com alguém que vocês acham que precisa de ouvir esta conversa. Enviem o link da conversa. Têm aqui os livros do Diogo, o "Não complique: e outros 17 bons hábitos de saúde mental", e o anterior, "E quando não está tudo bem: como reconhecer e agir na ansiedade e na depressão". Diogo, muito obrigado.

Obrigado.

E espero que um dia voltes para abordarmos outras questões, porque isso é um poço sem fim de discussão que temos aqui. Muito obrigado e até para a semana.

Obrigado.

Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.