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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do "Somos Todos Malucos". Já sabem, é um podcast dedicado à saúde mental, ao autoconhecimento, a conversas que eu espero que de alguma maneira vos acrescente algo, ou pelo menos que abra o apetite para saber mais sobre o tema que trazemos aqui. Agora é um podcast Observador, ou seja, está nas plataformas do Observador, para além dos sítios do costume, Spotify, iTunes, Google, nunca sei o nome disto, é Chromecast ou Google Cast, não interessa. Todas as plataformas de áudio e também no YouTube. Sai às quartas-feiras em áudio às 06:00, para aquela malta que gosta de correr a essa hora ou que pega cedo ao serviço. Depois em vídeo, sai ao meio-dia no YouTube. O convidado de hoje é alguém que eu já pensava trazer há algum tempo e já tínhamos falado também há algum tempo exatamente sobre esta hipótese. É o pai do Tomás. O Tomás foi um menino, pelo que sei e pelo que acompanhei da história, super bem-disposto, divertido, que recebeu o carinho da família e da grande parte dos portugueses quando foi diagnosticado com uma leucemia. O Tomás não resistiu à doença, mas a família manteve-se unida e conseguiu, de alguma forma, transformar essa dor em propósito. Como? Como é que se faz isto? É o que nós vamos tentar saber hoje aqui um pouco com o Tomás Lamas, o pai do Tomás. Obrigado, Tomás, por teres aceite este convite, por estares aqui no "Somos Todos Malucos". Já tínhamos falado, mas é a primeira vez que nos encontramos. Como é que tu descreverias o Tomás e o que ele significava e significa para vocês?

Obrigado pelo convite. Só para explicar um bocadinho a nossa situação. O nosso filho Tomás, na altura, tinha nove anos e era o nosso filho mais velho. Nós temos quatro filhos e quando surge este diagnóstico, como médico, como pai e com a nossa família, foi um momento de cair tudo pelo chão. Tudo que era a minha perspectiva de vida, de forma de estar. Nunca esperei que isto fosse acontecer. E é uma notícia de que, olhando para trás, há dois momentos da minha vida que chorei, e chorei com aquela dor de-

De impotência

...de sofrimento e de perceber que isto era muito mau. Eu já sabia que a doença ia ser uma montanha-russa de problemas, de desafios, e era isso que eu tinha mais receio, porque realmente, quando nós entramos por este caminho de um diagnóstico destes e começamos a fazer as quimios, essas coisas todas, primeiro, não sabemos qual é o dia de amanhã, segundo, sabemos que vai ser muito complicado e depois, sempre com a perspectiva de que a probabilidade de sobrevivência não era muito boa. É uma leucemia mieloide aguda, que não é tão favorável como as leucemias linfoblásticas, que hoje têm uma taxa de sobrevivência aos cinco anos de 90%, o que é muito bom. E com as leucemias mieloides, aos cinco anos, cerca de 50% a 60% de sobrevivência. Portanto, isto, como médico e como pai, é uma notícia terrível. E, portanto, aquilo que eu pensei na altura, depois de lavar as lágrimas, é: "Vou ser pai, eu vou esquecer a minha componente".

Tu separaste, sei lá, tu consegues separar as duas coisas? A tua profissão, o teu conhecimento médico e o de pai, o que é que se sobrepõe?

Eu não sou especialista de hematologia, mas sabia que a notícia era péssima e aquilo que eu decidi para mim próprio, para conseguir lidar com esta frustração, é: "Vou desligar a minha parte médica, vou entregar essa responsabilidade à equipa médica que está a seguir o Tomás e vou me dedicar a ser pai". E ser pai é estar lá, brincar com ele, fazer as coisas que o façam feliz, encontrar formas de minimizar o sofrimento, porque aí posso usar algum dos meus conhecimentos. E foi isso que nós fizemos. Eu e a Margarida conseguimos tentar manter a normalidade, tanto do lado do resto da família, portanto, os nossos filhos tinham que manter a vida normal. Sempre que o Tomás vinha para casa, era um momento muito positivo e de encontro dos irmãos e que pudessem fazer aquelas brincadeiras, de chatearem uns aos outros. Nessa altura, o Tomás tinha nove, a Maria tinha sete, a Carlota tinha cinco anos e o Francisco tinha um ano e meio, dois. Ele era muito pequenino. Os irmãos precisam de se ver e saber. E o fato de termos as novas tecnologias, permite que o WhatsApp e videoconferência é um espetáculo, que permite encurtar muitas estas distâncias que os miúdos sentem. E, na realidade, no dia a dia, ainda por cima, para agravar esta distância, estávamos em pleno Covid.

Pois foi.

E com regras altamente restritas: só podia estar um pai, o outro pai não podia entrar e quando trocávamos tínhamos todos que fazer a zaragataua. Depois, sempre que íamos pra casa, ter aquele cuidado de não ficar infectado. O contato social era sempre uma perspectiva-

Ainda mais reduzir do que já era.

Tentar minimizar, mas ele precisava de ver os amigos, precisava de ver os irmãos. E os irmãos iam todos os dias e vinham à escola, portanto, havia sempre um risco por trás disto, estando ele imunodeprimido. Esta era a nossa vida durante mais de um ano e cumprimos aquilo que era para fazer. Chegamos ao fim dos primeiros tratamentos e estávamos felizes. Basicamente, porque apesar de termos internamentos complicados, com internamentos em cuidados intensivos, uma cirurgia que não tinha quase leucócitos, portanto, nem glóbulos brancos, nem plaquetas, nem nada, foi altamente arriscada. Era um miúdo superresiliente.

Como é que uma criança vive esses momentos?

Da criança, tudo depende dos pais.

Pois.

Os pais é que têm que conseguir criar aquele ambiente em que a criança esteja bem. Uma coisa importante é dizer o que a criança tem e o que está a acontecer. Obviamente, não com a explicação toda-

Científica

...científica. Mas explicar isso é muito importante, porque assim ele percebe. Uma forma que nós tínhamos de abordar a questão é: "Tomás, tu não estás doente, tu tens uma doença". E isto é uma forma de ele absorver isto e conseguir dizer: "Sou uma criança normal, mas tenho uma doença". "E vamos tratar essa doença, vamos atacar. Olha, precisamos fazer isto, estes medicamentos que te dão dor de barriga, fazem cair o cabelo". Explicando isto, ajuda muito a que ele: "Ok, está se a tratar a doença, vou jogar PlayStation". Isso foi um dos momentos mais felizes, porque nós não tínhamos a regra de não termos nenhum dispositivo e de repente passamos a ter tudo: PlayStation, Nintendo, computador, telemóvel. Aquilo era um regabofe. Mas tínhamos muito tempo livre, tínhamos que nos entreter.

O papoel tinha de se ocupar, não é?

E descobrir o Fortnite foi uma forma espetacular, porque neste tempo do Covid, a única forma dos miúdos interagirem era no Fortnite e dizer asneiras no jogo: "E agora mato a tu e mato ao outro". Com os primos, com os amigos, houve uma série de coisas que conseguimos normalizar. Manter o miúdo feliz, que era esse o nosso objetivo.

Isso é importante, de alguma maneira, tentar manter a normalidade da própria vida?

Sim.

Não sendo, porque não é.

Não é.

Mudam as rotinas, mudam, se calhar, as emoções, a maneira de pensar, não sei.

Sim, e outras coisas que são importantes: a comida. Comida de hospital, como sabemos, é uma desgraça. Isso é um calcanhar de Aquiles dentro do hospital, porque os miúdos a fazerem quimio e a comerem Chocapics de manhã, não é algo possível, não é compatível. Miúdos que estão a esgotar todas as suas reservas nutricionais e o melhor alimento, que é uma coisa que é venenosa e cheia de açúcar e que não presta, para um miúdo que precisa de muita energia. Montamos um esquema de trazer comida pro hospital para dar felicidade, aquelas coisas que ele gostava de comer. Obviamente, havia uma coisa que ele adorava comer, que era picante. Isso não dava muito bem, porque quando dava mal da barriga, não dava para fazer isso, mas sempre dentro do possível, conseguíamos encontrar sempre uma janela para conseguir fazer aquilo que ele gostava. Isso foi a forma que encontramos um equilíbrio de: "Tomás, tu tens uma doença, estamos a tratar a doença e vamos seguir este programa com a equipe médica, com os enfermeiros do IPO e vamos conseguir chegar a pequenos objetivos, que era ir pra casa, depois terminar o tratamento".

Isso é um bocado uma frase feita. É aquela ideia de que aprende-se a viver o presente? Ou vocês, por exemplo, enquanto família, já eram pessoas muito pragmáticas, de viver o presente?

Ninguém estava preparado pra isto. Acho que isso é o primeiro ponto. Já éramos um pouco essa forma de viver o presente, sem grandes planos no futuro.

Mas isso torna, se calhar, ainda mais consciente, não? Porque é aquilo que tu estavas a dizer: nós, na realidade, nunca sabemos o dia de amanhã. Há uma falsa ideia de controle que nós temos.

Estar a pensar o que vai ser o dia de amanhã deixa-nos numa angústia que não traz felicidade a ninguém. Acho que é mesmo: hoje, se podemos fazer alguma coisa boa e que nos deixe mais feliz, ótimo. E podemos planear a próxima semana, podemos ter objetivos, mas sempre adaptáveis, sempre maleáveis, porque bastava uma constipaçãozinha e as coisas mudavam todas e não valia a pena. Tínhamos sempre o plano A, o plano B, o plano C e as coisas iam andando dessa forma. Depois do primeiro tratamento, as coisas estavam felizes e a situação estava a evoluir como nós gostávamos. Saiu muito debilitado nessa altura, que não conseguia subir as escadas, não conseguia dobrar bem as pernas, perdeu muita massa muscular e esteve semanas, semanas e semanas deitado numa cama. Isso tem consequências. Foi um período de reabilitação, recuperação e de recuperar qualidade de vida. E depois veio-nos outra vez a má notícia.

É a pior que aparece, não é?

É. Isto é terrível, no sentido em que a pessoa faz um tratamento, e isto é um bocadinho igual para toda a gente, acho, que tem um cancro, faz o tratamento, mas depois fica numa expectativa, uma esperança.

Sim.

Mas numa expectativa e receio de que a doença volte outra vez. E quando as coisas começam a voltar outra vez, o prognóstico começa a encurtar e a gente começa a perceber: "Ok, a primeira chance, já não vou ter aquela estatística, mas vamos continuar a luta, vamos continuar. Há ainda outras estratégias que a gente pode usar". E é esse puxar do tapete, às vezes não é fácil de lidar. Não queríamos que isso acontecesse, obviamente, não queríamos ter essa má notícia, mas era sempre uma possibilidade forte. Veio a má notícia, vamos agora planear as coisas para transplante. E a seguir, tivemos uma excelente notícia, que foi que a irmã Mariana, a segunda mais velha, era 100% compatível com ele. Dava-nos aquela esperança: "Vamos para o transplante, vamos conseguir e ela vai doar a medula dela" e estávamos com essa esperança. Mas a doença, ele começou com a quimio, preparando para o transplante, e a doença volta outra vez de uma forma atípica. E nessa altura, o meu sentimento é: isto está a correr muito mal.

Eu estou-te a ouvir e, obviamente, sendo pai, eu não consigo imaginar. É uma merda, em bom português. Não há outra maneira de dizer.

Não há forma de explicar a perceção do que é as coisas estarem a fugir. Tu não estás a conseguir controlar o problema. E começamos a ver que as opções que temos também começam a fechar. E isso, ninguém quer ficar num beco sem saída, ninguém quer ficar sem opções nenhuma.

Há algum momento de revolta, aquela história do: "Mas por quê nós? Por que outra vez isto? Que mal é que fizemos?"

No início foi. No início foi: "Bolas, por quê, caramba?" E logo dentro das leucemias, não era das melhores. É uma violência de sentimentos indescritível. Só apetece gritar, bater em alguém ou partir qualquer coisa, porque obviamente, sermos seres humanos racionais, sabemos que isso é parvo, mas partir alguma coisa não vai resolver nada. Aquilo que eu pensei: "Pronto, já libertei aquilo que tinha que libertar, agora vou para o hospital e vou estar com ele" e começámos. E depois a forma de estar com ele é muito importante, porque começámos logo num jogo. Estávamos na cama da urgência de Santa Maria e é uma cama espetacular, com botões, que levantava, baixava, "não sei o quê", e ele já todo cheio, com o oxímetro no dedo, todo contente de ver o monitor. Qual é a criança que não tem esse sonho de estar numa cama cheia de botões e que faz tudo automaticamente? Isso foi logo o primeiro embate, mas levámos logo aquilo na brincadeira. E depois fomos transferidos de ambulância para o IPO. "Já viste esta ambulância? Vai fazer ti-no-ri. Isto é espetacular." E depois para uma cama menos boa e ele: "Ó pai, esta já não é tão boa." "Pois, filho, mas esta ainda dá para dar à manivela e dá para subir." Depois começámos a fazer uma classificação de qual era o hospital que tinha as melhores camas.

Reviews. Tipo TripAdvisor.

Estefânia não, era mau. A urgência de Santa Maria foi a melhor de todas.

TripAdvisor dos hospitais.

Exato. Das camas dos hospitais, ver qual era que tinha a melhor, que tinha mais botões e mais tecnologia. A gente tem que encontrar formas de brincar.

Eu estava a lembrar-me do filme "A Vida é Bela".

Sim.

É um paralelismo, porque era a ideia dele transformar também o cativeiro numa espécie de jogo.

No fundo, temos que estar numa situação péssima. No dia seguinte começámos logo com quimio, sabendo que aquilo podia ter uma série de sintomas e de sofrimento associado. Eu já sabia disso, e nessa altura eu já tinha decidido que não ia ver os livros, que não ia ver artigos, ia confiar totalmente na equipa, porque eles é que têm a experiência, eles é que sabem como lidar com isso. Eu ia-me focar no Tomás, ser pai, fazer as parvoíces com ele. O momento em que ele percebeu que podia usar a Xbox lá do hospital, isso foi um abrir de felicidade. Afinal, não é tão mau estar doente. Portanto, isso foi bom e conseguir mantê-lo feliz era importante para nós. Depois, a partir do momento que as coisas começaram a correr mal, eu tive que voltar a tentar controlar as coisas, tentar perceber que não estava a correr bem, não estávamos a conseguir ir para transplante, que é um fim, que é uma oportunidade. Tínhamos a Mariana, porque há pessoas que não têm dadores.

Isso é quase perverso.

Não ter dador é uma angústia enorme. Agora, tenho o dador e não tenho a doença controlada, é uma frustração e uma raiva muito grande, porque raspa-te. A gente tem que conseguir pôr a doença controlada.

Como é que tu e a tua mulher e a família, como é que vocês conseguiam de alguma maneira? Porque eu acho que é importante aceitar ter esses momentos, mas depois entrar no registo: "Ok, vamos seguir em frente". Como é que se consegue fazer isso?

Eu acho que é assim.

Não há outra hipótese.

Não há outra hipótese. O caminho é este. A gente pode desviar-se um bocadinho, mas o caminho é aquele, não há outra hipótese senão baixar os braços. Isso não faz parte da minha personalidade. Aceitar e deixar que as coisas aconteçam também não faz parte da minha personalidade, porque isso é desistir. Nunca iria me sentir bem comigo, se desistisse e deixasse que as coisas andassem. Portanto, tive que mexer-me. E foi nessa altura que fechei-me no escritório que tenho em casa, dias e noites seguidas, quase que trabalhava 18 ou 20 horas por dia para conseguir. Porque ler artigos, perceber os artigos, perceber o que aquilo significa, pois aquilo é um palavreado, é como aprender japonês em dois meses. Aprender uma língua dessa forma, ultrarrápida, mandar e-mails para os vários centros do mundo. Depois não respondem, ou 50% das vezes respondem e respondem a dizer: "Não conseguimos fazer nada". As hipóteses vão se estreitando e isso leva tempo, não é de um dia para o outro que se consegue ter um ensaio clínico perfeito para o nosso filho. Mesmo quando a gente encontra várias opções, nem todas são no tempo certo. Ou seja, havia um ensaio que estava a decorrer nos Estados Unidos, tinha uma lista de espera enorme. O outro ensaio ia começar só no fim do ano. As coisas não estão de acordo com o nosso tempo, e o nosso tempo, não há muito tempo a perder.

É escasso.

Tínhamos que encontrar soluções. Entretanto, falhámos o transplante, a doença recaiu. Começámos a fazer uma terapêutica que já não faz parte do protocolo habitual e felizmente resultou, permitiu que a doença regredisse um bocado e que nos deu tempo para tratar das coisas. Por exemplo, surgiu a hipótese de irmos para Israel. Naquela altura estava mais tranquilo, já não tinha o Covid, era uma excelente hipótese, e fazermos CAR T-cells CD19, porque o Tomás tinha esse marcador e eles já estavam em Israel a fazer um ensaio clínico com adultos, utilizando essas CAR T-cells e em leucemias mieloide, e que estava com 60% de sucesso, o que era interessante. Quando começámos a entrar nisto: "Ok, há esta hipótese". A burocracia para conseguirmos ir para lá é terrível. É uma luta dia a dia.

Eu estou-te a ouvir falar e estou irritado. Porque é sempre aquela sensação de Caraças! A gente quer fazer as coisas e-

Mas isto é o que os pais das crianças vivem no dia a dia. Eu estou em contato com uma série de pais que têm filhos também doentes, e quando as portas se fecham, não há janelas. E essa altura é muito frustrante para os pais. E eu tento, de alguma maneira, ajudar a encontrar outras soluções, outros ensaios, outros sítios, tudo de acordo com as orientações do seu próprio médico, o médico assistente. Mas não há ninguém que faça esse trabalho no hospital, ou seja, não há um departamento-

Sim, há o protocolo e quando está fora do protocolo, é da parte dos pais.

E depois não é só isso. A DGS não tem qualquer suporte financeiro para fazer os doentes, crianças ou adultos, irem para ensaios clínicos. Há um desligar completo do sistema de saúde.

É como se: "Nós fizemos a nossa parte, agora..."

Agora não há mais hipóteses. Ou há um ensaio clínico que está a ser feito dentro do hospital onde nós estamos, e então aí somos logo incluídos, mas os ensaios clínicos em Portugal são uma miséria. Estamos a melhorar, mas somos um país pequenino, não tem dimensão para ter 10 ensaios clínicos sobre a mesma doença no mesmo país. Não há dimensão para isso. Somos 10 milhões de habitantes. Nem na Europa há tantos ensaios clínicos como nos Estados Unidos ou na China, na área da terapia celular, das CAR-T cells. A pessoa tem que virar lá para fora e quando vira lá para fora, vai para os Estados Unidos, são 1 milhão de euros. Como é que eu arranjo 1 milhão de euros para internamento, hotel, viagem?

Eu lembro-me na altura que vocês pediram essa ajuda, que felizmente também correu bem. Foi incrível.

Foi fenomenal.

Foi três ou quatro dias, não foi?

Em três dias e meio estava o dinheiro todo. É indescritível.

Mas eu tenho a certeza que tiveram pessoas a protestar, ou não?

É assim, não sei.

Sempre volta aquela malta a refilar.

Quando começam a cair mensagens no nosso Instagram, mas milhares, a gente não conseguia dar resposta, portanto comecei a dar força e a apoiar. Portanto, se houve alguma mensagem-

Foi torcida da Plaza depois

...não dei conta. Soube de algumas coisas, pelo menos na altura, mas há sempre vozes contras dos amigos meus que sabiam, de outras pessoas: "Aquilo é tudo aldrabice", ou "o que ele está a querer fazer é fazer CAR-T cell". Dando o exemplo, uma sociedade de alguma especialidade elabora uma guideline. Essa guideline é uma súmula dos últimos 10, 15 anos.

Sim.

Significa que aquilo que estamos a fazer hoje, aquilo que é o recomendado, tem estudos clínicos de 10, 15 anos antes. Quando nós esgotamos essas hipóteses, aquilo que nós temos é a tecnologia atual, ou seja, aquilo que está a ser estudado no momento, está a ser experimentado. E obviamente que não é o standard, não é o melhor, pode ser o melhor, até pode resolver o nosso problema.

Sim, mas às vezes é também uma questão de empatia.

A gente tem que arriscar.

De empatia, porque às vezes eu também, como o vosso caso e outros, eu partilho e ajudo de alguma maneira. Mas há sempre essas mensagens tipo: "Esses estudos, isso é tudo falcatrua, esses ensaios", não sei o quê. E a minha resposta é: mas quem é que vai negar a esperança a um pai, a uma mãe, a uma família? Ou a uma pessoa que está à procura de uma resposta? Eu não quero saber, se aquilo é esperança para ela, quem sou eu para estar a negar essa esperança?

É. E a esperança é uma coisa importante, que é o que nos mantém vivos.

Foi isso que vos manteve unidos neste período todo.

E eu estudei bastante, e não me meti numa aventura sem ter certeza do que me estava a meter. E obviamente que falei com muitas pessoas de cá, que conheciam as pessoas de Israel, e foi através dos contactos próximos que nos ajudaram a encontrar o contacto de Israel e fomos para um centro de hemato-oncologia pediátrica, que apesar de Israel ter 8 milhões de habitantes, tem um centro só para tratar estas crianças.

Tecnologicamente, são muito avançados. Felizmente, não só para a guerra, também para a saúde.

Na área da biotecnologia, estão a dar cartas, e muitos dos prêmios Nobais são judeus. Não quer dizer que sejam de Israel, mas que são judeus. É uma cultura com muita garra. E aquilo que nós sentimos enquanto lá estávamos, tem uma diversidade cultural enorme, porque aquilo é uma mistura de pessoas que vieram de todas as partes do mundo.

À procura de respostas.

São todos mais ou menos judeus, todos ali naquela zona, mas vieram de França, de Estados Unidos, da América do Sul. Aquilo é uma misturada, da Eritreia, ou da Etiópia, já não sei. Aquilo é uma misturada enorme, tudo com uma coisa que os une. E depois estão ali no meio de um ninho de vespas. A coisa mais engraçada é quando a Margarida estava num parque com crianças, com os miúdos. No segundo dia, veio logo ter uma mulher: "Quem és tu?" E depois de ela explicar o que se passava, porque é que estava lá. "Ok, tu precisas da minha ajuda, tens aqui o meu contacto. Alguma coisa que tu precisares, que eu tome conta dos teus filhos, tens aqui o meu contacto, liga-me que eu ajudo". E isto é o que descreve aquele povo. É um povo que depois de perceber o que é que têm, são de uma entreajuda e do espírito de grupo, de querer ajudar e de perceber, porque eles receberam pessoas com uma mão à frente e outra atrás, de toda a parte do mundo, sem nada, e ajudam essas pessoas a integrarem-se na sociedade.

Eu já não me lembro se esse tratamento em Israel correu bem.

Correu bem. Nós conseguimos fazer as CAR-T cells, correu espetacularmente bem, o internamento foi quase um mês e tal. Entrámos em remissão e depois começámos a ligar: "Vamos para Lisboa fazer o transplante, vamos embora". A gente chega cá, vamos repetir os exames, vamos fazer aquelas coisas todas, vamos marcar para aquela data e uma semana antes tinha recaído outra vez. Isto é muito frustrante, porque nós queremos fazer tudo o mais rapidamente possível, porque isto é uma luta contra o tempo. E falha-nos sempre ali na véspera. Como tinha estudado, já tinha milhares de contactos, já tinha o meu plano A, plano B, plano C, plano D, tudo montado na minha cabeça.

E foi aí que foram para a China?

Foi. Mas foi outra burocracia enorme, porque eles estavam em COVID zero. Ninguém entrava, ninguém saía, ninguém nada.

Como é que conseguiram entrar?

Tínhamos que ter a autorização do embaixador, pedir os documentos ao médico da China, dizer o que nós íamos fazer, pedir documentos à DGS, pedir documentos ao hospital. Dizer: "Temos aqui estes documentos todos, este miúdo tem que ir para a China fazer este tratamento". E depois de eu ir todos os dias à porta da embaixada da China para ver se conseguia que as coisas fossem aprovadas, lá conseguimos a autorização. Depois foi os vistos.

Vocês estiveram lá dois meses, não foi? Um mês.

Nós fomos dia 8 de dezembro, ficámos oito dias de quarentena no hotel.

Exato.

Que é outro momento surreal da nossa vida, porque estás fechado num quarto com um tipo a passar três vezes por dia nos corredores com uma máquina cheia de pó, a mandar produto que não sei o que aquilo é, a fazermos testes das gargantuas todos os dias, a enviarem-nos a comida embalada dentro de sacos. Depois lá conseguimos sair daquilo, correu tudo bem, fomos para o hospital, mas a doença já tinha avançado bastante tempo, já estava numa fase avançada e vamos fazer as CAR-T cells. Nós fizemos, inicialmente, ele não teve efeitos adversos, mas a doença continuou a progredir. Depois tomámos algumas decisões difíceis e depois tentámos fazer um segundo round de CAR-T cells, mas as complicações começaram a ser muitas.

E o Tomás já estava muito fraco, não é?

Estranhamente, ele estava sempre forte até o fim. Tinha muitas complicações. Não tinha leucócitos, estava em aplasia, não tinha defesas, umas vezes teve infeções gravíssimas. Aquilo que para nós era importante durante este período todo, era que ele não tivesse sofrimento. E no dia a dia nós estávamos com ele, jogava computador, íamos dar sempre voltas ali no corredor.

Ele tinha consciência da dificuldade do processo?

Ele tinha consciência que a doença estava lá. Tinha consciência porque nós sempre fomos muito claros com isso, para ele não defraudar e não pensar que o estamos a enganar. Isso foi importante para ele também estar confortável com ele próprio. E foi sempre uma estratégia minha e da Margarida, mantemos as coisas claras. E continuar a fazer a mesma estratégia de incentivo, vamos continuar a brincar, vamos continuar a fazer as coisas que temos que fazer, dar aqui umas voltas, fazer exercício, não pode estar o dia todo a jogar computador. Nessa altura, ele tinha um jogo, que era um jogo que eu consegui arranjar na internet, que era de criar foguetões e depois conseguir levantar o foguetão e ir à lua. Ele apertava-se a jogar esse jogo e era super divertido, mas tentava ensinar isso aos amigos e os amigos não lhe ligavam nenhuma. Queriam era o outro, o Fortnite. Esses momentos difíceis, apesar de aquilo estar uma desgraça por dentro, nós tínhamos a noção, tínhamos que fazer os exames, as coisas não estavam a correr bem e estávamos a perceber isso. Infelizmente, as coisas não correram bem. Os miúdos têm uma forma de estar que mesmo não sendo adultos, conseguem ter momentos de uma clarividência, de uma maneira de estar na vida que desarmam completo qualquer adulto. Muito tempo antes, assim do nada, estava ele a jogar computador e vira-se para mim: "Ó pai." Como é que ele começou? Começou a dizer: "Ó pai, como é que é morrer?" Eu olhei assim de lado e pensei: "Opa, o que este está a pensar? Isso deve ter sido algum filme, alguma coisa que ele andou a ver." Isto muito tempo antes, não foi na altura. E eu disse: "Ouve, Tomás, o que é que tu estás a querer perguntar?" "Pois, é que eu..." Que ele já tinha feito várias vezes anestesia. "Se tiver que morrer, podia ser como na anestesia, ou seja, eles dão assim uma coisa, a pessoa fecha os olhos e pronto. E não dói e não sofre." "Pois, Tomás, se achas que isso é importante, é isso que nós temos que fazer, mas obviamente que isso não vai acontecer, está tudo a correr bem, vamos começar a continuar a fazer os tratamentos, etc." Eu fiquei aflito. O que este miúdo andou a ver e a pensar? Mas é daqueles momentos em que ele tem ali um momento de pensamento sobre si próprio e sobre o que é que ele desejava. Porque ele obviamente vê os filmes, e vê as pessoas a morrer, e vê o sofrimento e vê as coisas.

Sim, eu acho que os miúdos têm muitos momentos, e com os teus também deves ter isso, em conversas que aparentemente são banais e de repente, eles dizem algo que nós ficamos que nem sequer há resposta. É uma consciência.

O miúdo com 10 anos na altura, estava a falar de como é que seria a melhor maneira de morrer.

Na verdade, mas curiosamente, essa é a maneira de morrer que toda a gente, de alguma maneira, deseja. Toda a gente diz: "Para morrer, que seja a dormir". Um gajo deita-se e pronto.

E isso foi algo que eu guardei para mim próprio e guardei, não sei se chamo de vontade, que não era algo que eu queria que acontecesse, mas foi isso que nós fizemos no último dia dele. Porque a situação era de tal maneira desastrosa e não havia hipótese nenhuma e podemos dizer que ele não sofreu. E isso era para nós, como pais, o melhor que podíamos fazer pelo nosso filho, que era lutarmos até o fim, fazermos tudo o que era possível, tentarmos fazer todas as estratégias, desde que não houvesse sofrimento e de que ele não sofresse. Isso foi muito importante. Mas lá está. Há uma primeira vez que eu sofri muito e há uma segunda vez que eu sofri muito, foi no dia em que ele partiu. E isso é uma luta que a gente não consegue. Depois disso, é muito difícil, porque é algo que ficamos sem ele, ficamos sem possibilidade de vê-lo crescer e de ver fazer as partidas todas que ele fazia aos irmãos e de viver com os seus amigos. É um sentimento muito... A gente pode falar em luto, em saudade.

É tudo.

Ainda no outro dia, eu publiquei aquele vídeo daquele jogador ou treinador espanhol, já não me lembro como é que-

Sim, o Luis Enrique.

Sim.

Que a filha perdeu.

E achei que aquela forma de pensar é a melhor maneira de pensar sobre aquilo que nós temos, que é: eu proporcionei a melhor vida que podia ao nosso filho e conseguimos fazê-lo feliz. Se ele tinha que partir, partiu, pelo menos conseguiu viver durante os seus 11 anos da melhor maneira. É isso que a gente pretende.

Sim. Não sei se há algum sentimento de revolta, se existe esse sentimento de revolta.

O problema são os "se" E os "ses" revolta muito.

Se tivessem tido mais tempo.

Se fosse assim, se tivesse sido assado.

Mas a minha mãe diz-me uma coisa que é muito verdade: os "ses" não existem.

Eu sei, mas são os nossos botões. Pensamos nas coisas e olhamos para aquilo que foi a nossa vida e aquilo que nós decidimos na altura. E eu sempre pensei: a gente está a decidir hoje com a melhor informação que temos hoje. A decisão de amanhã ou quando olhamos para trás, não vale a pena pensar nas opções. E eu sei disso, mas isto é o lado racional.

Pois.

Depois o lado sentimental, de pai, e as saudades que nós temos. Ora bolas, quedaças. Mas é algo que temos que aprender a conviver. O tempo ajuda muito.

Sim.

O tempo ajuda muito, mas nunca vamos esquecê-lo.

Claro, e acho que faz todo sentido. Mas existe dor.

Existe.

E tenta-se transformar. Como é que se transforma essa dor em propósito, de alguma maneira? Porque eu acho que é isso que vocês estão, de alguma maneira, também a tentar fazer.

Sim.

Com este projeto das CAR T cells.

Este projeto das CAR T cells é, de alguma maneira, primeiro: aprendemos muito sobre esta área de imunoterapia, que não estava muito expandida em Portugal. As primeiras CAR T cells que foram feitas foram há cinco anos. Não existe investigação nesta área em Portugal, ou seja, não existe transformação da investigação em terapias. Falta essa parte de uma investigação ser útil.

E, na realidade, o trabalho que tu fizeste de pesquisa, já estás a oferecê-lo aos outros pais que lidam com a mesma coisa, não é?

Exatamente. E pensamos que temos que, de alguma maneira, retribuir. Se Portugal nos ajudou, por que não também ajudarmos outras crianças, outros pais a encontrar as soluções? E é nesse sentido que, de alguma maneira, aquilo que nós passamos com o Tomás e o que aprendemos, e que ele mostrou que é possível, porque ele é que aguentou isso tudo. Nós fomos os pais que andamos com ele e ele tinha uma resiliência, uma força de vontade. Picavam-lhe veias, e aquilo: "Oh, pai, isso não custa nada. Isso é peanuts". Desde que dessem depois o computador para ele brincar, não havia problema nenhum. Ele estava lá num cadeirão cheio de cateteres para tirar as células. Desde que estava com o computador, estava feliz. A máquina a fazer o que tinha que fazer e ele não se importava com isso. E isso queremos mostrar aos outros, que é possível, dentro desta situação toda, mostrar formas de fazer as crianças felizes e tentarmos encontrar soluções também que possam ajudar essas crianças e um dia, em Portugal, termos tratamentos mais avançados. E isso é o propósito de querermos trazer as CAR T cells. Nós não estamos a dizer que podemos trazer.

Só uma cura, e também é mais um processo.

É um caminho.

É mais um caminho, sim.

É um caminho. Para algumas pessoas vai ser uma cura.

Pode ser, sim.

E para algumas pessoas pode ser uma forma de chegar ao destino, por exemplo, não consigo a remissão com a quimioterapia, então com as CAR T cells entro em remissão e depois daqui sou transplantado e posso ser curado.

Sim.

Mas como a quimioterapia não está a dar resultado, pode ser que as CAR T cells deem. É mais uma ferramenta, mais uma opção que permite ganharmos tempo e conseguirmos chegar ao objetivo final. E isso é o que nós queremos com esse projeto, é dizer que é possível trazermos investigação para Portugal, ensaios clínicos e talvez com as nossas próprias empresas portuguesas, porque nós temos investigadores de topo de gama.

Sim.

Temos universidades, institutos e empresas espetaculares. E se nós conseguimos, há 500 anos atrás, ir à Maluca e conseguimos fazer algo impossível na altura. Temos as pessoas cá, agora falta muito é organização e gestão dessas coisas. E percebermos o que é prioritário. Damos muito pouco dinheiro à investigação. E dando o exemplo de Israel, todo o dinheiro que eles têm vai para a investigação, seja para a área militar, biotecnologia, porque é só aí que se cria a riqueza, é aí que se criam as empresas e se criam as soluções. Não vamos estar à espera que sejam os americanos ou os europeus que vão encontrar, porque depois, só para dar uma ideia, um tratamento de CAR T cell é à volta de €300 mil. E a sustentabilidade para isso.

Pois, enquanto não se conseguir baixar esse valor. E isso só se consegue através da investigação.

Mas estamos a importar a tecnologia que vem dos outros países. Se Israel tem 8 milhões de habitantes e tem a sua própria produção de CAR T cell e tem hospitais onde tratam as crianças com um serviço só de hemato-oncologia pediátrica, é que nós não temos isso em Portugal. Nós temos os vários IPOs, onde há serviços de pediatria e que tratam todo o tipo de doentes. Não há um serviço de referência nacional e isso pode fazer diferença Porque permite dar a experiência suficiente. Por quê? Porque uma coisa é ver um doente uma vez por ano, outra coisa é ver 100. Se eu vi 100 doentes, ganho a experiência para depois, no ano seguinte, lidar melhor com os problemas que surgem. Isso são coisas que nós podemos fazer e queremos mudar esse espírito dentro do nosso país e perceber que é possível darmos soluções e encontrarmos. Nós temos feito isso.

Quando é que surgiu essa ideia?

Já antes do Tomazinho ter partido, já tínhamos pensado em fazer isso, porque queríamos partilhar coisas pequeninas, como nós mandarmos um pouquinho do sangue do Tomás para Barcelona para estudar quais eram as quimioterapias que tinham efeito sobre as células malignas. E isso não se faz em Portugal, mas conseguimos encontrar um contato em Barcelona que tem essa tecnologia. Onde é que se faz exames genéticos, XPTO? Nós conseguimos encontrar um sítio na Alemanha onde podíamos fazer um seguimento de alta sensibilidade com os testes que conseguem detectar uma célula em um milhão, que aqui em Portugal, pelos testes que nós fazemos, detectam uma célula em 100 mil. Quando detecta, o câncer já está em grande expansão. Se nós detectamos uma célula em um milhão, significa que antecipamos dois meses e conseguimos logo intervir de forma a evitar chegar a uma situação pior.

Portanto, vocês começaram a fazer isto no processo de luta e no processo de luto.

Sim. Achamos que temos muitas coisas, sabemos muitas coisas, e não sei se vão ser úteis um dia para alguém, mas pelo menos estamos a fazer essa marcha e esta campanha. Organizamos anualmente com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia, que é uma excelente parceria, uma conferência sobre CAR T cells, onde vêm pessoas de renome internacional e nacional, por exemplo, falar sobre a sua experiência e sobre aquilo que andam a fazer nesta área. É uma forma de divulgar isto. Já lançamos o nosso site, de há uma semana. Onde nós queremos pôr notícias, aquilo que nós andamos a fazer e alguma literatura científica à volta das CAR T cells. As CAR T cells podem ser úteis para crianças com neuroblastoma. Por exemplo, este último convidado que nós pedimos, que veio ter cá, o Frank Locatelli, está a fazer CAR T cells nestas crianças que têm esta doença e está a ter resultados muito interessantes. É uma opção. Depois, como é que isto se organiza? Como é que as crianças vão à Itália fazer o tratamento? Temos que primeiro saber que há este sítio.

Pois é, isso. Tu fizeste esse trabalho todo e continuas a fazer.

A gente quer continuar com isso. Acho que é um projeto que vai dar resultados e estamos entusiasmados com isso.

Mas diz-me uma coisa. Esta pergunta que está aqui desde o início, na minha cabeça, que é: vocês são pessoas de fé?

Não.

Nem tu, nem a tua mulher? Sendo médicos.

Nem eu, nem a minha mulher.

Há médicos que são muito ligados à fé. A tua mulher é o quê? Desculpa.

Ela é de arquitetura de interiores, design de interiores. Não tem nada a ver com a área da saúde.

Exato. Os arquitetos não costumam ser pessoas de fé. Não sei, estou inventando.

Não.

Mas em algum momento sentiste alguma coisa parecida com a fé ou a esperança? Não sei. Não vês nisto um propósito, vês só simplesmente o que tem que ser feito?

Não vejo isto como se houvesse um ser superior ou celestial acima que mexesse os cordelinhos. Se algo fosse assim, então para que fazer sofrer uma criança?

Entendo, sim.

Isso não existe. Isto é pura biologia, é o destino, é a forma como as coisas correm e isto é assim há milhares de milhões de anos. Agora, se me disser assim: "Mas consigo explicar tudo?" Não. Será que há alguma força que pudesse? Já Einstein também, eu já não sei se foi o Einstein, tinha essa perspectiva, não acreditava em Deus, porque não pode haver o Deus dos católicos e o Deus dos muçulmanos.

Sim, o problema é a concepção que nós temos de Deus.

Deus não existe, o que existe é se calhar, provavelmente, algo que determinou que as coisas acontecessem assim. Isso, não sei.

Mas a esperança acaba por ser o que é a fé se não esperança também, não é?

Sim, e há fenômenos que eu não sei explicar de forma científica.

Tipo? Estás a falar alguma coisa específica?

Não, não em específico, mas sabemos que há coisas de energias, de alinhamento, quando se juntam muitas pessoas com determinada energia, há coisas que mudam.

Sim.

Mas eu não sei se é a forma, se as pessoas olharem Para o evento ou para o acontecimento.

E encontrarem uma relação?

E encontrar uma relação ou se é um acaso. E, portanto, não sei explicar nem consigo.

Ou seja-

Agora, sei uma coisa: quando morrer, morri. Não há aquela coisa de "vou agora para o céu".

Não sabes. Sabes que morres, mas não sabes o que é.

Ainda não sei se ninguém voltou para me dizer isso.

Para contar.

Portanto, não faço ideia. Mas não me sinto angustiado por isso.

Ok.

Porque uma das coisas quando o ser humano começou a ser racional é a angústia da morte.

Exato.

E a melhor solução é Deus. Vamos para o céu e assim, olha, este assunto fica arrumado, já não me preocupo se hei de morrer amanhã. Não sei se vou mudar um dia. É algo que não me preocupa.

Exato, é isso também, se calhar não interessa. O que interessa é o que nós vamos fazer.

Sim, e isso para mim é importante.

E o Tomás hoje continua convosco nas memórias, neste projeto, do dia a dia?

Todos os dias. Todos os dias acordo e penso, todos os dias durmo e penso. Umas vezes coisas boas, outras vezes coisas menos boas.

Os tais "e se".

"E se", os últimos momentos, coisas que eu queria fazer ainda e coisas que ficaram por fazer. As coisas não acontecem como a gente queria. E aquilo que é importante com os nossos filhos é que eles fazem-nos puxar para o lado bom e fazer pensar que temos ainda muita coisa para fazer com eles e falamos muito sobre o Tomazinho e as parvoíces que eles tinham entre eles e as brincadeiras. Manter a memória, porque eles, por exemplo, o mais novo, o Francisco, tem cinco anos.

Não tem muita memória do-

No outro dia, fiquei um pouco triste porque ele disse: "Ó pai, mas eu já não me lembro bem do mano." E eu: "Filho, então vamos ver umas fotografias para tu te lembrares dele, vamos ver uns vídeos." E eles ficam tão contentes de ver aqueles vídeos dos tempos em que brincavam um com o outro e isso, de certa maneira, liga lá o chip.

Eles racionalizam de outra maneira? Vivem a memória do irmão de outra maneira, de uma maneira mais tranquila?

Sim. Há algumas coisas, obviamente, que a mais velha tem outra maturidade.

O problema é nós crescermos.

Era muito melhor se fôssemos crianças todos os dias. Bem, de certa maneira, vamos sendo.

Sim, mas crescermos quando começamos a ter consciência do mundo. Parece que as crianças, é isso que tu estavas a dizer, a mais velha já está com o quê? 11?

Com 11 anos.

Pois, já tem outra consciência das coisas.

Sim, mas também conseguimos falar de outra maneira com ela e de certa maneira, não é um problema. É uma saudade, obviamente, que foi quem viveu mais tempo com ele, portanto, tem mais memórias dele e os dois eram cão e gato um com o outro. Ela tem muitas saudades dessas guerrilhas constantes que tinha com ele, mas acho que também com o tempo foi aprendendo a manter as memórias que ela tinha dele. Acho que ela está bem. Acho que tem uns momentos menos bons, mas como todos nós temos.

Mas isso, eu estava aqui a pensar, eu tenho mais dois irmãos, éramos quatro, houve um irmão que morreu antes de eu nascer. Morreu em 79, eu nasci em 80. Meu irmão morreu com 15 anos, tinha uma deficiência, era deficiente profundo, completamente dependente. Mas eu lembro-me de crescer na casa e de não se falar do meu irmão, por exemplo. Eu via fotos dele e diziam-me: "Olha, é o teu irmão." "Quem é este?" "É o meu irmão." Mas não há histórias. E, por exemplo, porque não se contava, é quase-

Um tabu.

Um tabu.

Isso é muito cultural.

E o mais engraçado, o meu irmão é 19 anos mais velho do que eu.

É um adulto.

O meu irmão tem idade para ser meu pai. E o meu irmão, só há pouco tempo, ainda no outro dia, estávamos a falar exatamente sobre isto, e o meu irmão contou-me uma história do meu irmão, que exatamente às vezes ele falava com ele e dizia-lhe certas coisas e percebia as reações dele, a rir-se. Eu nunca tinha ouvido isto e isto são coisas importantes de manter. É normalizar, é fazer parte.

É muito cultural português o reprimir.

É o fado.

É reprimir, vamos meter veste preta e não se fala sobre o assunto. Não sei se é por nós não sermos crentes e não termos essa forma de estar. Fomos educados tudo como se fôssemos católicos e andámos ambos em colégios católicos.

Mas nunca vos deu por aí.

Não Detestava aquilo. Não compreendia os rituais, não compreendia isso. Achei que não fazia parte da minha forma de estar na vida. E encarar esta situação e a morte com os nossos filhos, a única maneira que nós pensamos é: "Não, vamos continuar a falar dele, vamos continuar a ter as memórias. Temos os momentos pra chorar, temos os momentos pra nos rirmos."

Não houve pessoas que vos criticaram quando vocês foram de férias? Porque eu lembro que vocês um tempo depois foram de férias, não foram?

Fomos para São Tomé e precisávamos mesmo disso.

Pois, eu vi e acredito e pensei exatamente o mesmo.

Não tive críticas e podem criticar. Cada um enfrenta aquele luto da forma como enfrenta. E pra nós família, pra nós núcleo, foi muito importante espairecer, sair da nossa casa, do nosso ambiente.

Daquela rotina, se calhar, que tinha sido-

Foi muito importante. E ainda por cima pra um sítio espetacular, que é São Tomé. Foi muito importante isso. E percebemos e por isso é que mantemos esta ideia de que sempre nos dias difíceis ou nos anos do Tomás ou no dia em que ele partiu, que morreu, vamos espairecer. É a nossa forma de enfrentar o-

Sim, vão se encontrando respostas ao longo do caminho.

E, portanto, o ano passado fomos em fevereiro para Namíbia, na época baixa. Estavam a dizer que nós não íamos ver animais. Olha, vimos os animais todos e foi muito bom. E no dia 8 de fevereiro, foi quando nos apareceu uma manada de elefantes, 20 e tal elefantes à nossa frente, ganhamos o dia. A gente depois encontra estas associações.

Então já aí há uma crença.

Não. Mas repara sacana. Se existes, és um sacana. Mas é o nosso Tomazinho a mandar-nos uma mensagem.

Mas isto é bom e acho que é saudável. Acho que é sobretudo saudável.

Fomos à neve, para Andorra agora neste 8 de fevereiro, e na noite caiu um nevão como nos filmes.

Já é o segundo 8 de fevereiro.

Ficamos felizes. Dizemos: "Malandro, tamos a mandar uma mensagem."

Às vezes o mais importante é: "Olha, eu não sei, mas foi bom." É o que interessa.

É isso.

Se calhar, é isso que também tu estavas a dizer, no sentido de como disse o Luís Enrique: "Eu não sei o que é que acontece ou o que deixa de acontecer, mas nós fizemos o nosso melhor e garantimos que foi o melhor."

E foi feliz. O tempo em que cá esteve, foi uma criança feliz. E isso é importante. Queríamos mais. Queríamos vê-lo crescer, ter filhos, ver os netos, ver essas coisas. Queríamos isso tudo, mas pelo menos é uma boa forma do Enrique de encarar. Tivemos um filho espetacular e que ele nos presenteou com 11 anos de uma criança espetacular. E isso pra nós é importante.

Aquela pergunta básica que é: aprende-se alguma coisa ao longo deste processo todo?

É o nosso processo individualmente. Toda a gente tá sempre a aprender todos os dias. Quem nunca passou por isto nunca irá compreender o que é passar por uma coisa dessas e aquilo que cada um depois caminha e encontra formas de encarar o problema e de abordar isto e tentar continuar a vida. Não desejo isto a ninguém. E obviamente o que nós queríamos era conseguir ultrapassar esta montanha e vencer, mas infelizmente as coisas não são assim. E não sendo assim, a gente tem que andar pra frente. Só quem passa por isto é que percebe o que é. Não dá para explicar.

Eu não gosto da palavra, porque lá está, é sempre uma experiência individual, mas que mensagem é que tu gostavas de deixar a pessoas que estão num processo de luto pela perda de um filho ou que estão nesse período mais complicado?

Uma boa forma de ver o luto ou pelo menos a melhor maneira de ir vendo as coisas do dia a dia é: o tempo ajuda, isso é importante As tempestades vêm todos os dias, mas há um dia em que a tempestade não vem. E nesse dia de sol, a gente tem que recomeçar a juntar e a viver e encontrar maneiras de encontrarmos aquilo que nos faz viver e sermos felizes. Obviamente que não é sinal de que as tempestades não vêm mais. As tempestades vêm sempre, umas menos fortes, outras só com uma chuvinha, às vezes é mesmo um furacão e a gente tem que aguentar. É como estar num barco. Temos que aguentar a passagem da tempestade e não naufragar. E não naufragar quer dizer que não podemos entrar em depressão, não podemos baixar os braços. Também temos que pensar na nossa felicidade e na possibilidade de haver um equilíbrio. E esse equilíbrio é: vem uma tempestade, aguentamos, passamos, lavamos as lágrimas e amanhã é outro dia e vamos continuar.

Sim.

Para os pais que virem a minha mensagem, a única coisa que eu posso dizer é que dia após dia as coisas, em princípio, vão melhorando. E procurem ajuda, porque eu também tenho ajuda. Não há problema nenhum e às vezes uma consulta de psicologia muda muito. Porque às vezes estamos tão focados num problema.

Sim, alguém de fora que nos vai mostrar algo.

E alguém profissional que sabe lidar com isto, desconstruir e dizer: "Mas esse problema que tu estás a ver não é um problema, é uma solução."

Sim.

E isso ajuda muito a passar algumas barreiras. Este "ses". Porque isso mata. A pessoa que fica à volta dos "ses" e entra num ciclo vicioso, não é bom para a pessoa nem bom para o resto da família.

Eu penso muitas vezes numa coisa que é: se fôssemos nós a partir, nós queríamos que aqueles que cá ficam seguissem a vida da melhor maneira possível. Eu acho que é isso que tu pensas, quando chegar a tua vez, que os teus filhos, netos, seja como for, que continuem na sua melhor versão. Então acho que muitas vezes, quando somos nós que ficamos cá, temos que nos lembrar que se calhar quem partiu também queria exatamente o mesmo.

Sim, é uma forma. Sim, é.

Uma coisa normal.

Eu acho que não há outra maneira. Há muitas maneiras de abordar isto, mas esta foi a maneira que nós encontrámos. Temos que continuar a lutar e a viver. Não podemos ficar parados. Temos as nossas boas memórias e é isso que nós temos que manter e dizer que ficamos, tal como o Henrique diz, ficamos muito felizes de ter tido a oportunidade de conhecer o Tomás. E isso é importante.

Tomás, muito obrigado por teres vindo. Muito obrigado por esta conversa. Quanto a vocês, já sabem, continuem a acompanhar o podcast. Se estão a assistir à conversa no YouTube, ativem as notificações, sigam o canal. As notificações permitem que vocês sempre que sai um episódio novo, recebam esse episódio. Vão começar a surgir também episódios mais pequenos de 10 minutos, que serão mini episódios onde sou só eu a falar, não é bem do que eu aprendi, mas do que eu retirei de cada conversa que tenho aqui, portanto, a remeter para episódios já passados. Será muito em breve que esses episódios começarão a surgir aqui. Plataformas do Observador, todas as semanas. Eu conto convosco desse lado. Um abraço e até para a semana.

Obrigado, também.

Obrigado. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.