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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais uma temporada de "Somos Todos Malucos", um podcast dedicado à saúde mental, autoconhecimento, a conversas que eu acho que podem acrescentar algo, pelo menos a mim. E se acrescenta a mim, eu acho que vai acrescentar também a alguém desse lado. Estamos no novo estúdio. Estou na The Laos, é uma bela casa que vocês podem conhecer. Tem uma vibe muito na onda do podcast. Já sabem, é um podcast observador, está no YouTube também, está em todas as plataformas de áudio, está no site do Observador. É só começarem de novo a ouvir as conversas e as que estão para trás, as que vêm de novo e partilharem com quem acham que se vai identificar. Ora bem, a convidada de hoje, a Inês Marinho, tinha 21 anos quando se apercebeu que havia um vídeo íntimo e imagens suas a serem partilhadas em grupos da internet. Obviamente, foi um choque. Ficou perdida, revoltada com quem teve essa quebra de confiança, mas também tornou-a mais proativa e levou-a a criar uma associação, a Associação Não Partilhes, que se calhar alguns de vocês já ouviram falar, é muito ativa nas redes sociais. E percebeu que este problema é muito maior do que se pensa e tem um impacto muito maior do que aquilo que infelizmente nós temos noção. Obrigado, Inês.

Obrigada.

Nós já falámos há algum tempo.

E de facto tu foste dos primeiros a partilhar a associação.

E eu lembro-me que eu, na altura, fiz logo essa confidência, que obviamente eu também estive a par disso, de fazer parte desses grupos quando era miúdo, mas já vamos falar disso mais para a frente. Tentar perceber o enquadramento das coisas. Tu estás com que idade agora?

28.

Portanto, faz sete anos.

Ya.

Há sete anos tu tiveste essa quebra de confiança. E eu acho que muitas pessoas, principalmente homens, não entendem, porque acredito que deve acontecer também com homens, ou não, achas?

Não, tenho a certeza, acontece com muitos homens.

Mas acontece muito mais com mulheres.

E normalmente, quem faz isto a outros homens também são homens.

Pois, é sempre homens.

Também há mulheres a fazer isto, não é? Mas é mais raro.

Sim. O choque inicial. Como é que foi esse momento em que tu descobriste que a tua intimidade tinha sido violada?

É assim, eu vou ter que dar um bocadinho de contexto, porque eu já estou presente na internet há muito tempo e já tinha alguma participação no Twitter desde muito miúda, desde os meus 13, 14 anos, e já me tinham acontecido coisas semelhantes, de partilharem fotos minhas em biquíni.

Coisas que punhas nas tuas páginas.

Sim, coisas que eu punha. Chegaram a partilhar uma foto minha falsa, que não era eu, e vários vídeos falsos, de eu acordar com montes de mensagens, tipo: "Olha, não vi do teu a circular", e eu em pânico a pensar: "Meu, eu nunca gravei um vídeo na vida."

Olha, como aconteceu, tu provavelmente não te lembras, mas podes ter ideia, aconteceu com a Fernanda Serrano.

Não sabia.

A Fernanda Serrano, eu lembro-me, eu tinha 20 e poucos anos também, não havia redes sociais, havia o Hi5.

Eu lembro-me do Hi5.

Pronto. Andava um vídeo a circular, diziam que era da Fernanda Serrano e faziam esse clássico.

Não era falso, era de outra pessoa.

Era de uma atriz porno.

Ok, semelhante.

Muito parecida, mesmo muito parecida com a Fernanda Serrano. Mas quem tem dois dedos de testa, olhava para aquilo e percebia. Primeiro, a Fernanda Serrano nunca faria uma coisa deste género. E mesmo que fizesse, a malta não tem nada a ver com isso, mas tu percebias que não era. Mas aconteceu isso, que é, depois metem o vídeo, que não se percebe bem a cara e metem: é esta pessoa.

Sim, e se calhar até hoje há algumas pessoas que ainda acham.

Não, ela passou um mau bocado, como é óbvio. Se tu pesquisares na internet, vais perceber isso.

Eu sei que às vezes é isso, o conteúdo nem tem que ser verdadeiro para ter impacto sobre a pessoa. E eu lembro-me de partilharem, eu lembro-me de um ex-namorado meu me vir dizer: "Vieram-me ao trabalho dizer que tens um vídeo nos lençóis da Playboy", e eu tipo: "Eu nem sequer sabia que havia lençóis da Playboy, ok." E depois eu vi o vídeo e claramente não era eu, e ele também sabia que não era eu, mas ficou incomodado com o facto de só haver a ideia de dizer.

E de quem dissesse que eras tu.

E de quem dissesse que era eu. Outro vídeo que apareceu também de uma pessoa que era parecida comigo de costas. Acho que se calhar muita gente é parecida comigo de costas. Então meio que eu já estava um bocado, como é que eu hei de dizer, habituada também, mas quase à espera que isto fosse acontecer, porque eu sempre partilhei nudes e nunca pensei. Não era não pensar nas consequências, percebia bem.

Achaste é que se calhar as pessoas, lá está, confiavas nos teus parceiros.

Nem era bem isso. Era mais tipo: "E quê? E depois? E se esta foto vier para fora, o que é que irá acontecer daqui?" É tipo: "Uau, ela tem um rabo, ela tem umas mamas." Pronto, eu também não partilhava fotos altamente explícitas, nem que mostrassem a minha cara, nada do género. Então eu pensava mesmo: "Ok, mesmo que alguma coisa venha para fora, eu confio numa pessoa, a partir do momento em que isso é partilhado, eu não tenho nada a ver com isso." E depois partilhei o meu primeiro vídeo, eu nunca tinha partilhado um vídeo com ninguém na minha vida, e era um vídeo que também não mostrava a minha cara, então eu também estava um bocadinho: "Ok, mesmo que isto saia para fora, não tem a minha cara, eu não tenho tatuagens, não há nada que me identifique." Mas quando o vídeo saiu, veio com o meu nome em cima. Então aí eu fui apanhada um bocadinho de surpresa e eu lembro-me que estava no trabalho, entrei ali um bocado em choque. Porque já me tinham dito antes: "Olha, há um vídeo teu a ser partilhado", só que era uma coisa muito aproximada e eu pensei: "Obviamente que não sou eu, é outra vez a mesma lengalenga que já me aconteceu 30 vezes, há um vídeo teu a ser partilhado."

Mas sabias que eras tu e sabias quem é que o tinha feito.

Sim. Mas na primeira vez que me enviaram o vídeo era muito aproximado, via-se o meu ombro, só. E eu pensei: "É outra vez a mesma lengalenga, um vídeo falso, não devo ser eu." E depois eventualmente aparece o vídeo, sim, com o meu nome em cima. Então eu fiquei em choque. Comecei a denunciar e aquilo já estava em montes de sites pornográficos. Eu comecei a denunciar, consegui facilmente remover de alguns. E rapidamente, eu acho que no próprio dia, eu comecei a falar com os meus amigos e com o meu namorado da altura, que não teve nada a ver com esta situação, e eu acalmei-me muito rápido.

Tu tiveste essa reação, tem muito a ver com a tua personalidade também, como é óbvio.

E com a minha educação.

E com a tua educação. Aliás, tu tens uma história já tens alguma coisa na bagagem, não é?

Sim.

Tu tiveste com 17, não?

Dos 15 aos 18.

Tiveste uma leucemia, não foi?

Leucemia linfática, é o contrário.

Ok.

É tipo cancro no sangue, mas na outra parte do sangue.

Ok.

Eu também acho que isso me deu tipo-

E já na altura, foi uma experiência que obviamente foi complicada, mas que tu lidaste de maneira-

Eu não sei o que existe na minha cabeça

Muito pragmática, não é?

Quando acontecem coisas muito graves, normalmente, se for preciso uma coisa até mais parva, eu passo bué mal.

Eu sei o que estás a dizer.

Ya, mas quando é uma coisa bué grave, eu fico bué: "Ok, o que eu posso fazer?"

Tornas-te pragmática e cirúrgica.

Sim, o que eu posso fazer? Não vai ser isto, o que eu posso fazer? E obviamente que o cancro me fez relativizar bué coisas. Bué coisas que me aconteceram a seguir, eu pensava, e até chegou a um ponto tóxico, que é tipo, se for preciso eu estou numa situação efetivamente má e estou tipo: "Podia estar com cancro, podia ser pior."

Estando numa relação super tóxica.

Sim.

E tipo: "Podia estar ao menos..."

"Eu podia ter cancro, podia ser bué pior." E é tipo: "Ok, podia ser pior, mas isto também é mau. Podes ir embora." Há situações que também são más. E agora é que estou a aprender a não relativizar tanto, mas nisto ajudou-me.

Então quando apareceu essa história dessa imagem que foi mais séria do que aquilo que tu estavas à espera e que escalou, tu tornaste esse pragmatismo e tipo: "Como é que eu posso resolver isto?"

Era não só como é que eu posso resolver isto, porque eu pensei: não há uma grande solução.

Pois, já está.

Já está, não há uma grande solução.

Epá, mas não te sentiste revolta, não ligaste a esse rapaz.

Claro.

Não lhe partiste a cabeça, não lhe chamaste toda e mais alguma coisa.

Não, não foi um ex-namorado.

Hã?

Não foi um ex-namorado.

Foi um amigo.

Exatamente. Não foi uma pessoa que eu alguma vez me tenha envolvido.

Ou seja, mas provavelmente o ex-namorado enviou. Alguém enviou. Aí tu enviaste para ele.

Ya. E não foi um amigo. Foi uma amiga. E não era uma amiga com quem eu me envolvesse. É uma história muito complicada.

Ou seja, foi uma mulher que divulgou.

Exatamente, sim.

Por inveja.

Até hoje não sei. Não sei mesmo. A pessoa disse que foi hackeada.

Afinal não é sempre um homem.

É verdade. Não é sempre um homem. A pessoa disse que foi hackeada. E eu, até hoje, eu sei que partiu dela, mas eu sei que a partilha massiva não foi.

Claro, porque a partir daí...

Não foi dela. Ela fez, se calhar, uma partilha que não devia ter feito e aquilo espalhou-se. Mas sim, eu fui falar com a pessoa, a pessoa deu-me uma desculpa, depois deu-me outra. Eu já estava tipo: "Ok, não é daqui que eu vou buscar." A primeira pessoa disse-me: "Não fui eu, não tive nada a ver com isso." E eu assim: "Olha, mas é o meu nome no teu telemóvel, eu sei que está igual." "Pois, não sei bem." E eu: "Pronto, ok, não vai ser aqui que eu vou encontrar." E mantive a amizade com essa pessoa durante bastante tempo a seguir a isso, até do gênero, os meus amigos todos a dizerem-

"Toma atenção."

"Ya, tu estás maluca."

E tu disseste: "Opa, podia ser cancro."

Não, eu estava a rir. Um bocado. Assim: "Podíamos estar a morrer, podia ser pior." Não, mas eu estava tipo: "Opa, não, se calhar não foi com essa intenção, se calhar há alguma coisa que eu não estou a perceber, a pessoa também não consegue explicar."

É assim, às vezes eu acho que nós somos tão apanhados, tão desprevenidos, que nem sequer pensamos. É difícil, parece que aquilo não é real, ok? Não podia ser essa pessoa.

Claro, uma pessoa que é minha amiga.

Tu não estás à espera.

Claro, durante anos.

Tu achas que conheces aquela pessoa.

Claro. E até hoje ainda tenho esses sentimentos um bocado dúbios que eu considero que a tenha conhecido e que efetivamente a nossa amizade fosse verdadeira. Mas pronto, aconteceu essa situação, eventualmente a nossa amizade acabou há relativamente até pouco tempo, nós ainda mantivemos a amizade. E eu fiquei chocada com a situação, mas o que me afetou e o que eu também costumo dizer é que a partilha inicial não é o problema Se a partilha inicial acontecesse e toda a gente dissesse, por exemplo, se fosse conteúdo de abuso sexual de menores.

Sim.

Alguém partilha com uma pessoa e a pessoa diz logo: "Olha, estás louco da cabeça. O que é isto? O que te está a passar? Por que me estás a enviar isto?"

Ou se todas as pessoas com quem ele partilhasse dissessem: "Isso é um problema."

O que é que está a enviar isto pra um grupo do WhatsApp?" Aquilo morria ali e se calhar até havia logo uma denúncia e aquilo era mitigado. O que acontece é o contrário. Por isso, a partilha inicial, claro que é o que desencadeia o resto, mas o pior não é isso. É quase toda a sociedade ou grande parte da sociedade ser conivente com este crime.

E isso leva pra essa questão inicial, que eu acho que na altura, quando nós começamos a falar, eu próprio fiz um post a dizer que eu já tinha estado nesses grupos, onde se partilhava coisas oficiais, filmes pornográficos, às vezes até mais vídeos.

Profissionais.

Profissionais, sim, que são livres, têm esse propósito, portanto, são filmes. Como se partilhava às vezes isso. É muito estranho, eu não te consigo explicar isto, mas nos anos 2000 não havia os WhatsApps nem nada disso e essas partilhas eram feitas sobretudo a partir de e-mail.

Eu recebi e-mails.

E eu não te consigo explicar por que não havia essa noção, e eu não tinha essa noção de ser um problema. Estou a fazer um mea-culpa.

Claro.

Percebes? Mas eu não considero.

Mas eu própria faço um mea-culpa.

É porque eu não me sinto assim. Eu acho que não sou má pessoa, acho que sou uma pessoa empática, mas era como se aquilo não fosse real.

Era uma pessoa muito distante.

Sim, se calhar se visse alguém. Eu acho que até uma vez apareceu nesses vídeos alguém que eu conhecia e eu fiquei meio incomodado. Mas isso acontecia como os vídeos do Taveira.

Sim.

Os vídeos do Taveira até eram quase envoltos numa aura de-

Comédia

...era de comédia, mas também de-

Misticidade

De voyeur, voyeurismo, estás a ver? E é aquele gajo tu: "Eh, pá!" E tu não pensavas naquelas mulheres que estavam ali. E isso é muito estranho, como é que esses mecanismos se desenvolvem, porque não é uma coisa consciente.

Sim. Primeiro, eu acho que é muito legítimo teres dito isso logo no início mesmo e continuares a dizer agora. E eu acho que não é de todo julgável um homem que diz, ou uma mulher até, qualquer pessoa que diga: "Olhem, eu fiz isto, eu não me orgulho, eu agora percebo as consequências e nem consigo perceber por que fiz aquilo naquele momento." Acho que isso é muito mais legítimo.

É genuíno o que eu estou a dizer. Não percebo.

Acho que é muito mais legítimo.

Era normalizado.

Era, e é isso que eu te queria dizer. Eu não sou a CEO do machismo e do feminismo, não sei bem qual é que são os motivos pra isso, mas eu acho mesmo que é um half pipe que existe na sociedade que enfia os miúdos e as miúdas pra esses sítios, que é desumanização das mulheres e quase vê-las como um objeto.

Sim.

A personalidade delas ou o que elas sentem meio que não existe. Elas estão ali pra ser observadas, pra ser partilhadas, sexualizadas e pequenos discursos, aquilo que as pessoas chamam de microagressões. Posso dizer asneiras?

Podes.

Tipo chamar puta, filha da puta, que é tipo, eu estou te a chamar a ti, mas é uma ofensa à tua mãe. Estas coisas pequeninas, que é sempre à volta da mulher, que vai fazendo com que as mulheres sejam muito pouco, vale-lhes muito pouco, porque em muitos destes vídeos também haviam homens. Eles também estavam lá a fazer sexo com as mulheres.

Sim.

Mas ninguém queria muito saber disso. Queriam saber das negas.

E é sempre numa postura dominante.

Sim. E não é uma coisa de: "Ei, olha aqui o vídeo do João." Ou se for é: "Ei, olha aqui o vídeo do João que está com esta gaja." Não é tipo: "Ei, ganda porco, ele nunca mais vai encontrar ninguém na vida. Ele nunca mais vai arranjar uma namorada, nunca mais ninguém o vai respeitar."

Sim.

As coisas são diferentes. E isto foi superpolêmico quando eu disse no Twitter que partilhar as nudes de um homem, partilhar as nudes de uma mulher tinha consequências completamente diferentes. Isso foi take superpolêmico.

Mas por quê? Porque disseram que-

Que era feminazi.

É o quê? É verdade.

Pra mim é o óbvio. E ainda bem pros homens. Eu fico feliz que eles não tenham as mesmas. Eu fico feliz.

Quanto muito pode ser ridicularizado.

É isso. Eu acho que são ataques ao discernimento do homem. É tipo: "Ganda burro."

"Ei, olha o gajo a mostrar aqui."

Ya, tipo ganda burro, agora foi mandar nudes pra um perfil falso, acha que não ia acontecer nada. Mas nunca é: ganda porco, ganda nojento, nunca mais vai encontrar ninguém, nunca mais ninguém o vai respeitar, como é que ele vai ter uma mulher, como é que ele vai ter uma família?

Que é o que acontece a uma mulher.

Exatamente. Então os impactos nas mulheres são completamente diferentes que são nos homens. E obviamente que se calhar pra um homem, por exemplo, trans, pra um homem gay, pra um homem, se calhar, de uma religião islâmica, muçulmana, se calhar também é diferente. Se calhar também vai impactar de uma maneira diferente que vai impactar a um homem que não seja desse tipo de comunidades.

Sim.

Mas temos que fazer aqui uma grande diferenciação e por isso é que o conteúdo das mulheres é tão mais popular do que o conteúdo de homens.

E isto tem a ver com o quê? Sempre com aquela questão do patriarcado, não é?

Ya, vamos dar sempre ao mesmo.

É assim, eu sou gajo, mas um gajo tem que admitir as merdas como são.

Ya. E vamos dar sempre ao mesmo, as pessoas perguntam sempre e eu digo: é uma fita. É verdade.

Eu vou te ser sincero. Eu sinto às vezes quando há Aquelas frases que são verdade sobre a violência doméstica, que é obviamente muito mais perpetuada por homens sobre as mulheres, mas a frase que todos os homens são iguais, a mim às vezes mexe um bocado comigo, porque eu não sou igual.

Eu percebo.

Mas também percebo de onde é que isso vem. E não posso também estar aqui a fazer um papel de sou um coitadinho. Tenho que perceber de onde é que isso vem e lá está, eu acho que aí temos que ser um bocadinho pragmáticos.

É isso.

E tentar fazer a nossa parte.

Eu percebo, mesmo, e eu já parei de dizer esse tipo de frase que eu dizia mais quando era "Peter".

Isso era a revoltada adolescente.

Ya, todos os homens e os homens. Só que nós temos que ter consciência que, eu até acho que nunca disse todos os homens, eu dizia os homens.

Pois.

E eles percebiam que eu estava a dizer todos os homens, que obviamente que eu acho que todos os homens não são horríveis e monstros, não. E sim, infelizmente eu sou heterossexual, não é uma escolha. E eu envolvo-me com homens, eu tenho um pai, tenho um irmão, tenho amigos.

E gostas de homens.

Ya, e gosto de homens. Não é uma escolha, se fosse, se calhar, não sei se escolhia. Obviamente que eu não odeio todos os homens, mas eu acho que é muito ambíguo. Eu acho que os homens, aliás, eu já tenho, se calhar, um pé atrás com homens no geral.

Como é que tem um pé triste?

É muito triste, mas é porque eu vejo, porque eu sinto, porque eu vejo coisas à minha volta que me fazem ser assim. E depois a sociedade diz que isto é ser feminazi, extremista, misandrista, não sei quê, mas ao mesmo tempo fazem comentários, como por exemplo: uma mulher entra num quarto de hotel com um homem e é abusada sexualmente. Tu estavas à espera do quê? Eu penso: então tu é que achas que os homens são todos iguais. Tu é que achas que uma mulher por entrar num quarto com um homem-

Por se pôr a jeito.

Está se a pôr a jeito. Uma mulher por estar ao pé de um homem, por estar na cama com um homem, está se a pôr a jeito. Então os homens, se calhar, na tua visão, são todos iguais, porque eu acho que não. Eu acho que tu podes entrar num quarto com um homem e ele não abusar sexualmente de ti e respeitar-te como uma pessoa normal.

Sim.

Aliás, eu já fiz isso e houve homens que me respeitaram, por isso eu sei que é possível. Por isso é um bocado ambíguo. As mesmas pessoas que dizem: "Mas quer dizer, tu vais para ali com um homem, metes-te na cama com ele, vais para um hotel com ele, vais para um quarto com ele, vais bêbada para ao pé dele e estás à espera que ele te respeite?" Mas ao mesmo tempo, se tu disseres: "Os homens violam as mulheres." "Não, aí é diferente."

Há aqui duas questões relacionadas com isso. É estares a colocar o homem como se fosse um ser não racional, um animal.

É isso.

Que pronto, se vais para o quarto, já sabes o que é que vai acontecer. Por outro lado, não achas também, e é triste eu estar a dizer isto, porque não é suposto ser assim, mas aquela ideia de que as mulheres também se deviam proteger e fazer aquilo que tu dizes, de estares um pé atrás logo. Não é o ideal.

Não é o ideal.

Mas percebes o que eu estou a dizer.

Imagina, eu acho que a maior proteção que nós podemos fazer, no geral, é educar.

Sim.

Essa é verdadeiramente a única proteção real, porque é a maneira de mudar a mentalidade de quem faz mal. É a única maneira, porque a partir do momento que as mulheres vão ser constantemente ensinadas a protegerem-se.

Tu estás também a perpetuar o outro comportamento.

É o consenté. Imagina, eu vou pôr aqui para as câmaras verem. Imaginem, aqui estão as mulheres que sofrem, aqui estão os homens que abusam. As mulheres recuam para trás para se protegerem.

E os outros avançam.

Eles avançam. Eles vão arranjar outras maneiras. Agora é através da internet, depois vai ser através do AI, depois vai ser através de câmaras ocultas. Eles vão sempre arranjando mecanismos para dar a volta à lei, para dar a volta à maneira. Percebes? Vai sempre haver uma maneira de ir contra essas pequenas proteções que nós possamos fazer. E se a maior parte dos abusos sexuais acontecem nos seios familiares, nos seios próximos, que maneiras realistas é que nós podemos usar para nos protegermos?

Só tem que ser a educação.

É claro, nós podemos não andar numa rua à noite escura. Nós podemos não beber até ficar "blacked out". Nós podemos não aceitar boleia de um homem estranho, mas isto são casos muito pequenos.

Vou te contar uma coisa. Imagina, vejo uma pessoa sozinha na rua.

Tu és Signa?

Sou Caranguejo. Eu tenho por hábito dar boleia.

A minha mãe também.

Tipo, paro o carro.

Tipo, dá boleia sem abrigo, a minha mãe.

Sem-abrigo nunca aconteceu, porque eu acho que eles não querem sair do mesmo sítio. Estou a brincar.

Voltou à sua casa.

Não, mas acontece a velhotas.

Sim, faz muito bem.

Já me aconteceu, por exemplo, e eu nunca tinha pensado nisto, estar uma estrangeira a andar na rua, num sítio isolado, e eu paro o carro e pergunto: "Queres boleia?" Inglês ou não sei o quê.

E ela diz que sim.

Sim, mas eu na minha inocência, e ela: "Não". E eu assim: "Olha, mas eu vou por aqui, eu conheço a terra aqui, eu posso deixar aqui." E ela: "Não, obrigada, eu estou bem." E eu sigo e tipo, coitada, vai ficar agora ali sozinha, não quis boleia. E depois, de repente, é que me calhou a ficha, ela se calhar pensa que eu lhe vou fazer alguma coisa.

Eu ver um homem com quase dois metros a parar ao pé de mim.

Igual.

Ya, a perguntar: "Ei, queres boleia?" e ficar assustada.

É muito curioso. É muito curioso porque a maldade, como eu não tenho essa intenção, nunca sequer pensei nisso.

Eu tenho duas histórias para te contar relacionadas com isso. Uma: o meu ex-namorado também tem dois metros e eu vivo ali numa zona na Baixa Chiado, uma zona que à noite é um bocado creepy e tem muita malta bêbada e não sei o quê. E o meu ex-namorado dizia que vinha comigo ter a casa, ele saía do trabalho muito tarde, 2:00, 3:00 da manhã, e ele vinha de capuz a ouvir música, a andar assim muito rápido e dizia que montes de vezes via que as raparigas ficavam assustadas e ficavam meio bloqueadas, e então ele até virava para ruas e ia dar voltas grandes para não as assustar, porque pensava: "Epá, não sou eu."

Exato.

"Eu não vou mesmo fazer mal." E outra coisa, que é essa perceção que os homens têm do perigo que as mulheres não têm. Essa questão de meter-se a jeito Sem querer dizer meter-se a jeito, é uma coisa muito mais masculina do que feminina. As mulheres são muito mais alerta do que os homens. Tive uma situação agora com o meu ex-namorado, em Marrocos, que obviamente nós fomos avisados, eu já sabia. Se alguém perguntar: "Queres vir por aqui atrás de mim por uma esquina?" É tipo: "Não vás." É óbvio, toda a gente que vai para Marrocos sabe. E assim que nós chegamos, apareceu uma pessoa a dizer: "Nós sabemos onde é que é o hotel, nós ajudamos." E eu fiz logo: "Não." Não é que ele começa logo a ir atrás do gajo. Estamos a andar durante 15 minutos e o gajo disse que era mesmo aqui, eu já passei assim: "Bro, vamos morrer. Ya, obrigada, vamos morrer." E quando chegamos lá, o gajo começou, não a tentar nos assaltar, mas a dizer: "Tem dinheiro? Não tem? Então e tabaco? E não sei o quê." Eu cheguei e dei-lhe uma "ted talk": "Olha, qual é a parte que não percebeste que isto era perigoso quando eu te disse cinco vezes?" E a percepção do perigo que os homens têm.

Mas a percepção do perigo das mulheres também, do pôr-se a jeito, então também não tem nessas situações? Ir para um quarto de hotel com um tipo.

Normalmente, se calhar, é uma pessoa que já confiam.

Mas por exemplo, a malta que usa as aplicações de dating.

Eu não vejo assim casos tão recorrentes de pessoas que se conheçam, de mulheres que conheçam homens e que vão logo ter com eles. Por exemplo, os casos que eu recebo, e isto obviamente sem querer julgar, porque não há qualquer, a única pessoa que tem que se julgar é sempre o abusador. Mas eu vejo muitos mais casos de homens, por exemplo, que partilham nudes com perfis desconhecidos.

Como assim? Desculpa.

Uma mulher, entre aspas, manda-lhes uma nude, começa logo a conversa sexual ou passado muito pouco tempo passa para o sexual e eles partilham nudes. Estão ali no momento.

Mas nudes deles?

Deles próprios.

Para essa pessoa.

Para essa pessoa. E depois começam a ser extorquidos. Eu não tenho muitas situações assim.

Já me aconteceu isso de eu perceber, claro que eu nunca enviei, nunca partilhei.

É que esta pessoa está mais-

Já partilhei com a minha mulher, entre nós os dois e nós apagávamos logo para não haver problema.

Claro. Pode ter o telemóvel perdido, roubado.

Já foi há alguns anos, mas já me aconteceu isso de eu perceber claramente, receber mensagens e vídeos logo: "Estou tão não sei o quê, adoro a cheira a teu-" Não, obrigado.

É começar a conversa a captar. Eventualmente, a pessoa manda e eu tenho homens de todas as idades, todas as orientações, a partilharem nudes com pessoas que não se conhecem, que é uma coisa que eu digo.

Que não são pessoas, são burlões.

E normalmente são homens. E eu costumo dizer, isto é uma técnica de prevenção, que é: nunca partilhes uma nude com perfil falso, com perfil desconhecido, ou até com alguém que tu não conheças ao vivo. Até com pessoas que tu conheces ao vivo, até com pessoas que tu namoras e és casado, pode acontecer. Por isso, esta pessoa que tu não conheces ao vivo, ou ainda por cima, começou a falar contigo há muito pouco tempo e a conversa começou logo a ir para o sexual, é logo uma red flag para termos em atenção de, se calhar, as intenções dessa pessoa não são muito boas. E eu vejo que, obviamente, faço outra vez o parêntese, sem querer desmerecer esses sobreviventes, é uma coisa que eu não vejo tanto nas mulheres.

Sim, de partilharem logo.

Sim, de partilharem logo.

Tu quando criaste a associação, o Não Partilhes foi quanto tempo depois?

Eu criei primeiro o movimento.

O movimento, exato. Depois é que começou a associação.

O movimento foi passado três meses.

Este movimento Não Partilhes está nas redes sociais e procura dar resposta e apoiar as pessoas que são vítimas deste tipo de abuso.

Chama-se VSI, Violência Sexual com Base em Imagem.

É isso. Não me lembrava do nome. Violência Sexual com Base em Imagens. Eu acho que tu quando criaste, não estavas à espera da dimensão e de ouvir as histórias que ouviste.

Eu não estava à espera, mas eu tinha um bocadinho de noção que isto era uma coisa não falada e que era real, porque eu via. Não era comigo, mas eu estava constantemente a ver outras pessoas a terem este tipo de situações. Eu consigo nomear logo de cabeça 10 mulheres que eu conheci antes de mim, que passaram por situações assim e foram arrasadas, desmerecidas.

Como é que isto afeta a saúde mental dessas pessoas?

Eu acho que difere de pessoa para pessoa e também do apoio que a pessoa tem. E da forma como a pessoa se vê. Mas isto pode arrasar com a autoestima de alguém. Há pessoas que já não estão aqui para falar sobre isto, porque foram situações em que foram marcadas em contexto, por exemplo, de trabalho, em pessoas, como eu te disse, que são de etnias ou de religiões mais conservadoras, que isto é mesmo um ultraje para elas. E mesmo não sendo desse tipo, de uma religião mais conservadora, mesmo assim pode ser visto como um ultraje e perda de trabalho, ansiedade. Há pessoas que não conseguem voltar a sair à rua. Há pessoas que têm mesmo um sentimento quase como um abuso sexual físico. Sentem-se sujas, sentem-se com um tipo de estresse pós-traumático.

Sim, porque depois fica lá.

Claro, é uma coisa quase crônica.

É, e depois haverá sempre, se calhar, estás sempre com medo que alguém te relembre.

Sim. Passaram 10 anos e ainda está a ser partilhado. Passaram 20 anos, já tenho filhos, já estou casado, já tenho uma vida para além disto e aquilo ainda está a ser partilhado. E do nada está aqui sempre esta sombra de um passado que eu queria apagar. E é mesmo isso que eu tento Porque infelizmente, como a internet é hoje em dia, é complicado apagar coisas da internet. Não é impossível, e se as plataformas fossem amigas e fizessem realmente o seu trabalho, seria possível. A internet não existe num vácuo. Há pessoas que gerem os sites e as aplicações que poderiam fazer este trabalho juntamente com os sobreviventes e com a polícia, e este conteúdo seria apagado. Mas infelizmente isto não acontece, porque também é conteúdo que gera dinheiro, gera lucro, gera engajamento, gera visualizações, então também não lhes dá jeito. Mas como atualmente é efetivamente difícil de ver este conteúdo apagado, eu quase que prefiro que as pessoas criem o mecanismo de, isto é um bocado frio, mas é tipo-

Defesa

...ya, e de relativizar.

E como é que é esse processo de reconstrução das pessoas?

É de pessoa para pessoa.

Vocês têm psicólogos lá na associação? Reencaminham?

Encaminhamos as pessoas para apoio psicológico sempre, porque eu acho que em situações de trauma é sempre necessário e mesmo em não situações de trauma, para prevenir o trauma, é importante procurar apoio psicológico, mas temos apoio jurídico pré-queixa, porque muitas pessoas não sabem que isto é crime, não sabem que crime é que é, porque também a lei é um bocado dúbia e confusa. Não sabem onde é que se devem dirigir. Então nós tentamos fazer esse aconselhamento e que a pessoa vá direta já com tudo programado onde é que ela deveria ir. Mas onde nós somos mais incisivos é mesmo nas palestras escolares.

Eu conheço casos de miúdas adolescentes que infelizmente partilharam, muito nessa lógica, às vezes até de burlões, partilham com perfis falsos e depois têm ameaças, e depois como são adolescentes sentem ainda mais vergonha e fecham-se e não partilham.

E estes criminosos têm como alvo exatamente essas pessoas, porque sabem que estão naquela fase que não é assim tão fácil partilhar essas coisas com os pais. Então eu também gosto muito de falar com os pais e dizer-lhes que a única maneira que eles têm de realmente tentar prevenir ao máximo que isto aconteça é terem conversas abertas com os miúdos e haver um espaço de segurança.

De permitir-lhes contar tudo.

Claro, e se isto me acontecer, eu não vou levar um raspanete ou um chapadão do meu pai e da minha mãe e vou levar ainda por cima e vão ralhar comigo e vou ser metida de castigo. Não, o meu pai vai me dizer: "Olha, posteriormente até deves e podes dar conselhos e dizer: 'Olha, tens que ter atenção com quem é que partilhas coisas online'". Mas inicialmente, na situação que está a acontecer um crime ou uma ameaça de crime, é ajudar a criança ou o jovem ao máximo. Eu tenho n situações que os miúdos são metidos de castigo, levam um tabefe, são ralhados e esta criança nunca mais se vai sentir confortável ou segura de partilhar isto com as pessoas em que supostamente deveria mais confiar.

Neste momento, a responsabilidade, como tu estavas a dizer no início, está muito também de quem recebe essas imagens e de continuar a partilhá-las. Como é que se pode tentar de alguma maneira resolver este flagelo, deste crime? É realmente haver as penalizações reais, porque depois acho que não acontecem. Ou acontece, já vai acontecendo?

Nem por isso. Eu acho que as penalizações são importantes, não são a solução. Ou pelo menos não são-

A solução é a tal reeducação.

É a educação. Eu vou sempre bater na mesma tecla, é a educação. É mesmo educar as pessoas. E quando eu digo educar os miúdos, por exemplo, falar de educação sexual, é também dizer-lhes estas dinâmicas de gênero. Por que nós vemos uma mulher, por exemplo, sem camisola e achamos uma coisa, nós vemos um homem sem camisola e achamos outra, uma mulher que está com muitos homens é vista de uma maneira, um homem que está com muitas mulheres é visto de outra, um homem que está com outros homens também é visto de outra maneira. Por quê? Explicar essas dinâmicas de gênero e de orientação para as crianças começarem a perceber desde cedo que há coisas que realmente não é porque sempre foi assim que está certo. Nós podemos começar a alterar estes paradigmas.

Sim, e eu acho que é muita lógica de entender que independentemente do que faça, é sempre uma pessoa que está ali.

Exato. Mas eu acho que isto também é uma coisa que não só a educação está a formar, como a internet está a formar, que é individualismo e falta de sentido de comunidade. Já não há espaços para os miúdos estarem juntos fora das redes sociais.

E eu acho que esse distanciamento que eu falo, que havia quando nós recebíamos essas coisas por e-mails ou por disquetes. Eu acho que está mais acentuado, exatamente, as redes sociais vieram criar esse distanciamento de tipo, a pessoa está ali. E depois há outra coisa que eu estava aqui a pensar, que é: a própria rede social não ajuda, tu vais ver, eu estou sempre a gozar com esses conteúdos no Instagram, sobretudo de mulheres, também aparece homens, mas claro, porque é o que vende, são as mulheres, de sexualizadas, comportamentos sexuais no Instagram disfarçados de outra coisa qualquer.

Tipo: "Ajudas-me a apanhar aqui o..."

Então vai ver o vídeo que eu pus ontem, a gozar. Está a fazer um prato de culinária e o plano só está nas mamas dela. Obviamente que aquilo não é sobre culinária. E coisas mais horríveis, que eu até tenho mostrado a amigos meus de perfis do Instagram.

Tu já viste aqueles de mães a amamentar?

Já vi, esse de mães, que é horrível.

É creepy.

Porque são como bonecos muitas vezes, senão a maior parte das vezes, mas um que é a simular sexo, só que só se vê a mulher. Imagina, é tipo um point of view, como se o homem estivesse deitado e ela está filmando, e ela está a fazer os movimentos e está a falar como se estivesse a falar com o gajo.

Ok. Isso normalmente são criadores de conteúdo Explícitos.

Sim, mas é o Instagram.

Sim, é isso.

É o Instagram.

Não dá para pores explícito.

Não é o Reddit.

Então mete-se ali o-

Sim, é uma coisa dúbia, mas que toda a gente sabe o que aquilo quer dizer.

E há miúdos a consumir aquilo. E miúdas.

Sim, mas o que eu acho é que isso perpetua a objetificação da mulher.

Sim, eu acho que há muitas coisas que tanto empurram as mulheres para esses sítios, como empurram os homens também para um sítio de objetificação das mulheres. Vê-se que é uma indústria que realmente é lucrativa. Mas tínhamos que fechar este podcast e fazer outro.

Sobre pornografia.

Sobre pornografia e sobre o OnlyFans, porque eu tenho muitas coisas a dizer sobre o OnlyFans. E nenhuma delas é boa.

O OnlyFans, já me apareceram várias tipas do Instagram que estão lá, muitas, que depois remetem para o OnlyFans. E eu subscrevi uma no OnlyFans, porque elas depois também podem ter tipo livre, ou seja, tu subscreves e não pagas.

Ah, tipo free trial.

É uma espécie de free trial, porque aquilo é assim.

Tu lá dentro também pagas.

Tens um feed. Aquilo tem um feedzinho.

E algum conteúdo está bloqueado, tens que pagar a mais.

São páginas assim. Mas como era livre, eu pus. E aquilo é triste. Por quê? Porque eu, de repente, começo a receber mensagens dessa pessoa, que são mensagens automáticas, coisas do género: "Estou-me a sentir tão sozinha, quando é que vens aqui ter comigo? Olha, hoje gravei este vídeo a pensar em ti." E eu estou a ler aquilo, estou a dizer: "Isto não é pra mim."

Isto é pra 58-

Isto é pra 58 mil pessoas que estão aqui, entre homens e mulheres, e é triste ao mesmo tempo esta mulher estar a fazer este papel e é triste os tipos que se convencem que isto é pra eles.

E há muitos que sabem que não é, mas pronto, querem viver naquela fantasia.

Sim, e lá está, estás outra vez a fechar-te numa cena, a ter esse papel de individualização.

Mas quando apareceu o OnlyFans, quase que até era visto como empoderamento.

Por um lado, eu acho que também é. Vou te explicar porquê.

Eu não acho.

Porque o mundo da pornografia é muito mau.

Sabes quem é que ganha a maior parte dos lucros do OnlyFans? Da plataforma.

Pois.

Que foi criada por-

Por homens. Mas elas ganham bué da mulheres também.

Algumas sim, mas a maioria delas não. Então é meio que um sonho molhado que não é verdade. Há uma pequena percentagem de mulheres que efetivamente-

Tipo Spotify? Será tipo Spotify?

Ya, é um bocado assim tipo burla máxima. E depois eles dizem que te protegem bué, tipo: "Passa, se o teu conteúdo for leakado, temos advogados do OnlyFans." Não existem. Agora estão a aparecer, não sei se já viste, os managers do OnlyFans. São literalmente cyberprostitutas.

Sim, é o mesmo que os gajos dos filmes porno, que é a mesma coisa. As atrizes porno, por alguma razão, tu tens muitas atrizes porno envolvidas em drogas e em suicídio, porque é um mundo que depois não é para o resto da vida.

E vais ver que daqui a uns anos vai começar a aparecer isto tudo sobre o OnlyFans, exatamente como é uma coisa. Taxas de suicídio, envolvimento com drogas, vícios, porque aquilo é uma maneira. E o meu pai diz uma coisa que realmente é verdade: não há dinheiro fácil.

É verdade, sim.

Se tu estás a vender o teu corpo, não é fácil. Isso não é fácil. E as pessoas dizem: "Ai, não, mas eu não me envolvo com as pessoas." Mas todos os teus clientes são pessoas que te veem como um objeto.

Sim.

Ninguém ali pensa: "Épa, isto é aqui uma pessoa." Se eu paguei uma mensalidade pra te ver nua, eu quero lá saber se tu ficaste doente três semanas e não podes publicar conteúdo, eu paguei. Como é que as coisas funcionam isso?

Eu estava a pagar a uma prostituta só pra ficar a conversar com ela.

Só pra ter um abraço.

Sim, só pra estarmos a falar. Então, como é que é a tua vida? Por que fazes isto? Não é tentar a desconvencer do que quer que fosse, mas estar a falar, vamos conversar.

Ya, eu acho que isso até era um bom mecanismo pra tirar as pessoas desse-

Às vezes é que eu acho que é complicado.

Claro que é complicado, e tem muitas coisas por trás disso. São precisos mesmo cenas do Estado e não sei o quê, de escape, é tipo a cena da droga, é um vício. É dinheiro fácil, rápido, mas que as consequências é tipo, as pessoas dizem: "É um trabalho como os outros." Ah, é? Então ali no corredor do Pingo Doce tu podes ser violada a qualquer momento, podes ser enrabada a qualquer momento. Não, não podes. Isso é o que te acontece quando és uma prostituta. Não te acontece quando és um trabalhador, não é um trabalho como os outros. Como o OnlyFans, depois também há esta farsa de: "Como não te envolves sexualmente, só estás a vender fotos." Não. E tu sabes. Vais sempre escalando. Começas com fotos de biquíni, mas estás a ver que não está a lucrar muito, depois passas pra outras, depois passas pra outras. E quem ganha efetivamente muito dinheiro são pessoas que já têm muita visibilidade online, tipo a Amber Rose.

Sim.

A Bad Baby.

Houve há uns anos uma que entretanto desapareceu, fez 30 e tal milhões, foi notícia.

Não era a Bad Baby.

Não sei, mas foi uma que desapareceu. Ela fez uma data de milhões e bazou.

Havia uma que era rapper, que assim que fez 18 anos criou o OnlyFans.

Sei quem é.

É a Bad Baby, e ela também fez milhões de euros. E depois isto dá aquele sonho molhado que: "Epá, se calhar até é fácil pra mim, eu tenho 10 mil seguidores."

Mas lá está, e tu tens conteúdo em Portugal, sobretudo no Instagram, e cada vez mais coisas que eu também já brinquei, dessas páginas de raparigas que-

Ah, e sabes que aquilo é meio esquema de pirâmide.

O quê? O OnlyFans?

Sim, é tipo, quem entrar com o meu convite, eu recebo lucro a partir das subscrições da pessoa.

Ah, se convenceres outra pessoa a fazer um OnlyFans?

Não é convencer. Só se eu lhe der o meu link e ela entrar com o meu link, então meio que há um incentivo de eu convidar pessoas para fazerem parte do OnlyFans. Então aquilo é twisted, é creepy.

Eu acho que o mais perverso foi algo que eu não sei se vi lá na vossa página, ou se foste tu que falaste, ou se vi numa reportagem, que é grupos, sobretudo Telegram, que é mais complicado, de homens a partilhar fotos das mulheres da sua própria mulher.

E das mães.

Da mãe?

Sim E das primas.

Da mãe.

E das irmãs. Eu meti print mesmo de um a dizer, porque era uma fotografia já apagada, mas era deles a dizerem, depois posso te mostrar: "Porra, eu percebo que se partilhem aqui coisas, mas da mãe é abusar." Cenas assim. Tu não viste o caso da Gisèle Pelicot? Que tinha um marido, avô, pai, casados durante 55 anos.

É doentio.

Que andava não só a filmá-la contra o seu consentimento, como a chamar homens, a recrutar homens para abusarem sexualmente dela. É isso que eu digo, por isso é que eu odeio essa conversa do: "E se fosse tua mãe? E se fosse tua mulher?" Não, é a tua mãe, é a tua mulher mesmo e tu estás te a cagar por isso. Já passamos esse ponto. Não, e se for uma pessoa?

Mas esses homens, não achas que é impossível educá-los?

Eu acho que não, porque tem que haver um sentido de-

Como é que tu chegas até esses homens?

Imagine, se for uma patologia, é uma patologia que deve ser tratada.

Sim, mas como é que tu chegas a esses homens? Tinha que haver vigilância dessas plataformas, tinha que haver um departamento de cibercrime.

Já existe.

Mas que está ainda nessas plataformas?

Supostamente.

Tu não te lembras uma vez, porque depois é muito perigoso. Eu acho que foste tu que me disseste, ou alguém lá do grupo. Disse que andava alguém com o meu nome no Telegram.

Sim, fui eu que disse.

E é assustador.

Ya.

Mas sabes que não é a primeira vez que isso me tinha acontecido.

Claro que sim. Eles metem nomes à toa, metem José Castelo Branco, António Raminhos. Às vezes nem é diretamente pra se fazer passar por ti, é o username deles e não querem meter o nome, então metem António Raminhos, José Castelo Branco.

Já viste o perigo que isso é?

Claro que sim. Eu tenho situações de meterem nomes de professores. Os miúdos meterem os nomes dos professores. Os professores entrarem em pânico, obviamente. Eu não tenho nada a ver com isto. É educação, imagina, esse homem da Gisèle Pelicot, vamos pensar o tópico-

Esse eu acho que é doença.

Eu não gosto de patologizar.

Sim.

Dar patologias.

Sim.

Eu não sou médica também.

Exato.

E eu acho que meio que é abafar algumas coisas, porque nem tudo é doença. Há pessoas que efetivamente fizeram aquilo.

Sim, consciente.

Conscientemente. Quem me dera que fossem todas doenças, se calhar era muito mais fácil de tratar do que simplesmente as pessoas irem de acordo com estas crenças da sociedade. Vamos pensar, o marido da Gisèle Pelicot nasceu numa sociedade onde há educação sexual incisiva, onde os pais dele também tiveram educação sexual incisiva, onde isto é uma coisa completamente julgada por toda a gente, é uma coisa que não é condecorada, é uma coisa que ninguém iria participar nisto, mesmo que ele, eventualmente, e com pouca probabilidade, quisesse fazer aquilo, ele não ia ter pessoas que fizessem com ele. Porque toda a gente iria estar educada para julgar este tipo de situações. Isto pode ser transversal, por exemplo, a comentários racistas. Se tivermos uma sociedade onde realmente isso é mau, uma pessoa que seja out of the box e que faça esse comentário, toda a gente vai ficar tipo: "Isto está a se passar?" E se continuar a fazer, vai começar a ser isolada pela sociedade, ou seja, ou ela muda, ou vai ser um lobo solitário. E isso devia acontecer com todas estas questões, com todos estes preconceitos. E se houvesse essa educação, as pessoas iam estar conscientes pra isso. E não há.

Pois não há. Mas sabe as discussões que há por causa da disciplina de Cidadania, não sei o quê.

Sim, isso é coisas que eu cresci a aprender, eu ainda não te falei disso, que é coisas que eu cresci a aprender supostamente como dogma, e tu também. Racismo é isto, e é mau.

Mas é engraçado, eu já sou de outra geração, não é que me esteja a defender.

Mas eu aprendi sobre racismo na escola.

Sim, mas eu tenho um clássico que é: eu sou dos Olivais.

Ok.

Conheces?

Mal.

Pronto, ali ao pé de Chelas. Aquilo tem muita comunidade.

É parte das Nações, não é?

É, também. Isso é malta fina.

Ok.

Tu tinhas muita malta de retornados de Angola, Moçambique, etc. Tinhas comunidade africana, tinhas muitas etnias, aquilo era uma grande misturada, mas a malta dava-se toda. Só que depois eu, por exemplo, tenho um amigo, ainda há dois dias fui almoçar com ele, que a alcunha dele é o Preto, porque é preto, mas é assim desde pequenino. E eu hoje já não consigo chamá-lo Preto, mas ele até fica ofendido se a gente não o chamar. Tu tinhas essas coisas e era normal.

Ya.

Não era racista, mas ao mesmo tempo era.

Sim. Até a pessoa que está ao lado até gosta.

Eu até tenho um amigo.

Ya. E a pessoa até pede que lhe chames e não sei o quê.

Sim, e por que ao mesmo tempo é engraçado, porque o gajo agora pensa: "Por que ele também pede que chame? É porque gosta ou porque sente que gostam dele por se chamar esse nome?"

Eu acho que é um bocado, imagina.

É engraçado falar disso.

Ya, quem sou eu pra dizer o que a pessoa quer e o que a pessoa sente, mas eu acho que muitas vezes é aquela aceitação para não importar.

Para não chatear.

Ya, é tipo, eu estou no meio de um grupo de brancos, eu não vou ser o gajo woke que vai estar a dizer não.

Nos anos 80, anos 90, havia esses conceitos, mas eram muito afastados. Não davas isso na escola, nem educação sexual.

O problema era dar isso abertamente na escola. Falar sobre racismo.

Acho que não tinhas muito acesso a isso.

Tinha que fazer o trabalho sobre racismo, eu lembro-me de dar esses cursinhos. Mas o que eu acho engraçado agora é que-

Mas não há desculpa pra isso agora.

Não, o pior é que agora há. Agora, neste momento atual, principalmente online. Agora meio que é dúbio. Por exemplo, aqueles cartazes do André Ventura: "Não é bem racismo, é uma opinião, é uma piada. Eu dizer que os ciganos são todos iguais, não é racismo, é verdade."

Isso é a mesma coisa que dizer que as mulheres também são todas iguais e são todas umas oferecidas.

Pronto, é verdade. Espera lá, no sétimo ano eu aprendi que isso era errado e agora eu tenho matulões de 40, 30 e putos também a dizerem-me: "Não, é a minha opinião, é liberdade de expressão." Isso é estranho para mim, porque eu aprendi mesmo estes conceitos quase como dogma. É tipo: não, isto é mau, isto não se pode dizer, isto não se pode fazer. E agora as coisas estão a ficar um bocado dúbias.

Sim.

Não só a ficar dúbias, as pessoas estão a tentar.

Sim, mas eu acho que é isso que estavas a dizer, é a tal questão de se afastar muito, as pessoas estão mais individualistas. Como é aquela cena de ser no digital, é a tal ideia que se pode fazer tudo e dizer tudo. Como é que um puto está num grupo do Telegram e acha que é giro: "Vou meter aqui o nome do meu professor." Sem pensar.

Ou vou meter uma foto debaixo da saia da minha professora e vou meter aqui, isto é buéda fixo. Mas não eram coisas que não existissem antes. Agora só há mecanismos para toda a gente ver. Eram coisas que já existiam antes, já eram piadas, eram coisas que subtilmente já existiam. Outra coisa que eu te queria dizer que era subtil, que isto nem é uma microagressão, mas é uma micronormalização que faz com que as mulheres não sejam gente, só são gente quando estão relacionadas contigo, que é: então e se fosse a tua mãe? Então e se fosse a tua mulher? Então e se fosse a tua irmã? Então e se fosse uma pessoa? Por que tem que ser relacionada contigo para tu pores no lugar? Não pode ser só uma pessoa? Não pode ser só mulher de outra pessoa qualquer? Não pode ser a mulher de ninguém, só uma mulher solteira random, que tu não queres fazer isso porque é uma pessoa como tu.

É tentar apelar à empatia. Mas tu tens gajos que se põem primas e mães.

Por isso é que eu acho que isso é um bocado esse argumento: e se fosse a tua mulher? Há literalmente homens a partilhar a própria mulher nua. O que interessa se é a mulher dele, se ele partilha? Há homens que fazem isso. Estamos aqui sempre a tentar. Eu também acho que se eu fosse homem, eu ficava mesmo fodida.

Tu já tiveste mulheres que apareceram lá, que foi o marido que fez essa partilha?

Já.

E não se divorciaram nem nada?

Eu tive uma situação creepy, claro que tudo é possível, que um ex-marido, não sei se era marido, ex-companheiro, estava a cobrar dinheiro à ex-companheira para não partilhar fotos dela. Isto acontece em burlas com pessoas desconhecidas.

Pois.

Estas burlas que acontecem desta maneira são normalmente com pessoas desconhecidas. Quer dizer, eu relacionei-me com esta pessoa.

E depois tu voltas à mesma questão, que é a ideia de quem está a ver ou ouvir isto e pode dizer: "Então não tirem fotos." Mas aí é estares a perpetuar.

Claro, é uma coisa de dizer às pessoas assim.

Estás a pôr a culpa na pessoa e não a educar a outra parte.

Sim, 100%. E eu estava a te dizer que se eu fosse um homem, eu ia ficar mesmo lixada se me metessem nessa cena de tolinho. É tipo: "Coitado. Então e se fosse a tua mãe?" Eu ia dizer assim: "Mas e se fosse a minha mãe, o quê? Eu tenho discernimento para perceber que é uma mulher. Eu não preciso de imaginar que é a minha mãe. Por que me estás a dizer isso? Então eu sou um monstro?" Eu ia ficar lixada com isso. Ou cenas de: "Coitados, os homens também, eles pensam com a cabeça de baixo, eles às vezes não se controlam." O quê? Se alguém dissesse isso de mim e de pessoas do meu gênero, eu ia ficar: "Desculpa, mas estás bem da cabeça? Não se controlam? Então, mas eu sou o quê? Até os animais conseguem controlar, eu não consigo controlar?" Eu ia ficar ofendida com isso. Eu acho que os homens ficam ofendidos com coisas que não deviam ficar.

Sim. Se um gajo for do Benfica e disser: " És do Sporting."

Não há parada. Ou uma mulher que passou por uma situação de assédio e de abuso e está a dizer: "Os homens andam na rua a assediar as mulheres." Ei, desculpa, não são todos os homens. É tipo, shut the fuck up. Cala-te. Se ela está chateada com isto, assume. Até podes ir falar com ela, se for uma pessoa próxima de ti, e dizer-lhe assim: "Olha, eu sei o que estás a passar. Eu quero-te só dizer que felizmente nem toda a gente é assim. Podes sempre contar comigo para te ajudar. Eu nunca te vou fazer alguma coisa assim, se estiver ao pé de ti, eu vou-te sempre defender." É muito melhor do que: "Não, não são todos os homens, também há mulheres que fazem isso." Ou quando eu vou falar de dados de violência doméstica e digo: "Olhem, houve 19 mulheres a morrer no ano passado às mãos de homens em violência doméstica." "Também há mulheres que matam." Sim, OK, então faz um vídeo sobre isso.

Sim.

Por que não fazes um vídeo sobre isso? Se é realmente um flagelo, também há pessoas que comem cocô.

Também deve haver grupos do Telegram sobre isso.

Ya.

E páginas do OnlyFans, de certeza.

Parece que do nada eu tenho que ser porta-voz dos meus problemas e dos teus também. E este feminismo também ajuda os homens. Estas coisas que eu estou a dizer de se eu fosse um homem, eu ia ficar ofendido que me estivessem a pôr num sítio de descontrolado, maníaco sexual, que não consigo controlar-me sexualmente. Isto são palavras de feminismo. Os homens não são assim, os homens conseguem-se muito bem controlar e são capazes de ter discernimento como qualquer ser humano.

E depois tens aquele fenómeno que também está a acontecer muito, que é aqueles os numeiros da vida.

Ya.

Que eu acredito que em grande parte ele nem sequer acredita naquilo ou em muito do que diz.

Eu acho que ele acredita em algumas coisas.

Sim, e que é só para criar engagement.

É isso que eu te quero dizer. Nós estamos na economia da atenção e as redes sociais são a economia da atenção e da validação, e do engajamento. Então, isto cria uma coisa não só superindividual Tu só pensas em ti e no que estás a ganhar para ti, nem pensas nas consequências que isso pode ter para os outros, porque mesmo que venham com essa conversa de: "Opá, parem de interagir com ele, porque ele só quer atenção." Ok, mas o que ele está a dizer está a ter impacto. Mesmo que para ele não tenha e que ele continue a vida dele normal, porque tem dinheiro e está se bem a cagar para isso, isto ecoa nos ouvidos de muitos miúdos e de muitas miúdas.

E miúdos que provavelmente têm, acredito, pelo menos eu acho que muitos dos miúdos que vão atrás dessa conversa de: "A mulher é para estar em casa e eu é que tenho de sustentar a mulher e para que é que não sei o quê e se uma mulher que sai à noite é isto e aquilo ou que envia fotos é isto e aquilo." Um miúdo que vai atrás desta conversa é um miúdo que também tem, de alguma maneira, uma falta de estrutura ou de autoestima e que precisa de se validar projetando nos outros.

Eu quero bué fazer uma tese sobre isto, mas eu acho mesmo que a sociedade cria um half pipe, literalmente, facilindo para os miúdos entrarem para aí. É muito mais fácil tu ires para aí do que ires para o contrário.

Claro, e projetares da responsabilização.

Ya. Eu acho que é muito mais fácil tu ires para esse lado do que fugires disso, porque é quase que a sociedade meio que te empurra para isso. Na escola, se calhar até em casa, na televisão, as séries, todas estas coisas, é muito raro haver representações. Agora já há mais, obviamente, mas era muito raro haver representações contrárias a isso. Ainda houve agora uma questão sobre, não é os Globos de Ouro, como é que se chama isso, mas é tipo worldwide.

Os Emmys?

Ya, os Emmys. Que era quando as mulheres são vilãs, quase nunca ganham um Emmy, e quando os homens são vilões, ganham Emmys. Só quando é uma vilã que-

Seja já uma atriz icónica.

Não, ou que é triste e que é uma pessoa que depois se redime e não sei o quê. Quando é uma vilã que faz buéda mal a homens e que é mesmo vingativa e estraga tudo, quase nunca ganha. Que a mulher quando é vista como vingativa, mesmo que tenha motivos, não é lá muito fixe.

Fiquei interessado nisso, vou ler sobre isso.

Ya, eu também. Não pensei muito sobre isto. Eu vi vários artigos sobre isso e achei bem interessante.

Faz sentido.

Mas é isso, pequenas coisinhas, estás a ver, em todo lado, nos media, nas redes sociais.

A cena é que isto já vem tudo tão de trás.

Ya, mas é tipo: bora começar a mudar? Será? Está na hora?

Eu acho que sim.

Eu acho que está na hora.

Uma curiosidade. Eu há bocado estava a lembrar quando eu disse que nesses grupos de Telegram já aparecia lá o meu nome, não sei o quê. Uma vez um amigo meu, gay, veio ter comigo a dizer que tinha feito match com um gajo no Grindr.

Que eras tu.

Que tinha fotos minhas. E eu assim: "Como assim?" E ele assim: "Opá, é um tipo que tem fotos tuas." E ele mostrou-me. Tinha fotos minhas.

Da tua cara?

Sim, fotos minhas. E eu fiquei naquela... Claro que eu fui muito pragmático e fui para a parvoíce. E eu disse assim: "Mas vais estar com esse gajo?" E ele assim: "Epá, agora quero." E eu disse: "Então e depois diz-me como é que eu fui." Mas é essa cena, as coisas que acontecem, a impunidade.

As redes também facilitam.

Claro, está em todo o lado, mesmo a história das miúdas, das minhas filhas, eu penso muito nisso.

Não, eu nem estou a dizer que tu facilitas.

Sim, mas eu também penso.

As redes sociais facilitam estas situações.

Mas eu penso nisso, quando me perguntam no impacto, por exemplo, das miúdas, eu também penso nisso, mas eu falo muito com elas sobre o tema e, por exemplo, os vídeos que eu fazia com elas a brincar, elas veem os vídeos e gostam dos vídeos e riem-se. E as redes sociais, elas têm redes.

Quantos anos é que elas têm agora?

Uma tem 15, outra tem 13 e a pequena tem 9.

Não estava mais velha disso.

Sabes que era quem? Mais velhas ou mais novas?

Mais novas. Bué rápido. Eu lembro-me de elas bué pequeninas.

E é engraçado, porque eu também comecei a sentir quando comecei a perceber mais o impacto das redes sociais, também achei: "Que merda que eu fui fazer." E falei abertamente isso com elas: "Olha, eu sinto-me culpado de ter feito estes vídeos." E elas desataram-se a rir e disseram: "Opá, mas a gente gosta de ver os vídeos." E veem, às vezes eu reparo e elas têm amigas em casa e estão a ver os vídeos e estão a se relembrar das coisas e por acaso correu bem, podia ter corrido mal. Mas eu acho que a parte da educação também passa um bocadinho, se calhar, pela noção da presença online. Eu chamo muito a atenção, não tenham perfis abertos e aceitem só amigos ou pessoas que conheçam.

Claro. Estás a falar tipo isto para as miúdas.

Sim. Se mandam mensagens privadas e vocês não conhecem a pessoa, nem respondam.

Ignorem.

Sim, não digam nada, deixem ficar lá sozinho, não façam nada, porque isso pode ser outra coisa.

Eu digo sempre é comportarmo-nos, porque os miúdos estão habituados a esta cena, que eu acho que tu também deves ter ouvido os teus pais e eu também, que é não fales com estranhos ao vivo. Algum estranho que vem falar contigo, tu não vais falar, mas com as redes sociais é tipo-

Fala só com estranhos ao vivo.

Ya, bora fazer bué amigos no Discord e estar a jogar Fortnite com 58 estranhos.

Elas fazem às vezes isto no Roblox, estão a falar com outra malta no Roblox e quando apanho eu pergunto quem é, como é, o que é que vocês têm falado.

E os pais têm que estar atentos. Há coisas de controle parental.

Sim.

Que tu consegues ver tudo o que o miúdo está a fazer no telemóvel.

Sim.

E também, imagina, depois há coisas que também começam a ser um bocadinho, é tipo, o miúdo já tem 16 anos, já está ali numa fase de independência, mas há sinais que tem que se estar atento. A miúda está agarrada ao telemóvel demasiado, a miúda não quer tocar no telemóvel, está com pânico se tocar no telemóvel. Se calhar deve-se perguntar o que é que se está ali a passar e manter sempre uma porta aberta. Tu não precisas confiar num estranho para desabafar sobre a tua intimidade, eu estou aqui.

Que conselho tu darias a raparigas e a rapazes que têm a sua vida sexual iniciada e que gostam, têm prazer em enviar nudes?

Maiores ou menores?

Maiores.

Eu diria para não mostrarem a cara, não mostrarem coisas que os identifiquem. E às vezes as pessoas acham que é só tatuagens e piercings, mas não.

Sinais.

Sim, o colar, que eu uso sempre. O pôster da minha casa que aparece em todas as minhas fotos, todos os meus vídeos. Um gato, que é teu, por exemplo. Alguma coisa que te identifique e que tu tenhas público, não mostrar nada disso. Eu também costumo dar uma dica de meter o @ da pessoa na foto, o @ da pessoa com quem vais partilhar.

Tipo uma marca d'água.

Sim, tipo marca d'água. E mete-se o @ da pessoa. Se tu fores partilhar, o teu nome também vai aqui e toda a gente vai saber que foste tu. Por isso, meio que cria ali uma coisa de: "É mesmo." É um conselho meu também. E ter muita atenção com quem é que nós partilhamos. O que eu poderei dizer? Eu sei que também no calor do momento as coisas acontecem. Mas uma pessoa que já partilhou nudes de um ex-namorado ou uma ex-namorada, não será muito boa ideia partilhar nudes com essa pessoa, se calhar nem confiar um segredo. Uma pessoa que tenha comentários abertamente preconceituosos, se calhar também não é muito boa ideia partilhar com essa pessoa. Uma pessoa que faz parte desses grupos ou que já fez, ou que se sabe que os amigos fazem, se calhar também não é muito boa ideia partilhar com essa pessoa. Ou uma pessoa que nós não conhecemos. Mesmo que seja uma conversa online que dure semanas, nós não conhecemos essa pessoa, por isso pode ser um perfil falso.

E que mensagem é que tu gostavas de deixar para o que, como tu disseste, acaba por ser o principal motor disto tudo, que é os grupos, os gajos, sobretudo, a maior parte de homens, que estão nesses grupos de partilhas e que partilham imagens, o que é que gostavas de dizer? Podia ser a vossa mãe.

Podia ser a vossa irmã.

A vossa irmã.

Eu acho que não há grande coisa que eu lhes possa dizer, senão tentá-los puxar para a realidade e perceberem que estão abertamente a arruinar as vidas das pessoas e que ninguém merece ter a vida exposta e arruinada, ou possivelmente arruinada, por ter confiado em alguém, ou até por ter partilhado um nude, ou até por trabalhar no OnlyFans. Porque às vezes acontece esta questão de miúdas que trabalham no OnlyFans e depois param e do nada são para sempre perseguidas com o conteúdo que fizeram no OnlyFans e já não querem ter nada a ver com aquilo. E não é por terem feito OnlyFans uma vez ou por terem partilhado conteúdo com alguém que confiavam uma vez ou por terem feito sexo num sítio que alguém gravou, que merecem ter para sempre este fantasma atrás delas, quase um polícia a dizer: "Não, tu és culpada." A maioria de nós faz sexo. Há abusadores sexuais, é verdade, mas a maioria de nós faz sexo e está tudo bem. Nós somos livres de o fazermos. Agora, não somos muito livres de julgar o que os outros fazem entre quatro paredes. E ninguém merece ser condenado a uma prisão perpétua online por ter sido livre sexualmente. Nós não estamos aqui a falar de abusadores sexuais, nem de violadores, não é? Não estamos a expor pessoas porque abusaram sexualmente de alguém.

Sim, ou porque estão a cometer um crime.

Ou porque estão a cometer um crime. Quem está a cometer um crime, aliás, é quem está a expor. Nós estamos a expor pessoas porque foram livres sexualmente e se calhar algumas até podem ter sido coagidas em algumas situações a fazer aquilo.

É preciso que ganhem um pouquinho de consciência e de compreensão do contexto em que aquelas imagens podem estar inseridas, que é completamente desconhecido.

E eu acredito que a maioria das pessoas não queira acabar com a vida de ninguém.

Obviamente, eu deixei de partilhar isso e quando recebo, digo: "Não envies."

Eu própria recebi num grupo de amigas aquela imagem da Georgina, que era uma selfie dela e que fizeram AI e tiraram-lhe o biquíni. E eu recebi num grupo de amigas, gajas a dizer: "What the fuck, isto é verdade?" Nem foi numa cena de: "Gata porca." Não, foi: "Mas ela publicou isto?" E eu disse: "Olha, não mandem esse tipo de conteúdo para um grupo, isso não é fixe." Mesmo que não seja a chamar nomes à pessoa.

Apago dos telemóveis.

Não partilhem esse tipo de conteúdo. Ainda por cima é conteúdo falso. Isso não é fixe. Não interessa se a pessoa é famosa, é uma pessoa. E eu acredito é isso, eu acredito que a maioria das pessoas, se metesses aqui todos os gajos do Telegram aqui dentro, e se eu fosse entrevistar um e dissesse: "Olha, tu gostavas de fazer com que uma pessoa se suicidasse? Tu gostavas de fazer com que uma pessoa fosse despedida do trabalho e perdesse dinheiro e a vida toda e a relação com os filhos e com o marido e com os namorados?" Eu acho que a maioria deles ia dizer: "Não, eu nunca gostaria de fazer uma coisa dessas." O que lhes entrega essa coragem, entre aspas, esse anonimato, esse ímpeto, também são as redes sociais, que para mim são os maiores culpados. Eles tornam isto tudo normal e ok. É tipo: "Não, tu podes ser anónimo e aliás, se a polícia perguntar alguma coisa, eu nem vou dar o teu IP, porque isto aqui é meio antissistema e somos bué diferentes e somos bué antigoverno e eu não vou dar nada sobre ti, tu podes fazer o que tu quiseres" e se calhar, efetivamente, o Telegram até pode dar jeito para algumas coisas. Se quiseres fazer uma manifestação e não queres que o governo saiba, pronto, se calhar até pode dar jeito para isso, mas neste momento está a ser usado para partilhar conteúdo de abuso sexual de menores, de maiores de idade, tráfico de droga, branqueamento de capitais, pirataria.

Porra.

Por isso, se calhar, alguma coisa devia ser feita.

Eu tive Telegram só para Patreon, para a malta que quer Patreon.

Eu sou sincera, aquilo tinha muitos filmes da Disney crackados. Eu via lá.

Isso também é crime.

Pois é. Estou aqui a assumir. E era em PT-PT. Não era em PT-BR. Eu vi o Hércules várias vezes lá. É verdade. Admito aqui.

Aconteceu uma coisa há pouco tempo. Lá está, não ajuda. Eu recebi num grupo, por acaso não disse à malta que não era fixe partilhar isso, porque fiquei revoltado com aquilo, que são tipas que andam nuas na rua.

Aqui?

Sim.

Em Portugal?

Sim. Andam na baixa de Lisboa com uma gabardine e andam nuas.

Ou tipo com a saia numa loja, depois levantam e baixam.

Isso não é um vídeo. É vídeo para ser partilhado. Não estou a dizer que é a tipa partilhar. O objetivo é que aquilo seja conteúdo.

Sim, é para depois tu ires comprar, muito provavelmente, conteúdo a essa pessoa.

Porque mostram a cara e não sei mais o quê, e eu fico assim. E partilharam num grupo, mas por acaso vou dizer à malta: "Não partilhem essas cenas, porque de alguma maneira é como estares a incentivar um negócio."

Claro que estás. É isso que a pessoa quer.

Só que quem é que gosta disto?

Imagina, se há vendedores é porque há compradores.

Pois.

E é isso, é este negócio da hipersexualização, da atenção e do engajamento. Eu vejo os vídeos e eu tenho um perfil mais subtil onde eu vou às vezes seguir estas contas e ver, e são raparigas só assim.

Vás seguir no Instagram.

E estão a falar contigo a dizer: "João, queres vir ali comigo?" E dizem sempre todos os nomes. "Gonçalo, Pedro."

Sim, é isso que estávamos a falar do Instagram.

Para tu marcares o teu amigo, todos os Pedros são marcados e todos os Joões são marcados. É ali uma dinâmica da economia da atenção e da validação. Realmente dá dinheiro, é verdade.

Inês, muito obrigado por esta conversa.

Divagámos bué.

Não, acho que foi fixe. Para quem lida com-

Dois ADDs.

Quando eu vi isso, eu disse: "Eu acho que está fixe." Acho que foi superfixe e haveremos de marcar outra conversa mais para a frente. Muito obrigado por teres vindo.

Obrigada eu.

Quanto a vocês, já sabem, o podcast está nesta nova temporada. Acompanhem no site do Observador, no YouTube, no meu YouTube, vão lá fazer aquelas cenas do YouTube de clicar no sininho.

Marcar o amigo Pedro, o amigo Gonçalo.

Exato. Pedro, por que ainda não viste esta conversa? Façam isso, partilhem com os vossos amigos. E já sabem, todas as semanas temos aqui uma conversa nova para vos trazer também perspetivas diferentes sobre a vida. Obrigado e até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quem abre a boca ou presta atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.