Vivemos numa nova era das drogas. Já não estamos perante um mercado relativamente estável constituído por algumas substâncias conhecidas – heroína, cocaína, cannabis ou anfetaminas.

Este é um mercado químico em permanente mutação. Novos opioides. Novos canabinoides. Novas benzodiazepinas. Novos estimulantes. Novos dissociativos. Novos adulterantes. Novas combinações. Tudo novo!

A ciclorfina é mais um aviso para todos os países, incluindo Portugal. A recente notícia da identificação desta droga sintética na sequência da morte de uma adolescente de 16 anos em São Francisco, deveria ser encarada como muito mais do que um episódio da crise das drogas sintéticas.

Este é um ciclo que se repete. Uma nova droga aparece. Um jovem morre. O laboratório identifica uma substância que quase nenhum especialista conhecia. As autoridades tentam perceber de onde veio. Os profissionais de saúde procuram saber como tratar a intoxicação. E neste período já outra substância está a entrar no mercado. Até quando vamos continuar a chegar atrasados?

A ciclorfina é um opioide sintético e os escassos resultados científicos apontam para uma potência que pode ser cerca de 10 vezes a do fentanilo, e este já era 50-100 vezes mais potente que a heroína. Mais preocupante ainda: pode estar presente em comprimidos contrafeitos e não é necessariamente identificada pelos testes rápidos habitualmente utilizados para detetar fentanilo.

A Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA) no seu relatório de junho de 2026 descreve a ciclorfina como uma nova substância psicoativa pertencente aos opioides sintéticos e salienta a necessidade de produzir rapidamente evidência científica para apoiar decisões de saúde pública e de política de drogas. Mas o rápido nesta área será sempre tarde.

E o problema não é apenas esta nova droga. É a velocidade da mudança. E, assinale-se, ainda, um paradoxo particularmente preocupante. A indústria farmacêutica descartou esta substância sintética, como muitas outras, devido à sua extrema potência e perfil de perigosidade. Embora evidentemente não tenha como finalidade produzir drogas ilícitas, constituiu uma enorme fonte e reservatório de inspiração química e farmacológica que está a ser explorada pelos mercados clandestinos. Bibliotecas de compostos, patentes, publicações científicas e resultados de investigação permitem conhecer estruturas moleculares, mecanismos de ação e relações estrutura-atividade. Uma substância que foi considerada demasiado tóxica, demasiado potente, demasiado imprevisível ou inadequada para utilização terapêutica está agora a ser produzida nos mercados ilícitos.

A ciclorfina demonstra, portanto, uma das maiores vulnerabilidades do atual modelo de controlo: a legislação e a vigilância avançam mais lentamente do que a química clandestina. Quando uma substância é proibida, outra estruturalmente diferente surge.

Quando desenvolvemos um teste para uma determinada droga, pode aparecer outra que esse teste não reconhece.

Quando aprendemos a tratar uma intoxicação, a próxima combinação pode apresentar características diferentes.

Quando uma substância é incluída numa lista de uma qualquer legislação, o mercado pode já ter mudado.

E uma análise toxicológica convencional não procura aquilo que efetivamente causou ou contribuiu para a intoxicação.

É aqui que temos de mudar por completo os mecanismos de controlo. O paradigma tem de deixar de ser uma vigilância predominantemente reativa para uma vigilância toxicológica preditiva.

Portugal precisa urgentemente de um Centro Nacional de Vigilância Toxicológica das Drogas, que articule saúde pública, toxicologia clínica, toxicologia forense, química analítica, farmacologia, investigação científica, serviços de emergência, hospitais, laboratórios médico-legais e autoridades de saúde.

A informação produzida deveria permitir reconhecer tendências antes de estas se transformarem numa crise de saúde pública.

A questão já não é apenas saber “que droga apareceu?”. É antecipar “qual poderá ser a próxima?”