Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do Somos Todos Malucos, um podcast dedicado à saúde mental, autoconhecimento, a partilhas de vidas diferentes e que eu acho que de alguma maneira podem acrescentar alguma coisa a mim e a quem está a assistir. Já vamos com mais de 130 episódios, mais ou menos. E agora com os episódios intermédios também, que saem à segunda-feira, pequenos episódios de 20, 25 minutos, onde eu falo dos convidados que passam por aqui e porque é que eu os trouxe cá e o que é que eles me fizeram refletir. Já sabem, se estão a ver no YouTube, venham aos comentários, porque eu venho também sempre falar aqui convosco nos comentários, deixem sugestões. Se tiverem sugestões, também podem enviar sugestões para o meu e-mail, para as redes sociais. Eu tenho tendência para encontrar esses e-mails, portanto, têm muitas maneiras de chegar a estas conversas. Spotify, iTunes, todas as plataformas, é um podcast observador, portanto, continuem a acompanhar-nos. O Sérgio Lopes está numa cadeira de rodas. Podia ter ficado assim a salvar alguém, ter sido assaltado, ou numa corrida de carros, ou a escalar o Evereste, que era uma cena assim mesmo tipo de macho, mas foi quando um telhado lhe caiu em cima. Como é natural, o acidente mudou-lhe a vida, mas também o levou a ser uma voz ativa na luta por melhores condições e a fazer algo que se calhar seria inusitado para algumas pessoas, a fazer stand up comedy. Já há bocado estávamos a falar sobre isso. Não é humor negro, é a sua própria história, mas se calhar alguns de vocês podem achar que é humor negro. Eu não sei qual é a graça de fazer piadas com as coisas que nos acontecem. Sérgio, obrigado por teres vindo.

Agradeço, obrigado pelo convite.

Eu já te seguia nas redes sociais, mas só nos conhecemos há pouco tempo num espetáculo nos Olivais. Eu estive a ver a tua atuação e já tinha visto bits teus também. E eu achei muita piada, porque eu rio-me de duas maneiras: rio-me pelas piadas, que são boas, e rio-me muitas vezes pelo constrangimento das pessoas.

Sim, isso acontece muito.

É muito engraçado.

Vês que foi um dos desafios. No início, quando eu comecei a fazer, eu noto que chamavam-me a palco e havia aquela coisa de entrava uma pessoa em cadeira de rodas, um silêncio, um absurdo. E eu, desde o início, percebi que tinha que entrar com uma piada de: "Pessoal, é para isso que a gente está aqui, é para rir." Então, normalmente eu faço a piada do frio, que é: "Pessoal, está muito frio. Peço desculpa, mas eu com este frio, quanto a vocês não sei, mas eu com este frio nem sinto as pernas." É ali que as pessoas perguntam: "Olha, o que é que se está aqui a passar?" E a partir dali, desbloqueie. Mas noto isso quando vou fazer uma atuação qualquer. Agora já não tanto, as pessoas já veem: "Ah, o rapaz..."

Sim, já vais sendo mais conhecido.

Mas na altura era mesmo um constrangimento de entrar. Depois eu desbloqueava ali e estava feito.

A tua primeira atuação, lembras-te onde é que foi?

Lembro. A minha primeira atuação foi num bar, que eu não sei se ainda está aberto. Não faz stand up, foi só uma experiência de quem estava a organizar na altura. Foi durante a pandemia, foi quando houve a abertura, o primeiro desconfinamento. E não era uma casa que estava muito composta, estava para aí 10 pessoas, por causa da pandemia.

Todos afastados uns dos outros?

Eu estava com uns quantos comediantes, éramos para aí uns sete. Estava a pensar, já não havia máscara nessa altura. Foi quando houve o desconfinamento que já não era obrigatório máscara junto às outras pessoas. E estavam uns quantos comediantes e eu fiz cinco minutos, cinco minutos que parecia meia hora.

Eternidade, sim, conheço a sensação.

Tive que olhar para o texto todo, nunca me enganei. O público reagiu bem, mas lembro de ir para casa com a sensação de "ok, eu fui aprovado pelos outros comediantes." Os outros comediantes que estavam lá riram muito. Isto pode ser uma falsa sensação, mas foi muito bom perceber que-

Foste gratificado.

Ya, que entrava dentro do ser bem recebido, digamos assim.

Isto já vai aqui três, quatro anos?

Quatro anos.

Exato.

Sim.

Tu lembras-te quando tiveste o acidente, foi aos 20?

21.

21. Tu tens 43, não é?

43.

43. Portanto, já tens mais anos nesta condição.

Fiz o ano passado, chamado, como é nos aviões, que é o ponto de sem retorno, ou os barcos, quando gastas combustível.

Sim, que já não dá para voltar atrás.

Agora tens que ir sempre para a frente.

Tu lembras-te do acidente, certamente. Na altura, percebeste logo que havia algo que não estava bem?

Não. Essa pergunta fazem muito, que é duas numa só, que é se percebi o que é que aconteceu naquela altura e quando é que eu percebi que ia ficar assim. Não tenho noção. Não tenho mesmo noção, não tenho o dia em que assumi. Depois tem a ver com todo o percurso de estar no hospital, depois ir para o Alcoitão. Mas eu na altura, claro, fiquei muito mal. Eu fiquei sem respirar, ou seja, fiquei com a parte toda do corpo daqui para baixo afetada, nomeadamente a parte respiratória.

Tu estavas numas obras, numa casa, e o telhado caiu-te.

Sim, era uma casa que era da minha avó, entretanto o meu pai queria remodelar a casa e havia lá uma divisão que era para deitar abaixo e, falta de experiência minha, comecei a deitar algumas coisas abaixo, só que tirei a base do teto, pensava eu que ele ainda se aguentava mais um tempo e depois desabou em cima de mim. Só que era muito baixo, porque o teto estava praticamente a um palmo da cabeça, portanto, não foi aquela coisa de cair lá de cima.

Ok.

Ele começou a cair, assentou na cabeça, eu lembro-me de estar a fazer força, mas depois a coluna não aguentou. Assim que a coluna parte e bate na medula, o meu corpo parece tipo um fantoche. Fantoche, não, aquelas marionetas, sabes?

Sim. Quando largas as cordas.

Depois, como era a casa de banho, estava lá a banheira ainda Então o teto caiu e ficou um bocado em cima da banheira, a outra parte baixo, e eu fiquei ali naquele triângulo.

Sim. E percebeste que...

Eu fiquei com o corpo todo dormente, na altura. Lembro que o único braço que eu conseguia mexer era este. Lembro que foi uma coisa muito estranha, eu senti-me todo como se fosse borracha. Tinha dores no pescoço. Só que o meu pai estava lá comigo, estava na casa, e o meu pai veio logo cá fora ver o que se passou, porque ouviu o estrondo. Eu lembro que naquela altura eu estava mais preocupado com o meu pai, porque estavamos sozinhos ali. Eu pensava que o que estava a acontecer foi um trauma do momento. "Ok, vou com o Vasco até cima, isto é uma coisa..." Eu estive semana após semana no hospital a dizer às pessoas: "Eu para a semana já devo começar a escrever mensagens". Isto foi assim durante muito tempo.

Tens ideia de quanto tempo?

Era o que eu estava a dizer. Esta é a falsa. Eu estive cinco meses em São José e depois fui para Alcoitão, estive mais sete meses. Eu gosto de contar esta história porque foi um dia que houve uma enfermeira que veio ter comigo e disse assim: "Ó Sérgio, tu e os teus pais já pensaram em comprar uma cadeira de rodas elétrica?" Eu ter dito: "Não, eu vou esperar para ir para Alcoitão, porque lá é que vai ser a minha reabilitação. Eu já sei que vou ficar aqui com algumas mazelazinhas, mas se calhar vou ficar a andar com uma andarinha ou coisa assim". E ela: "Pois, ok". Eu gosto de falar desta história, porque eu quero acreditar, a enfermeira era estagiária, e isto já foi para aí ao fim de quatro meses de eu estar lá. Eu quero acreditar que esta enfermeira-

Trabalho de estagiário?

Eu acho que foi aquela cena lá na sala de enfermagem, disseram: "Olha lá, não queres ir ali ao Sérgio estirar uma palhinha? Tu tiras esta que é a mais pequena". Mas foi uma conversa, mais tarde é que eu pensei nessa conversa, aquilo deve ter sido eles que tentaram sempre dar dicas e eu estava sempre a arrastar e eles fizeram o melhor, porque se calhar não têm mais trauma.

Tu voltaste a encontrar essa enfermeira?

Não.

Não sabes o nome dela? Isso era giro reencontrá-la.

Por acaso, não. Lembro-me mais ou menos da postura dela. Lembro-me de muitos enfermeiros que estiveram comigo em São José, porque ocuparam aquele espaço todo de tempo durante cinco meses. Foi muito bom o tempo. Muito bom, quer dizer, toda a gente vai pensar: "Você..."

Foi bom dentro da condição, não é?

Foi mesmo muito bom o atendimento que tive lá, a abertura que tinham até para os familiares, no meu caso, os familiares poderem estar o máximo de tempo comigo, mesmo na altura dos cuidados intensivos, como pode ser o serviço. Mas eu lembro-me dessa conversa e eu assim: "Será que ela foi mandada? Vai lá dar uma dica."

Mas isso só pensaste mais tarde.

Sim, muito mais tarde é que eu me lembrei assim.

Mas já pensaste a quantidade de casos que deve haver assim?

Claro. Aquilo no hospital, isto depois mais tarde eu fui falando isto com outros técnicos, mesmo em Alcoitão, que é quando é que se deve dizer mesmo à pessoa a realidade?

Sim.

Eu acho que tem tudo a ver com a avaliação, tentar perceber qual é o estado de espírito. Imagina, eu estive ali cinco meses, eu tinha 21 anos, onde eles sabiam que eu ia para Alcoitão e eles, se calhar, ao fim de dois, três meses, pensaram: "Já está cá há tempo demais para nós termos agora esta conversa. Ele qualquer dia vai ser chamado para Alcoitão. Deixamos isso para Alcoitão."

Passa a batata.

Não estou a dizer isso no sentido que tenham feito mal, até porque há regras e eles também não podem assumir certas coisas. Lá está, eu podia ir para Alcoitão e podia ter recuperado muito mais do que o que eventualmente poderia estar à espera.

E achas que isso era negação ou era esperança? Porque se calhar para quem está de fora pode ser visto como negação, não sei.

Não é negação. Eu acho que é esperança, mas foi a esperança que me deram, porque mesmo o hospital falava-me sempre de Alcoitão e toda a gente à minha volta. Eu sei que as conversas com os meus pais eram muito mais diretas. Ou seja, eu soube isto mais tarde, que as conversas que os meus pais eram: "O Sérgio vai ficar assim". Aliás, um dos médicos disse à minha mãe: "Você prepare-se que o seu filho vai ficar como um bebé, mas é um bebé com 1,80m". Foi assim uma coisa.

Ou seja, ficaste com danos irreversíveis no cérebro também.

Ya. Foi assim uma coisa horrível, ficar como uma criança, mas uma criança com 1,80m.

Que simpatia.

Agora, eu fui alimentando, porque era o que eu ouvia: "Tu vais para Alcoitão, é Alcoitão é que vais recuperar bem". Entretanto, lá no hospital houve um rapaz uma vez que foi lá, que era tetraplégico também, que estava em cadeira de rodas, mas tinha mais movimentos. Por quê? Hoje eu sei porque a lesão dele não era igual à minha.

Pois.

E eu olhei para aquilo: "Espera aí, que eu não quero ficar assim". Na altura, não tinha nada. Se eu ficar como aquele, já não é mau. Portanto, não foi negação, isso eu tenho a certeza que não foi.

Acho que sim, eu acho que é normal.

Poderá vir algum psicólogo fazer uma análise e dizer: "Não, isso era mesmo uma negação." Só que aquilo que eu sinto era mesmo, foi esperança.

Eu acho que não há mal nisso. Ajudou-te no processo, ou não?

Era aí que eu queria chegar à pergunta, porque depois quando cheguei a Alcoitão, estive ali, estávamos todos no mesmo barco. Até que há uma altura que começa o pessoal a ir de alta. E, por norma, as altas eram sempre à quinta ou à sexta-feira. E nós até fazíamos um jantar de despedida, aquele grupinho que estávamos ali. Mas eu nunca tive o dia de dizer assim: "Ah, ok, prepara-te que é isto." Mas o pessoal ia de alta e a minha consciência começou a pensar: "Ok."

Qualquer dia sou eu.

Ele vai de alta e está assim, está numa cadeira. Está melhor, eventualmente, do que quando teve o acidente, eu também recuperei muito do que quando tive o acidente. Mas aí a minha consciência começou mesmo a olhar para aquilo e pensar: "Ok, Sérgio, prepara-te". Não me lembro, posso estar a enganar-me a mim próprio, nunca tive aquela coisa do: "Mas espera aí, então mas eu não vinha aqui para andar?" Eu vi muitos casos desses lá em Alcoitão, mas eu nunca tive isso.

De revolta?

Eu volto a dizer, eu posso estar a enganar-me a mim próprio, mas eu acho que fui vendo as coisas e aos poucos fui vendo que qualquer dia sou eu que vou de alta, tenho de começar a preparar. Entretanto, já me tinham oferecido uma cadeira com os bombeiros, que eu fazia parte dos bombeiros, e faço, mas não pensem que os bombeiros são todos assim como eu.

Metes uma sirene aqui atrás e uma mangueira.

Na altura, juntaram-se e ofereceram-me a minha primeira cadeira e eu aceitava a situação.

Nunca tiveste essa revolta, aquelas questões que eu acho que é normal ter também do "por que eu?", "por que isto tinha que me acontecer?" e "o que vai ser da minha vida?" E por cima foi tão novo, não é? Com 21 anos.

Eu tive várias revoltas, mas nunca essa, em concretamente de me estar a julgar ou de me estar a culpar. Tive várias revoltas naquele processo, naquele primeiro ano, ano e meio, mas era mais de coisas que aconteciam à minha volta, que eu dantes poderia resolver e naquele momento eu não conseguia resolver. Isso sim. Mas nunca tive essa revolta do "por que eu?" Confesso que pus a culpa nalgumas situações do género "não era eu que tinha que lá estar", mas não era bem-

Tipo o destino.

Sim, era isso. Mas nunca tive essa revolta mesmo forte.

Dá-me a ideia que és um tipo pragmático.

Sim.

É o que é. E tentar fazer o melhor com o que se tem.

Foi uma adaptação. Aquilo que eu sou hoje, nestes 21, 22 anos, foi um processo. Eu tenho andado ao sabor daquilo que a vida me tem trazido. Eu quando fui para casa, eu fiquei fechado em casa, porque apesar de nós termos trocado de casa para eu ir para perto dos bombeiros, que era quem eu frequentava mais e os meus amigos dos bombeiros, mas eu não sabia lidar na rua. E depois uma coisa que nós temos, nós, a minha equipa.

A tua crew.

A minha crew. Uma coisa que nós temos é a primeira vez que vamos à rua, há o efeito de parece que está toda a gente a olhar para nós. Eu agora já não ligo a isso, mas naquela fase inicial era muito complicado.

Lembras-te bem disso, dessa sensação?

Principalmente quando era em sítios conhecidos, tipo ir ao café onde toda a gente tinha ouvido falar da história do Sérgio, que era bombeiro e que tinha tido um acidente. O Sérgio entra num café, pumba, tudo a olhar. As pessoas que vêm, atenção, as pessoas não fazem por mal. Depois as pessoas que vêm: "Muta força, não sei o quê. Eu sei o que isso é."

Exato. Disseram-te isso?

Ainda hoje dizem.

"Eu sei o que isso é."

Ainda hoje dizem, tipo: "Eu sei o que isso é." Depois é cenas do género.

E tu devias dizer: "Então explique-me como é que eu deixo de ser."

Eu tenho a piada disso que é, "eu sei o que isso é", é sempre uma comparação do género. Porque estamos a falar de acessibilidades, por norma, aparece uma mãe ou um pai. "Quando tinha a minha filha no carrinho de bebé, não sei o quê." E eu assim: "Ok, essa vou deixar, essa vou dar por barato." Mas há sempre alguém que: "Porra, uma vez parti um pé, pai, três meses com gesso, não sei o quê." "Ok, está bem, foi chato, eu não saía de casa. Sei lá, a comichão que me dava dentro da perna." "Olha, nesse plano, queixo eu."

Exatamente, tinhas comichão. Isso irritava-te ou ficavas naquela, "foda-se, outra vez"?

Nunca me irritou. Nalguns casos, eu já sei o que é que ali vai, tento despachar a conversa, mas tenho pessoas amigas que têm uma deficiência qualquer e não toleram já, principalmente pessoas que estão de nascença. Às vezes não toleram ou porque estão num dia mau, e não tem a ver com a deficiência, estão num dia mau como qualquer outra pessoa. Lá vem mais uma senhora. É que depois são comparações mesmo ridículas. Alguns que dizem: "Eu também estive assim." "Não, não estiveste. Se estiveste, não estavas assim." Aí alguma coisa, ou lá está, explica-me como é que isso foi, diz-me onde é que tu foste.

Eu imagino, quando estava a preparar a entrevista e estava-me a lembrar disso, é normal esse olhar das pessoas, porque as pessoas não estão habituadas, mas depois, às vezes as pessoas sem querer são inconvenientes. E tu sentias esse olhar, eu acredito, se calhar, até das pessoas mais velhas.

Mais velhas, sim. Das mais velhas.

E não tinhas aquela coisa, às vezes, de falar contigo como se fosse um bebê?

Sim, mas isso ainda hoje. O que eu mais gosto é de apanhar uma pessoa velha, até no supermercado, perguntar-me as coisas, o que é que aconteceu, não sei o quê. "Rapaz, estou novo." Ora aí está, boas palavras. Ainda dizem, ainda fazem isso, mas as pessoas mais velhas abordam mesmo como se fosse uma criança autêntica. "Então, jovem, o que é que lhe aconteceu?" Não sei o quê, não sei o que mais. Depois eu explico: "Que idade é que tem?" Ou "que idade é que tinha?" Por norma, é que idade, nem me perguntam a minha idade na altura. "Que idade é que tinha?" "Eu tinha 21." "Rapaz, estou novo." Até isto é um pouco ridículo, parece que estou a dizer à pessoa-

Se fosses mais velho.

"Se tivesse 30, se calhar a gente aceitava, agora 21, há coisas que não aceitamos."

Isso eu também tenho uma cena, um caso de stand-up, que é de explorar, que é a cena, mesma coisa, é o mais novo, ou quando alguém morre e que dizem: "Era tão bonito. Tinha uns olhos tão bonitos." Se fores um feio, meu, morre.

E pessoas em cadeira de rodas, que há sempre aquela conversa do: "Tão bonitinha." Acontece muito nas mulheres. "Tão bonitinha, pena que está numa cadeira de rodas." Dizem isto literalmente. Vou-te contar isto, já contei. A minha mãe já fez isso à minha frente. Estávamos em casa a ver uma amiga minha, por acaso, que era a Diana.

Mas tu já nesta condição?

Já. A minha mãe estava a ver, não sei o quê. "Ela é tão bonitinha, não sei o quê." Eu conheci essa rapariga, tinha conhecido essa rapariga também há pouco tempo, ela estava a dar uma entrevista qualquer na televisão. E a minha mãe disse uma coisa: "Ateninha, pena que está numa cadeira de rodas, assim uma coisa pequena." Eu nunca fiz esse tipo de coisa.

Olha, estás a dizer para a tua mãe.

Mas foi, acontece que sai natural nalgumas pessoas.

A Mafaldinha, sabes quem é?

Sei.

A Mafalda esteve cá No podcast, para mim, a melhor que ela contou é uma cena horrível, que ela diz que estava no Colombo, à porta do elevador, ela e uma amiga. Ela tem espinha bífida.

Espinha bífida?

Sim. É a que tem os ossos vidros.

Tem os ossos vidros, sim.

Ela era muito pequenininha. A Mafalda estava na sua cadeira de rodas e uma senhora olha para ela, ignora que a Mafalda está ali e diz assim: "Ai, que horror, mais vale que Deus Nosso Senhor a leve."

Pois, eu tenho um mito sobre isso.

E as pessoas falarem como se tu não estivesses lá.

Isso acontece muito. Estão atrás de nós. É o que eu estava a dizer. No início, quando eu estava naquela zona, quando morava lá na Póvoa, eu ia a sítios onde toda a gente me conhecia, onde toda a gente tinha ouvido falar da minha história ou uma coisa qualquer. Eu estava num lado qualquer e ouvia isso. "Olha, este foi o rapaz que ficou lá debaixo do teto em obra." Depois era aquela coisa do telefone estragado. "O pai faleceu e ele ficou..." Coisas assim. Mas ao ouvir a falar, que ia atrás, sei lá, no centro saúde.

E tu não te viravas?

Não, nunca fiz. Se calhar nunca me apanharam num dia mau, mas eu também não sei se tive dias maus a ponto de fazer isso. Eu tenho dias maus por outras situações, devido à minha situação, que me provocam, e eu na minha situação acabo por sofrer com elas, mas esses por acaso não.

O que é para ti um dia mau?

Olha, por um lado, aconteceu ainda esta semana, não foi dos piores, mas aconteceu na quarta-feira. Eu ia atuar à noite a um sítio que eu já lá fui atuar três vezes, com o Outurim. E nessa manhã eu vi um concerto de uma banda que estava perdida, que ia dar o concerto dos 30 anos, num sítio que eu não conhecia. A primeira coisa que eu fiz de manhã, ligar para o sítio e perguntei: "Isso é acesso à cadeira de rodas?" "Olhe, tem uns degraus, mas a gente ajudava a lá para cima." Eu disse: "Está fora de questão, porque a minha cadeira é elétrica e só a cadeira pesa 200 quilos." Depois até teve um amigo meu que me disse: "Não queres levar uma cadeira manual?" Eu não fico bem na cadeira manual e seria uma hora, uma hora e meia, onde eu ia estar mesmo mal.

Não ias estar a desfrutar.

E depois à noite fui atuar e o elevador do sítio estava avariado devido ao apagão. Repara, eu nesse dia tive, desde a parte do lazer à parte de trabalhar, que me estragou o dia. Não foi dos dias piores. Se calhar porque eu estava também preocupado com o frio e com a chuva, não foi dos dias piores. Mas imagina como num dia só eu fui barrado em duas situações diferentes. É o que eu estava a dizer, naquele dia, foi um dia mau, foi um dia péssimo, mas não fiquei assim tão revoltado por dentro. Vou contar uma história, aliás, não vale a pena contar as histórias. Às vezes, quando vamos apanhar o autocarro e dou de caras com um motorista que está a recusar literalmente a minha entrada, porque inventa uma data de histórias, não sei o quê. Isso arrebenta-me o dia. Porque uma coisa é eu chegar a um sítio, não fizeram e eventualmente não estão a ter vontade de fazer. Outra coisa é tu teres pessoas, carne e osso, que têm consciência e estão a fazer tudo para tu não seguires a tua vida, na prática é isso. E a última vez que isso me aconteceu, eu fiquei mesmo revoltado. Era uma semana que me estava a correr mesmo bem, foi quando comecei a organizar estas noites do "Interdito". Estava-me a correr super bem. Isto foi à sexta-feira. Eu fui a uma reunião sobre transportes adaptados. À hora de almoço eu tinha que ir para casa, vou apanhar o autocarro e deparo-me com uma situação, não vale a pena aqui relatar. E eu fiquei de rastos. Eu tive que ir para casa. Até depois fiz um vídeo, tive que desabafar, eu precisava mesmo tirar, ficou um nó tão grande na garganta, que eu digo-te uma coisa, eu fui para casa com a sensação de, eu hoje percebo algumas pessoas que não se conseguem controlar e partem, por exemplo, para a violência. Porque a raiva com que eu fiquei naquele momento, eu acho que se eu tivesse mobilidade, eu eventualmente perdia a cabeça, não tendo razão, porque acho que todos nós temos que controlar os sentimentos, mas eu fui para casa com um sentimento de raiva e eu tinha que fazer qualquer coisa, eu tinha que descarregar naquela pessoa ou no ato que aquela pessoa fez.

Os autocarros têm todos rampa, não?

Os autocarros, uma grande percentagem tem rampa. As rampas nos autocarros são ou elétricas ou manual. Neste caso, até era um autocarro de rampa manual. O que é que acontece?

O gajo tem que sair, não é? Tem que ali buscar a rampa.

Não, é uma rampa que está no próprio chão do autocarro, é um alçapão que abre e abre para fora. O próprio chão é um duplo chão, digamos assim. No caso das rampas elétricas, torna-se mais complicado porque elas vão-se avariando, as empresas demoram a fazer manutenção.

Isso é o que mais te revolta, não é? Pelo menos em toda esta dificuldade.

É porque é isso. Quando me perguntam o que é que me revolta, se eu estou revoltado com a minha situação. Eu vivia muito bem se não me colocassem obstáculos. Eu estou habituado à situação em que estou. Já sei que vou ter que comer de maneira diferente, já sei que vou ter que me preparar a comida de maneira diferente, já sei que tomo banho de outra maneira que não antes do acidente. Está tudo bem, está tudo certo para mim. Mas isso já é uma rotina que está fixa. Agora, eu não estou para estar ao final destes 20 anos sem saber se vou apanhar um autocarro, sem saber se vou conseguir entrar num restaurante, sem saber se o metro está a funcionar ou não. Eu preferia mil vezes que me dissessem: "Olha, não há autocarros."

Sim, mas tu adaptavas-te, já ias a contar com isso.

Eu sei que isto parece errado e é errado. Mas uma coisa era se eu saísse de casa a pensar: "Olha, autocarros não há." Pronto, está tudo bem, é para todos, não há para todos. Isso é que revolta mais, que é mais aquilo que nos colocam, e aqui eu acho que posso falar por todos que têm mobilidade condicionada. Revolta mais aquilo que nos colocam à volta do propriamente aquilo com que nós vivemos no dia a dia.

E por isso é que tu também fazes parte de uma associação, não é? Que trabalha para conscientizar. Porque a maior parte de nós não pensa nisso Porque não estamos nessa condição. Tu provavelmente até aos teus 21 anos nunca tinhas pensado nisso.

E olha que eu era bombeiro.

Exato.

E transportávamos muitas pessoas para fisioterapias ou para consultas, onde o que acontecia era: nós levávamos as pessoas, chegavas a um sítio, não havia passeio, a gente contornava, queríamos era deixar a pessoa na clínica. Quando eu tive o acidente e comecei a sair com os meus amigos bombeiros, eles próprios disseram que começaram a ter mais consciência quando nós saíamos juntos.

Esta merda é mesmo difícil.

Do que quando é, porque no dia a dia andar numa ambulância, "estaciona aí, mete num lado qualquer, vamos tirar a pessoa, ela passa ali por entre os carros, uma coisa qualquer." A andar comigo, como tínhamos que fazer a coisa mais certa, eles disseram mesmo muitas vezes: "Não tínhamos esta noção" e eu também não tinha na altura, porque foi na fase inicial que nós começámos.

Eu tenho uma curiosidade, que é essa rotina que tu tiveste que estabelecer, como é que a estabeleceste? Foste ensinado ou foi por intuição?

Mais intuição. Como eu estava a dizer, durante estes 20 anos, foram vários pontos da minha vida onde eu não me dedicava a nada, porque não sabia o que é que havia, então estava fechado em casa. Quando digo fechado em casa, é não sabia o que é que havia de fazer, se fosse pra rua. Sabia que se fosse pra rua, tinha medo que me acontecesse alguma coisa ou as pessoas estarem todas a olhar pra mim. Acho que só aí ao fim de três ou quatro anos é que comecei a aventurar-me mais, até porque os amigos também me foram buscar a casa. A desculpa à pergunta?

Tu estavas a dizer que foi mais intuição.

Sim, a minha adaptação tem sido assim, até que há cinco anos vim morar pra Lisboa e Lisboa é uma outra coisa diferente, que eu não sabia que ia ter. Ou seja, eu antes de ter vindo pra Lisboa, não sabia que ia ter essa mudança. Quando apareceu esta oportunidade, lá está, entrou o stand up na minha vida, entrou tudo isso que não estava a prever.

Eu vi um texto teu, a propósito de uma pergunta que fazem muitas vezes, que é do sexo.

Sim.

Tu escreveste um texto sobre isso. Foi por quê? Foi também numa ação de conscientização?

Poderá ter sido.

Eu lembro que tu disseste que perguntam muitas vezes, como é que é, e que tu disseste que é igual, mas melhor.

Sim, faço assim umas brincadeiras do género. Mas sim, o sexo é uma coisa que, já não são tão descarados, mas há perguntas. Por exemplo, eu conheço uma pessoa, vamos partir do princípio, uma mulher, e a certa altura, quando fazem a pergunta: "Posso fazer uma pergunta, não leves a mal?"

Já sabes o que é que é.

Eu não vou dizer palavrões, mas eu vou só dizer do género: "Faço, faço." Depois digo FF. Respondo mesmo. "Ah, não, não era isso." "Então pronto, sai."

Não inventas coisas?

Em que aspeto?

Sei lá, eu inventava histórias, que eu começava a dizer: "Eu não tenho pênis, é biônico."

Tem uma cena que é uma bomba, dá-se à bomba.

Controlas aqui com o meu telemóvel, tenho um app.

Pode ser engraçado.

Há casos assim, ou não? Eu tenho ideia que há.

Pelo que eu vi nos últimos anos, tu tens casos, mas que é a parte biônica?

Sim.

Ou com uma aplicação?

Com aplicação não, mas ou injeções, ou-

Não, isso há tratamentos. Tens o mais conhecido, que era o Viagra, que foi dos primeiros. Tens injeção no próprio pênis. E depois tens aquele que eu vou dizer que é considerado o último recurso, que é umas bombas, que é mesmo, mete-se lá dentro umas câmaras de ar.

Exatamente, e depois-

Depois, ali perto do testículo, dá-se à bomba.

Os tomates é a bomba.

Pelo que eu vi de vídeos, fica ali naquela zona.

É?

É. Fica mesmo, ou seja, perto dos testículos, fica lá mesmo uma bolsazinha, que aperta e depois tem um tubozinho que sai.

É tipo como as Nike, zero pump.

Exato, é isso. Estás a ver, um bom patrocínio pra fazer a cena peniana.

Pois é.

Patrocinado pela Reebok.

Mas eu acredito, os homens são parvos, se calhar os teus amigos são parvos quando começam nessas conversas. Mas as mulheres não são mais curiosas?

São. Não, mas as mulheres fazem muito pela curiosidade. E nem é pela curiosidade de "deixa-me eu responder e depois vou experimentá-lo." Nada disso. É mesmo uma curiosidade. Toda a gente tem curiosidade, mas é o que tu dizes, os homens têm uma curiosidade mais-

É parva.

Maléfica.

Sim, é a parvoíce.

Ainda não estão os poderes, já eles estão a dizer: "Então, mas como é que é? Tens que pôr umas pás, uma coisa." Cenas assim do género. As mulheres, por acaso, fazem mais pela curiosidade. E não querendo entrar muito em pormenor, que eu também percebi nos últimos anos. Houve uma coisa que eu aprendi na altura sobre a sexualidade, até foi um tetraplégico, que foi à televisão e ele disse: "Eu agora percebi que conheço muito mais." Isto acontece muito no homem. "Conheço mais do sexo agora do que conhecia antes," porque o homem básico é muito aquela coisa da penetração.

Sim, só temos aquela área de estimulação.

Não quer dizer que não hajam homens que já estão muito à vontade pra isso. A verdade é quando tu te encontras numa situação onde isso se perde, ou tiveste uma boa experiência antes e já és uma pessoa de mente aberta, ou tens que fazer uma mente aberta naquele momento, tipo: "Ok, vamos aqui explorar o que é que há." "O que é isto? Estás a pôr uma coisa nas orelhas. Olá!" Percebes?

Sim, mas é engraçado. Isso tens razão, realmente.

Pronto, eu no meu caso fui obrigado. Houve situações de amigos meus, de paraplégicos, ou seja, só da cintura pra baixo. Nós em Alcôa então, partilhávamos muito esse tipo de experiências, onde eles nem sequer aceitavam. Vinham: "Não senti nada, não sei o quê." Repara, eles têm metade do corpo que poderiam explorar, mas as primeiras experiências foi tipo: "Não senti nada, não sei o quê, que não correu bem." Pronto, depois há ali um processo.

Exato, mas realmente é curioso, isso que estás a dizer, faz muito sentido. Tendo em conta as limitações da condição, tu acabas por descobrir coisas novas.

Sim, eu descobri. No meu caso foi. Lá está, se calhar eu podia ter descoberto antes e não houve essa exploração até aos 21 anos, não houve essa exploração.

Sim.

Mas sim.

E tu descobriste coisas novas sobre ti também, em termos de resiliência, modo de pensar, de viver?

Eu mudei muito. Eu fui uma pessoa que mudei muito. Não quer dizer que eu pensasse mal antes do acidente, mas sei que eu tinha um pensar mais reativo antes do acidente. Era uma pessoa comum.

Com 21 anos também.

Era uma pessoa comum. Naquela altura era comum tu estares a dizer o que te viesse à cabeça sem pensar e sem ponderar. Não foi logo assim que eu mudei. Foi para aí, se calhar, ao final de 10 anos, até quando comecei a conhecer também a luta das pessoas com deficiência em Portugal, quando comecei a analisar melhor, a perceber como é que devíamos fazer a luta, porque é que as coisas não são feitas de uma maneira e são de outra. Aí eu comecei a abrir muito mais a minha consciência e a ponderar muito mais as minhas perguntas. Aliás, as minhas perguntas para obter respostas.

Sim.

Até porque eu tenho uma coisa, e sei que isto passa muitas vezes, as minhas perguntas são todas de advogado do diabo.

Do género?

Não vou entrar aqui em cenas de política, mas eu tanto coloco questões contraditórias a um gajo de direita como estou a fazer ao de esquerda. Mas eu não estou a dizer àquela pessoa de esquerda-

Não estás a acusá-la. São perguntas genuínas.

É mesmo.

Porque é que isto é assim?

Há perguntas que nós não temos respostas, mas eu gosto. Por exemplo, eu posso fazer uma pergunta que eu não tenho resposta. Tu vais me dar a tua resposta. E eu vou pensar nessa resposta, até pode vir a ser a minha, mas só estou mesmo a fazer pela curiosidade. E eu faço esse tipo de questões pra todo lado.

Sim.

E isso mudou muito a minha maneira de observar as coisas.

E de relacionamento com os outros, provavelmente.

Bastou eu perceber que, se calhar, eu antes olhava pra alguém, nunca aconteceu, mas imagina que eu olhava pra alguém em cadeira de rodas e que estava se a queixar de falta de acessos. Eu, se calhar, era aquela pessoa do: "Vais à volta, tens um corrimão ali a 500 metros, custa tal uma coisa". Percebes? Isso fez uma abertura não só pra deficiência, acabei por perceber mais a maneira de pensar de cada pessoa.

Sim. E a tua saúde mental, como é que tem estado ao longo destes anos todos?

Altos e baixos.

Tiveste de procurar ajuda alguma vez?

Eu vou dizer isto e aos anos que digo isto. A ajuda vem sempre ter comigo, ou seja, tive a necessidade de ter um psicólogo e psiquiatra no processo do acidente. Nós fugimos àquele psicólogo, na altura, lá de Alcoitão, e o próprio Alcoitão sabia, porque ele era muito invasivo. Ele é que nos vinha buscar, era uma coisa muito forçada. Depois, mais tarde, tive outra situação que eu tive que ser tratado por uma equipa de enfermagem, em que ele estava todo incluído, médico, enfermagem e a psicóloga. Foi numa altura que eu estive muito fechado em casa por causa de uma situação que eu tive. Então aquilo funciona como equipa, então o processo passava por ali. Tive uma psicóloga que deu mal ao fim de três sessões, mas eu estava muito bem. Aliás, ela até foi chamada porque pensavam que eu, por estar fechado em casa, eu é que me estava a isolar.

Sim.

Foi mais denúncia do que propriamente eu à procura.

Sim.

E agora nos últimos dois anos, fui eu à procura, indicaram-me uma psicóloga. Só que eu não consigo, eu tenho muita pena disso, eu ainda não encontrei um atendimento que me diga assim: "Ok, isto está-me a fazer bem". Eu peço desculpa aos psicólogos, não estou a conseguir. Já tive uns quatro, cinco.

Eu tive quatro antes de chegar ao meu.

Eu respeito muito.

Tens que criar uma empatia, é normal. Tem que haver uma ligação com o psicólogo. Há muita malta que diz isso assim, quando eu pergunto: "Já foste ao psicólogo?" "Fui, mas não gostei."

Não é nada, é não gostei, mas é no sentido de-

Sim, às vezes não crias essa empatia, não crias essa ligação. A minha mulher também. A minha mulher já teve também, sei lá, dois, três psicólogos. Teve psicólogos com quem se dava melhor, mas que não sentia grandes benefícios, outros que não entendia muito bem o processo. Até encontrar um que é o mais recente agora e que diz que gosta, que gosta de conversar. Eu acho que isso faz todo sentido. Tens que criar essa ligação, essa empatia.

Eu noto, e nós lá em Alcoitão falávamos sobre isso. Nós em Alcoitão, ao final do dia, só para teres uma ideia, eu fui para Alcoitão em setembro e saí em maio. E nós ao final do dia, jantávamos, não sei o quê, depois íamos pra porta, o pessoal que fumava ia fumar, íamos pra porta e ficávamos ali numa roda, chegávamos a estar aos 15, aos 20. Por norma, sempre que entrava alguém novo, era aquela coisa: "Está tudo bem? O que é que te aconteceu? É pra isso que a gente está aqui." E aquelas conversas que nós tínhamos ali e a partilha de experiências, nós mesmo comentávamos, toda a gente dizia: "Isto sabe-nos muito melhor a nós, este tipo de conversa de terapia de grupo, do que propriamente andarmos a fugir do nós íamos lá tal, ao doutor". E eu sentia-me sempre muito bem assim. Eu sempre me senti bem a falar. E eu sou um tagarela do caraças, que eu tenho essa noção. A última vez que eu tive com uma psicóloga foi isso, eu estava a falar, não sei o quê, eu sabia que a consulta era 45 a 50 minutos. E do nada ela começa a fazer perguntas, e eu assim: "Ok, não é isto", porque eu sentia ali um aperto que eu pensava que ia falar e que ia, se calhar, só falar. Ao fim de meia hora, ela começou a fazer questões, eu disse: "Não, não é isto". E é o trabalho dela e está tudo certo, eu não estou a pôr em causa.

Tu fizeste amigos em Alcoitão ou não?

Sim. Tenho um que é com quem eu falo há mais tempo, que é o Bruno, que é de Beja. Nós até fizemos uma coisa enquanto lá estávamos, que nós íamos a casa aos fins de semana. Só que só íamos 15 em 15 dias. Tipo 15 em 15 dias íamos a casa, no outro fim de semana ficávamos lá. Então sincronizávamos os fins de semana, que era pra depois um não ir de fim de semana a casa e o outro ficar lá sozinho em Alcoitão.

Sim.

Mas tenho mais, mas o Bruno é com quem eu-

E o Bruno foi o que? Acidente de carro?

Não, o Bruno foi mergulho.

Mergulho?

Sim, há muitos casos.

Pois é, piscinas.

Mergulho mais em praias. Aliás, não sei o que é que diz estatisticamente, mas os casos que eu conheci foi mais em praias. E são coisas banais. Imagina, tu ires a correr dentro de água e tu estás a afundar. Só que depois há um banco de areia, mas tu já estás com a água pela cintura e acabas aí. Depois há uma rocha, há um banco de areia. É aí que acontece mais. Todos os que eu conheci, aliás, a maioria dos que eu conheci foi mergulhos.

Olha, telhados já é capaz de não haver muitos.

Eu devo estar ali numa estatística de eu fui o primeiro. Tenho que ir fazer uma pesquisa sobre isso. Se aparecer um segundo, é similar.

Calma. Tu nunca te aproveitaste da tua condição?

Em que aspeto?

Às vezes, choradinho.

Sim, eu tenho uma história, agora já não faço muito, mas quando era alguém que não me conhecia de todo: "O que é que te aconteceu?" Um dia eu saí de casa, estava no passeio, vejo duas senhoras a olhar para cima de uma árvore e estava lá um gatinho pequenino. Eu subi à árvore para ir buscar o gato, só desequilibrei-me, caí baixo em cima de um carro, só acordei no hospital e as pessoas começam a ficar tipo coisa. Depois eu digo: "Passado dois meses, as senhoras até me levaram o gato ao hospital e ainda hoje o tenho." As pessoas ficam num misto de "o que é que te aconteceu? Mas foi fofinho." Depois eu digo: "É mentira, não foi isso que me aconteceu, o que aconteceu foi um teto que caiu em cima." Mas costumo fazer este tipo de história.

Eu conheço o Nuno, que era presidente do surf adaptado.

O Vitorino.

O Vitorino.

Sim.

O Vitorino também, quando o conheci, inventava histórias. Depois eu percebi, ele comigo inventou uma história, depois conheceu outra pessoa, inventou outra história e eu comecei a dizer: "Espera aí, não foi isto que o gajo me contou."

Não, agora já não posso fazer isso porque praticamente é um bocado público. Mas se eu agora apanhar um gajo que fica tetraplégico ou paraplégico recente, eu digo: "A partir de agora, tu vais é arranjar uma história para todos os contos."

A tua entrada no stand-up comedy acontece por quê?

Olha, acontece.

Porque tu já tinhas essa-

Eu já escrevia no Facebook, na altura, coisas engraçadas, comecei a escrever. E havia sempre aquelas pessoas que diziam: "Tu devias fazer stand-up." Mas aquela brincadeira do stand-up comigo, toda vez mais: "Isso não é stand-up." "Não, é outra coisa."

É sit-down.

Ya. Claro que eu era da geração que via o "Levanta te e Ri", por aí a fora. Quando vim para Lisboa e depois meteu-se a pandemia, apareceu um curso online. Pensei: "Ok, vai disto." Depois o rapaz foi o Diogo Paixão. Lembro ali as primeiras aulas, foi ele que me chamou para os primeiros espetáculos. Foi assim. Lá está, depois tive a situação de ir para o programa do Bruno. Do "Tabu", que foi uma sorte eu ter sido escolhido na altura. Digo que foi uma sorte porque eu recebi mensagens e pensei: "Depois vejo isto." Depois é que houve um telefonema para outro sítio onde eu ouvi do telefone a dizer: "Gente, eu estou a falar com o Sérgio, mas ele não respondeu." E eu assim: "Como é?" Fui para casa, porque eu não sabia o que era. Mas esse programa acabou por me dar visibilidade fora daqui das ruazinhas e dos cafés. Nunca foi aquela coisa do "eu vou fazer isto."

Tu já fazias piadas e muitas piadas com a tua condição.

Sim.

E por que fazes essas piadas? Por alívio ou para ver o desconforto nas pessoas?

Eu não sei, eu dei por mim a fazer. As pessoas perguntam se o humor apareceu depois. Não foi. Se perguntarem aos meus amigos antes do acidente, eu sempre fui o palhacinho do grupo, mas era o palhacinho de fazer coisas, principalmente se me dessem dois copos de uísque, chapéu, estava feita a noite. Eu aqui admito uma coisa, quando eu tive o acidente, eu admito que usei o humor para tranquilizar quem me rodava. Isso tenho a certeza.

Faz sentido.

Vinham me visitar ao hospital, eu fazia piadas sem eu saber qual é que ia ser a minha condição. Eu fiz muita piada. A primeira vez que eu fui a casa, bateu nos anos do meu pai e os anos de um amigo meu. Eu fui a casa dois meses depois de ter tido o acidente. E fiz uma surpresa, os meus amigos dos bombeiros, só duas ou três pessoas é que sabiam, e que foi tipo um choque de eu estar a aparecer, comparando, não comparando, está um vídeo no YouTube que é do Christopher Reeve, quando ele aparece a primeira vez numa sessão dos Oscars. Que é isso, é aquele impacto. Tu conheces uma pessoa normativa, tudo bem, de momento para outra aparece-

É para tirar peso da situação.

E o que me aconteceu, fiz isso. Fiz muitas piadas que admito que era para quebrar o gelo.

Sim, eu acho que faz sentido. Não tanto para ti, de tu te aliviares também, se calhar mais no início.

Foi para aliviar aquela tensão. Era para aliviar aquela tensão. Não por mim. Não quer dizer que depois iam-se embora e eu ficava. Não era nada disso. Mas eu sentia que não pode haver esta tensão. Havia pessoas que me conheciam desde miúdo, que eu sabia que vinham e que vinham logo com um nó na garganta, que nem conseguiam dizer uma palavra, que também me comovea a mim, mas eu tentava sempre desbloquear isso.

Eu tenho tendência para fazer isso em velórios.

Mas isso é ótimo.

Em velórios. Ainda há pouco tempo, de uma querida amiga minha que o pai faleceu. Eu fui à casa dela e sabes que eu vou já com esse espírito de missão, de vou tentar, de alguma maneira, dentro da possibilidade, aliviar um bocadinho a tensão. Só que às vezes começam-me a sair merdas da boca. Que eu depois fico assim e a Catarina abre-me os olhos

Esta foi de mais.

Sim, às vezes acontece. O único em que eu estive completamente à vontade para dizer o que quero que fosse, foi no velório do meu pai e da minha mãe. Aí ninguém me podia dizer nada.

A não ser um familiar mais próximo. Uma tia que era irmã, uma coisa qualquer. "Ah, estás a atual lado."

Mas sabes que a minha família, os tios mais velhos também não jogam com o baralho todo.

O meu pai depois faleceu, quando eu fiz 40 anos, ou seja, eu tinha 39 quando eu fiz 40 anos. Fizeram-me uma festa surpresa de pessoas que eu não sabia que iam estar e houve uma altura que disseram assim: "Ainda temos uma surpresa para ti." O pai vem aí. Eu até falei baixinho, porque a minha mãe estava nesse almoço e eu falei: "Não tinhas que trazer o meu pai."

Eu disse essa merda na Júlia, no programa da Júlia, porque eu fui lá falar da minha mãe, da minha vida e a Júlia a puxar pela conversa da minha mãe, não sei o quê. Eles têm os convidados que aparecem, os amigos. E ela começa a dizer: "Há aqui uma pessoa que vai entrar, que gosta muito de ti. Sabes quem é?" E eu: "Já estás." Se fosse a minha mãe, era do caraças. Só ouves mal estar no estúdio, os câmeras. E é engraçado, porque é isso, eu não estou a sentir dor naquele momento, mas não sei, há qualquer coisa que nos leva para desconstruir aquilo.

Isto que eu vou dizer, eu sei que isto pode ser muito estranho. Eu detesto, é a maneira como muitas pessoas encontram. Aquela coisa da pessoa sair chorar para as redes sociais. Eu não consigo olhar para aquilo como genuíno. Eu não estou a julgar as pessoas, cada pessoa gera à sua maneira. Eu não consigo olhar para aquilo. Se fizerem só aquela publicação "Faleceu, meu pai, minha mãe," está feito. Custa-me um bocado isso. Estou a falar do meu pai, que foi a coisa mais recente. Mas eu penso sim no meu pai.

Tens um irmão?

Tenho um irmão mais velho, cinco anos. É claro que eu penso no meu pai quando tenho que pensar. Claro que tenho os momentos que fico mais nostálgico a pensar nele.

Não fazes aqueles posts a dizer: "Cinco anos de tua saudade."

A única publicação que fiz dele foi quando ele faleceu, foi quase mais para informar e nem fiz no dia, fiz dois dias, ou seja, ele faleceu tipo uma quarta, o funeral foi à sexta, fiz uma dedicatória do dia a seguir e nunca mais toquei naquilo.

Eu também tento, de alguma maneira, quando faço, por alguma razão, tento puxar para cima. E mesmo as partilhas que eu faço em relação à saúde mental, às minhas questões com a perturbação obsessivo-compulsiva e ansiedade, eu faço sempre a ressalva "Malta, isto não é um choro daquilo, é uma partilha, porque se eu estou a sentir isto, se calhar mais alguém está a sentir e pode ser porreiro." Mas às vezes "Malta, estou bem, muita força." Eu percebo, mas não é esse o objetivo. Eu estou bem. Eu estou a escrever aquilo, mas estou bem.

Uma coisa que eu nunca faço nas redes sociais, são duas numa, é dar os parabéns naquela publicação geral. Vejo que a pessoa faz anos, mando uma mensagem privada. "Parabéns." E quando é falecimento de alguém. Nunca vou àquela coisa, à publicação da fotografia preta. Vou à pessoa, mando uma mensagem, a pessoa eventualmente vai ver daqui a dois, três dias, porque está numa fase que, se calhar, vai receber dezenas de mensagens e mando particular. As outras não precisam de saber que eu fui lá dizer. E aquela pessoa, sim, vale o que vale a minha observação, está me a faltar a palavra, mas pronto, faço isso em privado. "Parabéns," não sei o quê. Em privado, os meus sentimentos, está feito. Não vale a pena estar com muito discurso.

Quando tu fazes os espetáculos de stand-up, ou nem entrando no stand-up, já tiveste malta que levou mal as tuas piadas? Pode ser não ser de amigos.

Nas redes sociais.

Claro. A dizer que tem um filho nessas condições.

"O meu filho morreu, não sei do quê." Nem é por aí. Eu tenho uma piada, posso dizê-la, que é a piada da sexualidade. Uma mulher quando tem um orgasmo equivalente a X votos, e eu digo: "Não só dou uma, como ainda carrego a cadeira." Esta piada, este vídeo foi de uma atuação que eu fiz no Crivo, o Crivo publicou aquilo, foi parar ao Facebook há pouco tempo, fui ver. 300 e tal comentários. Muita gente a dizer: "Aí, bom, ainda bem, pessoas que se riem da própria condição." Por acaso, até tenho aqui um print de umas quantas. Eu estou do gênero. "É bom é que não te carrego aos miolos." Coisas assim do gênero. "É pena, não te carrego às pernas." Depois há pessoas a dizer: "Muito bom." E depois há pessoas a comentar essas pessoas: "Muito bom o que? Isto não tem piada nenhuma."

Por que achas que há pessoas que não têm essa capacidade de se rir?

Para mim, essas pessoas não têm capacidade não de rir só naquela situação, mas em todas. São pessoas que estão negativas com a vida. São aquelas pessoas que já vão ao café, que foram mal atendidas ontem, no dia a seguir elas já vão para fazer confusão. Sabes onde eu quero chegar? São pessoas que, para mim, estão muito mal resolvidas.

Eu há uns anos, estava a ler umas coisas sobre humor e a própria filosofia diz que o humor depende muito mais de quem o recebe do que quem o faz.

Claro.

Portanto, por isso é que uma piada, seja de humor negro, ou seja o que for, tem todo o tipo de reações. Tem gente que acha muita piada e tem gente que não gosta, muitas vezes, porque se identifica de alguma maneira, porque está a pensar num caso que é mói ou faz recordar um caso assim, ou whatever, ou é isso, ou é muito negativa. Eu também noutro dia fiz, o que é que foi? Eu não sei se foi, pus uma foto, eu já sabia que ia dar merda, mas às vezes também meto só porque já sei que vai dar merda. No dia do pai, pus uma foto de eu almoçar com a urna do meu pai. Disse: "Fui almoçar com o meu pai."

Sim, eu vi.

"Fui almoçar com o meu pai."

Está ótimo.

Pronto, só isto. E muita malta a rir, mas outras completamente escandalizadas. E é curioso, porque eu quando não gosto de uma piada, faço aquilo que provavelmente tu também fazes. Pronto, sigo, vou pra frente ou não fico preso a pensar: "Por que este gajo fez isto? Que vergonha!" Não, sigo.

Quando eu comecei a fazer stand-up, eu sabia que poderia chatear pessoas com deficiência.

Pois, e tiveste isso?

Tive, tenho alguns. Agora, se calhar, já não tanto, já aceitaram. Mas isto por quê? Porque eu sei que aquilo que eu faço, em muitos casos, é capacitismo, por aí fora. Mas é humor. Eu sempre defendi o humor, é humor. Não quer dizer que é aquilo que eu vou fazer, e depois eu tento fazer a cena na primeira pessoa.

Claro.

Sempre fazendo na primeira pessoa.

Isso é legítimo também muito e protesto.

Mas eu também sei que para algumas pessoas que não têm o mínimo de organização da cabeça, também sei que as pessoas olham pra mim a fazer piadas e depois pegam naquela piada e brotam por aí afora a fazer a mesma coisa, porque acham que todas as pessoas com deficiência têm relação com aquela piada que eu fiz. Mas isso é um problema do receptor. Agora, a piada, quando eu faço, não é para ofender ninguém. Muitas delas não têm um pingo de verdade, têm ali uma promissazinha qualquer, e depois a gente desenvolve o resto.

O objetivo é fazer rir, não é desconstruir.

Tive o meu medo no início, mas depois foi a segunda fase de aprovação, depois de ter sido os comediantes a aceitarem, a minha segunda fase de aprovação foi amigos meus, em cadeira de rodas, que gostavam daquilo. Eu disse: "Ok, é só isso que eu preciso."

Eu ouvi falar de uma cena, e por acaso nunca tinha pensado, quer dizer, não me estava a lembrar disso, mas faz sentido que, se calhar, há gente que lida com condições, seja tetraplégico, paraplégico ou whatever, mas que se calhar não acha piada, porque coloca em causa também o modo como eles levam a vida.

Pronto.

Que é legítimo, não é? Cada um leva a vida como quer e como acha.

Esta defesa de alguém me dizer assim: "Sérgio, isso que tu estás a fazer, está a passar uma má imagem para o outro lado." Mas a culpa não é minha, a culpa é do receptor. Eu sei que isto acontece, eu sei que aquilo que eu faço, eu sei que há algumas piadas mais abusadas, que eu sei que, dependendo do receptor, o receptor pode depois andar a ir ter com outro qualquer e dizer: "Não sentes o corpo, podemos entrar aqui."

Ou então dizer assim: "Olha o que este teu amigo também tem o mesmo problema que tu anda a fazer."

Isso é um outro problema. Eu passei por isso, eu passei por estar em casa. Quando nós falamos da superação, das pessoas com a alta visão, fazer aquela-

Sim.

A maioria das pessoas com deficiência é contra esse tipo de discurso, por quê? Não tem a ver com aquela pessoa que foi fazer a entrevista.

Mas coloca em causa o que os outros estão a fazer.

Eu tive isso em casa. Aquele momento em que eu estive fechado em casa, eu tinha o meu pai a bombardear-me. Eu não fazia por mal, atenção. Eu tinha o meu pai mesmo a bombardear-me do gênero: " Olha, já viste aquele? Olha, aquele faz isto, faz aquilo, não sei o quê." Aquilo ainda fez-me pior, porque era aquela mensagem do gênero, indiretamente, o que estão a dizer? "Aquele faz tudo, está como tu e tu não fazes nada." E isto é péssimo pra uma pessoa com deficiência, isto acontece muito. E é só por isso que essa mensagem tem que ser moderada. Por isso é que eu critico muito quando vêm com a conversa da superação, e não sei o quê. "Ei, Sérgio, tu voltas todos os dias às 07:00 AM."

Isso é como a malta que está com uma depressão e alguém diz: "Não estejas assim, vai fazer desporto, vai apanhar sol."

"Lê este livro."

Por alguma razão.

"Lê este livro."

Exato, "lê este livro."

"Lê esse livro."

Eu não sei se isto é mito ou não, mas eu já ouvi dizer que na comunidade de pessoas que estão em cadeira de rodas, há uma disputa de quem é que tem as piores condições e ficam um bocado com inveja se alguém que tem uma condição menos complicada, que se destaque mais.

Certo.

Tipo, "este gajo só lhe falta uma perna, e olha aquele que não consegue andar, e não sei o quê." Isso é verdade?

Eu atualmente não tenho essa disputa, mas em Alcoitão era ver quem é que saía de lá melhorzinho. Isso havia, mas era saudável.

Pronto, aí era saudável, sim.

Agora, cá fora, nunca olhei. Aliás, uma das coisas que faço é quando sei de alguém que ficou na mesma condição que eu. Eu tento dar uma força do gênero. Os meus discursos quando me chamam pra eu ir falar com alguém com deficiência ou que fique na minha situação é: "Prepara-te que isto não vai ser fácil, mas não morre aqui. Mas prepara-te que isto não vai ser nada fácil." Não fui fazer o discurso ao contrário, e tudo que vier acima é bom.

Exato.

Porque do que estar a fazer, como muitas vezes fizeram comigo, "olha, aquilo faz isto, olha aquilo faz aquilo." Eu quando tive o acidente era: "Devias montar uma associação." Se todas as pessoas com tetraplegia entrassem nessa associação.

Depois só havia uma pessoa nessa associação que era o gajo que a tinha criado.

"Sou eu, então e os outros? Então os outros fizeram as deles."

Exato.

E esse discurso, eu, por exemplo, já não critico tanto. E depois há o tal problema, que tens visto também, que é os atores. Quando aparece uma peça que é uma pessoa que vai estar em cadeira de rodas. Já não critico tanto. Eu só critico é o mau trabalho que na prática vão dar.

Ok.

Nem é o ator. O ator deram-lhe o papel e disseram: "Tu aí episódio 50 vais voltar a andar." É, sério? Não conseguem perceber que aquilo não funciona. Não é assim que funciona.

Na história até faria mais sentido exatamente.

Dá-lhe outra coisa qualquer. Exato. Mas atenção que esse contrário também tem outro problema.

Também pode tirar a esperança.

Não. O pôr alguém numa cadeira de rodas era sempre a pessoa lá má da fita E isso também foi um problema.

Pois é.

Nós até temos uma piada.

Tens razão.

A Alexandra Lencastre volta e meia estava numa cadeira de rodas quando fazia papel de...

Pois é, é verdade.

Portanto, isso é outro problema. Ou colocas uma pessoa numa cadeira de rodas.

Com um gato. "Só Mr. Bond, we meet again."

Ou coloca uma pessoa incapacitada, porque é a pessoa má, ou então a pessoa boa que começa incapacitada, mais tarde ou mais cedo.

Volta a andar.

Nós temos o caso da Sic, que está ótimo.

Qual? Ah, pois é, o Catarreiro. Pois é, ele estava numa cadeira de rodas e eu vi num episódio agora estava a andar.

Agora como é por temporadas, tu nem sabes quando é que.

Quando é que ele começou.

Quando é que é a primeira temporada, na segunda já depois. Por exemplo, aconteceu uma situação, que eu acho que foi exagerado, que houve um personagem que disse qualquer coisa, que era o padrasto dele ou uma coisa na novela que disse: "Este entrevado," ou não sei o quê, e isso apareceu e houve muita gente a criticar. "Não sei o quê, isso não se usa." Mas aquilo foi tirado do contexto, porque aquela pessoa que faz papel de má, pode dizer aquilo.

Claro.

Se eles usassem aquele termo. Se eles usassem aquele termo todo: "Estás entrevadinho, como é que tu estás?" Não, isso não. Agora aquela personagem faz sentido que diga aquele palavreado. Temos é que pensar, não podemos só olhar para um texto escrito, mas quem é que disse isto? Uma coisa assim do gênero. Então acho que aquela coisa do capacitismo está-se a chegar a um extremo que é prejudicial, mas isso é como todas as lutas. Às vezes entramos no extremo que depois vira-se contra nós.

Exato. Há um ator que fez uma série que é "O Silo", é uma série de ficção científica da HBO, no Max. E é um ator que está numa cadeira de rodas elétrica, aquilo é num futuro distante. E a minha mulher é que me disse: "Olha, este tipo é mesmo..." Não sei se é paraplégico ou tetraplégico, não sei. Mas ela a dizer-me assim: "Opa, a primeira vez que o vi, eu pensei: "Epá, este gajo está a fazer muito bem este papel."

Mas vá lá ver, este estudou mesmo. Será que ele pediu para lhe desligarem o corpo?

Epá, o gajo está a fazer muito bem a cena. E depois diz que foi ler e percebeu que não.

Eu reparei nisso no Avatar, no primeiro. O mecânico que faz o avatar, ele estava paraplégico. A maneira como ele passa as pernas para aquelas macas que eles entravam para entrar lá na outra. Aquilo está muito bem feito. Tens outra que também me marcou muito, que é "O Mar Adentro," do Ramón Sampedro. O personagem tinha ali "n" pormenores, que aos olhos dos comuns não reparam, mas ele tinha ali "n" pormenores de um tetraplégico naquela beda.

Eu imagino quando tu vês cenas muito más. Deve ser do gênero: "Ei, foda-se!"

Eu por acaso não vi essa coisa do João Catarreiro, só percebi que ele teve um problema qualquer, nem sei qual é que era a lesão, e lá está. E o problema dele até podia ser um problema reversível. Epá, mas inventem outra coisa, sei lá. É que ele de um momento para o outro. É que ele estava numa postura na cadeira, que era uma coisa quase paralisia cerebral. E agora, passa para a segunda temporada e está ali. Rigido e contente, a fazer fisioterapia só, ocupar espaço lá nas Marquesas e está feito. Acho que esse tipo de coisas a nível dos guiões deviam aprofundar um pouco mais e perceber que isso não faz sentido, porque lá está, tem a ver com o recetor. Eu estou-me a borrifar com aquilo que fizeram no papel. Se as pessoas estão em casa, quantas pessoas estão a pensar que aquilo é um ponto de esperança? Os atores às vezes fazem um papel mal e no dia a seguir todas as pessoas na rua: "Você não presta para nada." Estava só a representar um papel.

É mesmo. Há pouco nós estávamos a falar disso aqui antes do podcast. Eu vi essa reportagem do rapaz tetraplégico que vai recorrer à eutanásia. E eu quando ouvi essa história fez-me pensar em ti e outras pessoas que eu conheço. Cada um tem a sua história, mas eu acredito que consigas compreender a história dele.

Para já, eu li mais do que eu vi da entrevista. Ele deu mais do que uma entrevista, ele deu logo ali umas duas ou três naquele momento. Eu até sou uma pessoa que acho que qualquer pessoa tem a liberdade, não é chegar ao médico e dizer: "Doutor, dê-me aqui uma injeção que eu hoje está-me a doer os pés e se calhar vamos a isso." Não é isso. Mas acho que todos nós devemos ter essa liberdade de um dia pensarmos que não estamos bem e se calhar termos um acompanhamento. Esse acompanhamento pode nos fazer virar, mudar a opinião. Tal e qual no caso dele, não sei como é que está mesmo o estado de espírito dele. Aparenta que quer mesmo avançar e está tudo bem. Portanto, eu sou essa pessoa que acho que todas as pessoas deviam ter o poder da decisão de dizer assim: "Está feito, não quero mais." Portanto, analisem como é que eu estou, se isto é mesmo um problema que eu tenho psicológico ou não, eu estou mesmo farto de estar cá. A história dele, ainda por cima, as linhas que eu li, percebo perfeitamente. Ele acha que já realizou tudo, ele está com medo do futuro, que a vida não lhe dá a perspectiva de melhoras, por mais que se prometa, não lhe dá a perspectiva de melhoras, e ele está com medo de uma coisa que ele não quer atingir. E então por isso decidiu isto.

Sim. Lá está, tu estando de fora, não consegues perceber o que a pessoa...

Há bocadinho estava a falar do Ramón Sampedro. Aquele filme foi elogiado, foram buscar todas as informações da própria pessoa quando fez a eutanásia. Há uma parte do filme em que o Ramón, neste caso o ator, começa a envolver-se, a apaixonar-se por uma pessoa que estava muito perto dele. Não aquela pessoa que estava mesmo perto dele, mas uma outra pessoa que apareceu. E no filme nota-se que ele estava mais virado para ali. Até que ele descobre que aquela pessoa está noutra E então ele volta outra vez a falar de eutanásia. Ninguém fala sobre isso, mas eu olho para aquilo e penso: tu podes estar num momento da vida em que pensas "ok, é isto", mas a qualquer momento podes ter uma esperança que te diga assim: "olha, tu estás a querer ir por causa desta situação, mas temos solução para isso." E eu quero acreditar que o que se passou com o Ramón Sampedro, apesar de ele ter estado anos a lutar pela eutanásia, o que ele fez foi um autosuicídio.

Um autoeutanásia.

Porque aquilo foi uma preparação, ninguém sabe o que é que aconteceu, que ele depois acabou por escrever. Até vão tentar acusar os amigos. Mas aquele filme espelha que a pessoa independentemente de estar numa fase da vida que não quer estar cá mais, pode haver qualquer coisa que mude. Foi isso que eu reparei nessa parte do filme. O Ricardo, para mim, é tentar percebê-lo. Quero acreditar que ele tem tido muitas conversas com a família, com todas as pessoas que estão à volta dele.

Mas lá está, tendo filhos.

Pois.

Mulher. Ele falava da questão de não poder brincar com os filhos. Eu percebo e não percebo, mas lá está, não sou eu que estou nessa condição.

Exato. Eu vi comentários nas páginas quando aparecia qualquer coisa. "Não sei o quê, um egoísta, não sei quê." E eu fiz um comentário em uma assim: "o bom desta entrevista é que ele não pediu a vossa opinião." É isso.

É difícil.

Não vale a pena andarmos aqui com coisas, é deixá-lo estar. Se ele achar que é isso, ele pode vir a mudar de ideias ou não, e temos que aceitar esse caso. Lá está, ele está a ter um processo, já decidiu a data, já sabe que vai ser não sei quando, não sei há quanto tempo é que ele já tomou essa decisão e tem a data marcada. Até lá.

Não sei se ele for benfiquista, se o Benfica for campeão, pode ser que mude de ideias.

Se ganhar o europeu?

Isso já não vale.

Não, este ano eu não vi a data que ele tinha decidido.

Não sei.

Lá está. Era fazer chegar esse vídeo ao Benfica e dizer: "meus amigos, ou trabalham a sério ou então este menino...

Se aceitar o Benfica, o Ricardo.

Está nas vossas mãos. Aceito que as pessoas tenham sempre fui muito... Lá está, tive uma fase da vida que se calhar eu pensava disto ao contrário, mais conservador. Eu acho que as pessoas têm de fazer o que quiserem. Volto a dizer, não é chegar ao médico e dizer: "para mim se calhar está bom. Se você pudesse estar aqui." Como se faz às coisas.

Em condições extremas de sofrimento eu acho que faz sentido.

E ainda bem. E esta parte é aquela parte que temos que valorizar. Ainda bem que ele consegue tomar esta decisão.

Sim, mas acho que é isso que estás a dizer. Isto tem que ser com acompanhamento psicológico e entender até que é uma decisão sã, sã do ponto de vista, não está ali nada patológico envolvido, depressão, seja o que for, e é uma decisão consciente e clara.

Mas imagina que ele de hoje para amanhã, ou ele ou outra pessoa qualquer, tem um AVC e fica sem poder verbalizar os seus sentimentos e o que quer. Não há ninguém que vai se calhar ficar até o fim.

Pois é.

Percebes? Ainda bem que ele está numa fase consciente, que tem que ser acompanhado, que deve estar a ser muito bem acompanhado para isso. Não quero acreditar que as clínicas estejam a pensar: "ui, aceitem logo, assina já aqui o contrato que ele não pode voltar atrás."

Exato. A gente já pagou. Já pagámos as injeções, já pagámos isto, já não pode.

Por isso, se não se importa, deite-se ali e a gente ajuda. Mas é isso.

Tu tens medo do futuro, não?

Lá está. Atualmente, estou tranquilo. Mas já tive fases onde tinha mais medo do futuro. Eu em 2011, tive uma ferida na pele. Na altura, ainda estava muito instável a nível da pele, depois nunca mais tive esse problema. Mas tinha uma ferida na pele. Estava em casa.

Tipo uma escarra?

Uma escarra, sim. Foi nessa altura que eu estive mais fechado em casa. A minha mãe teve uma operação. A minha mãe sofria e sofre muito dos rins. E depois eu fui para uns cuidados continuados, fui para Mafra.

Para a Encarnação?

Para a Encarnação. Lá para o El Nostrum, acho que tem assim um nome...

Amor Nostrum, uma coisa. Não, isso é dos casamentos.

Não, acho que é mesmo El Nostrum.

Eu sei como é, é difícil.

E eu fui para lá e estive lá quatro meses. E eu pensei: "ok, se calhar o meu futuro vai ser este. Mais tarde ou mais cedo."

Isto vai piorar.

O meu futuro vai ser entregar-me a uma instituição. Mais tarde ou mais cedo, quando os meus pais já não puderem mesmo fazer nada, é isto. E eu estava super a aceitar aquilo. Não quer dizer que eu não fosse sofrer mais à frente. Depois, lá está, tive que ir mesmo ao Coitão para fazer a recuperação, não a operação, mas mesmo para estar lá em repouso. Foi aí que comecei a conhecer coisas novas, foi aí que eu ouvi falar sobre assistência pessoal, e depois isso fez mudar o chip, porque percebi que há uma escapatória, que infelizmente não está a chegar a todos.

Sim. E já lá vão 20 anos, não é?

Na minha situação, sim, 21 anos.

Provavelmente, se tudo correr de forma natural, morres de velho, como qualquer um.

Sim. Era uma coisa que antes havia uma esperança de vida menor, por causa, lá está, havia feridas, havia infeções, era muito raro as pessoas tratarem-se bem. Hoje em dia, com um bom acompanhamento, não gosto de dizer isso, porque cada um adapta-se à sua maneira, mas não precisamos daquele acompanhamento quando temos o acidente. Esse é aquele de: tua vida vai mudar 180°.

Sim, isso é da adaptação.

Depois daquilo tudo é: "ok, agora escolhe aqui o que é melhor para ti." Porque uma coisa é os cuidados hospitalares, outra coisa é aquilo que cada um se adapta em casa. Não querendo fugir muito, só aqui para falar de uma situação, não vou dizer o nome dele. Eu quando estive ali no Coitão, tínhamos essa coisa de ir a casa de 15 em 15 dias. E havia um rapaz que não ia, e ele era paraplégico. Ele era super independente. E houve um dia que eu perguntei: "não vais a casa porquê?" Eu sabia que ele era de longe, ele era do Norte. E disse: "tu nunca foste a casa porquê? Porque estás longe e custa mais esse tipo de logística?" E ele disse: "não, eu quando vou para casa, estou fechado em casa. Eu moro numa aldeia, numa casa de pedra." Portanto, ele esteve ali durante aqueles dias Até que escorria da alta dele e ele sabia que sair dali ia ser sofredor. Já falei com ele uns anos mais tarde, não sei atualmente a situação dele, mas repare, ele tinha melhores condições do que eu, a nível da lesão, e ele sofria muito mais do que eu, porque ele tinha a consciência que quando ia pra casa, ia pra uma casa que não estava adaptada, que não tinha condições nenhumas. Portanto, ele ia fazer uma viagem enorme pro norte, pra ficar fechado na cama, com uma data de pessoas a quererem visitar com aquela coisa do coitadinho. E eu lembro, isso ficou na memória do género, este cara está melhor do que eu, a nível da lesão, tem muito mais esperança de ter tudo, de adquirir um carro, ou seja, tirar a carta com mais facilidade, por aí afora. E, na verdade, ele está bem pior do que eu.

Isso é o que te faz também entrar nessa luta, nesse ativismo?

Sim, eu, por acaso, desligo-me um pouco do ativismo, por causa de ter-me metido isto na comédia, continuo a fazer a mesma coisa. Eu tenho uma ideia muito própria do que é ativismo, porque eu conheci o chamado ativismo da rua. Foi isso que me fez dizer: "É estas lutas que temos que fazer". Sinceramente, estou um bocadinho aquela coisa do ativismo digital, ok, não passa.

Se calhar não passa, exato, não passa.

Não estou contra, aliás, passa uma mensagem, mas não passa aquela mensagem de dizer que estamos fartos. Eu quando fiz o tal vídeo, estar a reclamar a parte do autocarro, tudo bem, toda a gente me deu força, mas aquilo foi um, o que eu tinha que fazer era pôr-me à frente do autocarro e dizer: "Acabou-se, não passas daqui, isto vai ter que ser resolvido." E só assim, isto aconteceu-me em 2019, o autocarro na passagem de ano. Nós bloqueámos o autocarro e o que se passou naquela altura foi, só havia autocarros para a ida hora e meia, hora e meia. Aquelas pessoas revoltaram-se todas comigo. Isto acontece muito. Eu tive ali uma altura a pensar-

Mas isso é uma falta de empatia também, ao mesmo tempo.

Olha, eu costumo dizer uma coisa e espero que percebam as palavras que eu vou dizer. As pessoas com mobilidade condicionada são as únicas que ainda são discriminadas e é aceitável. Eu não estou a dizer que a comunidade LGBTQI+ é discriminada, pessoas negras, não é isso que eu estou a dizer. Mulheres, não é isso que eu estou a dizer. O que eu estou a dizer é que as pessoas com mobilidade condicionada, se tu tiveres num restaurante, e se tu vires uma pessoa em cadeira de rodas a chegar, e o dono do café a dizer que está ali três graus e que não dá para entrar, aquela pessoa em cadeira de rodas vai-se embora e as pessoas que estão lá dentro, está tudo na boa. Veem, comentam, mas está tudo na boa. Se tu vires, por exemplo, uma placa, e atenção, eu não estou a fazer comparações, só para que percebam o que eu quero dizer. Imagina que está uma placa, e depois é uma coisa que não está na lei e que devia estar. O que os estabelecimentos deviam dizer é: "Não estamos acessíveis." E se isto fosse obrigatório, se calhar a coisa mudava, porque ninguém quer ter uma placa vermelha a dizer: "Estas pessoas não entram cá." Da mesma maneira que tu antigamente tinhas, em várias cidades ou nos Estados Unidos, não é permitida a entrada a negros. Portanto, isso hoje é impensável tu teres essa placa, mas nós vemos essa placa todos os dias, mas essa placa não está lá para os teus olhos.

Mas isso, em termos legais, era suposto existir ou não?

Não, não é, mas a parte legal, ao fim destes anos todos, temos uma lei da não discriminação, temos uma lei das acessibilidades, pode faltar ali pormenores para as coisas estarem bem, mas a verdade é que-

Não se faz nada.

Não se faz nada. E depois não temos coragem política. Os políticos não têm coragem de mudar radicalmente uma coisa. Não têm coragem de dizer: "Vamos lançar uma lei que a partir, sei lá, estamos em 2025, que a partir de 2028 mais nenhum transporte pode ser registrado sem esta condição." Percebes? Os políticos não têm essa, fazem aquela coisa-

Que se calhar veem como minoria.

Continuam a ver como minoria e usam o termo, usam esta causa para política.

Dá muito jeito ir às associações.

Dá jeito dizer no final, quando é a campanha, "nós fizemos isto, nós fizemos aquilo." E então? Isso era o que vocês deviam ter feito. Não precisam disso para fazer. Repara que nós agora temos uma lei que é a melhor das acessibilidades. Parabéns, é 2025. Fizeram mais que a vossa obrigação. E eles usam a deficiência, as minorias, no geral, todos os partidos ou os governos que vão passando, usam sempre pra causas próprias. Uns a pensar mais de uma maneira, outros a pensar de outra, mas todos eles usam a pessoa com deficiência-

Se calhar até devia cair um telhado em cima.

Sabes que já fui criticado por isso. No início, eu fazia essa-

Estamos a brincar. Não estou a desejar a ninguém que aconteça a mesma coisa.

Eu no início, quando era chamado para ir falar sobre acessibilidade, eu já via essa comparação. As pessoas não têm noção o que é andar com uma cadeira de rodas na calçada, uma cadeira manual na calçada, não sei o quê. Porque se as pessoas acontecesse- Eles diziam: "Você não devia de usar esse termo, não sei o quê, não sei quanto." Eu disse: "Ok, compreendo que não se deve fazer essa comparação, mas a verdade, no fundo, no fundo, é que-

Mas isso acontece com todos nós. Enquanto as coisas não nos tocam, às vezes é muito difícil nós tomarmos atenção. Mas enquanto legislador e pessoa que está à frente de um país, tem que ter essa consciência.

Mas esse tipo de comparação, ou de alguém que, aquela pessoa que diz: "Eu sei o que isso é." Eu até posso aceitar que a pessoa quando teve uma cadeira de rodas, porque teve uma perna partida, sofreu, mas aquilo passa-te.

Tu sabes que vai passar.

E pode não passar naquela altura, mas depois quando passou, é passado.

Sim.

Imagina, tu agora chegavas a todas as pessoas, tivesses gêmeos, "ui, eu sei o que é isso, eu até vou lá três", não foram gêmeos, mas tipo, "ui, isso agora quando eles são pequeninos, isso é do pior, não sei o que, não sei quanto." Imagina que estavas a dar a todas as pessoas que tinham bebê, aquela coisa que muita gente faz: "Ui, acabou a tua vida!" Uma coisa assim.

Sim.

Estava aqui, ia fazer uma comparação, mas agora já se varreu. Estavas a falar de uma coisa, eu ia tocar.

Estávamos a falar dessa comparação do telhado e das pessoas terem estado... Mas sim, claro que estamos a brincar, mas é isso que eu estava a dizer, é preciso, tu sendo uma pessoa que está à frente de um país, tens que ter consciência dessas coisas todas. Nós, infelizmente, só temos muitas vezes quando as coisas nos tocam, ou quando tens um amigo cego e percebes E começas a perceber os pormenores. "Como é que eu nunca pensei nisto?" Olha, quando falta agora a eletricidade.

Sim.

A quantidade de coisas.

Andamos todos perdidos.

Eu dei por mim a dizer à minha mulher assim: "Não faz mal, a gente tira umas coisas do congelador." Espera aí. Eu tenho tudo elétrico, não consigo fazer nada.

Eu também, tenho tudo elétrico. O único gás que tenho é para o esquentador.

Tu tens coisas adquiridas, só quando as perdes é que tens noção. E acho que se calhar nós devíamos tentar, de alguma maneira, ter um bocadinho mais de consciência, seja através do humor, seja através de histórias, de partilhas.

Já sei o que eu queria dizer. Tu conheces o Clube do Minhoca, no Brasil, de stand-up?

Minhoca? Não.

Clube do Minhoca. Era um clube de stand-up, dos mais antigos no Brasil, que foi ordenado a fechar. Poderá ter havido queixas. Foi ordenado a fechar porque não tinha acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida. Eu fui ver essa publicação e estive a ver os comentários. Tens uma percentagem mínima de pessoas a dizer: "Como se os cadeirantes fossem assim tantos." O resto está toda a gente a dizer: "Vamos dar uma força nisso. Vejam lá o que é preciso." Em Portugal, isso está fora de questão. É porque nós temos uma coisa em Portugal, que é o licenciamento direto, ou seja, tu podes abrir um restaurante agora, de hoje para amanhã, ir à internet e registrar-te, e só depois é que é feita a avaliação. Já tens o restaurante aberto e depois a avaliação é feita mais tarde. Portanto, isso impede que alguém te diga assim, antes de abrir: "Não, tu para abrires tens que ter isto". Quando tu já estás aberto, se alguém disser assim: "Não, isto vai ter que derrubar isto tudo," isso é um pé de vento. E as pessoas, depois, acham que têm razão em dizer isso. Mas no Brasil é engraçado, que nós às vezes olhamos para o Brasil.

Mas os brasileiros são muito mais ativistas do que nós.

A nível de leis, principalmente na discriminação.

Eles falam. Se têm a falar, falam. Tu notas muito isso.

Entretanto, o clube fechou, abriu novamente. O dono daquilo até fez uma piada. Até houve um comediante, que foi o Nil Agra, que fez assim: "Isto agora está cheio de cadeiras aqui." Claro, façam essas piadas, tudo bem. Mas a verdade é que se aplicarem aquela regra sempre, de hoje para amanhã, ninguém se vai queixar. O dono daquilo até fez uma coisa, lá está, está muito bem feito, que é: "Como chegar ao Clube do Minhoca?" E tu passas por ruas todas buracadas. Portanto, é o contrassenso de te obrigar a ter a tua casa feita, mas depois o caminho a gente logo vê como é que é. Percebes? E isso tem que ser lutado. Obrigaram a fechar um sítio que tinha há mais de 15 anos, abrir um outro e fazer um investimento de novo, até é a vossa parte. Isso faz falta, mas no Brasil, por acaso, a luta é muito mais-

É mais ativista.

Mais ativista, sim.

Sérgio, que mensagem é que tu gostarias de deixar para quem nos está a ver ou ouvir, depois desta conversa toda?

A vida é diferente para todos. Não é por eu estar numa cadeira de rodas, porque há muito isso, quando vê a pessoa mais triste, dizem: "Coitado, então se ele está assim, claro." "Não, eu estou triste porque tenho uma dor de dentes," sei lá, uma coisa qualquer. Não tem nada a ver comigo. E aqui falámos um bocado mais da mobilidade, de pessoas com deficiência motora como a minha, mas há pessoas que estão em cadeira de rodas, que têm outra situação qualquer. Outra coisa que eu também brinco é da sensibilidade. Não pensem que todas as pessoas que estão em cadeira de rodas não sentem o corpo, não comecem a dar pontapés às pernas. "Então o outro disse que vocês não sentiam."

Se quiserem uma agulha, vamos buscar é uma faca.

Não é nada disso. Mas pronto, somos pessoas normais, tenham mais empatia e comecem a olhar mais à volta. Não comecem a aceitar que é normal uma pessoa ir a um restaurante e não poder entrar. Não comecem a achar que é normal o autocarro não levar aquela pessoa em cadeira de rodas, porque isso não é normal e isso é a única coisa que a mim me prejudica mais.

Eu ia só acrescentar, lembremo-nos todos nós que de um dia para o outro a vida pode mudar.

Sim, exato. Às vezes faço essa observação. Lá está, é um pouco também estar a fugir, mas é isso, pode não ser a nós, pode ser a alguém próximo. Às vezes há pessoas que estão a falar com tanta leveza, mas mais tarde ou mais cedo, pode acontecer com elas e elas depois veem o outro lado. Não é por aí, mas pensem que a vida não é isto. Por isso não alimentem mais a incapacidade que já existe por aí à volta.

Sérgio, muito obrigado por teres vindo.

Obrigado pelo convite.

Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Sigam o Sérgio nas redes sociais, no Instagram, sobretudo.

É mais Instagram.

Instagram. É Sérgio como é?

É Sérgio Lopes.

Se encontrarem Sérgio Lopes, é fácil encontrar.

Eu costumo dizer que é o único que está em cadeira de rodas.

Era o que eu ia dizer.

Se encontrarem mais do que um, vão jogar na Totoloto que isso é uma sorte.

Era o que eu ia dizer. É fácil encontrar. Se souberem que o Sérgio vai atuar ao vivo, aproveitem para ir ver, porque vale a pena. Muito obrigado por estarem desse lado. No YouTube, deixem os comentários, ativem as notificações. Este é um podcast "Observador", está também nas páginas do "Observador". Sai às quartas-feiras estes episódios grandes e à segunda-feira temos os intermédios. Para a semana, portanto, segunda e quarta, já sabem, estarei de volta. Até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.